Antes das considerações que serão realizadas nesse tópico, é importante definirmos cultura. Sobre a cultura, Dussel nos esclarece:
A cultura é confundida frequentemente com os produtos materiais (cultura material para alguns, civilização para outros). Antes que disso, como já dissemos, é o ato produtivo (poiésis para Aristóteles) ou poiéticol, mas como “modo” de produzir. (DUSSEL, 1997, p.193 e 194)
Radicalmente, cultura não é o produto do trabalho, mas, antes, é o próprio trabalho como “atualidade” – energia teria dito Aristóteles; entelégeia: ato pelo qual se finaliza ou realiza o próprio agente. Antes de objetivar-se numa obra, que é o fruto de uma atividade, a cultura é a própria atividade: atividade como a atualidade-presente, temporal, do homem culto ou culturalizante; atividade como atividade manifestação, fenomênica, do homem como nascente ou fonte da própria cultura que ele é por natureza. (DUSSEL, 1997, p.192)
Há um problema, a meu ver, quando se vincula a cultura apenas a produtos culturais prontos e acabados e não ao processo produtivo. Nesse sentido, muitas vezes se confunde cultura popular unicamente a produtos culturais que vieram do povo e não
ao constante ato produtivo do povo. No campo da educação musical muito tem se discutido sobre qual ou quais músicas, ou produtos culturais musicais, devem ser ensinados na escola. Tal discussão é extremamente pertinente e válida, ainda mais porque ela traz em seu bojo o combate da imposição de uma cultura que nega as demais. Porém, para além disso, é importante que não se perca a dimensão da cultura enquanto processo vivo de produção, caindo unicamente na transmissão de produtos culturais estanques. Para clarificar tal ideia, Fiori no diz:
A cultura é um processo vivo de permanente criação: perpetua-se, refazendo- se em novas formas de vida. Só se cultiva, realmente, quem participa deste processo, ao refazê-lo e refazer-se nele. A transmissão do já feito é cultura morta. (FIORI, 1991, p.78)
Como apresenta Fiori, a transmissão do já feito é cultura morta, ou seja, unicamente transmitir produtos culturais estanques, é matar a própria cultura, independente de quais sejam tais produtos culturais. Unicamente reproduzir em sala de aula uma música de tradição popular com a prerrogativa de manutenção da cultura popular, é um equívoco caso não haja esse “processo vivo de permanente criação.”
Koellreuter (1997), ao falar sobre o ensino pré-figurativo, diz que “esse sistema educacional deveria não apenas transmitir cultura, mas sim, criar cultura.” (p.66). Como apresentado anteriormente, esse processo de permanente criação na música é possível na ressignificação da obra de arte pelo sujeito que a lê. Não se trata de reprodução de produtos culturais, mas é recriação cultural. A música não é transmitida, mas recriada por meio de tal leitura crítica. O sujeito que a lê, recriando-a de acordo com seu estar no mundo, participa do processo vivo de permanente criação.
Nesse sentido, da mesma forma que é desumanizante uma postura em que a chamada “música erudita” pode ser imposta no sentido de uma leitura reprodutivista, leitura que não passa pelo sujeito enquanto ser histórico no mundo, também é desumanizante quando unicamente reproduzimos produtos culturais autóctones sem a dimensão autônoma da produção cultural. “Cultura sem autonomia é anticultura porque, como vimos, em tal hipótese a objetivação da subjetividade, ao invés de liberar o sujeito, o coisifica como objeto de dominação.” (FIORI, 1991, p.75)
Fiori apresenta a importância da autonomia para a produção cultural, caso contrário, a cultura é instrumento de dominação.
Tal dominação se mostra presente, repito, tanto em produtos culturais universais quanto em produtos culturais autóctones. O que deve ser negado não são os produtos culturais, essa ou aquela música, mas o depósito de tais produtos sem a autonomia da recriação desses mesmos produtos.
Cultura autônoma não se identifica com cultura autóctone. Os valores ancestrais podem ser tão alienantes quanto os valores impostos, extrinsecamente, a uma cultura particular. Tampouco, cultura autônoma supõe repúdio à universalidade da cultura. O homem se existência, sempre, em formas particulares de vida. Os valores que as significam, se são valores e são humanizadores, têm, forçosamente, a universalidade do homem; não do homem abstrato, mas do que se reproduz na singularidade da práxis –
universal concreto. (FIORI, 1991, p.76).
Algumas atitudes em defesa da cultura popular, ao contrário, tem-la matado. Quando pretendo “preservar” a cultura popular por meio de medidas de estaqueação da cultura, ao invés de preservá-la acabo indo contra ela mesma, que em sua essência é móvel. Se pretendo contribuir com a preservação da cultura popular, devo, pelo contrário, permitir que ela se fecunde através da autonomia dos sujeitos humanizados que participam de tal processo.
Se analisarmos toda a cultura popular brasileira, veremos, sem sombra de dúvida, que esta é resultado de inúmeras fecundações, inúmeras recriações, por meio de um processo autônomo e advindo do próprio povo. Tentar preservar tal cultura não é cerca-la a ponto de mantê-la tal com está, mas é permitir esse movimento dinâmico e autônomo que é a própria cultura.
Nesse sentido, no âmbito da educação musical, a defesa fundamentalista de produtos culturais autóctones, a defesa fundamentalista de qualquer outro produto cultural, seja europeu, norte-americano, latino-americano, sem a dimensão da autonomia no processo de dinamização cultural, torna-se dominação cultural e desumanização.
Se querem comprometer-se com a libertação do homem, devem inserir-se intrinsecamente, radicalmente, profundamente, no dinamismo totalizante da cultura do povo, que não necessita ser autóctone, mas sim autônoma. (FIORI, 1991, p.93)
Tal compromisso, que parte da Alteridade, por meio de mutua fecundidade criadora, que parte da autonomia e da produção cultural, é humanização. Fiori diz que:
Cultura, em seu sentido mais amplo e mais profundo, é humanização do mundo e, portanto, humanização do homem. Todas as atividades humanas -
desde o econômico até o artístico e o religioso – tem intrínseca e inevitável direção axiológica. (FIORI, 1991, p.85)
Se voltarmos às falas da Priscila, ao relatar os momentos em que estiveram divididos em pequenos grupos, perceberemos que o aprendizado musical ultrapassou o âmbito da reprodução e alcançou a dimensão de produção cultural. Tanto Priscila quanto os demais alunos produziram cultura.
Priscila: O mais legal foi que a gente pegou a música, que a gente escolheu, e
pode escolher o jeito que a gente ia tocar, então a gente pegou e tentou de um jeito, tentou de outro, então isso foi legal, a gente descobrir um monte de possibilidades e depois fazer uma música só.
(Diário de Campo – 15/04/2013)
Priscila: A gente pegou a música, na forma dela, e tocamos na forma dela,
depois que gente viu o que poderia ser feito, porque a música era muito curta, então a gente aumentou ela, fizemos repetições.
(Diário de Campo – 15/04/2013)
Independente da origem da música que foi trabalhada, sendo ela autóctone ou não, foi possível perceber um processo de cultura popular, no sentido de uma produção autônoma que partia do povo, os alunos.
Ao nos falar sobre as atividades de arranjo em grupo, a Gabriela nos disse o seguinte:
Gabriela: Quando a gente faz arranjo em grupo cada um pega o que gosta e a
gente faz uma música só. (Diário de Campo – 15/04/2013)
Acredito que em uma frase, Gabriela conseguiu resumir dois grandes conceitos, o conceito de cultura popular e o conceito de Transmodernidade em Dussel.
Ao dizer “Cada um pega o que gosta”, ela poderia dizer que cada um pega aquilo que tem, pega aquilo que é, baseado na cultura em que vive, pega aquilo que traz de fora, da cotidianidade, do povo, das relações que estabelece com os outros a qual ela faz parte. A partir daí, de forma autônoma, “a gente faz uma música só”, produzimos cultura, produzimos cultura que parte dos próprios alunos, que parte de alunos inseridos numa cultura, num povo, produzimos cultura popular. Quando Gabriela diz que “cada
culturais são permitidos ou não, quais produtos culturais são válidos ou não, qual música deve estar ou não, mas ela destaca o processo, “a gente faz”.
Fazer “uma música só”, é possível unicamente através da realização da
Alteridade, do reconhecimento do Outro enquanto Outro, do outro que também “pega o
que gosta”, é a realização de uma passagem transcendente, que segundo Dussel, se co-
realiza por mútua fecundidade criadora (2001). Há uma transcendência da razão moderna, violenta e hegemônica, transcendência da reprodutibilidade de produtos musicais, da figura suprema do compositor, mas se estabelece a Transmodernidade, “como projeto mundial de libertação em que a Alteridade, que era coessencial à Modernidade, igualmente se realize” (DUSSEL, 2001, 356).
Fazer “uma música só” é o fecundar de vários sujeitos autônomos, por meio da alteridade. Nesse sentido, o ensino coletivo de música pode ser extremamente rico, se pautado em atitudes coletivas de produção cultural, seja em processos de composição, arranjo ou recriação de determinada música. Segundo Freire, “... ensinar é um ato criador, um ato crítico e não mecânico.” (FREIRE, 1992, p.81).