LAMİA HANIM’A MEKTUPLAR
SAĞ, SOL, MÜNZEVÎ AYDIN
Esta nova prática de governo – liberal – se fixa em três pontos de sustentação. 1) O mercado enquanto principio de inteligibilidade do real. 2) O poder público indexado ao princípio de utilidade. 3) Expansão indefinida das fronteiras comerciais. Estas três características ou movimentos basilares nos interessam em distintos níveis. Uns mais que outros. Não obstante, eles estão interconectados como que num corte em diagonal atravessando e unindo os três platôs.
3.4.1 O mercado enquanto principio de inteligibilidade do real
Interessa-nos, inicialmente, pelo percurso feito, marcar o mercado enquanto o princípio de inteligibilidade do real. Nos séculos XVI e XVII precedentes, o Estado é o princípio de inteligibilidade do real; é por causa dele e no seu interior que a dinâmica social se move. A conservação e a ampliação das forças do Estado tornam, por conseguinte, a vida em sociedade mais e mais afinada. Nessa conjuntura, o Estado é o grande mediador das relações sociais. Sua função era intervir sempre e antecipadamente aos acontecimentos do corpo social: esta concepção institui que Estado forte é sinônimo de sociedade feliz.
Em contrapartida, no liberalismo o mercado é a premissa fundante dentro de uma realidade estatal já dada. O mercado firme e em constante desenvolvimento passa a ser o termômetro do Estado bem governado. O Estado bem governado é sinônimo de mercado operante. Por seu turno, mercado operante é sinônimo da adequação espontânea dos interesses individuais e coletivos em fluxo pela sociedade.
Foucault abre sua exposição de 10 de janeiro de 1979, aula inaugural do curso dedicado às analises do liberalismo no Collège de France, com uma passagem esclarecedora. A frase é do estadista inglês Robert Walpole40 “que dizia a propósito da sua maneira de governar: “Quieta non
movere”, não se deve tocar no que está quieto” (FOUCAULT, 2008, p. 3) Não é por acaso que
Foucault introduz o curso sobre o liberalismo com esta citação. O que isto quer dizer?
Significa que o governo deve reconhecer a dinâmica espontânea das trocas sociais e deixá-las florescer, seguir seu rumo de acordo com as leis da sua natureza, desde que na direção do bom funcionamento das coisas públicas do Estado. O governo deve ser um governo frugal. A intervenção constante, valendo-se do dispositivo de polícia, não é mais considerado produtivo. Ao menos não direta e incisivamente. Agir antes mesmo dos acontecimentos se efetivarem espontaneamente é agir contra a natureza dos processos. Isto seria lutar contra a própria lei da natureza e, portanto, contra a razão – algo inconcebível.
40 Segunda própria nota de rodapé da aula de 10 de janeiro, “Robert Walpole, primeiro conde de Orford (1676-1745),
líder do partido whig, que exerceu as funções de “primeiro-ministro” (First Lord of the Treasury e Chancellor of the Exchequer) de 1720 a 1742; governou com pragmatismo, valendo-se da corrupção parlamentar com o fim de preservar a tranquilidade política” (FOUCAULT, 2008, p. 32).
O dispositivo de polícia, nesse contexto, é requalificado. A economia política liberal surge desse mesmo dispositivo, dos seus elementos essenciais de governo, da vida produtiva e reprodutiva da população humana. Na realidade, a economia política opera uma torção nos dispositivos de governo, enxertando neles outros princípios, cuja lógica essencial se reduz ao problema do máximo/mínimo de governo. Em substituição à régua do governo justo ou injusto, mede-se a arte governamental do liberalismo nos termos do bom ou do mau governo. Torna-se imprescindível saber gingar entre um máximo e um mínimo de governo, avaliando os efeitos positivos e negativos de uma provável intervenção. “... é essa formidável cunha que a economia política introduziu na presunção indefinida do Estado de polícia” (FOUCAULT, 2008, p. 3). Ela introduz justamente um principio de autolimitação interna à razão governamental baseada no Estado interventor.
Essa questão fica ainda mais clara na parte final da mesma aula de 10 de janeiro de 1979. Antes do fechamento de sua exposição, Foucault menciona um documento escrito pelo marquês D’Argenson. Este mercante fisiocrata e estadista francês publica alguns textos no qual decorre sobre o que julga ser a tarefa do governo da França, sob a coroa do Rei Luis XIV. Em uma de suas meditações, D’Argenson ocupa-se da frase de Walpole, “quieta non movere”. Concordando com Walpole, no sentido de que é prudente mexer pouco no curso natural das trocas econômicas, D’Argenson faz menção em seu texto, relata Foucault, de um diálogo entre o comerciante, Le Gendre, e o político de nome Colbert. Diz o texto:
conta-se que o senhor Colbert reuniu vários deputados do comércio em sua casa para lhes perguntar o que ele poderia fazer pelo comércio; o mais sensato e menos bajulador entre eles disse-lhe esta simples frase: Deixai-nos fazer. Já se terá refletido o bastante sobre o grande sentido desse mote? (D’ARGENSON apud FOUCAULT, 2009, p. 36).
Segundo as notas de rodapé das aulas de Foucault, organizadas por Senellart, D’Argenson escreve ainda outro texto, intitulado Para governar melhor, seria preciso governar menos. D’Angerson escreve tratados de economia política voltados ao estudo das prerrogativas do Estado. São reflexões escritas por quem está nos interstícios da máquina estatal, com a mão na massa. Essas conversações são de meados do século XVIII e expressam bem o zeitgeist do período: é o princípio da fórmula burguesa do laissez faire – deixai-nos fazer. Os liberais se colocam como gerenciadores das trocas econômicas inerentes à natureza social, somente eles sabem lidar com a natureza do mercado e sua racionalidade constituinte.
É preciso liberar um espaço em branco (FOUCAULT, 2008) das intervenções do Estado. O mercado é este espaço, terreno livre da mão pesada do Estado, habitado doravante por indivíduos portadores de interesses particulares. O governo deve deixar o jogo dos interesses cursar seu caminho natural. O mercado demarca um ambiente natural do humano, onde os sujeitos de interesses devem transacionar suas paixões, tendo em vista a felicidade individual e coletiva. Por isso, o mercado será o principio de inteligibilidade do real, donde pulsará o regime de verdade do governo. O mercado é quem dita o que deve ser feito pela racionalidade governamental, quais são seus limites, suas possibilidades, quais trilhas seguir, quais objetos conduzir etc.
O liberalismo coloca em prática, sempre, a trena que mede a liberdade de circulação dos interesses individuais em relação ao interesse coletivo, que deve permanecer preservado. Tanto é que o Estatuto de Anne comporta como subtítulo: “Uma lei de incentivo à aprendizagem...”41.
Nunca se deve perder do horizonte o bem público como premissa e fim último. Nessa lógica, o sujeito que persegue seus interesses egoístas ao encontrar outros interesses egoístas produzirá espontaneamente, no fim do processo, o bem comum.
O Estatuto de Anne é um primeiro esboço desse pensamento sobre o mercado que emerge no final do século XVII e espraia-se em meados do século XVIII pelas terras da Inglaterra e da França. Com efeito, embora demasiadamente ideal, o Estatuto reconhece e constrói dentro de um espaço já dado – o Estado e as leis inglesas – os alicerces de um sistema de propriedade intelectual. Este espaço reconhecido e com o qual os governantes de fato tentam sistematizar uma forma de intervenção política mais sensível do que a precedente é o mercado.
Locke ressalta em seu memorando sobre o License Act a urgência de se preservar este espaço de troca, o mercado da comunicação social. Logo, constituído espontaneamente este mercado, o Estado não deve arbitrar sobre ele. Este espaço deve permanecer liso para que a naturalidade dos fluxos semióticos percorra a sociedade, de tal modo a aumentar o apreço da população pela vida em sociedade. As poucas estrias que este espaço particular deve possuir deriva do copyright. O Estatuto de Anne apenas traduz as imperfeições deste mercado e estabelece as leis para o seu funcionamento ótimo. E isto basta. As publicações heréticas e sediciosas constituem um perigo,
não há dúvidas, mas este perigo deve constar nos cálculos internos do novo Estado e não ser controlado antecipadamente por temor de seus efeitos coextensivos.
É um risco, com certeza, mas a política do risco e do perigo é uma das facetas deste liberalismo. “Não há liberalismo sem cultura do perigo” (FOUCAULT, 2008, p. 91). O Estado aparece a
posteriori, num segundo lance e por pura utilidade prática; sua função é gerenciar os riscos e, por
conseguinte, legislar no sentido de uma normalização, tendo em vista os perigos que uma realidade como o mercado liberal manifesta. Chegamos então ao segundo ponto de fixação da arte de governar liberal: o poder público indexado ao princípio de utilidade.
3.4.2 O poder público indexado ao princípio de utilidade
O poder público indexado ao principio de utilidade constitui outra inflexão à racionalidade estatal precedente. O Estado soberano é pensado tendo como ponto de partida o medo. Esta paixão é um efeito inerente ao convívio natural dos humanos, inferência obviamente inspirada nas contras- condutas provenientes da crise renascentista que salientamos no primeiro capítulo. Nesse contexto, a missão do Estado é aumentar suas forças para conservar o clima de paz necessário à vida individual e do povo.
No registro liberal, com a realidade do Estado já constituída e ajustada, os economistas políticos começam a refletir sobre o Estado em termos de utilidade. O gerenciamento dos efeitos do medo, do risco, do perigo das trocas sociais está atrelado a um cálculo útil.
O governo não deve mais intervir na dinâmica social aprioristicamente. Agir desta forma é contra as leis da natureza e da razão. Isto segue o que expomos acima com passagens de Locke e Hume. O Estado é racionalmente montado para que os conflitos e a insegurança do estado de natureza sejam mitigados, contidos, controlados. Ele é um remédio para que os inconvenientes do estado de natureza não se hegemonizem, “um artifício ou invenção resultante das particularidades e necessidades da humanidade” (HUME, 2000, p. 517). Afinal, como indaga Cintra, na esteira de Locke, “para que construir uma sociedade civil se o estado de natureza é tão bom?” (CINTRA, 2010, p. 65).
Ao Estado, portanto, resta a tarefa de gerenciar os fluxos do mercado por intermédio de cálculos e curvas estatísticas que direcionarão suas virtuais ações. O governo reconhece um ambiente dado – o mercado – e age em consequência dos acontecimentos ali determinados. Age por utilidade. Isto significa dizer que o governo interfere para tornar fenômenos naturais mais produtivos e para reduzir e controlar seus danos políticos. Por essa razão, é preciso calcular constantemente os efeitos da multiplicidade de caminhos a seguir. Só assim o governo será capaz de atuar convenientemente às inconstâncias dos desejos da população. O liberalismo exige que o governo incline-se a conhecer os possíveis efeitos das trocas sociais ao passo que renuncia um Estado ignorante às coisas que o constituem.
A grande preocupação dos pensadores da racionalidade liberal é a ignorância do governo e não a injustiça ou ilegitimidade de suas obras. O governo sofre por sua ignorância em não compreender os processos naturais das trocas econômicas. As transas entre os interesses particulares são exatamente o que tornam visíveis as técnicas e estratégias de ação política adequadas. No liberalismo, o Estado deve estar consciente dos ganhos e dos prejuízos em jogo, para, por conseguinte, operar nos termos de insuflá-los ou minimizá-los, a título de utilidade.
Dentro dessa dinâmica, o Estatuto de Anne pretende justamente ampliar as possibilidades do mercado da comunicação social, por intermédio da lógica do direito de cópia. A propriedade das cópias no Estatuto é o artificio engendrado para garantir e gerir a naturalidade das trocas econômicas do mercado da comunicação. Por isso, toda a mecânica “do sistema anglo-saxão de propriedade intelectual está tipicamente justificado em bases utilitárias.”42 (MOORE, 2006, p. 37). Esses dados desmontam qualquer tipo de discurso sobre a propriedade intelectual e suas técnicas de intervenção política como direito absoluto dos indivíduos, algo inerente à natureza humana.
A propriedade de cópia do Estatuto de Anne tenta, em uma única lufada de ar, minimizar o secular monopólio, destituir o alcance da censura, mitigar a capacidade de intervenção do Estado, considerar o autor dentro da rede que constitui o mercado, além de ressaltar a potência do mercado da comunicação social para o bem público. Embora, na prática, como o notam muitos autores, as coisas não tenham se desenrolado dessa maneira idealizada, o Estatuto destacava
principalmente a utilidade do gerenciamento da indústria da comunicação dentro da microfísica da economia política e, portanto, da racionalidade liberal.
Essa última ressalva, de forma alguma, reduz o caráter paradigmático do sistema de propriedade de cópia do Estatuto e dos objetivos pretendidos com ele. Seria o mesmo que desconsiderar a validade da Lei Áurea brasileira de 1888, admitindo que a realidade escravocrata da vida cotidiana brasileira pouco se alterou nos anos que se seguiram à promulgação da lei. Esses acontecimentos expressam uma transformação de cunho político das relações das forças sociais. A despeito da capacidade de concretizar o que a nova lei consagrava, o que só aconteceu, de fato, no caso Donaldson vs Becket43, em 1774, vale sublinhar o fato de que o Estatuto é um dos principais exemplos das experiências em curso de gestação do empreendimento político liberal. O pensamento liberal ainda engatinhava no contexto da publicação do Estatuto em 1710. A racionalidade liberal ganha terreno somente no transcorrer do século XVIII e conquista a hegemonia como prática de governo a partir do XIX. O copyright navega nesta torrente histórica, sempre se ajustando ao contexto político vigente, no caso, à racionalidade liberal. Do século XVIII em diante, os desdobramentos que se seguem em relação ao copyright nada mais são do que uma constante reatualização do conteúdo do Estatuto de Anne. A Lei de 1710 é sempre convocada, ela assume o caráter de referência, seja para acompanhá-la ou para negá-la, tanto dentro como fora da Inglaterra.
3.4.3 Expansão indefinida das fronteiras comerciais
As relações internacionais são reformuladas no liberalismo tendo um objetivo claro: a expansão indefinida das fronteiras comerciais. Sobre isso Foucault (2008) faz uma curiosa provocação, afirmando que quem estudasse o direito marítimo desse período descobriria muito sobre a maneira de se refletir sobre as funções do Estado da época. Com essa análise, Foucault quis reforçar que o pensamento liberal aspira ampliar a constituição dos mercados para além das fronteiras nacionais. Segundo Foucault, diferentemente da ciência política, que apostava em
43 Teillman (2004) e outros historiadores nos contam que o caso Donaldson vs Becket foi a primeira decisão da
enriquecimento interno para manter o equilíbrio da balança comercial do continente, o Estado liberal precisa por em prática a edificação de um bloco coeso de países dedicados a expandir o mercado regional. Essa expansão deve produzir efeitos em todo o mundo, de tal modo que se acumule capital em conjunto e em progresso constante.
Deixa-se para trás, diz Foucault (2008), uma Europa com resquícios do Império romano, mas também a Europa clássica da soberania equilibrada entre os Estados; é a gênese de um sistema econômico mundializado dentro do qual o continente aparece “como um sujeito econômico coletivo que, qualquer que seja a concorrência estabelecida entre os Estados, ou melhor, através da própria concorrência que se estabelece entre os Estados, deve tomar um caminho que será o do progresso econômico ilimitado.” (FOUCAULT, 2008, p. 75). A diplomacia dos Estados está condicionada doravante à materialização de relações jurídicas internacionais, com a função específica de alavancar e consolidar o projeto de um único mercado globalizado.
Essa lógica implica as políticas da propriedade intelectual. Os primeiros acordos internacionais envolvendo a propriedade intelectual emergem durante o século XIX. Na Inglaterra da época, descreve Deazley (2010), “a partir de meados do século XIX, a questão que se tornou dominante dentro do debate nacional sobre o regime do direito de cópia foi a que envolvia as relações internacionais.”44 (DEAZLEY, 2010, p. 289). A Inglaterra passa a tomar uma série de medidas nessa direção. Em 1838, o governo bretão ratifica a International Copyritgh Act ( Lei
internacional de direito de cópia), na tentativa de facilitar os arranjos bilaterais sobre a temática.
Todavia, nenhum acordo nesse sentido foi concretizado. A Segunda Lei Internacional de Direito
de Cópia, promulgada em 1844, obtém um relativo sucesso na negociação de tratados de
proteção mútua com a Prússia, Hanover, Oldenburg, dentre outras localidades.
A preocupação existente diz respeito a multiplicidade de políticas da propriedade intelectual que cada um dos Estados do continente praticava dentro dos seus limites. Exemplificando, para alguns Estados a tradução de obras de língua estrangeira sem o pagamento prévio ao detentor dos direitos de impressão nos países de origem não configura crime algum, situação que em outras nações pode ser passível de punição.
44 “Throughout the mid to late nineteenth century the issue that came to dominate the concerns of the national
Outro exemplo dessas diferentes matizes de pensamento sobre a propriedade intelectual diz respeito ao direito de autor. Na Inglaterra, a discussão sempre caminhou restrita ao domínio do direito de reprodução das cópias, incluindo o autor quando útil. Por outro lado, na França, o debate girou em torno de uma concepção particular do tema, a partir do dispositivo do direito de autor. No próximo capítulo, falaremos brevemente acerca dessa técnica de intervenção política, originária da revolução francesa, dentro do quadro das políticas da propriedade intelectual. Cabe ressaltar, por hora, apenas que, em virtude das distintas políticas da propriedade intelectual da Europa do período, os encontros internacionais vieram definir quais métodos políticos seriam assumidos como os mais eficazes. Esses encontros sacramentaram dois bastiões: o copyright inglês e o droit d’auteur francês. O direito de cópia e o direito de autor são as políticas da propriedade intelectual avalizadas para o gerenciamento – pelo viés da economia política – do fluxo semiótico europeu. Por intermédio dessas duas técnicas foi possível constituir um mercado da comunicação social mundializado.
Nesse ponto do nosso trabalho, podemos afirmar categoricamente que a gênese das políticas da propriedade intelectual não indicam que o direito de cópia e o direito de autor operaram como dispositivos de proteção dos autores, tenha essa criação a expressão que for. Com efeito, esta nossa afirmação vai de encontro ao discurso comumente aceito no debate sobre o tema.
De todo modo, no ano de 1883, na França, ocorre a Convenção de Paris. Ela nos importa menos pelo seu conteúdo do que pelo seu desdobramento consequente. Essa Convenção trata exclusivamente do que é entendido como propriedade industrial, compreendendo os sistemas de patentes, marcas registradas e segredos de negócio. Não estudamos esses temas propriamente, mas eles constituem outro aspecto importante no que tange a propriedade sobre as criações do intelecto humano.
Como consequência dessa primeira reunião internacional, as diplomacias dos Estados europeus sentiram necessidade de organizar um encontro para a definição dos limites da propriedade intelectual. Três anos mais tarde, precisamente em 1886, acontece em Berna, capital da Suíça, a Convenção que elabora as bases jurídicas internacionais da propriedade intelectual. Essa Convenção manifesta os interesses gerais da indústria da comunicação, abrangendo a totalidade
das obras literárias e artísticas em suas distintas formas de expressão – artística, científica e filosófica.45
Nesse sentido, a Convenção empreende uma dobra de monta. Ela considera dentro do mesmo arco legislativo as produções literárias e artísticas, a variedade de mídias e suportes e as respectivas reproduções, traduções, adaptações, além de pronunciamentos públicos, discursos políticos etc. Ademais, a Convenção dá origem à União Internacional para a Proteção da Propriedade Intelectual.46 Essa União se consolida como a primeira organização internacional dedicada estritamente a gerir as técnicas políticas da propriedade intelectual de acordo com os ditames e os interesses dos países membros.47
A meta fulcral da Convenção de Berna é pontuar os limites do que pode ou não ser feito dentro do conceito de propriedade intelectual. A propriedade intelectual corresponde ao vórtice constituinte de uma rede de elementos e de interesses que integram o agora continental mercado da comunicação social em suas muitas possibilidades de expressão.