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QUÊNIA RUANDA- -URUNDI TANGANYIKA ZANZIBAR (G.B.) ANGOLA KATANGA RODÉSIA DO SUL RODÉSIA DO NORTE MO ÇA MB IQU E TRANSVAAL SUAZILÂNDIA BASUTOLÂNDIA PROVÍNCIA DO CABO (Dominada pela UNIÃO SUL- -AFRICANA) UNIÃO SUL-AFRICANA COMORES (França) MA DA GA SC AR (Fra nça) MAURÍCIO (G.B.) REUNIÃO (França)

Cabo da Boa Esperança

Libreville Campala Léopoldville Brazzaville Luanda Mogadíscio Nairóbi Dar es-Salaam Elisabethville Antananarivo Lusaka Zomba N IA S SA L ÂN D IA Salisbúria Vinduque Gaborone BECHUANALÂNDIA

Joanesburgo Lourenço Marques

Cidade do Cabo 0 500 1 000 milhas 0 800 1 600 km ÁF RIC A E QU AT OR IAL FR AN CE SA SEICHELES (G.B.) CAMARÕES FRANCÊS

figura 1.1 Mapa político da África em 1935. (Fonte: segundo J. Bartholomew, The citizen’s Atlas of the world, Edimburgo, Batholomew and Son Ltd., 1935, pág. 122 -123.)

Nota: entre 1932 e 1947, o Alto -Volta encontrava -se dividido entre o Sudão francês, a Costa do Marfim e a Nigéria. Nessa época, Ouagadougou não era a capital.

frente às antigas potências coloniais: em outros termos, o combate contra o neocolonialismo.

Na fase pós -colonial, os processos de sucessão política no interior dos Esta- dos africanos revestem -se de uma particular importância. Observou -se a ocor- rência em alguns casos de sucessão póstuma natural, isto é, sucessão após um falecimento natural. Dessa forma, Moi sucedeu Kenyatta e Chadli Bendjedid sucedeu Boumediene.

Sucessões também aconteceram após um assassinato, uma morte política ou um “acidente” duvidoso. Na ocasião em que al -Hadji Shehu Shagari chegou ao poder em 1979, três dentre os seis chefes de governo na Nigéria haviam sido mortos desde a independência, ou seja, uma taxa de “regicídio” de 50%. Entretanto, desde Shagari, a taxa de regicídio baixou na Nigéria, pois nenhum presidente foi assassinado nesse país nos anos 80.

Os casos, porém, de sucessão política resultantes de um golpe militar de Estado foram, de longe, os mais frequentes. Acima de setenta golpes de Estado ocorreram no continente desde a independência, em sua maioria ao norte da linha do equador. É necessário aqui acrescentar as sucessões consecutivas a um golpe civil de Estado (um governo civil sucedendo outro governo civil). Assim, na Uganda, Obote logrou uma revolução palaciana destituindo em 1966 o pre- sidente, o rei Mutesa, e Lule sucedeu Binaisa, em 1979, após outro golpe civil de Estado.

Certas sucessões produziram -se como consequência de uma verdadeira

guerra. Assim se deu a ascensão ao poder de Lule, depois da guerra entre Esta- dos que opôs Tanzânia e Uganda, em 1978 -1979. Sucessões também ocorreram

após uma guerra civil: a tomada de poder pelas tropas de Museveni, na Uganda, depois de Obote e Okello, apresenta -se como o melhor exemplo.

A insurreição popular igualmente desempenhou seu papel nesses proces- sos. O caso do Sudão é excepcional a esse respeito. Em 1964, uma insurreição conduzida por civis provocou nesse país o desmoronamento do regime militar do general Aboud e, em 1985, uma insurreição democrática de mesmo tipo lá também derrubou o regime de Nimayrï, obrigando os militares a prometer o retorno à democracia em um prazo de um ano. A promessa foi cumprida, mas o governo civil não durou.

Casos de passagem voluntária de poder dos militares aos civis também acon- teceram: o general Obasanjo em 1979, na Nigéria, e o capitão Jerry Rawlings, em Gana, demitiram -se assim em favor de civis (por pouco tempo nesse último país).

Quanto à sucessão assegurada por eleições, a esse respeito, Maurice talvez constitua o único exemplo na África. No decorrer do período da história afri-

cana aqui considerado, os casos de substituição de um governo após um fracasso eleitoral foram raríssimos. Os capítulos que tratam dessa questão, especialmente os capítulos 15 e 16, analisam alguns dos fatores que contribuem à volatilidade das instituições na África pós -colonial.

No entanto, observaram -se muitos casos históricos de sucessão política advin- dos após uma demissão ou uma retirada voluntária. O exemplo mais nítido de retirada política completa é, até hoje, aquele do presidente do Senegal, Léopold Sédar Senghor. Em 1985, Julius K. Nyerere, também ele, ofereceu o exemplo de renúncia ao mais alto posto de Estado; todavia, durante certo tempo, ele não pôde resolver abandonar seu papel no seio do partido nacional, o Chama Cha Mapinduzi (CCM). Igualmente ambivalente foi a “retirada” realizada de forma ostensiva por Ahmadou Ahidjo, alguns anos antes, na República Unida de Camarões.

Nos capítulos relativos às crises políticas da África, esperamos mostrar que, no cerne dessas crises, reside especialmente a questão de saber como dar às nossas nações uma maior coesão cultural e como conferir aos nossos Estados uma maior legitimidade política, bem como uma autoridade acrescida. A África do período aqui tratado é aquela que recebeu em partilha: fronteiras artificiais, exércitos mal treinados e uma situação econômica de extrema dependência. Nos capítulos consagrados à política e à economia são examinadas algumas dentre as crises acima evocadas, inclusive do ponto de vista das questões cruciais que

os direitos humanos engendram na África pós -colonial.

Entretanto, dado o caráter particular do século XX, século em que, pela pri- meira vez no curso da aventura humana, a economia e a política adquiriram uma dimensão verdadeiramente global, universal, a história da África contemporânea não pode ser compreendida plenamente senão quando inserida no contexto mais amplo da história mundial. O que se extrai da história do período observado consiste, por um lado, na maneira pela qual a África ajudou a Europa a se reu- manizar e, por outro lado, os meios pelos quais a Europa contribuiu para a rea- fricanização da África. A história da descolonização no século XX constitui -se num dos grandes dramas da história da humanidade, tomada em seu conjunto. Esse processo colocou em jogo excepcionais contradições4.

4 Nós definimos a “descolonização” como o processo pelo qual o regime colonial atinge seu fim, as insti- tuições coloniais são desmanteladas e os valores, bem como as modalidades coloniais, são abandonados. Teoricamente, a iniciativa da descolonização pode ser tomada, seja pela potência imperialista, seja pelo povo colonizado. Na realidade, a verdadeira descolonização é geralmente imposta pela entrada dos oprimidos em luta.

Os anos decorridos desde 1935 constituem, em particular, um período da história durante o qual o mundo ocidental relembrou aos africanos, involuntaria- mente, a sua identidade pan -africana. Nós sabemos que a identidade nigeriana,

queniana ou marfinense não teria existido sem o colonialismo europeu. A Europa

é, por conseguinte, a mãe ilegítima da consciência nacional dos nigerianos, que- nianos e marfinenses; mas poderíamos nós igualmente dizer que o imperialismo ocidental é o pai ilegítimo da consciência pan -africana? Este volume também aborda o aparecimento dessas novas identidades e dessas novas aspirações junto aos povos africanos.

Se, na África, a consciência de classe resulta, parcialmente, da intensificação do capitalismo, a intensificação do imperialismo já suscitou em parte, nesse continente, uma consciência de raça. Da mesma forma que a exploração capi- talista ajuda os trabalhadores a melhor tomarem coletivamente consciência de si mesmos enquanto trabalhadores, igualmente, o imperialismo europeu contri- buiu, com o passar do tempo, a tornar os africanos colonizados coletivamente mais conscientes de si mesmos, enquanto povo colonizado. É nesse sentido que o imperialismo europeu contribuiu, por exemplo, para que o país Kikuyu reconhecesse nos yoruba como seus “irmãos africanos” e contribuiu para que o povo da Argélia reconhecesse os zulu como compatriotas, em escala continental.

É claro que os africanos, em suas próprias sociedades e sub -regiões, não necessitaram de ajuda da Europa para conhecer e experimentar, desde muito tempo, a dignidade de sua identidade própria de Kikuyu, de Amhara, de Yoruba, de Berberes, de Zulu ou de Árabes magrebinos. Contudo, quando em seu livro

Filosofia da Revolução, Gamal ‘Abd al -Nasser convocou os egípcios a se lembra-

rem que eles não eram somente Árabes e muçulmanos mas, também, Africanos, se referia explicitamente à experiência de luta compartilhada por todo conti- nente contra uma dominação estrangeira. O imperialismo europeu provocou o despertar de uma consciência continental.

A casa imperial da Etiópia foi relativamente lenta em reconhecer seu país como país africano. Por muito tempo, os soberanos etíopes preferiram considerar -se como pertencentes ao Oriente Médio e não à África. Entretanto, ocorre em 1935, ano de referência inicial para o presente volume, a humilha- ção e a ocupação da Etiópia pela Itália, ato de consequências particularmente dramáticas. O restante da África e todo o mundo negro vibraram de dor pelos acontecimentos. As consequências desse evento serão estudadas em detalhe em vários capítulos.

Esqueceu -se às vezes que, a partir de 1935, a Etiópia descobriu -se, ela pró- pria, como realmente participante da condição africana. De um lado, pelo anún-

figura 1.2 Diante da Sociedade das Nações, o imperador Hailé Selassié eleva -se contra a agressão da Etiópia pela Itália. (Fonte: Museu do Palácio das Nações, Genebra. Foto: L. Bianco.)

cio da nova invasão italiana, vemos Kwame Nkrumah, ainda jovem, percorrendo a largos passos as ruas de Londres, sem poder reprimir suas lágrimas de cólera. A triste notícia tornou -se, naquele dia, um estímulo suplementar para a conso- lidação de uma identidade pan -africana junto ao jovem Nkrumah.

Por outro lado, porém, o imperador Haïlé Sélassié mergulhou em uma expe- riência similar àquela que havia sido imposta a outros soberanos africanos, trinta ou cinquenta anos antes: a ocupação direta de seu território e a submissão de seu povo pelos europeus. O imperador foi também testemunha da amplitude do apoio manifesto pelos africanos e negros ao seu povo e a ele próprio, perante o desafio imposto pela Itália. Assim nasceu uma nova consciência racial na casa real da Etiópia, sob o efeito do choque produzido pela descoberta de si mesma, enquanto dinastia africana reinando sobre um povo africano. Em seguida, Haïlé Sélassié iria tornar -se um dos pais fundadores do pan -africanismo pós -colonial e, sob muitos aspectos, seu mais eminente representante. Assim, uma vez mais, os excessos da Europa imperial prepararam o caminho a algo diferentemente positivo, o esplendor de uma nova identidade pan -africana cresceu sobre a sór- dida miséria do racismo europeu. Este trata da transição decisiva entre a igno-

mínia dos excessos dos europeus e o esplendor da descoberta da África por ela mesma.

Mas qual foi o efeito inverso, aquele que a África produziu sobre o Ocidente? Ao combater pela sua própria independência, a África contribuiu também para modificar o curso da história europeia e, inclusive, mundial. Evidentemente, o presente volume coloca ênfase sobre os fatos históricos que se produziram no interior do próprio continente mas, tendo em vista que no decorrer desse período a África foi incorporada e participou mais estreitamente do que nunca do sistema mundial, é importante lembrar que ela não era simplesmente um continente passivo submetido às ações dos demais. As próprias ações da África igualmente contribuíram para transformar os destinos de outros. Se é verdade que a África foi, enquanto continente, submetida pela Europa, pelo conflito que a forçou a se reconhecer a si própria, por sua vez, a Europa, por sua vez, foi forçada, em certa medida, a assimilar a lição de responsabilidade internacional e de humildade democrática que o desafio africano lhe impunha. Toda a história da descolonização no século XX também deve ser vista como um processo pelo qual os oprimidos acabaram por compreender plenamente quem são eles na realidade, ao passo que os opressores começavam a aprender sobre a humildade inerente ao sentimento de ter que prestar contas ao mundo inteiro, em matéria de humanidade. A história da África desde 1935 deve ser recolocada no contexto dessas contradições maiores.