LAMİA HANIM’A MEKTUPLAR
TARİH DENEN ABESLER ZİNCİRİ {8}
Por fim, é preciso introduzir mais um dado. A partir de meados do século XVII e ao longo de todo XVIII, esta maneira de organizar politicamente a vida começa a encontrar críticas quanto à amplitude do seu maquinário. A abrangência e a força concreta do dispositivo policial são demasiados; internamente não encontram barreiras as quais não possam atropelar. É um dispositivo que almeja cuidar de tudo que remete à vida dos seres humanos a fim de reforçar o Estado.
Qual o limite dessa dinâmica? Como dissemos anteriormente, o limite é externo, o direito. Nesse registro, aparece um sujeito formal, dotado de direito naturais, que por contrato e por renuncia de alguns destes direitos absolutos tem a sua vida conservada, mediada e regida por um aparato de soberania, que devolve artificialmente os direitos ao sujeito. A fundação do edifício da razão do Estado é o sujeito de direito. É no âmbito do direito que o poder soberano encontra balizas e sustento. O direito limita o que pode ou não ser efetivado legitimamente pelos mecanismos de poder. E é nesta condição, neste jogo de afirmação da legitimidade do Estado, que o direito de propriedade sobre as cópias emerge e se funda: alguns podem expressar e publicizar suas ideias, outros não, ponto. Caso decidam expressar suas ideias a despeito da lei serão censurados e possivelmente penalizados.
Contra as arbitrariedade do poder que essa condição explicita, no próprio ventre dessa maquinação dos dispositivos racionais de governo erige, nos séculos XVII e XVIII, uma crítica à razão de Estado diametralmente oposta ao alcance ilimitado do dispositivo de polícia. O Estado decide demais, intervém constantemente, governa demasiadamente as condutas sociais. Segundo Rousseau, essa é uma condição inerente à qualquer sociedade política que se organize desde um Estado centralizador. Nessa linha, esses pensadores criticam os excessos frequentes e nefastos da razão de Estado. “Os abusos são inevitáveis, e suas consequências são funestas em qualquer sociedade em que o interesse público e as leis não possuem nenhuma força natural e são incessantemente atacados pelo interesse pessoal e pelas paixões dos chefes e dos membros” (ROUSSEAU, 1755, p. 4).
Não há nada nesse tipo de organização política, nenhum dispositivo concreto que consiga barrar os avanços despóticos do governo. Veremos a seguir que uma das críticas ao monopólio da Stationers’ é, precisamente, a arbitrariedade e o descaso ao conduzir o mercado editorial inglês, bloqueando, assim, os efeitos naturais produzidos pela circulação das ideias na sociedade. No limite, até mesmo o direito pode ser posto em suspensão, num eventual Estado de exceção que se justificaria pela conservação do próprio aparato estatal. Para esta nova corrente de pensamento, opositora da racionalidade estatal vigente, torna-se urgente problematizar a disposição espacial do Estado, tendo em vista lhe impor limites reais e não meramente formais.
Nasce desse excesso de governo uma crítica que visa requalificar as funções e os mecanismos do Estado. Os pensadores dessa nova racionalidade política propõem o refinamento das estratégias disponíveis. A intenção não é extirpar os mecanismos estatais, mas reformá-los de acordo com sua utilidade.
Por esse motivo, os objetos do governo em sua maioria permanecem os mesmos. O que muda é o próprio agir político, suas premissas e finalidades, mudam os objetivos do governo. Nessa perspectiva, os críticos tentam formular limites internos ao lugar do Estado na distribuição territorial, eles pretendem reposicionar o Estado na organização do espaço e do tempo da população. Logo, para eles, trata-se de achar a média entre o governar demais e o governar de menos. A análise, então, gira em torno do seguinte problema e de sua virtual solução: como governar mais governando menos?
A elaboração da crítica desses esses pensadores à razão de Estado parte de um ponto concreto, de uma prática específica: do mercado. A teoria dessa nova racionalidade governamental deriva, principalmente, do estudo de utilitaristas ingleses e de fisiocratas franceses, dedicados a entender o melhor funcionamento dos meandros do mercado emergente. Segundo Foucault (2008, 2009, 2010a), Senellart (2006) e outros, o eixo fundamental dessa prática teórica é, a saber, a economia. Na realidade, a economia política (FOUCAULT, 2008; ROUSSEAU, 1755). A economia política está dedicada – é este seu objetivo – à gestão dos bens públicos, das particularidades naturais do mercado.
Por isso, o mercado e seu saber correlato, a economia política, atuam como o limite interno ao Estado, cuja premissa e finalidade se transformam. Não mais a conservação e o fortalecimento do Estado, mas a boa gestão das coisas públicas à luz da economia política. É essa racionalidade governamental – que aparece no findar do século XVII e principio do XVIII, calcada na economia política – que Foucault (2008) e Lazzarato (2011a; 2012) entendem por liberalismo. Liberalismo não como uma ideologia econômica, mas como uma arte de governar os bens públicos de um conjunto de seres humanos vivendo em sociedade.
Do ventre desse pensamento liberal, contra o alcance do dispositivo de polícia e do espectro ilimitado do Estado, nasce um aspecto correlato que coloca justamente o foco, uma vez mais, no governo da comunicação, no comando do fluxo das ideias publicizadas. Por isso, talvez, a
primeira emenda da constituição estadunidense seja a liberdade de expressão. De todo modo, essa crítica posiciona a comunicação enquanto um dos últimos postos de contra-conduta. Já que o Estado resta invisível, ao mesmo tempo em que ilumina a todos, é preciso disputar a incidência da luz. Sob essa ótica, é através da expressão livre do pensamento (mesmo que esta ideia seja discurso retórico ou direito exclusivo de privilegiadas classes sociais), que a luz pode ser disputada e reapropriada.
Cabe mapear, em seguida, como essa racionalidade remonta o sistema de propriedade intelectual e os efeitos correlatos sobre o fluxo semiótico, qual o contexto em que ela está inscrita e quais seus efeitos.