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3.3. Bir Model Önerisi Olarak Sabra Yolculuğun Beş Hali

3.3.2. Şikâyet Hali:

A partir da compreensão de que a cidade é o local em que vive a maioria das pessoas,144 surge a problemática de como fazer valer, nessa dimensão espacial, os direitos fundamentais previstos na Constituição Federal.

O problema urbano não é mais municipal, mas sim nacional e mundial. A cidade é o lugar em que mora o homem, por isso se trata de questão universal.

Diogo de Figueiredo Moreira Neto acentua que:

Na sociedade em que ocorre, a urbanização acelerada causa impactos polivalentes. Podemos alinhar, entre outros, os seguintes: aumento da demanda de serviços públicos urbanos, elevação das aspirações, aumento dos custos dos serviços urbanos, proliferação de áreas de favelização, redução da renda per capita urbana, deterioração ecológica, deterioração edilícia, aumento da taxa de desemprego, aumento da marginalidade social e agravamento da criminalidade.145

A urbanização rápida, segundo Edésio Fernandes, tem gerado processos renovados de exclusão social, crise habitacional, segregação espacial, violência urbana e degradação ambiental.146

144 Edésio Fernandes noticia que o Brasil experimenta um dos processos mais drásticos de reorganização socioeconômica e territorial no mundo em desenvolvimento, como resultado da urbanização rápida desde a década de 1930, pois 83% da população total vivem em áreas urbanas, em porção muito reduzida de território nacional, in FERNANDES, Edésio. Política urbana na Constituição Federal de 1988 e além: implementando a agenda da reforma urbana no Brasil in Fórum

de Direito Urbano e Ambiental – FDUA, Belo Horizonte, ano 7, n. 42, nov./dez. 2008, p. 49. Ainda segundo esse autor, a urbanização rápida foi um dos maiores fenômenos globais do século XX e as taxas de crescimento urbano vão continuar aumentando de maneira significativa no século XXI, sobretudo no mundo em desenvolvimento. FERNANDES, Edésio; A nova ordem jurídico-urbanística no Brasil In FERNANDES, Edésio; ALFONSIN, Betânia de Moraes (Coords.). Direito Urbanístico,

Estudos Brasileiros e Internacionais. Belo Horizonte: Del Rey, 2006, p. 3-4.

145 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Introdução ao Direito Ecológico e ao Direito Urbanístico. Rio de Janeiro/São Paulo: Forense, 1975, p. 53.

146 A urbanização rápida e o aumento da pobreza social têm levado ao fenômeno crescente do que o autor chama urbanização da pobreza: de acordo com dados apresentados, 26 milhões de brasileiros que vivem em áreas urbanas não têm água em casa; 14 milhões não são atendidos por sistema de

Nesse momento histórico, em que se colocam as desigualdades sociais em um contexto mundial, fica reforçada a noção de que a cidade é o palco geográfico dessas questões.

A filosofia sempre se esforçou na elaboração da imagem da cidade ideal. Embora não tenha caráter jurídico, a obra filosófica Le droit a la ville, de Henri Lefèbvre, tornou-se um clássico da literatura urbanística porque traz à tona a insatisfação e a crítica teórica da vida urbana após o advento da revolução industrial. Ao utilizar a expressão direito à cidade, o autor aponta novos caminhos para a construção da cidade moderna.147

Betânia de Moraes Alfonsin148 propõe a reflexão sobre a problemática urbana afirmando serem as favelas um dos graves problemas que atingem as cidades. O problema da existência e da segregação de territórios de moradia de população de baixa renda, segundo a autora, começou a se delinear a partir da formação da cidade capitalista, no final do século XIX no Brasil. A partir da indagação sobre quais as mudanças da realidade das favelas, dos guetos urbanos, cortiços e das populações carentes que nelas residem, após transcorrido um século de cidade industrial, Betânia Alfonsin conclui que o problema da segregação ainda não foi resolvido e que ela pode existir de forma espacial nas cidades, tanto nas que são nitidamente polarizadas, bem como nas cidades miscigenadas, em que as formas segregatórias são muito sofisticadas.

A divisão da sociedade capitalista em classes sociais é um dos fatores de segregação, mas há outras dinâmicas, envolvidas na gênese urbana, que fazem das cidades territórios pouco afetos à justiça social.149

coleta de lixo; 83 milhões não estão conectados a sistema de saneamento; e 70% do esgoto coletado não é tratado, mas jogado em estado bruto na natureza; 50 milhões de brasileiros tem andado de casa para o trabalho, por não poderem arcar com os custos do deslocamento por transporte coletivo; um percentual crescente tem dormido na rua, mesmo tendo casas, para não terem que arcar seja com os custos do transporte seja com longo tempo de deslocamento até o trabalho FERNANDES, Edésio; A nova ordem jurídico-urbanística no Brasil In FERNANDES, Edésio; ALFONSIN, Betânia de Moraes (Coords.). Direito Urbanístico, Estudos Brasileiros e Internacionais. Belo Horizonte: Del Rey, 2006, p. 4.

147 LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. 5 ed. São Paulo: Centauro Editora, 2001, p. 117-118. 148 ALFONSIN, Betânia de Moraes. Políticas de Regularização Fundiária: Justificação, impactos e

sustentabilidade. Direito Urbanístico e Política Urbana no Brasil. FERNANDES, Edésio (org.). São

Paulo: Del Rey, 2001.

149 A tensão entre interesse público e privado ganha relevo no âmbito das cidades, de forma constante. Na China, houve uma série de conflitos quando se pretendeu a demolição de um distrito artístico da cidade, o Art Zone 008, para dar lugar a projetos imobiliários e industriais. A realocação forçada de pessoas é considerada uma das principais causas de conflitos sociais naquele país.

A globalização econômica, ao que emerge das experiências atuais, também tem provocado transformações na sociedade capitalista, gerando ainda mais segregação.

O problema ético e de justiça social, assim, coloca-se diante do desenvolvimento urbano, impulsionado pelo mercado e sua busca por lucro.

David Harvey defende, em estudo acerca da influência da economia na urbanização, que esta última atua fortemente como fator de estabilização social. O processo de urbanização globalizou-se simultaneamente à economia. Ele assinala que a forte urbanização que se tem verificado na China, além de ser reflexo de sua maior integração aos mercados financeiros, também tem atuado como estabilizador primário do capitalismo global na atualidade para absorver o excedente de capital.

O autor sustenta que a urbanização tem desempenhado um papel ativo, ao lado de fenômenos como os gastos militares, para a absorção do produto excedente que os capitalistas produzem perpetuamente na sua busca de seus lucros. A deterioração da qualidade de vida, que entende ter se tornado mercadoria, posto que passível de valoração econômica e apropriação, são apontadas como outro aspecto negativo dos processos de urbanização acelerada.150

A cidade tem se dividido em várias partes, sendo certo que cada fragmento parece viver e funcionar de modo autônomo. Nessas condições, fica difícil sustentar os ideais de identidade urbana, cidadania e pertinência.

A pobreza, a exclusão, a segregação, a tensão de classes, a depredação do meio ambiente, a segregação social e espacial, o isolamento, a privatização dos bens comuns e do espaço público, a falta de legitimidade das decisões políticas e de caminhos abertos para a produção dos espaços urbanos, a falta de participação, de

Diante da resistência da população em deixarem suas casas, foram tomadas medidas de corte de eletricidade, água e aquecimento, bem como violência por agressores mascarados, contratados pelas empresas privadas com interesse nos projetos imobiliários. As pessoas que se recusam a obedecer às ordens de desocupação são chamadas de “dingzihu”, traduzido como “família prego”, o que evidencia a violenta forma de segregação que tem ocorrido naquele país. Artistas marcham contra

demolição em Pequim. Estado de São Paulo, 27-02-2010. A discriminação racial também é

importante fator de segregação. Em Jerusalém, diante da oferta feita pelo prefeito Nir Barkat de novas moradias aos palestinos para que suas casas, no bairro de Al Bustan, fossem demolidas, causou reação entre os palestinos, que afirmaram que seus interesses não seriam considerados e que na verdade o que se buscava com a medida era uma limpeza étnica. Oferta de moradia divide

Jerusalém. O Estado de São Paulo, 27-02-2010.

150 HARVEY, David. El Derecho a la ciudad. Disponível em: http://cafedelasciudades.com. ar/carajillo/1_art5.htm, acesso em 15/07/2011.

moradia adequada, a indiferença ao sofrimento humano e de condições mínimas de dignidade são apontados como os principais problemas da cidade moderna.

Nesse contexto histórico surgiu a demanda por cidades justas, representada por movimentos sociais que reclamam a vida urbana com dignidade. É preciso resgatar a solidariedade, a reconstrução da vida pacífica e o respeito às diferenças. É disso que tem se ocupado grande parcela da sociedade urbana atual.

Harvey defende que no século XXI veremos surgir uma oposição coerente a essas pautas de comportamento, por parte de movimentos sociais diversos concentrados na questão urbana, com objetivo de superar o isolamento e remodelar a cidade de acordo com uma imagem diferente da que é proposta pelos promotores imobiliários. O autor cita o exemplo do Brasil, que inseriu em sua legislação o Estatuto da Cidade, fruto da pressão exercida pelos movimentos sociais, em que é reconhecido o direito coletivo à cidade.151

Após a promulgação do Estatuto da Cidade, impõe-se investigar quais os mecanismos existentes para o caminho da efetividade dos direitos, que constam garantidos, mas ainda estão muito longe de serem desfrutados pelas populações urbanas.

José Afonso da Silva sustenta que:

Finalmente, a garantia das garantias consiste na eficácia e aplicabilidade imediata das normas constitucionais. Os direitos, liberdades e prerrogativas consubstanciadas no título II, caracterizados como direitos fundamentais, só cumprem sua finalidade se as normas que os expressem tiverem efetividade. A Constituição se preocupou com a questão em vários momentos. O primeiro em uma norma-síntese em que determina que as normas

definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata. Não é, pois, só a garantia dos direitos políticos, mas de

todos os direitos fundamentais: individuais, coletivos, sociais, de nacionalidade e políticos. Essa declaração pura e simplesmente por si não bastaria se outros mecanismos não fossem previstos para torná-la eficiente. Vimos a propósito o mandado de injunção. Acrescentemos que a ação de inconstitucionalidade por omissão é da mesma natureza. A iniciativa popular pode muito bem ser eficiente instituto de busca da integração das normas constitucionais dependentes de lei ordinária ou complementar, especialmente daquelas normas que traduzam direitos de interesse social.152

151 Idem.

A aplicabilidade imediata das normas constitucionais e infraconstitucionais depende da eficiente atuação dos agentes públicos, no sentido da edição de leis, de implementação de políticas públicas e de decisões judiciais que incorporem como premissa o artigo 5º, parágrafo 2º, da Constituição Federal.

Para Nelson Saule Júnior:

O grau máximo de efetividade do direito à moradia pelos agentes das esferas administrativa, legislativa e judicial, ocorre quando as suas ações e medidas contribuem para erradicar a pobreza e a marginalização, acarretam a redução das desigualdades sociais e não resultam em situações discriminatórias às pessoas, em razão do preconceito pela origem, raça, sexo, cor e outras formas de discriminação.153

Não pretendendo a enumeração exaustiva, o presente estudo aponta três importantes mecanismos disponíveis no ordenamento jurídico para a garantia da efetividade dos direitos fundamentais na política urbana brasileira: a participação popular, o acesso ao Judiciário e o sistema internacional de proteção de direitos humanos.