• Sonuç bulunamadı

İSLAMİYET, SOSYALİZM, FAŞİZM {9}

LAMİA HANIM’A MEKTUPLAR

İSLAMİYET, SOSYALİZM, FAŞİZM {9}

As condições que agenciam a dissipação institucional do License Act e do direito de cópia da Stationers’ Company trazem como de pano de fundo uma conversa muito esclarecedora entre o pequeno grupo de políticos formado em torno de conhecido filósofo inglês. Conversa esta que montaria as bases do pensamento sobre o copyright expresso no Estatuto de Anne de maio de 1710.

Deazley(2008e) e Hughes (2006) nos descrevem de maneira resumida mas consistente a relação entre o congressista citado acima, Edward Clarke, e um dos precursores do liberalismo e do naturalismo político da modernidade, o filósofo John Locke. Esta curiosa relação abre interessante caminho de análise, justamente por ser apontada como “a campanha de Locke na tentativa de assegurar que a Câmara dos Comuns não renove o License Act novamente”15 (ASTBURY apud HUGHES, 2006: 304).

No ano de 1675, Clarke, que ainda não era congressista, casa com a prima de Locke. Desse encontro nasce uma amizade duradoura. A partir de fevereiro de 1682, ambos iniciam uma constante troca de correspondência que dura até o final da vida de Locke, em 1704. Essa parceria que inclui também a participação de outro integrante, John Freke, fica conhecida, segundo Deazley(2008e) e Zemer (2005), como o Colegiado16. Esse grupo se reúne pelo fato de compartilharem “opiniões sobre eventos da política contemporânea, com o objetivo de propor

                                                                                                               

15 “Locke’s campaign to try to ensure that the Commons would not renew the Licensing Act again” 16 “The College”

medidas legislativas no parlamento, principalmente por intermédio das intervenções de Clarke”17 (DEAZLEY, 2008e: 3). Essas correspondências apontam para o novo tipo de racionalidade governamental nascente e suas estratégias. Mas voltaremos a este tema adiante.

Entre as opiniões partilhadas, um dos tópicos de conversação é, justamente, o direito de cópia e os efeitos políticos, econômicos e culturais negativos do License Act. A primeira vez que o ato de 1662 é assunto debatido entre estes senhores acontece quando a Licença é revalidada pelo o Estado inglês, em 1693. Diante desse cenário, Locke aconselha Clarke a tratar com cuidado e atenção a relação entre os interessados em comprar livros e os interessados em vendê-los. “Ele reclama do monopólio com o qual membros da Stationers’ agem sobre os autores latinos clássicos, bem como da baixa qualidade e do alto custo das publicações e do impacto improdutivo que esta condição provoca sobre o trabalho acadêmico”18 (DEAZLEYe, 2008, p. 3).

3.1.1 Locke e o Memorando sobre o License Act de 1662

A primeira consideração de Locke sobre o tema aparece nas correspondências e debates do chamado Colegiado. Pouco tempo depois, Locke retoma sua argumentação em incisivo texto, escrito pelo autor entre os anos de 1694-95. Este documento é contemporâneo do último respiro de validade do Ato. Conhecido como Locke’s Memorandum on License Act, o texto está arquitetado de forma a expor, sucintamente, os problemas e contradições da política monopolista da indústria de comunicação.

Vale ressalvar que o memorando escrito por Locke tem um estilo pouco filosófico, no sentido de que não faz alusão aos conceitos formulados por ele em seus principais tratados, cuja redação data de poucos anos antes. Ao contrário, o argumento de Locke é, por falta de melhor palavra, bastante pragmático ou utilitário, isto é, diretamente voltado ao debate em curso no parlamento

                                                                                                                17

“(...) who shared opinions on contemporary political events and aimed to promote various legislative measures in parliament, mainly through the agency of Clarke”.

18 “He complained about the monopoly which the stationers exercised over the "ancient Latin authors", the poor

quality and high cost of their publications, and the deleterious impact this was having upon the work of scholars”. Nas palavras de Locke: “whereas they (classic authors) are by them (Stationers’ Company) scandalously ill printed, both for letter, paper, and correctness, and scarce one tolerable edition is made by them of any one of them” (LOCKE, 2006).

inglês daquele período. No memorando, Locke está interessado em mapear os pontos a serem enfrentados, apresentando uma estratégia útil de combate19.

Locke estrutura sua avaliação em dois eixos: econômico, o monopólio sobre o mercado editorial da Stationers’ Company; e outro político, o controle da comunicação por parte da razão de Estado na Inglaterra (ZEMER, 2004; HUGHES, 2006; DEAZLEY, 2008e). Na verdade, há uma estratégia consistente por traz dessas premissas. Logo no início do texto, Locke introduz o argumento de que é completamente contraproducente estabelecer um sistema de monopólio, concentrado numa guilda de senhores, como ponto de partida para uma regulação da comunicação social. Em outras palavras, temos o seguinte esquema para Locke: para o Estado, o mercado da comunicação só tem função conveniente centralizado numa guilda de comerciantes. A razão de Estado é capaz de intervir sobre os circuitos da comunicação impressa do território apenas com a vigência do monopólio comercial.

Contra esta ideia, Locke argumenta não existir razões para que um homem seja proibido de falar o que quiser e, por conseguinte, publicizar e/ou imprimir o que bem lhe aprouver20. Uma vez que o discurso verbalizado seja ofensivo ou herético às leis inglesas ou eclesiásticas, o direito comum, o parlamento e as Secretarias do Estado, além da Igreja, têm condições de julgar conforme for conveniente. Caso permaneça o medo de obras anônimas, é fácil tornar obrigatório por lei o nome do responsável pela publicação na capa como condição sine qua non da impressão do material. 21 Além disso, a autorização dada aos funcionários da Stationers’ ou encarregados do Estado de invadir as residências em busca de material ofensivo abre jurisprudência para abusos constantes.

O comentário sobre a censura abre e ocupa as duas primeiras páginas do memorando. As dez páginas seguintes são contrapontos à pratica do monopólio da Stationers’. Isso indica a preocupação principal do filósofo. Locke começa o texto expondo o contrassenso das técnicas de controle da comunicação para, em seguida, atingir o que ele considera o ponto nevrálgico do                                                                                                                

19 O próprio modo de organização do memorando confirma esta ideia. Locke monta o argumento com enxertos

tirados do documento oficial da Licença para, em seguida, tecer seus comentários críticos.

20

“I know not why a man should no have liberty to print whatever he would speak.” (LOCKE, 2006, p. 4)

21 “To prevent men being undiscovered for what they print, you may prohibit any book to be printed, published, or

sold, without the printer’s or booksellers name, under great penalities, whatever be in it” (LOCKE, 2006, p. 4) O curioso do argumento é que o responsável pela impressão é quem deve ser autuado por qualquer conteúdo impróprio, sendo ele autor ou não da obra.

debate: a propriedade das cópias, o monopólio sobre a impressão das cópias. Se a razão de ser do

copyright da Stationers’ tem como premissa o controle de conteúdo do circuito da comunicação

social, não há mais como sustentar tal prática como exercício de governo.

Locke assevera que os únicos que ganham com o monopólio é o Estado, seus pares e os “preguiçosos”, assim adjetivado pelo autor, da Stationers’ Company.22 A população, que deveria ser o beneficiário, é quem perde com essa condição. Perde por dois motivos. Primeiramente, porque o acesso às obras clássicas é caro, precário e escasso. O lugar privilegiado em que se encontram os membros proprietários do material não o incentivam a qualificar o negócio. A opção de importar obras de outros países tampouco é contemplada pelo Ato. Melhor dizendo, ela é criminalizada. Caso alguém deseje trazer algum exemplar clássico de outros países europeus (Locke cita a Holanda como exemplo de bom mercado) será multado pelos juízes da Stationers’. Outro ponto relevante é a qualidade das produções intelectuais inglesas. Para Locke, o License

Act restringe o desenvolvimento político, cultural, científico e econômico do país. Ao dificultar a

circulação de conhecimento pelo território, o nível da produção intelectual inglesa não avança, o que conduz a um desinteresse interno e externo em relação às publicações do país. É inadmissível, ao olhar de Locke, alguém ser dono de textos de épocas nas quais nem mesmo existia a possibilidade de impressão em escala industrial. Ou, de outro modo, Locke não entende o motivo pelo qual todos os cidadãos não têm a liberdade de imprimi-los garantida.23 “A liberdade, para qualquer um, de imprimir os clássicos é certamente a maneira de barateá-los e melhorá-los”24 (LOCKE, 2006, p. 5). Além disso, “torna-se difícil entender como a restrição da publicação dos autores clássicos de alguma maneira previna a impressão de panfletos sediciosos e traiçoeiros, título e intenção desse ato”25 (LOCKE, 2006, p. 6).

Este é um dos atributos capitais modificado pelo Estatuto de Anne: o monopólio constitui barreira para o desenvolvimento intelectual e do conhecimento socialmente partilhado na                                                                                                                

22 By this act England loses in general, scholars in particular are ground, and nobody gets, but a lazy, ignorant

Company of Stationers’, to say no worse of them. (LOCKE, 2006, p. 7)

23

This I am sure, it is very absurd and ridiculous that any one now living should pretend to have proprioty in, or a power to dispose of the proprioty of any copy or writings of authors who lived before printing was known or used in Europe. (LOCKE, 2006, p. 15)

24

“This liberty, to any one, of printing them, is certainly the way to have them the cheaper and the better”

25 “... it would be hard to find how a restrain of printing the classic authors does any way prevent printing seditious

Inglaterra. Não por acaso, o Estatuto tem como subtítulo: an Act for the encouragement of

Learning26. Talvez este seja o argumento principal que conduz à promulgação da lei27.

Em suma, toda a argumentação de Locke visa desarticular a relação de necessidade construída entre a regulação da comunicação por parte da racionalidade estatal e o copyright da Stationers’. É possível atuar sobre o primeiro sem lançar mão do segundo. O monopólio da Stationers’ sobre o mercado editorial dificulta aquele que servindo-se do seu tempo quer trocar o seu trabalho intelectual no mercado, principalmente os acadêmicos. Dessa forma, opera contrariamente a igualdade de condições naturais de troca entre os sujeitos. Com outras palavras, Locke é favor da propriedade sobre as cópias ao passo em que recusa o monopólio exercido por um grupo sobre determinado conjunto da economia, neste caso o monopólio da Stationers’. Portanto, o problema em essência não é o copyright em si, mas seus efeitos políticos. A depender do sentido empregado ao termo, ele pode ser benéfico ou nefasto para o compartilhamento da comunicação produzida socialmente.

Assim sendo, podemos afirmar que para Locke é admissível, sim, a propriedade sobre as cópias, mas sob certas condições (ZEMER, 2004; HUGHES, 2006). A propriedade não deve ser perpétua. Locke propõe o seguinte: “para aqueles compradores de cópias de autores que vivem e escrevem agora, pode ser razoável delimitar a propriedade (sobre as cópias) a uma certo número de anos posterior ao falecimento do autor ou à publicação do primeiro volume, digamos, cinquenta ou setenta anos depois”28 (LOCKE, 2006, p. 5). Tal medida aponta para a tentativa de reduzir os possíveis abusos que um sujeito pode encontrar quando deseja negociar seu trabalho intelectual no mercado sob a lógica do direito de cópia. Além disso, esta proposta deixa transparecer que a propriedade sobre o trabalho intelectual diz respeito a um domínio específico, distinto de outros ramos da indústria de commodities e por isso requer uma problematização particular. É o que Locke possivelmente pretendia.

                                                                                                                26

“Lei de incentivo ao aprendizado”

27

Locke que participa ativamente do debate contra o monopólio da Stationers e do direito de cópia correlato e que, por conseguinte, lança as bases do Estatuto de Anne, não tem a possibilidade de conferir o Estatuto aprovado. Locke falece no ano de 1704.

28

“And for those who purchase copies from authors that now live and write, it may be reasonable to limit their property to a certain number of years after the death of the author, or the first printing of the book, as, suppose, fifty or seventy years”

Deazley, Hughes e Zemer expõem a existência da controvérsia entre os estudiosos do pensamento de Locke quando tratam da relação dos escritos pontuais, documentos e correspondências, e o conjunto dos tratados de filosofia do autor. Por exemplo, alguns observam, por um lado, a contradição entre a teoria de propriedade de Locke, contida nos dois Tratados Sobre o Governo, e a condenação do autor à propriedade intelectual perpétua. Por outro, há quem recuse esta proposição, ressaltando a estratégica política de Locke, tendo como meta extirpar a vigilância e o comando sobre o material impresso na Inglaterra.

De toda forma, para além da controvérsia, Deazley, Hughes e Zemer apontam para uma questão comum em relação ao entendimento do memorando. Eles querem reforçar o fato de que o grosso do esforço de Locke manifesta menos uma digressão conceitual, tampouco uma defesa da importância de se pensar o lugar do autor e da autoria do que construir uma oposição ao monopólio sobre o mercado da comunicação inglês. Nesse sentido, a ideia é reduzir os efeitos políticos da Stationers’ para reestabelecer, em outras bases, o mercado de troca naturalmente estruturado.