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II. KOBİ’LERİN TEMEL SORUNLARI VE ÇÖZÜM ÖNERİLERİ

2.2. Teknoloji, Buluş ve İnovasyon Sorunu

O fascínio apeleano pela semiótica prende-se com o facto de esta lhe permitir substituir as tradicionais relações diádicas, sujeito-objecto, que enformam a teoria do conhecimento e a ciência, por relações triádicas que se desenvolvem à imagem do funcionamento do signo quando encarado no âmbito do processo de semiose.

Embora de inspiração peirceana, a questão foi primeiramente colocada no interior do movimento neopositivista por Charles Morris; mas é igualmente evocada, como veremos, por via muito diversa, pelo último Wittgenstein, que a partir dos anos 30 começa a distanciar-se do movimento que também ajudara a fundar.

A partir da definição de signo e do processo relacional de semiose dada por Morris, nesse texto incontornável que é Fundamentos da Teoria dos Signos, distinguem-se três dimensões às quais a semiótica pode dedicar-se: sintaxe, que estuda a relação dos signos entre si; semântica, que se ocupa da relação deles com os objectos que denotam; e pragmática, atenta à relação entre os signos e os seus intérpretes.30

Enquanto alguns neopositivistas, liderados na ortodoxia por Carnap, man-

30. “The process in which something functions as a sign may be caled semiosis. This pro-

cess, in a tradition which goes back to the Greeks, has commonly been regarded as involving three (or four) factors: that which acts as a sign, that which the sign refers to, and that effect on some interpreter in virtue of which the thing in question is a sign to that interpreter. These three components in semiosis may be called, respectively, the sign vehicle, the designatum, and the interpretant; the interpreter may be included as a fourth factor”, in MORRIS, Char- les, “Foundations of the Theory of Signs”, in Foundations of the Unity of Science – Toward an International Encyclopedia of Unified Science, ed. NEURATH et all., vol. I, 1955, The University of Chicago Press, p. 81.

tinham a convicção de que sintaxe e semântica podiam dar conta da lingua- gem da ciência, e que o estudo da dimensão pragmática pertencia, de facto, à psicologia empírica, Morris apercebeu-se de que esta se trata não só de uma disciplina semiótica de pleno direito, como de que, na questão da verifica- bilidade e da fixação da moldura semântica dos termos de qualquer lingua- gem científica, é imprescindível recuar até ao ponto onde os sujeitos definem intersubjectivamente esse valor. Apesar das aparências, sintaxe e semântica carecem de uma real “autonomia”, pois as regras sintácticas e semânticas de que se faz uso em tais domínios têm de ser definidas no âmbito de “hábitos de uso dos signos”, por “utilizadores concretos desses signos”, isto é, têm de ser fixadas pragmaticamente.31

Também o segundo Wittgenstein tornará patente, nas Investigações Filo- sóficas, que não é possível a um indivíduo isolado seguir uma regra, nem, tão pouco, que possa existir algo como uma linguagem privada32– é sempre ne-

cessário, relativamente a um jogo de linguagem dado, recuar, mudar de “nível semiótico”, para empregar a terminologia de Morris, e tratar tal linguagem como linguagem objecto. E isso, como Wittgenstein torna visível, demanda acordo pragmático dos sujeitos. “Como é que designo as minhas sensações com palavras? Assim, como o fazemos habitualmente? Neste caso, a minha linguagem não é “privada”. Uma outra pessoa podia compreendê-la, tal como

31. “If pragmatical factors have appeared frequently in pages belonging to semantics, it is

because the current recognition that syntactics must be supplemented by semantics has not been so commonly extended to the recognition that semantics must in turn be supplemented by pragmatics. It is true that syntactics and semantics, singly and jointly, are capable of a relative high degree of autonomy. But syntactical and semantical rules are only the verbal formulations within semiotic of what in any concrete case of semiosis are habits of sign usage by actual users of signs. “Rules of sign usage” like “sign” itself, is a semiotical term and cannot be stated syntactically or semantically”, in MORRIS, Charles, “Foundations of the Theory of Signs”, in Foundations of the Unity of Science – Toward an International Encyclopedia of Unified Science, ed. NEURATHet all., vol. I, 1955, The University of Chicago Press, p. 107.

32. “Porque é que a minha mão direita não pode dar dinheiro à minha mão esquerda? A

minha mão direita pode passá-lo para a minha mão esquerda. (...) Mas as consequências práticas ulteriores não seriam as de uma doação. Por exemplo: se a mão esquerda tirasse o dinheiro à mão direita, diriamos “Sim, e daí?”. E esta mesma pergunta poderia ser posta a uma pessoa que se tivesse dado uma definição privada de uma palavra; isto é, a uma pessoa que diz a palavra para si própria e concentra a sua atenção numa sensação”, WITTGENSTEIN, Ludwig, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, trad. LOURENÇO. M. S., 1987, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, §268, p. 346.

eu a compreendo (...) Quando se diz “Ele deu um nome à sensação”, esquece- se que, na linguagem, já tem que haver muito trabalho preparatório para que o simples “dar nome” tenha sentido”33.

O resultado desta reflexão, que dissolve o solipsismo metódico, é que con- ceitos como “sentido” e “verdade” no interior de um jogo de linguagem, à falta da possibilidade de um e apenas um poder seguir uma regra, terão de ser fixados mediante o diálogo e a convenção.

Precisemos. Todo o jogo de linguagem se estabelece sobre regras de uso dos signos, e a aplicação de uma regra supõe a existência de critérios que distingam os bons dos maus usos. Evidentemente, uma regra e um critério só podem ser fixados intersubjectivamente. Um eu solipsista seria incapaz de distinguir entre a aplicação correcta da regra e o seu oposto. O que Wittgens- tein se esforça por comunicar aos seus leitores é que a diferença entre o bom e o mau uso, aplicada a um sujeito isolado, carece de sentido, pois a aplica- ção de uma regra privada – S significa a sensação X – baseia-se na memória, na resolução de que, doravante, S significa X. Ora se a memória falhar, e o sujeito aplicar a regra erroneamente, não pode ser corrigido – algo que não se verificaria numa linguagem pública. Assim, se não há desvio, não pode haver norma, e vice-versa34.

Este é o contributo especificamente semiótico para a ultrapassagem do so- lipsismo metodológico da epistemologia tradicional, que lida com os outros sujeitos não como actores no processo de comunicação, mas objectificando- os, ou supondo entre todos uma espécie de harmonia pré-estabelecida ou em- patia.

Além dos contributos de Morris e Wittgenstein, Apel também rejeitará o solipsismo com base na semiótica peirceana, que ele crê ultrapassar, conferindo-

33. WITTGENSTEIN, Ludwig, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, trad.

LOURENÇO. M. S., 1987, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, §256 e §257, pp. 341-342.

34. A questão é colocada e sumariada de forma muito feliz no §199. “É aquilo a que chama-

mos “seguir uma regra” algo que apenas um homem, uma vez na vida, pudesse fazer? (...) Não pode ser que uma regra tenha sido seguida uma única vez por um único homem. Não pode ser que uma comunicação tenha sido feita, que uma ordem tenha sido dada ou compreendida ape- nas uma vez. Seguir uma regra, fazer uma comunicação, dar uma ordem, jogar uma partida de xadrez, são costumes (usos, instituições). Compreender uma proposição significa compreender uma linguagem. Compreender uma linguagem significa dominar uma técnica.”, WITTGENS-

TEIN, Ludwig, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, trad. LOURENÇO. M. S., 1987, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, p. 320.

lhe uma extensão hermenêutica mais vasta, pois considera que a semiótica de Peirce sofre uma limitação “cientista” no seu alcance. Em que se baseia Apel para lançar tal suspeita?

A máxima pragmatista35 é uma máxima hermenêutica de clarificação do

significado, mas Apel considera que Peirce a liga indissoluvelmente à ciên- cia experimental, ao experimentalismo. Os significados que se trata de apurar deverão poder ser ilustrados por experiências possíveis, ou não terão sentido. Apel considera que Peirce praticamente identifica o processo de pesquisa ex- perimental nas ciências naturais com o processo de comunicação na comuni- dade de interpretação, e isto com consequências nefastas para o conhecimento: “A extensão à qual o significado de todos os símbolos potencialmente signi- ficativos pode ser interpretativamente elucidado é determinada pela extensão à qual a comunidade de investigadores alcança um conhecimento das leis ob- jectivamente e experimentalmente testado, e o correspondente conhecimento tecnológico”.36

Como nesta formulação de pragmatismo a obtenção e comunicação so- bre o significado está relacionada com a experiência experimental possível, a verdade pode ser alcançada com o consensus omnium experimentalmente me- diado da comunidade de scholars, que substitui a consciência transcendental da epistemologia tradicional e é garante de objectividade.

35. Embora este assunto ainda vá ser tratado de forma aprofundada mais adiante, recorde-

mos que a formulação canónica de pragmatismo e da máxima pragmatista é a seguinte: “The opinion that metaphysics is to be largely cleared up by the application of the following maxim for attaining clearness of apprehension: "Consider what effects, that might conceivably have practical bearings, we conceive the object of our conception to have. Then, our conception of these effects is the whole of our conception of the object."The doctrine that the whole "me- aning"of a conception expresses itself in practical consequences, consequences either in the shape of conduct to be recommended, or in that of experiences to be expected, if the concep- tion be true; which consequences would be different if it were untrue, and must be different from the consequences by which the meaning of other conceptions is in turn expressed. If a second conception should not appear to have other consequences, then it must really be only the first conception under a different name. In methodology it is certain that to trace and com- pare their respective consequences is an admirable way of establishing the differing meanings of different conceptions”, Collected Papers, 5.2.

36. “The extent to which the meaning of all potentially meaningful symbols can be interpre-

tatively elucidated is determined by the extent to which the community of researchers achie- ves an experimentally tested, objective knowledge of laws, and a corresponding technological know-how”, in APEL, Karl-Otto, Towards a Transformation of Philosophy, 1980, Routledge & Kegan Paul, London, c Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1972-73, p. 114.

Ora este “cientismo”37 de Peirce, que liga a elucidação do significado à

verificabilidade das experiências possíveis, é limitado em relação à herme- nêutica de “orientação humanístico-científica” que Apel defende. Enquanto Peirce clarifica o significado relacionando-o, por meio de abstracção, à expe- riência que qualquer homem, independentemente do seu enraizamento sócio- histórico, pode realizar, Apel defende que a interpretação e o significado estão sujeitos a uma mediação histórica da tradição. Assim, mesmo uma elucida- ção do significado de tipo pragmático pressupõe uma pré-compreensão em linguagem comum.

Desta “lei hermenêutica básica”, como lhe chama, parte Apel para a de- fesa da tese de que o sujeito de interpretação sígnica da comunidade de comu- nicação é um indivíduo histórico radicado num mundo concreto. A comuni- dade de interpretação humana não pode reduzir-se à comunidade de scholars, e é neste sentido de criação de uma comunidade de comunicação de alcance mais vasto que Apel desafia o “cientismo” peirceano, propondo-se estender o seu alcance a territórios que lhe estariam peirceanamente vedados.

2.7 Jogo de linguagem transcendental e comunidades