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LAMİA HANIM’A MEKTUPLAR

İSA EFENDİNİN YERİ {16}

Repetimos insistentemente nos trechos acima que o Estatuto de Anne expressa uma mudança de fundo político. Talvez, o Estatuto represente ainda uma imagem opaca, mas um signo real do que acontece nas relações de poder-saber do virar do século XVII ao XVIII. Tal mudança decorre dos problemas concretos que a razão de Estado instala – por exemplo, o sistema de concessão de monopólios nos mais variados ramos da indústria emergente. Desse ambiente, resulta uma forma nova de lidar com esses problemas. Uma compreensão distinta da lógica racional de governo está sendo gestada gradualmente. Essa lógica quer tomar para si os mecanismos do governo disponíveis para infletir as funções do Estado.

O objetivo dessa nova racionalidade é requalificar o papel do Estado na organização do espaço e do tempo dos corpos da sociedade. O Estado deixa de ser o regente absoluto da política e do povo. Aquela razão de Estado sequiosa por eternidade, que quer conservar-se em seu estado formal de paz e assim ampliar suas forças ad infinitum, perde vigor. Nesse momento, aparece um pensamento outro, que reconhece a natureza e a espontaneidade das trocas sociais com a missão de ecoá-las, insuflá-las, ampliá-las. Este Estado não calcula sua força exclusivamente nas moedas e nas coisas que acumula (pela intervenção mercantil), no exército que mobiliza (pela lei que

precisa ser eficiente e preservada constantemente) ou na luminosidade higiênica que resplandece (com seu dispositivo de polícia). Desenha-se outro modo de governar as coisas do Estado, primando pela gestão ótima da res pública que o compõe e da população que o habita.

Sua força pulsa do bom governo das relações entre os governados. Como Locke coloca logo no início do Segundo Tratado Sobre o Governo, a premissa e o objetivo de toda governança política reside tão-somente no bem público. Essa racionalidade política, com estas premissas e finalidades fundantes, é o que costuma-se denominar liberalismo (SENELLART, 2006; FOUCAULT, 2008; 2009; 2010a; LAZZARATO, 2011a; 2011b).

Para entender o que é a arte de governar liberal em seus processos, nos apropriamos das análises proferidas por Foucault nos cursos de 78 e 79, na sua cadeira do Collège de France. Especialmente no curso de 79, Foucault empreende uma descrição de filigrana da gênese dessa prática política e de seu saber correlato. Ele introduz o tema comunicando aos seus ouvintes que o curso daquele ano trata do que ele considera o quadro geral das estratégias políticas engendradas por formas de governo liberais.

Foucault compreende o liberalismo muito particularmente. Para ele, o liberalismo não diz respeito especificamente a uma doutrina ou dogmática restrita ao âmbito da economia. É mais que isso. O liberalismo introduz modos de conduzir os interesses individuais e coletivos, assim como Estado, ancorados pela via da economia política – o que não é exatamente o sinônimo de uma dogmática. “O governo liberal não é um governo econômico limitado a reconhecer e observar as leis econômicas; é um governo que tem por objetivo e por alvo o conjunto da sociedade”. (LAZZARATO, 2011a, p. 15).

A concepção lugar-comum da economia política como doutrina é pouco potente, precisamente porque o liberalismo, na ótica de Foucault, não pode ser reduzido à ou explicado meramente por alguma ideologia. O liberalismo não é necessariamente o desejo de apropriação privada das riquezas socialmente produzidas e um Estado ausente e fraco. Não se trata disso propriamente. Ao identificar a naturalidade das trocas sociais como a priori a ser ponderado, trata-se de racionalizar a forma de agir sobre as condutas individuais e coletivas dentro da frequência da econômica política.

Este a priori é fundamental: ele representa a espontaneidade das trocas sociais, o jogo natural dos interesses individuais e coletivos. Esse jogo natural de troca é importante. Não se trata, como na razão de Estado, de localizar os direitos exteriores ao processo, direitos naturais do homem. Não é mais nessa constância que as coisas se desenrolam. No liberalismo, o governo precisa se ajustar a predisposição natural dos indivíduos, acompanhando suas relações naturais e espontâneas de perto. Ele deve, portanto, gerenciá-las. Reconhecida a potência dessas relações, é preciso criar ou adaptar os mecanismos políticos disponíveis para efetivá-los em sua plenitude ou o mais próximo possível de um estado ótimo e eficaz de funcionamento.

Foucault não cita Locke na passagem em que expõe sua descrição do liberalismo, em grande parte contida nas três primeiras aulas do seu curso de 79. Mas, diante do fato de Locke ser um dos filósofos precursores do liberalismo, podemos observar ressonância entre a concepção de liberalismo proposta por Foucault e o que Locke oferece como premissa do bom governo.

Locke (1991) descreve um espaço natural onde os humanos habitam e se relacionam pacificamente, um “estado de perfeita liberdade” (LOCKE, 1991, p. 217). Esse estado natural do humano é um ambiente de trocas espontâneas e na maioria das vezes pacíficas. Entretanto, dada a naturalidade dos processos, por falta de qualquer artificio disponível, esta paz está sempre aberta às vicissitudes e às intemperanças da comunicação entre os viventes. As transações experimentadas nesse contexto eventualmente apresentam conflito de interesses entre os desejos individuais e coletivos. De tal modo, este conflito de interesses pode conduzir a um estado de luta contínua e mortífera entre indivíduos e grupos.

Nesse nível, o governo é visto como o gestor das imperfeições intrínsecas ao corpo social; é o regulador dos riscos possíveis e dos dissensos inerentes ao processo de troca e de comunicação entre os distintos interesses e paixões. “Os homens, portanto, devem procurar um paliativo para o que não podem curar” (HUME, 1999, p. 193). “O governo civil é o remédio para os inconvenientes do estado de natureza” (LOCKE, 1991, p. 220). Em virtude disso, o Estado deve governar os interesses por intermédio de técnicas suaves de intervenção política sobre as trocas naturais dos homens.

Por isso, podemos dizer que Locke (e também Hume) pensa o governo em termos de utilidade e estratégia. Com um governo finamente ajustado, ganha-se mais do que se perde. O estado de

natureza é um estado de paz e de liberdade, no entanto, paz aberta aos choques de interesses particulares e que, no limite, pode conduzir a um estado de guerra e injustiça permanente. “É preciso que exista uma instância objetiva reguladora que impeça as eventuais transgressões do direito natural” (CINTRA, 2010, p. 60). Dado esse cenário, aos humanos é imperativo unir-se em comum acordo e, pelo intermédio da razão, engendrar um dispositivo regulador dos dissensos das trocas naturais – um Estado e uma sociedade constituídos pela economia política liberal.

Isto não significa propor que o liberalismo deva ser entendido simplesmente como liberdade de comércio ou livre mercado. Tampouco o liberalismo enseja um ser livre, com a demanda de sustentar e garantir a vontade de todos os humanos. A liberdade do liberalismo não é a liberdade da vontade que encontramos no estado de natureza. A liberdade do liberalismo, em Foucault e talvez também em Locke, é a linha que conecta e separa os governantes dos governados – demarca e explicita quem é quem na economia do visível. A liberdade é o resultado da equação que põe na mesma fórmula a relação de poder desequilibrada de governantes e governados Foucault constata que a liberdade do liberalismo deve ser definida nos termos de uma produção. O liberalismo produz liberdade, determinadas liberdades, a depender das tendências do jogo das trocas sociais. O pouco demais de liberdade que existe é dado pelo mais ainda de liberdade que é pedido39. Dito com outras palavras, é o tanto de liberdade experimentada no terreno dos interesses individuais que assegura a prevalência geral do interesse coletivo. Existe uma vontade geral (um bem público) que deve ser reconhecida e insuflada, caso a liberdade dos interesses individuais prevaleça o interesse coletivo sucumbe e com ela toda a materialidade do Estado. Portanto, o governo político para existir não deve mais decidir ou intervir sobre todos os assuntos do povo, mas em assuntos específicos a depender dos rumos e riscos do caminho escolhido – ele deixa de ser um árbitro e passa a ser um gerente. O necessário nesta lógica de governo é saber como intervir e qual a maneira mais sutil de praticar esta intervenção. Por isso a paradoxal pergunta – como governar mais governando menos? – resume bem a metamorfose em curso. Isto porque o governo sempre corre o risco de governar demais, ou o risco de não governar apenas o bastante.

                                                                                                                39

“A liberdade nunca mais é que – e já é muito – uma relação atual entre governantes e governados, uma relação em que a medida do “pouco demais” de liberdade que existe é dada pelo mais ainda de liberdade que é pedido” (FOUCAULT, 2008, p. 86)

Trata-se, na razão de Estado, de perguntar, “será que governo bastante bem, com bastante intensidade, com bastante profundidade, com bastante detalhes para levar o Estado até o ponto estabelecido por seu dever-ser, para levar o Estado ao seu máximo de força?” (FOUCAULT, 2008, p. 26). Na racionalidade liberal, há uma dobra nesse questionamento, “agora o problema vai ser: será que governo bem no limite desse demais e desse pouco demais, entre esse máximo e esse mínimo que a natureza das coisas fixa para mim, quero dizer as necessidades intrínsecas às operações de governo?” (FOUCAULT, 2008, p. 26).

Em virtude deste complexo cenário, a vida, em sua dinâmica fisiológica, passa a figurar entre os cálculos governamentais. O Estado passa a intervir em saúde, habitação, educação, higiene, mortalidade, natalidade, comunicação. Os aspectos reprodutivos da vida em sociedade serão agora incluídos positivamente nos cálculos do poder pela economia política. Podemos fazer menção aqui à celebre passagem do primeiro tomo da História da Sexualidade, A Vontade de

Saber: desliza-se de um regime de poder que deixa viver e faz morrer para um governo que faz

viver e deixa morrer (FOUCAULT, 2006).

É uma intervenção positiva, portanto, no sentido de que engendra as condições favoráveis para o desenvolvimento da vida em sociedade. Esta intervenção comporta a sutileza de fazer os subjugados viver e por essa razão torna-se menos sensível do que a intervenção disciplinar e punitiva do modelo anterior. Para que a força do mercado e consequentemente do Estado aumente é preciso manter os governados suficientemente ativos. A razão pela qual os elementos básicos da vitalidade humana são inseridos na lógica de governo liberal é esta. O modo de governo liberal garante suplementos de vida aos indivíduos, intervindo positivamente sobre os processos naturais da vida humana, liberando um espaço em branco para o fluxo dos interesses econômicos. (FOUCAULT, 2008)

O governo reconhece, assim, um espaço concreto de liberdade e concede um excedente de liberdade para este território. “Embora o governa seja uma invenção vantajosa, e mesmo, em algumas circunstâncias, absolutamente necessária para a humanidade, ele não é necessário em todas as circunstâncias.” (HUME, 2000, p. 579). É nesse paradoxo entre governar demais e governar de menos, entre controle e liberdade que o liberalismo se funda. “É isso que vai animar internamente, de certo modo, os problemas do que chamarei de economia de poder própria do

liberalismo” (FOUCAULT, 2008, p. 89). Esta economia de poder própria do liberalismo está sistematizada na ciência conhecida como economia política.

Contudo, quem habita este espaço da economia política? O sujeito portador de direitos, paradigma da razão de Estado? Não. O sujeito portador de direitos se depara com um sujeito de interesses individuais. Se, na razão de Estado, o sujeito de direitos é o fundador do Estado e do povo pela renúncia de seus direitos naturais absolutos; na arte de governar liberal é preciso administrar os interesses naturais dos sujeitos em sua processualidade espontânea. Por isso, não se trata mais de um povo soberano, mas de um conjunto de seres da mesma espécie – a espécie humana – vivendo em sociedade, trata-se de uma população. Governa-se doravante uma população de humanos, muito embora a unidade do povo, esta poderosa formação discursiva, não desapareça, sendo revisitada sempre que necessário.

As bases da economia política e da racionalidade liberal são elementos muito distintos dos que constituem a razão de Estado e sua ciência política coextensiva, não obstante versem frequentemente sobre os mesmos objetos. Por esse motivo, as duas técnicas de copyright desenvolvidas em ambos contextos – racionalidade estatal e liberal – administram fenômenos parecidos (o problema da comunicação), mas seus efeitos são completamente diferentes: o perigo da comunicação, de um lado, e a efetivação livre deste mercado, de outro.

Dentro dessa dinâmica, o Estatuto de Anne é um rascunho, traços parcos que se coadunam aos elementos do liberalismo nascente no início do século XVIII.