O sítio urbano da cidade de Primeiro de Maio (Figura 88), margem esquerda do rio Paranapanema, está assentado numa península do grande Lago de Capivara na Foz do Rio Tibagi, tendo uma Estação de Tratamento de Esgotos que atinge a maioria das residências a não ser em áreas onde aparecem ranchos com acesso ao lago.
Figura 88 - Vista aérea de Primeiro de Maio junto à jusante do Rio Tibagi no Lago de Capivara. / Fonte: Prefeitura de Primeiro de Maio.
Na região ao norte de Primeiro de Maio, em sentido a Paranatur, a Empresa Duke Energy que se tornou proprietária do Sistema de Geração do Paranapanema,
promoveu o reflorestamento com espécies nativas em faixas de 100 metros das APP, do limite de inundação ou cota de inundação do reservatório de Capivara.
Foi verificada a reposição da mata ciliar apenas em trechos distantes da área urbana de Primeiro de Maio e, à medida que se toma a direção do Paranapanema, a reposição não foi contemplada, e os processos erosivos são mais observados (Figura 89).
Figura 89 - Ponte de ligação de Primeiro de Maio a Sertanopolis, Paraná. Fonte: Fonte: Prefeitura de Primeiro de Maio.
Junto à área urbana de Primeiro de Maio, vários bairros na zona sul e zona norte tem o contato direto com córregos, que com a formação do reservatório de Capivara e da expansão urbana praticamente ocupam a mesma área. Foi observado que estes bairros surgiram após o enchimento do lago de Capivara em 1977, quando não haviam ainda sido regulamentadas normas do CONAMA em relação à ocupação dos limites de 30 metros a 100 metros da cota máxima de inundação do mesmo.
Todas estas transformações ocorreram numa época de transição da implantação de uma efetiva Legislação sobre a implantação de reservatórios no Brasil, de tal forma, que o Reservatório de Capivara não contemplou ações efetivas de estudos para a mitigação dos impactos ambientais em suas margens e também nas áreas das sub-bacias nas margens do Rio Paranapanema, como na região do baixo curso do Rio Tibagi, onde está localizada a cidade de Primeiro de Maio.
Os moradores destes bairros alegam que adquiriram os lotes regularmente por processo de compra e tem o cadastro urbano, pagando inclusive os Impostos Municipais, ou IPTU. Afirmaram em entrevistas a campo, que não foram
comunicados quando da compra dos mesmos, nem pelos loteadores nem mesmo pela Prefeitura local, de tal forma que as construções dentro do Plano Diretor constam como legais.
Foram feitas ruas (Figura 90) dentro das áreas de APP em áreas de várzeas e sujeitas ao enchimento da cota máxima do reservatório de Capivara, locais, segundo observado, com a presença da criação de animais, bovinos e suínos, além dos próprios animais nativos como capivaras, catetos, que se abrigam em capões de arbustos e matas que restam nestas áreas. As regiões são também acesso de barcos de pesca por parte de loteamentos implantados nas penínsulas que dão acesso as águas do reservatório.
Figura 90 – Rua em área de APP em Primeiro de Maio, PR. Foto: Ciciliato, RN, 2014.
Como não foi implantado o PACUERA no reservatório de Capivara, o Plano Diretor da Cidade apesar de contemplar a proteção das APPs, não disciplinou a ocupação irregular das áreas urbanas nas margens do lago e de suas áreas sujeitas à cota máxima de inundação.
A interação mais específica do PACUERA se dá diretamente com os Planos Diretores dos municípios (TOYAMA, 2012) quanto às restrições para o uso e ocupação do solo tanto na área sob concessão do reservatório, quanto nas áreas adjacentes a este; e vice e versa. Ou seja, ambos devem estar em sintonia quanto às regras e restrições para os usos e ocupações possíveis no entorno do reservatório.
Segundo a Empresa concessionária Duke Energy (ECOURBE, 2002), a gestão sócio patrimonial de reservatórios é uma atividade complexa dentro do processo de geração de energia hidrelétrica de grandes barragens. Isso se deve, entre outros, a três fatores principais: grande número de variáveis a serem geridas
decorrentes dos diversos usos e ocupações existentes; evolução da legislação ambiental incidente, ao longo da existência de reservatórios implantados anteriormente a essa legislação; e articulação com diferentes órgãos de licenciamento e fiscalização ambiental, prefeituras municipais e usuários e agentes envolvidos na gestão dos recursos hídricos.
Como principais desafios pode-se destacar: a regularização das ocupações indevidas nas áreas de propriedade sob concessões localizadas no entorno dos reservatórios, e a conscientização da população para o uso ordenado das margens e das suas águas, de forma a não comprometer a qualidade da água dos reservatórios, a capacidade de geração de energia das usinas hidrelétricas, a biodiversidade e a conservação ambiental.
A Duke Energy tem adotado algumas estratégias de atuação para maior efetividade de suas ações: segmentação de usuários em decorrência da legislação específica para cada atividade; inspeções e monitoramento do uso e ocupação dos reservatórios; articulação institucional e com a comunidade; articulação entre planos de gestão territorial e planos de gestão de recursos hídricos; a conservação e proteção de áreas de preservação permanente; e desmobilização de estruturas em áreas sob concessão.
A articulação entre a concessionária de Energia, o Ministério Público, os Órgãos Ambientais e os municípios lindeiros ao reservatório são fundamentais para a solução dos litígios e ocupações irregulares verificados durante estes quarenta anos desde a formação do reservatório de Capivara.
A articulação dos Planos Diretores Municipais destes municípios lindeiros, deverão contemplar as ações do PACUERA (Plano de Plano Ambiental de Conservação e Uso do Entorno do Reservatório Artificial) através dos planos de gestão territorial e planos de gestão de recursos hídricos já existentes, tanto na bacia do rio Tibagi, como na bacia do rio Paranapanema (ECOURBE, 2002).
Cabe aos municípios lindeiros ao reservatório de Capivara, como Primeiro de Maio, Alvorada do Sul, Gardênia, regularizarem as diversas situações listadas, e também tomar ações jurídicas para promover o realocamento das populações que tem propriedades em áreas de APPs, dados os riscos ambientais e de saúde existentes nestas áreas.
Como o perímetro do reservatório da UHE Capivara tem 1550 km de extensão (DUKE ENERGY, 2013), a implementação de seu PACUERA exigirá uma
articulação direta entre todos agentes envolvidos, os diferentes órgãos de licenciamento e fiscalização ambiental, os Planos Diretores Municipais, Planos de Bacia Hidrográfica, Plano Estadual de Recursos Hídricos e o Plano Nacional de Recursos Hídricos), prefeituras municipais e usuários e agentes envolvidos na gestão territorial e na gestão dos recursos hídricos.
Esta articulação conta com a participação direta CBH Paranapanema que após sua instalação possibilitou o intercâmbio entre os agentes da bacia do rio Tibagi e rio Paranapanema, através de reuniões temáticas e fóruns de articulação de ações conjuntas para a regularização de passivos ambientais já existentes (ECOURBE, 2002).
A gestão compartilhada dos recursos hídricos da Bacia do Paranapanema entre os dois estados, São Paulo e Paraná, como também as boas intenções e ações da concessionária de energia Duke Energy, já está promovendo ações do ministério Público, para que a regularização fundiária e urbana no perímetro do reservatório de Capivara sirva de modelo para outros empreendimentos existentes no Brasil, que ainda não programaram o PACUERA.
A interação do PACUERA e os Planos de Bacias no nível da calha principal e das bacias afluentes se dará diretamente através do alinhamento das políticas e estratégias quanto à manutenção da qualidade e quantidade dos recursos hídricos da bacia do rio Paranapanema e do reservatório de Capivara, visando à otimização do uso múltiplo do reservatório para mais de quatro milhões de habitantes, que dependem diretamente das águas deste reservatório de localização estratégica.
Outra questão que precisa ser trabalhada na área é a relativa aos embarcadouros. A PARANATUR, Empreendimento Estadual implantado às margens do Rio Tibagi, construiu um “píer” (Figura 91) para o acesso dos turistas, inclusive com a colocação de areia, formando uma extensa praia.
A inexistência de sistemas de contenção acelerou os processos erosivos, onde já é possível verificar a exposição direta do latossolo vermelho com as águas do Tibagi.