• Sonuç bulunamadı

1.3. Tevbe Kavramı

1.3.2. Terim Anlamı

Ao longo do percurso de investigação sobre a relação da língua com a realidade e sobre a forma como o ser humano se insere nessa relação, surgiram as primeiras teorias. Para esses precursores que tentaram desvendar essa relação, a língua teria um poder cósmico criador, a palavra teria o poder de revelar o ainda não percebido.

No percurso da investigação lingüística surgem os Sofistas, para os quais já estava claro o poder da língua em criar verdades, agora não mais com o poder cósmico criador dos antigos. Para eles a língua servia para convencer outrem de que algo era ou ‘deveria’ ser da maneira como eles construíam a sua fala. A verdade ou não dos fatos não importava, o objetivo era o convencimento. O objetivo era criar técnicas de elaboração de discursos belos e ao mesmo tempo eficientes, isto é, convincentes. O importante era tornar crível o mais fraco dos argumentos, ou o contrário.

Em função de melhorar a retórica e desenvolver a argumentação, a fim de convencer seu ouvinte, Dinneen (1996) afirma que eles eram empiricistas, pois estudavam a linguagem com o propósito de descobrir qual seria a melhor forma para seus discursos. Fizeram da linguagem seu meio de trabalho, ensinando a seus alunos como influenciar e seduzir por intermédio da linguagem, com o claro objetivo de ganhar discussões ou vencer as disputas travadas em tribunais.

Para esses estudiosos da possibilidade de influenciar pessoas, o que interessava, não era o estudo da língua em si, mas o seu estudo como um meio para se alcançar o objetivo de conduzir pessoas a uma determinada forma de pensar. Disso resultou, à época, um estudo cuidadoso de figuras de linguagem, de argumentos que pudessem ser agrupados de acordo com os temas para os quais pudessem servir de fundamentação. Uma ferramenta, uma técnica para exercer essa capacidade: a de influenciar pessoas.

Peninou (1974, p. 105) chama a atenção para a discussão entre Sócrates e os Sofistas. Enquanto, para o primeiro, o estudo da Retórica deveria servir para instruir o ser humano, para os segundos, no dizer de Sócrates referindo-se a

Górgias, esta serviria apenas para convencer: “operária, (...) da persuasão que faz acreditar, não da que faz saber”.

Por seu lado, Górgias via a Retórica como o ensinamento a serviço da persuasão, já que este não acreditava na possibilidade do conhecimento do real. Defendia a posição de que nada existe, e se existisse seria impossível de ser conhecido, e se fosse possível de ser conhecido, seria impossível de ser comunicado (NEUMANN, 2001). Por cair nesse total relativismo, pode-se entender a necessidade de se colocar nas palavras a possibilidade da construção da realidade desejada, encontrando na Retórica o caminho para influenciar a opinião dos ouvintes e levar à tomada de decisões. Dessa forma entende-se a citação de Górgias em Nef:

Pois o meio que temos de revelar o ser é o discurso, e o discurso não é nem as substâncias nem os seres; não são pois os seres que nós revelamos àqueles que nos cercam; nós só lhes revelamos um discurso que é diferente das substâncias (GÓRGIAS, apud NEF, 1995, p. 12).

Como podemos ver, já nessa época, foram empreendidos esforços conscientes para a caracterização de fenômenos textuais, com o objetivo pragmático. No centro das indagações que seguem essa linha de busca de conhecimento, sempre esteve a preocupação sobre como alcançar a melhor forma para atingir bons efeitos comunicativos; de que forma o ato de convencer ‘o outro’ pode ser levado a cabo da melhor maneira, levando em consideração desde a ordenação das idéias, textos, pronúncia, gestos etc.; como a percepção de que, para a produção do texto, é importante a inserção da situação onde esse texto é proferido para ser bem sucedido. E tudo isso por intermédio de meios retóricos especiais.

Heinemann; Viehweger corroboram:

Nesse sentido, a retórica pode ser entendida como um apanhado de conceitos e regras para uma efetiva apresentação pública, como ‘ars bene dicendi’ (...) que sempre era pensado com a formulação

requintada e rebuscada de um tema (Heinemann; Viehweger 1991, p. 20).18

Durante milênios, o estudo e o exercício da Retórica oscilaria entre dois pólos. De um lado, estavam os que vêem a Retórica como a manipulação da língua com o intuito de seduzir, enganar. Enfim, torná-la agradável aos ouvintes, porém sem conteúdo ou comprometimento com a ‘educação para a verdade’.

Do outro lado, os que percebiam as possibilidades que se abriam em virtude dos ensinamentos levados a cabo pelos sofistas. Cultivavam a ‘Arte de falar bem’, que compreendia um conjunto de regras a serem transmitidas, possibilitando a criação de conhecimentos, com uma força de convencimento previsível. A última parte dessa definição – a previsibilidade – tornou-se alvo de estudos dos que lidam com a linguagem enquanto criadora de sentidos e em sua força de levar indivíduos a ações desejadas. Esse ‘previsível’ seria justamente o que deveria ser ensinado, ou seja, as regras, as maneiras de se moldar ‘qualquer’ tipo de fala para atingir um fim: o convencimento do auditório.

No decorrer desse percurso, os Sofistas reconheceram que nenhuma verdade é permanente e duradoura e, aparentemente, nenhum código de valores é eterno, por isso trabalhavam com a palavra. Provavelmente, por esse motivo eram mal-vistos por alguns filósofos atenienses, já que colocavam em risco a crença na imutabilidade da sociedade e talvez possibilitassem um questionamento a respeito da participação de homens ‘justos e corretos’ na democracia ateniense. Quando o Sofista Protágoras afirmou ser ‘o homem a medida de todas as coisas’, ele teve uma feliz intuição das relações que ocorrem na construção do que é real. Com essa constatação, abria espaço para a percepção de que o existente é variável de acordo com o observador, e que a realidade é ditada pela coletividade (GILES, 1993, p. 240).

A lógica aristotélica, por sua vez, buscava ‘comprovar verdades objetivas’. Verdades tão caras, até hoje, à crença na objetividade da informação, e que por mais de dois mil anos tem servido a tantas elites dominantes da sociedade

18 “In diesem Sinn kann die Rhetorik als Sammlung von Begriffen und Regeln für ein

wirkungsvolles Auftreten in der Öffentlichkeit verstanden werden, als, “ars bene dicendi” (…), die stets auf schmückende und verfeinernde Ausformung eines Themas gedacht war”.

ocidental, levando a essa concepção de ciência determinista, como uma possibilidade de se apossar do real sem intermediários, e levando a crer que houvesse uma lógica acima das relações de poder.

Os sofistas foram os grandes introdutores da percepção de que a medida das coisas não era Deus, nem uma verdade duradoura, inquestionável, mas sim os seres humanos, a buscar a satisfação de suas necessidades, que variam de acordo com o tempo em que ocorrem. Este relativismo assustava e assusta as “verdades estabelecidas” pelo mundo afora. Talvez por isso, eles ficaram esquecidos ou foram detratados no decorrer da história.

Perelman (2002, p. 50) chama a atenção para o fato de que os grandes ‘detratores da retórica’ foram aqueles “para os quais só havia uma verdade, em todas as matérias”. E, logicamente, competia ao filósofo, naquela época, e ao cientista, durante muito tempo, ‘imparcialmente’, estudar todos os ângulos de um problema, fato, ou situação.

Aristóteles (1983, 31) vai estudar a linguagem não como um fim em si, mas como um meio de montar seu sistema lógico que pudesse desmontar os argumentos ilusórios dos sofistas. “Existe, além disso, o desvio sofístico do argumento, mediante o qual levamos nosso adversário a fazer uma espécie de afirmação contra o qual estamos bem providos de linhas de argumentação”.

A linguagem não era um campo de estudo independente, mas deveria ser estudada porque ela era ‘a forma’ por intermédio da qual se poderia chegar ao que é ‘verdadeiro’. Teria de ser estudada como uma técnica que permitia o conhecimento. Uma técnica dividida em vários estágios que pudesse organizar a forma de repassar esse conhecimento. Essa técnica poderia ser aplicável a todos os campos, fosse para desarmar os sofistas, com seus discursos cheios de figuras retóricas e ‘armadilhas’, fosse para construir modos de inferência sobre a verdade e a lógica ou até mesmo para estudar de que forma a linguagem é capaz de veicular emoção (NEF, 1995). Para esse mesmo autor, há que se vasculhar muito o trabalho do filósofo grego para se encontrar opiniões sobre a linguagem.

Para Aristóteles, Retórica é: “... a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar persuasão, (...) e no concernente a uma dada

questão, descobrir o que é próprio para persuadir” (ARISTÓTELES, s.d., p. 22). Como foi dito, não há aplicação dessas regras a campos determinados, mas a todos os campos. Ele a considera ‘faculdades de fornecer argumentos’ porque:

... o verdadeiro e o justo são, por natureza, melhores que seus contrários. Donde se segue que, se as decisões não forem proferidas como convém, o verdadeiro e o justo serão necessariamente sacrificados: ... (ibidem, p. 20).

Para este autor, a Retórica seria necessária para poder fundamentar um argumento verdadeiro, portanto não se deveria fazer uso dessa faculdade sem a ética. A justiça é, para ele, imprescindível para decisões a serem tomadas. “Pois não se deve persuadir o que é imoral”. (ibidem, p. 20) Ele não condena a retórica como a arte do engano ou o belo sem conteúdo, mas dá a ela parâmetros de boa forma e a transforma num instrumento para viabilizar ‘o correto, o justo’.

O domínio de técnicas ‘de como organizar bem o discurso’ era algo de muita importância entre os cidadãos de Atenas, visto que a democracia ateniense era o espaço de discussão sobre como gerir a cidade e isso era feito através de discussões em praça pública, portanto, era essencial saber fazê-lo, para conseguir convencer pessoas de seus argumentos. Ali, a capacidade de ser eloqüente desempenhava decisivo papel político.

De qualquer forma, tanto Aristóteles quanto os Sofistas, por mais que se opusessem, foram o ponto de partida do movimento moderno que estuda a argumentação. Entre eles, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002) que inauguram a ‘Nova Retórica’ na Europa. Estes – além de Brown (1971), Spang (1987) e outros – vão investigar as condições de força persuasiva de diferentes tipos de argumentação em diferentes campos, tanto com uso de linguagem informal como formal. Não se está mais preocupado, como Aristóteles, em buscar o justo e o correto. Não há necessidade, na retórica atual, de que haja uma conclusão ‘irretorquível’ e universal, mas de que forma ocorre a adesão a algo proposto.

O curioso é que embora tenha sido Aristóteles quem elaborou eficientemente essas técnicas de argumentação, ele não tinha direito a usá-las em praça pública. Por não ser ateniense, não tinha direito à voz.

O próximo item a ser discutido é a retórica na história, pois consideramos que nada se faz se não soubermos qual o desenvolvimento histórico do objeto em estudo, mesmo porque os anúncios de hoje continuam aplicando boa parte das regras de argumentação identificadas e ensinadas por Aristóteles e os sofistas.