3 ) AHMED VEFİK PAŞA, SÜLEYMAN PAŞA VE ŞEMSEDDİN SAMİ'NİN TARİHÇİLİGİMİZE KATKILAR
A) SULTAN II ABDÜLHAMİD DÖNEMİNE (1876-1908) GENEL BAKIŞ
A presença da música como componente curricular na escola brasileira é marcada por várias mudanças e transformações que ao longo da história dificultaram a consolidação do ensino-aprendizagem de música nesse contexto. Se comparada às outras disciplinas, a música e as artes em geral apresentam em seu percurso histórico dentro do contexto educacional,
mudanças que muitas vezes impediram que se estabelecessem de forma efetiva. Sacristán (2000 p. 61), fala dos diferentes valores atribuídos aos conteúdos e disciplinas do currículo escolar estabelecidos de diferentes maneiras de acordo com as “valorizações sociais diversas” que diferenciam áreas e disciplinas como fundamentais e secundárias, priorizando geralmente áreas das ciências e matemática e secundarizando áreas como a das experiências estéticas e manuais. Observando o no nosso contexto brasileiro, percebe-se que, muitas vezes a presença da música como componente curricular na escola também é secundarizada e desvalorizada em detrimento de disciplinas consideradas mais importantes.
Como reflexo de uma cultura consumista e utilitarista na qual se dá demasiado valor a um conhecimento que tenha utilidades práticas ou sirva para passar em concursos com boa remuneração, essa tendência é evidenciada pelo maior incentivo da parte de órgãos públicos e privados para as áreas tecnológicas. Aliado ao fato de que muitas vezes, a disciplina de música e de artes ainda é vista pelo senso comum como uma disciplina de menor valor pois “não cai no vestibular ou em grande parte dos concursos públicos”. Sendo assim, a música como disciplina escolar muitas vezes é colocada em “segundo plano” pois seus benefícios são por vezes subjetivos e não demonstram uma utilidade prática ou financeira.
Essa “desvalorização” do senso comum pode ser fortalecida pelas ambiguidades da legislação referente ao ensino de música na escola brasileira e pela forma como esse ensino foi operacionalizado, gerando uma certa inconstância da presença dessa linguagem artística como um componente curricular. Essa falta de clareza histórica produziu dúvidas acerca de definições dos objetivos, métodos, conteúdos, currículos, e operacionalização, que são aspectos fundamentais para o estabelecimento da música como um componente curricular.
Ao longo da história, várias iniciativas foram tomadas através de diversos documentos oficiais que regulamentaram o ensino da Arte e da Música na escola. Alguns desses documentos, redigidos e determinados pelos poderes públicos, tratam da organização e de reformas do sistema educacional como um todo com impacto direto no ensino de arte/música na escola brasileira. Não há como analisar o histórico e a legislação para o ensino de música na escola de forma isolada das reformas educacionais e da legislação para o ensino de arte. Segundo Maura Penna:
A legislação educacional estabelece, há mais de trinta anos, um espaço para a arte, em suas diversas linguagens, nas escolas regulares de educação básica. No entanto esta presença da arte no currículo escolar tem sido marcada por indefinições, ambiguidade e multiplicidade. (PENNA, 2008, p. 120)
música na escola de forma mais completa e aprofundada. Baseados em alguns desses estudos: Fonterrada (2008); Queiroz (2012); Penna (2008); Quadros e Quiles (2012); Souza et al. (2002) elaborei um quadro com a sequência cronológica de documentos oficias de maior relevância e abrangência no contexto educacional brasileiro, com o intuito de apresentar uma visão histórica panorâmica dessa trajetória. Organizei o quadro por períodos da história do Brasil: Império (1822-1889); República velha (1889-1930); Era Vargas (1930-1945); República nova (1945- 1964); Regime militar (1964-1985); Nova república (1985-presente). No quadro, destaco aspectos importantes de cada documento como: nomenclatura, as definições que tal documento determinavam e as principais características.
Quadro 3: Documentos oficias que tratam da Arte/Música na Educação Básica brasileira. Período/
Ano
Nomenclatura Definições Principais características
Impé
rio
1854 Decreto n°1.331 Institui o ensino de música nas
escolas do Município da corte (Rio de Janeiro)
Divisão da disciplina em: “noções de música” e “exercícios de canto”. R epubli ca ve lha 1890 Decreto n° 981 “Reforma Benjamim Constant”
Pontua conteúdos de música para o ensino primário e secundário;
Professor específico de música.
Conteúdos baseados na música erudita, solfejos e leitura e escrita musical.
Er a Va rga s 1931 Decreto n° 19.890 “Reforma Francisco Campos”
Marca o retorno da música ao ensino secundário;
Três primeiros anos do curso fundamental.
Foco na prática do canto orfeônico;
Fundação da
Superintendência de
Educação Musical e Artística (SEMA)
1934 Decreto n° 24.794 Determina o ensino do canto orfeônico para todos os estabelecimentos dependentes do Ministério da Educação e da Saúde.
Criação do Curso Normal de Canto Orfeônico.
Canto orfeônico como meio de “formação moral e
intelectual” e de
desenvolvimento do
“sentimento patriótico do povo”
1942 Decreto n° 4.993 Criação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico; Tem abrangência nacional.
Formação de profissionais para atuação com o canto orfeônico.
Repu b lica no va populi sta 1946 “Leis orgânicas” Decreto-Lei n° 8.529 Mantem a obrigatoriedade do canto orfeônico para o ensino primário.
Ensino primário (7 a 12 ano) e ensino supletivo (adolescentes e adultos)
1946 Decreto-Lei n° 8.530
Ensino Normal (Formação de docentes para as escolas primárias);
Dividido em: Regente de primário e professor de primário.
Música presente em todas as séries do Ensino Normal nas disciplinas de “canto orfeônico” e “música e canto” 1946 Decreto-Lei n°
9.494
Curso de especialização para ministrar a disciplina de canto orfeônico.
Cursos de preparação e cursos de músico-artífice.
Curso com duração de 2 anos realizados nos conservatórios de canto orfeônico em vários lugares do país.
1961 Decreto n° 51.215 Normas para a educação musical nos jardins de infância, escolas pré-primárias, primárias, secundárias e normais
Abrangência nacional;
Música presente em todas as séries; Fornecimento de matérias bibliográficos e instrumentos musicais. 1961 Lei: 4.024 1ª Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Generaliza o ensino de artes como “atividade complementar de iniciação artística;
Abrange todos os níveis de ensino.
Muitas vezes é confundida como a lei que substituiu o canto orfeônico pela educação musical;
Primeira Lei de alcance nacional. R egim e mi li tar
1971 Lei: 5692/71 Estabelece a Educação Artística como obrigatória;
Voltada para o ensino de 1° e 2° grau, altera determinações da LDB de 1961.
Ensino de arte polivalente, contemplando Artes Plásticas, Música e Artes Cênicas. Oferecimento do ensino público gratuito por 8 anos. 1973 Parecer CFE n°
1284/73
Resolução CFE n° 23/73
Institui o curso de Licenciatura em Educação Artística;
Estabelece normas para este curso.
Licenciatura de 1° grau (curta) e licenciatura plena com habilitação em Artes Cênicas, Artes Plásticas, Música e Desenho.
1977 Parecer CFE n° 540/77
Trata da prática da Educação Artística na escola centrada em aspectos subjetivos;
Menciona a Música entre as linguagens artísticas.
Comenta que o ensino da música limitado ao canto e a teoria musical não atendem as expectativas do novo contexto da Educação Artística.
Nova
R
epúbli
ca
1996 LDB 9.394/ 96 Definições sobre organização e diversos aspectos em todos os níveis da Educação Básica; “Ensino de Arte” como componente curricular obrigatório nos diversos níveis da Educação Básica.
Continua garantindo o espaço das artes na escola de forma ambígua e aberta a diversas interpretações. 1997 1998 1999 Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)
Orientações curriculares para as diversas áreas de conhecimento presentes na Educação Básica; Não têm caráter obrigatório; Divididos por níveis de ensino: Educação Infantil (RCNEI), Ensino Fundamental (PCN) E Ensino médio (PCN).
Aborda objetivos e conteúdos, critérios e orientações de avaliação e orientações didáticas;
A Arte está presente nos documentos de todos os Níveis de Ensino através das diversas linguagens: Teatro, Artes Visuais, Música e Dança. 2004 Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Música. Transformação das licenciaturas plenas em Educação artística com habilitação em música para a licenciatura em música.
Formação específica que contribui para uma abordagem mais aprofundada dos objetivos e conteúdos.
2008 Lei 11.769/08 A música como conteúdo obrigatório, mas não exclusivo do “Ensino de Arte”.
Conquista da área de música ainda em fase de implantação e consolidação;
Cada sistema educacional 2016 Diretrizes nacionais para a operacionalização do ensino de música na Educação Básica Orientações às instituições educacionais quanto a operacionalização do ensino de música na Educação Básica.
Homologada dia 05 de maio de 2016.
Fonte: O autor (2015)
Ao observar o quadro apresentado acima, percebe-se que a presença da música na escola, nos diversos períodos da história do Brasil, foi amparada por documentos oficiais que regulamentaram as práticas do ensino de artes e música. No entanto, tantas mudanças causaram “ambiguidades” que dificultaram e dificultam até os dias atuais, o estabelecimento da música como uma disciplina obrigatória no contexto escolar. Dos anos 1930 à aproximadamente os anos 1960, o ensino de música esteve presente na escola em todas as séries do nível de ensino correspondente ao que atualmente é chamado de Educação Básica, através do canto orfeônico de forma muito massiva, mas foi perdendo força a partir de 1961 com as definições da 1ª Lei de Diretrizes e Bases n° 4.024/61 e principalmente em 1971 com a Lei 5692/71 que estabelece
o ensino de arte de forma polivalente denominada de “Educação Artística”.
Diferentemente dos cursos de formação docente do canto orfeônico, que tinham duração de dois anos e eram realizados no conservatório de canto orfeônico, no qual os professores eram formados para ministrar uma disciplina especifica, os cursos de licenciatura curta e plena em educação artística com habilitação em uma linguagem artística proporcionavam uma formação superficial para o professor. Os resultados dessa polivalência para o ensino de música na escola foram evidenciados pelas autoras Souza et al. (2002, p.20), em um passado recente ao afirmarem que:
A situação da aula de música nas escolas brasileiras tem sido frequentemente descrita como catastrófica, quando não, ausente. Desde a implementação, em 1971, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei n° 5692/71), fala-se no desaparecimento da aula de música nas escolas regulares. Quase não existiria mais a aula de música e, consequentemente, o professor de música com habilitação específica.
As mudanças para essa situação começam a acontecer no ano de 2004 com as Diretrizes Nacionais do Curso de Graduação em Música (BRASIL, 2004) que estabelece a licenciatura específica em música. A nova licenciatura em música, curso no qual eu fui formado na UFRN, tem duração de oito semestres e abrange disciplinas pedagógicas, linguagem e estruturação musical, práticas de ensino de música, prática instrumental dentre outras com o objetivo de proporcionar uma formação pedagógico-musical muita mais consistente e aprofundada. Os egressos desse curso poderão atuar em diversos contextos do ensino-aprendizagem musical como ONGs, escolas de música especializadas e poderão ser um grande diferencial para a transformação do ensino de música na Educação Básica.
A LDB após passar por diversas transformações relacionadas ao ensino de artes, em 2008 o ensino de música na escola brasileira é oficialmente regulamentado através da Lei 11.769/08 que altera o artigo 26da LDB definindo a música como “conteúdo obrigatório, mas não exclusivo” do componente Arte (BRASIL, 2008). A referida Lei foi o resultado de articulações de diversas instituições e associações de músicos, educadores e pesquisadores que através de ações impulsionaram a elaboração e aprovação da mesma, alcançando uma grande conquista para a área. No entanto, o caminho para a consolidação e implementação efetiva dessa Lei é lento, e carece de adequações e adaptações tendo em vista a pluralidade sociocultural do nosso país, a autonomia dos municípios na construção dos currículos, a falta de professores formados, dentre outras questões. Por esses e outros motivos, é preciso atentar para o fato de que a Lei, por si só, não basta, pois,
O fato de perspectivas para o ensino de música na escola estarem inseridas em documentos oficiais da legislação nacional desde, pelo menos, 1854, evidenciam que definições de leis, decretos e outros documentos normativos não são suficientes para uma implementação da educação musical na escola como componente curricular. Se assim o fosse, já teríamos no Brasil, desde muito tempo, uma legitimação da música nos currículos escolares. Esse indicativo é um importante elemento para refletirmos acerca da inserção da música na escola, principalmente a partir das definições da LDB estabelecidas pela Lei 11.769/2008. QUEIROZ (2012, p. 34)
Para a efetiva implementação da dessa Lei, se faz necessário diversas iniciativas acadêmicas, sociais e políticas que objetivem a implementação da música como componente curricular de forma democrática (MENDES; CARVALHO, 2012). Mesmo sabendo que entre a aprovação de uma Lei e sua implementação na prática há uma grande distância, principalmente na realidade brasileira, na atualidade, aspectos como a produção de materiais didáticos, articulações de associações, intervenções políticas, pesquisas, dentre outras ações, são realizadas com o intuito de ajudar a fortalecer as justificativas para a presença da música na escola e quebrar esse paradigma estabelecido pelo senso comum e por essas indefinições causadas por tantas mudanças na legislação.
Como exemplo dessas ações, foram elaboradas as Diretrizes Nacionais para a operacionalização do ensino de Música na Educação Básica (BRASIL/CNE, 2013) pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em ação conjunta com diversos órgãos, universidades e associações através de eventos como simpósios, audiências públicas e reuniões técnicas. O documento que se encontra em espera para homologação, objetiva
[...]orientar as escolas, as Secretarias de Educação, as instituições formadoras de profissionais e docentes de música, o Ministério da Educação e os Conselhos de Educação para a operacionalização do ensino de Música na Educação Básica, conforme definido pela Lei n° 11.769/2008, em suas diversas etapas e modalidades. (BRASIL, 2013, p. 9)
A elaboração e a possível homologação desse documento serão mais um elemento de fortalecimento para a implementação do ensino de Música na Educação Básica.
A realização do Encontro do Fórum permanente de ensino de música nas escolas de educação básica, promovido pela ABEM que em 2014 aconteceu na cidade de Recife, e em 2015 na cidade de Macapá, objetivando discutir conteúdos, métodos, currículos e concepções sobre o ensino de música na educação básica é mais um exemplo dessas iniciativas em prol do desenvolvimento do ensino de Música na Educação Básica.
Apesar dos desafios e das dificuldades para o desenvolvimento da educação percebe-se diversos avanços com relação a implementação do ensino de música na escola. Alguns Estados
e Municípios já abriram editais com vagas especificas para professores licenciados em música que atuarão na educação básica, como é o caso dos municípios de Natal/RN e João Pessoa/PB. Apresentei acima um cronograma dos documentos oficiais que trataram do ensino de Arte/Música na educação básica destacando as definições contidas em cada um e suas principais características. Atualmente a LDB 9.394/96 e a Lei 11.769/08 são os documentos que tratam do ensino de música na Educação Básica que estão em vigência. No tópico seguinte, farei uma análise mais aprofundada das definições relacionadas ao ensino de arte/música contidas nesses documentos, com o objetivo de fundamentar as discussões e análises a respeito do tema central dessa pesquisa: a Pedagogia de Projetos como metodologia para o ensino de música na escola.