Quando nasceu a Organização para a Unidade Africana (OUA), em Adis- -Abeba, no mês de maio de 1963, seu posto de maior importância talvez não passava de uma poltrona vazia; o chefe de Estado de maior relevância era um presidente morto. Tratava -se de Sylvanus Olympio, assassinado no Togo no início do mesmo ano. Sua morte violenta anunciava o desenrolar dos aconteci- mentos posteriores. Ele foi o primeiro chefe de Estado vítima de um assassinato na África pós -colonial e o golpe de Estado que sucedeu o crime foi o primeiro do gênero ao sul do Saara. Este volume tratará dessa sucessão de golpes de Estado. A cena estava montada para uma dramaturgia da independência que seria periodicamente sacudida pela violência e pela morte.
Este volume examinará também o pan -africanismo e seus objetivos: a liber- tação e a unidade da África, bem como os diferentes métodos adotados para atingir esses objetivos, ilustrados pelas atividades políticas de Nkrumah e Nye- rere, que estavam associadas às do grupo moderado da Monróvia e do grupo
radical de Casablanca. Com efeito, expressando em outros termos, uma das clivagens entre pan -africanismo radical e moderado, no início dos anos 60, dizia respeito à escala geográfica da unidade africana. A escola radical tinha uma visão de parâmetros continentais e opunha -se a toda integração sub -regional; a escola moderada, ao contrário, aceitava as experiências que podiam ser feitas em escala sub -regional na construção da unidade africana. Tal era a clivagem
horizontal do pan -africanismo, um desacordo em relação à extensão geográfica
da unidade africana.
Mas havia um outro ponto de divergência, uma clivagem vertical, concer- nente, por sua vez, à profundidade da unidade africana. Seria necessário buscar a integração política imediata e a formação de um país único? Ou antes, caberia aos Estados africanos buscar primeiro formas de unidade mais modestas e mais “superficiais”, tais como: a coordenação das relações exteriores em nível diplo- mático, ou a cooperação econômica, ou ainda laços funcionais em matéria de comunicação e de equipamentos comuns?
Como veremos nos capítulos relativos ao pan -africanismo, a unidade pro- jetada pela OUA, quando da sua criação em 1963 e da sua implantação em Adis -Abeba, permanecia superficial mas, se projetava em escala continental, englobando tanto os Estados árabes quanto os negros. Em 1966 e 1967, respec- tivamente, dois acontecimentos contribuíram para mudar a natureza da clivagem entre as políticas pan -africanas, radical e moderada. Em fevereiro de 1966, em Gana, Kwame Nkrumah foi destituído por um golpe de estado militar. No ano seguinte, Julius Nyerere proclamou sua própria radicalização, lançando a declaração de Arusha, sobre o tema do Ujamaa na Kujitegemea (socialismo e autossuficiência). Desde então, ele começou a aparecer na cena africana como um dos porta -vozes do radicalismo. Dar es -Salaam tornou -se a capital mais plausível de um Estado de primeira ordem, a mais indicada sede para as ativida- des de libertação da OUA, representadas pelo Comitê de Libertação da África.
Todavia, no momento em que a OUA festejou seu décimo aniversário, em 1973, o radicalismo parecia mesmo estar em declínio. Gamal ‘Abd al -Nasser morrera em 1970; Nkrumah, por sua vez, no exílio pouco depois de seu irmão de armas egípcio; Milton Obote fora destituído por Idi Amin; países como o Quênia e a Costa do Marfim tinham evoluído visivelmente para a direita no transcorrer desses dez anos.
Mas, conforme se relatará mais adiante neste volume, a história veio uma vez mais em resgate do radicalismo africano, precisamente no momento em que a OUA entrava em sua segunda década de existência. Deve -se isso a dois aconte- cimentos repletos de consequências, desencadeados em 1974. Um foi a revolução
etíope, em torno da própria sede da OUA: o segundo país da África Subsaa- riana, em termos de peso populacional, estava a ponto de voltar -se em direção ao marxismo -leninismo; quarenta anos após ter tornado -se a proa do fascismo italiano, a Etiópia via -se transformada em aliada do comunismo soviético.
O outro acontecimento favorável aos radicais foi o golpe de estado de Lis- boa que desferiu o golpe de misericórdia no Império português, em sua própria capital. Muitos capítulos deste volume analisam os meios pelos quais o mais antigo dos impérios europeus na África se desintegrou em muito pouco tempo, abrindo as portas da OUA a novos membros radicais, prontos a tomar parte na ação política dessa organização. A própria questão da independência de Angola consistiu, inclusive, durante certo tempo, um tema de divisão: os “moderados” da África mostravam -se favoráveis a um governo de unidade nacional, reunindo os três movimentos de libertação (MPLA, UNITA e FNLA), ao passo que os “radicais” pleiteavam em favor da instalação de um poder exclusivo da MPLA. Verificar -se -á que a FNLA não era senão um tigre de papel e que a UNITA encontrava -se sustentada pela República Sul -Africana e pelo mundo ocidental. A maioria dos membros da OUA, aqui compreendida a influente Nigéria, ami- úde classificada junto aos “moderados”, pendeu favoravelmente ao MPLA. E, no seio da OUA, não tardou a aderir às fileiras de esquerda um novo membro radical, Angola.
Cinco anos mais tarde, a independência do Zimbábue viria igualmente a corroborar a esquerda no seio da Organização. Em outros termos, dentre os fatores que, no interior da OUA, desempenharam um papel favorável aos radi- cais durante os anos 80, figura o simples fato de quase todos os países africanos que alcançaram a sua independência entre 1975 e 1980, terem optado, no plano ideológico, por uma orientação de esquerda: esse foi o caso de todas as antigas colônias portuguesas e do Zimbábue.
Toda autêntica revolução que se produz na África tem amplas possibilidades de estar ideologicamente orientada para a esquerda. A mais marcante dos anos 70 foi a revolução etíope. A própria Somália pende sensivelmente mais para a esquerda do que o fazia nos anos 60. E a Líbia decisivamente se radicalizou com Muammar el -Kadhafi.
Por outro lado, os golpes de estado militares foram de inspiração ideológica diversa. As viradas bruscas que sobrevieram em Gana e em Burquina Fasso, nos anos 80, representaram tentativas de redirecionamento à esquerda, ao passo que a destituição ocorrida em 1984, na Guiné -Conacri, orientou -se rumo à direita.
Em linhas gerais, no curso dos anos 80, a OUA tende um pouco mais à esquerda que em seus primórdios. A repartição dos votos relativos ao estatuto
da República Árabe Sarauí Democrática (RASD) faz aparecer a existência de uma nova coalizão de centro -esquerda, cristalizada desde 1974.
O quê dizer do porvir? Ordinariamente, o futuro não se enquadra na pers- pectiva conveniente ao trabalho de um historiador. Entretanto, ao darmos à conclusão deste volume o título “Por volta do ano 2000”, reconhecemos impli- citamente que a história do passado pode servir a avaliar as prováveis tendên- cias futuras. A Namíbia figurará à esquerda da OUA, no momento em que finalmente se torna independente e isso provavelmente por certo tempo. Mas, o radicalismo e as tendências de esquerda constituem, na África Austral, plantas frágeis. Quando um país como Moçambique, um dos que exibem seu radica- lismo, põe -se a cooperar com a República Sul -Africana e a escutar as sirenes econômicas de Pretória, isso nos obriga a reconsiderar as ideias que formulamos no que tange aos conceitos relativos a “radical” e a “moderado”. Após o declínio político de Charles Njonjo, o Quênia adotou, por um curto lapso de tempo, uma posição mais dura que a de Moçambique com relação à África do Sul. Podemos questionar qual dos países africanos, mesmo a respeito da questão fundamental do apartheid, é relativamente mais radical ou qual o é relativamente menos.
Nos anos 60, Nkrumah ensinava a Nyerere, reprovando -o publicamente por ter convidado as tropas britânicas a se ocuparem dos rebeldes tanzanianos. Nos anos 80, o Moçambique marxista empreendia consultas junto às forças militares e econômicas da África do Sul, com vistas a fazer com que entrassem nas fileiras seus próprios rebeldes.
Nkrumah, ter -se -ia revirado em sua tumba nos anos 80? Ou, antes, teria ele compreendido melhor Moçambique do que, em 1964, o fizera Julius Nyerere, quando este pediu assistência militar à Grã -Bretanha?
Talvez nossos ancestrais, em sua insondável sabedoria, pudessem respon- der a essas perguntas, observando nossas manobras de lá onde eles se encon- tram. Kwame Nkrumah e Sékou Touré agora juntaram -se a esses ancestrais e assentam -se ao lado de Sylvanus Olympio. Quem disse que “a morte, ela mesma, é uma forma de pan -africanismo”? Talvez ela o seja, com efeito, a forma mais horizontal, de algum modo pan -humana, a grande capaz de equalizar, a derra- deira unificadora. Até o momento, os africanos chegaram a atingir um grau de pan -africanização suficiente para obter sua libertação. Mas resta alcançar um grau tal que venha a favorecer o desenvolvimento socioeconômico e a integração política.
O que dizer sobre a pan -africanização das mulheres? Onde “o elemento femi- nino da espécie” se insere na equação africana? É preciso agora abordar o tema da mulher.