Com vistas à operacionalização e cumprimento dos objetivos deste estudo, a metodologia adotada para a coleta das informações foi a realização de grupos focais com os adolescentes participantes do Projovem Adolescente da cidade de Natal, Rio Grande do Norte. Tal técnica de coleta foi escolhida por trabalhar explicitamente com a interação do grupo na produção de dados que seriam menos acessíveis sem a interação verificada em grupo. A técnica é comumente utilizada quando o objetivo é compreender as diferenças de perspectiva entre grupos ou categorias de pessoas (Flick, 2009). A troca de ideias entre os adolescentes participantes dos grupos, dividindo suas experiências, contribui para enriquecer a compreensão acerca da perspectiva do processo socioeducativo do PJA, do ponto de vista dos próprios sujeitos.
A escolha de tal estratégia metodológica caracteriza a investigação como uma pesquisa empírica de natureza qualitativa. Segundo Minayo (1992), esse tipo de pesquisa se dedica à análise dos significados que os indivíduos dão às suas ações, no espaço em que constroem suas vidas e suas relações, existindo uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, entre o sujeito e o objeto, entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito.
Para que a técnica consiga atingir seus objetivos, faz-se necessário considerar alguns aspectos relativos ao planejamento, e este deve considerar um conjunto de elementos que possibilitem seu pleno desenvolvimento, como: os recursos necessários; a definição do número de participantes e de grupos a serem realizados; o perfil dos participantes; o processo de seleção e tempo de duração (Trad, 2009).
Sobre os recursos necessários para a realização dos grupos, deve ser considerada a importância de espaços apropriados, de preferência em território neutro e de fácil acesso aos
participantes. Trad (2009) assinala que o ideal é uma sala que abrigue confortavelmente o número previsto de participantes e moderadores e que esteja protegida de ruídos e interrupções externas, podendo os participantes ser distribuídos em torno de uma mesa ou dispostos em círculo. Outros recursos imprescindíveis para a recuperação das falas dos participantes são equipamentos de gravação de áudio ou vídeo. No caso deste estudo em questão os grupos focais foram filmados, com o consentimento dos participantes e seus responsáveis.
Com relação à definição do número de participantes, a referida autora aponta que existem relatos na literatura que consideram de seis a 15 participantes. Um tamanho ideal para um grupo focal é o que permite a participação efetiva dos sujeitos com a discussão satisfatória dos temas. Há que se considerar que o número de participantes tem relação direta com o tempo de duração de cada grupo. Segundo Gondim (2003), apesar de se convencionar que o número varia de quatro a 10 pessoas, tal fator depende do nível de envolvimento com o assunto de cada participante;
No que diz respeito ao número de grupos necessários para explorar a temática em questão, Gondim (2003) afirma que alguns autores sugerem a realização de três a cinco grupos. Ainda que se faça uma previsão inicial, deve-se ponderar a complexidade do tema a ser tratado, e, principalmente, o critério de saturação das alternativas de resposta. Ou seja, Deve-se avaliar quando os grupos não são capazes de produzir novidades nas suas discussões, não apresentam novidades em termos de conteúdo e argumentos, bem como, quando os depoimentos tornam-se repetitivos, o que caracteriza que se conseguiu mapear os temas para os quais a pesquisa foi conduzida(Gondim, 2003). Considerando o critério de saturação foram realizados três grupos focais com os adolescentes participantes do PJA, os grupos foram realizados nos próprios núcleos de atendimento localizados, respectivamente, nos bairros: África (Zona Administrativa Norte), Quintas (Zona Administrativa Oeste) e Planalto (Zona
Administrativa Oeste), cujas características e especificidades serão melhor descritas nas próximas seções deste texto.
A respeito da definição do perfil dos participantes, recomenda-se que os participantes sejam selecionados dentro de um grupo de indivíduos que convivam com o assunto a ser discutido e que saibam com propriedade dos fatores que afetam os dados mais pertinentes à investigação (Barbour 2009). Uma das estratégias para dar conta da diversidade necessária consiste em criar grupos cujos participantes tenham o máximo de semelhança entre si e tenham diferenças significativas em relação aos componentes dos outros.
Optou-se por reunir grupos de adolescentes que fossem pertencentes ao mesmo núcleo de atendimento do PJA, e não grupos compostos por adolescentes de diferentes núcleos, para que os grupos fossem homogêneos, porém, suficientemente heterogêneos que pudessem ser contrastados entre si.
Com o propósito de levantar as ideias que emergem durante a discussão entre os participantes, as perguntas são colocadas para o grupo de pessoas e giram em torno de um tópico, a interação entre os entrevistados permite ao moderador explorar de modo mais aprofundado os temas propostos. De acordo com Barbour (2009), os grupos focais se baseiam em gerar e analisar a interação entre participantes, em vez de formular a mesma questão para cada integrante do grupo por vez, contando com a participação ativa do pesquisador para a condução da discussão do grupo. Considerando que, muito do conteúdo analítico dos grupos focais emerge da interação entre os membros, o pesquisador deve considerar o encadeamento da discussão como um dos aspectos mais importantes da execução do grupo.
Ao descrever as atribuições do moderador, Scrimshaw e Hurtado (1987, citados por Trad, 2009) listam uma série de ações, as quais o moderador deve atentar durante o desenvolvimento dos grupos: (a) introduzir a discussão e a manter acesa; (b) ressaltar para o grupo que não existem respostas certas ou erradas; (c) observar os participantes, encorajando
apalavra de cada um; (d) perceber as “dicas” de comunidade da própria discussão e fala dos participantes; (e) estabelecer relações com os informantes para aprofundar, individualmente, se necessário, respostas e comentários considerados relevantes pelo grupo ou pelo pesquisador; (f)estar atento às comunicações não-verbais e ao ritmo dos participantes, no tempo previsto para o debate.
A condução do grupo focal, como instrumento de coleta de informações de pesquisa, demanda do moderador habilidades específicas no controle de discussões em grupo. Sobre o papel do pesquisador na moderação do grupo, Gondim (2003) acrescenta que:
o moderador deum grupo focal assume uma posição de facilitador do processo de discussão, e sua ênfase está nos processos psicossociais que emergem, ou seja, no jogo de interinfluências da formação de opiniões sobre um determinado tema.(...) A unidade de análise do grupo focal, no entanto, é o próprio grupo. Se uma opinião é esboçada, mesmo não sendo compartilhada por todos, para efeito de análise e interpretação dos resultados, ela é referida como do grupo (p. 151).
Para Minayo (2000), o roteiro serve para orientar uma conversa com finalidade, devendo ser o facilitador de abertura, de ampliação e de aprofundamento da comunicação.
Deve ser “um guia, nunca um obstáculo, portanto não pode prever todas as situações e
condições de trabalho de campo” (p.100). De fato, após a realização do primeiro grupo foi possível avaliá-lo e adaptá-lo para melhor se adequar ao tempo e discurso dos jovens, abreviando e até deletando algumas questões, ou acrescentando outras.
Ainda que a dinâmica de um grupo focal seja estruturada em torno de um roteiro de discussão, por mais que sejam direcionadas ao foco do problema de investigação, as perguntas são sempre abertas, permitindo que os participantes escolham como expor suas percepções. Segundo Gondim (2003), a diretividade do moderador na condução do roteiro
garante o foco no tema, mas pode bloquear o surgimento de opiniões divergentes, as quais enriqueceriam o debate. A flexibilidade na execução promove a interação do moderador com os grupos, uma vez que cada um deles apresenta uma dinâmica distinta que exige maior ou menor diretividade do pesquisador. O moderador deve estar atento, pois a flexibilidade quando levada a extremo pode comprometer a análise comparativa das respostas dos diferentes grupos. O risco de que os participantes caiam em discussões que fujam ao tema é maior. Cabe ao moderador desenvolver uma sensibilidade para dirigir o grupo com o foco sobre os temas do estudo, sem restringir a possibilidade de expressão espontânea dos participantes.
Entendendo as especificidades do funcionamento e da condução dos grupos focais, partiu-se para a definição dos grupos que iriam participar e contribuir na construção das análises. Foram realizadas visitas a todos os locais onde, na época8, ocorriam as atividades do Projovem Adolescente no município de Natal. As visitas tiveram por objetivo entrevistar os coordenadores e profissionais dos núcleos de atendimento para conhecer e aprofundar o conhecimento acerca das ações realizadas nestes núcleos, bem como, informar aos profissionais sobre a realização da pesquisa e levantar as possibilidades do núcleo em prestar colaboração.
O município de Natal possuía, no momento em que foram realizados os grupos focais deste estudo, dez núcleos de atendimento do Projovem Adolescente, com capacidade total para atender até dois mil adolescentes, distribuídos nos núcleos em grupos de até 25 adolescentes, chamados coletivos. Os coletivos exercem papel fundamental na realização das ações socioeducativas propostas pelo PJA.
8
A presente pesquisa se deu em momento político conturbado da gestão municipal, situação que prejudicou a execução das atividades do Projovem Adolescente, atingindo o andamento deste estudo. Durante os anos de 2011 e 2012, alguns núcleos tiveram suas atividades suspendidas temporariamente, e outros definitivamente, em função de diversas questões como a falta de pagamento aos profissionais, o atraso nos aluguéis das casas, a falta de lanche para os adolescentes, entre outras.
Seguindo o delineamento do método de coleta de dados da pesquisa, para definir quais dos núcleos existentes poderiam ser contemplados como colaboradores da coleta dos dados, foi realizada uma investigação com os profissionais para saber quais apresentavam, naquele momento, condições de convidar o número necessário de adolescentes. Devido a diversas questões relativas à gestão das políticas públicas no município de Natal, alguns núcleos não estavam atendendo os jovens, ou estavam funcionando com carga horária reduzida, fato este que afastou muitos adolescentes das atividades. De tal modo, os núcleos em que foram realizados os grupos focais foram os locais que conseguiram contatar número suficiente de jovens que atendessem ao critério de inclusão.
O critério definido para a inclusão dos adolescentes nos grupos focais foi o tempo de participação nas atividades do PJA, sendo este tempo igual ou maior há um ano no Projovem. Os sujeitos que participaram dos grupos foram definidos por convocação, através de uma seleção intencional. Uma vez que, os participantes do grupo deveriam ter vivenciado todo o processo socioeducativo do PJA, para que pudessem se posicionar diante dos temas abordados na pesquisa, e colaborassem como verdadeiros coprodutores do estudo. Foram consultados os profissionais de cada núcleo, com o objetivo de realizar um levantamento do número de adolescentes, os quais atendiam o critério de inclusão de no mínimo um ano de participação nas ações do Projovem.
Para o desenvolvimento da coleta de dados, através da técnica dos grupos focais da forma mais adequada e envolvente, pensou-se em dois encontros com cada grupo. No primeiro encontro ocorreu grupo focal propriamente dito, com uma atividade inicial de preparação e a execução da discussão com base em um roteiro estruturado de questões sobre a temática. No segundo encontro foi feita uma retomada do debate realizado no primeiro encontro e realizada uma oficina de criação de um fanzine9, no sentido de sistematizar as
9
O fanzine, ou zine, é uma publicação de caráter alternativo que pode ser usada para um fim informativo, político ou de entretenimento. É resultado da iniciativa e esforço de pessoas que se propõem a veicular produções
discussões por meio de uma criação gráfica que se aproximasse da linguagem considerada adequada de comunicação para os jovens.
O presente estudo realizou um total de três grupos focais em diferentes núcleos do Projovem Adolescente do município de Natal, durante o período de abril a agosto de 2012. Os grupos tiveram duração de, em média,1 hora e 30 minutos, e ocorreram em salas nos próprios núcleos de atendimento do Projovem. Nem sempre as salas eram adequadas à realização do grupo focal, pois uma delas era muito apertada e outra era um local próximo à passagem de pessoas, o que provocou algumas dispersões e interrupções no andamento do debate.
No que diz respeito ao consentimento, o Projovem Adolescente do Município de Natal emitiu uma carta de anuência, autorizando a realização da pesquisa, bem como todos adolescentes foram autorizados por seus responsáveis legais para participar da pesquisa, a partir do preenchimento do Termo Consentimento Livre e Esclarecido.
No início de cada um dos primeiros encontros com cada grupo foi um cuidado da pesquisadora: a) apresentar a si mesma e a instituição universitária a qual se vincula, desligando nesse caso as possíveis relações da pesquisa com o trabalho da pesquisadora na SEMTAS; b) explicar as motivações que levaram à realização da pesquisa e à escolha dos colaboradores; c) garantir a segurança e o sigilo sobre os conteúdos debatidos, como também sobre seus autores; d) passar orientações sobre a dinâmica de trabalho, informando sobre o tempo de previsto, o respeito mútuo, as possibilidade de debates, e posição da pesquisadora agindo mais como mediadora; f) estabelecer um espaço de confiança e integração com os jovens.
Ainda durante o primeiro encontro foi proposta a realização de uma atividade inicial para a preparação do grupo. A atividade tinha por objetivo funcionar como estímulo, com a função de incitar as discussões a respeito do assunto. Pensou-se em um momento de reflexão
artísticas, que possam ser reproduzidas e enviadas a outras pessoas, fora das estruturas comerciais de produção cultural.
individual no qual os adolescentes foram convidados a refletir e a se expressar em um papel, seja por meio de desenho ou através de uma breve redação sobre duas questões: como foi/tem sido a sua participação no PJA?;e como cada um de vocês imagina suas vidas no futuro? O objetivo da técnica, neste caso, é documentar algumas opiniões pessoais sem a influência do grupo e preparar os participantes para o momento de discussão.
Além dessa técnica, foi elaborado um roteiro (em apêndice) para guiar a realização dos grupos, contendo seis questões abertas que tratam de explorar a temática da pesquisa. Optou- se por questões norteadoras mais abrangentes, que pudessem dar margem a colocações espontâneas e surgimento de outros temas. As perguntas foram focadas nas relações pessoais, sentimentos sobre sua própria participação no PJA e suas possibilidades para a construção de relações sobre a juventude, suas questões, seus projetos de vida. Essas, por sua vez, possibilitaram abordar conteúdos específicos acerca das ações públicas para a juventude, educação, trabalho e formação profissional. Assim, as questões norteadoras buscaram abordar:
a) as concepções de adolescência e juventude dos grupos;
b) as opiniões dos adolescentes sobre a participação no programa;
c) o nível de participação no planejamento, realização e avaliação das ações;
d) os elementos que eles consideram que podem ser atribuídos aos jovens que participaram do Projovem;
e) as concepções e significados do mundo do trabalho;
f) e a contribuição que a participação no Projovem traz à vida deles, bem como os projetos de vida após o término dessa participação.
Nos segundos encontros com cada grupo, por sua vez, foi proposto aos participantes a construção de um fanzine que sintetizasse as discussões do encontro anterior e que expressasse as suas perspectivas sobre o Projovem, numa linguagem clara e acessível a outros
jovens. Os fanzines foram produzidos, através da sugestão de que os adolescentes registrassem as próprias aventuras/aprendizados na vivência das ações socioeducativas do Projovem Adolescente, por meio de textos, recortes, colagens, desenhos, fotografias, etc.
De posse do material produzido nos grupos, qual seja, os textos da atividade inicial e os fanzines, mas principalmente o conteúdo oral produzido nos grupos, avançou-se no tratamento dos dados, através da transcrição literal e integral dos vídeos registrados nos três grupos, transcrição esta imprescindível para a realização das análises que se seguiram.