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Quando tomamos algumas das premissas acima como corretas, é possível afirmar que os grupos econômicos não são apenas organizações capitalistas, mas instituições que compõem seus ingredientes de competitividade sob forças sociais que se traduzem em

elementos fora do cálculo econômicos, com a própria dinâmica do território e as políticas públicas de Estado. A relação entre estas últimas e os grupos econômicos envolvem a regulamentação e desregulamentação, políticas nacionais antitrustes, processo de estatização, políticas de incentivo à produção industrial e formas de financiamento criadas pelo Estado com o intuito de organizar a produção capitalista. Assim, a relação dos grupos econômicos com o Estado é necessariamente reveladora de um processo de refração entre poder político e mercado. Em algumas circunstâncias, o controle do aparato do Estado se encontra também nos controladores de grupos econômicos como recursos para aquilo que a sociologia econômico vem denominando da “construção social dos mercados”, seja por meio das coerções ou das integrações.

Quando tomamos como referência Polanyi (2006), é possível afirmar que todo sistema econômico realiza-se por uma atividade de mercado. A autorregulação é uma fase artificialmente posterior, mas não um estágio evoluído do sistema econômico. Na descrição deste autor, os objetivos das forças produtivas diferem das contemporâneas e a moral social destina-se à satisfação de interesses econômicos coletivo. Mas, no sistema econômico as regra de mercado emergem como mecanismos de integração social. Isto em virtude de que a produção econômica é uma constante, permanente, o lugar da fluidez do trabalho e da troca. Premissas de um tipo de sistema econômico submetido à produção e, em parte, autorregulável. A gênese deste sistema “econômico primitivo”, segundo Polanyi, é dirigido por questões não econômicas; questões morais, míticas, ritualísticas e parentais. A troca isoladamente não permite a ordem moral, nem o caos. O excedente precisa possuir uma função social; o uso comum. Esta é uma situação de mercado, específica particular, menos predominantes em que na formalidade das economias contemporâneas os grupos econômicos avultam-se também como os mantenedores dessa ordem4.

Max Weber (1999) afirma que o mercado é uma esfera relativa à troca; uma instituição social. Esta definição o aproxima-se das observações de Polanyi, no que diz respeito à definição de mercado autorregulável ao dedica-se a uma análise mais relacional e

4 A sociologia clássica representada particularmente por Émile Durkheim possui similitude com a noção de

mercado desenvolvida por Polanyi. Elaborar um conceito de mercado não estava nos planos de Émile Durkheim, nem de pensadores como Marx e Weber. O objetivo era ir mais além. Mas no texto clássico intitulado a Divisão

do Trabalho Social Durkheim oferece um caminho convergente: decifrar o desempenho do mercado não-

regulável na completude da vida social. Durkheim associa o mercado à manutenção da ordem social mítica pré- existente. Ele é parte funcional desta ordem e dela indissociável. Compreende semelhantemente o que Polanyi referencia como mercado interno e externo. O mercado é a esfera da vida social que se realiza nos limites comunais pré-estabelecidos, mas também além desta territorialidade original. O mercado também se reterritorializa.

compreensiva desta esfera da vida social. A concepção de mercado weberiana consiste em que esta instituição relativa à troca se reproduz pela pluralidade de sujeitos mobilizados por interesses similares ou diferenciados. O mercado, assim, realiza-se por uma constante disputa entre indivíduos, onde cada um deles deseja realizar seus interesses e age ao compreender e possivelmente prever as ações do outro. A competição é o traço racional do ambiente conflituoso, que é o mercado autorregulável. Ela se estende aos grupos econômicos, nações e Estados. A arena conflituosa que é o mercado, contrariamente à noção pretendida pela escola funcionalista da sociologia, é regulada por um aparato jurídico coercitivo, expresso no arcabouço jurídico e normativo, em parte no militarismo, mas fortemente burocráticas, como poderiam se sugerir para as políticas públicas. Um aparato de forças legais, garantidoras da realização das trocas como acordo entre sujeitos e que permite o exercício do poder entre eles. Semelhantemente ao funcionalismo, o mercado nesta perspectiva é um lócus coercitivo; um lócus do poder. Mas o que diferencia o pensamento weberiano é a ideia de que o mercado socializa mesmo em não garantir um equilíbrio entre sujeitos. Mas não socializa os sujeitos por regras e condições particulares que desenvolve. É necessário a existência da esfera social reguladora, coercitiva e também socializadora que o complementando oriente o conflito, e por vezes o destino da produção, sempre eminente, entre grupos, classes e indivíduos. O Estado para Weber é esta sociedade politicamente organizada; constituída juridicamente e reprodutora dessa função. Afirma ele: “Evidentemente, a coação não é o meio normal ou o único de Estado – não se cogita isso – mas é seu meio específico” (WEBER, 1999, p. 525).

Nesse sentido, de sujeito supra-humano, jurídico e coercitivo, o Estado apresenta-se como o sujeito regulador e garantidor de diretos e deveres para os grupos no mercado autorregulável. O uso coercitivo e legítimo do poder do Estado, manifesto na força militar e dos contratos em suas inúmeras situações, apresenta-se quando mercado e sua durabilidade são colocados em risco, assim como a legitimidade do próprio Estado.

Argumentações contemporâneas parecem também esclarecer esta relação entre a grande empresa capitalista e o Estado enquanto um potencial elemento na definição de ingredientes de competitividade. Estas premissas mais recentes vão ao encontro das considerações clássicas weberianas, mesmo estas se afiliando a correntes teoricamente distintas. Afirmações Habermasianas, nesse sentido, associam-se ao weberianismo. As considerações de Habermas (2002) possibilitam identificar as atribuições desempenhadas pelo Estado e compreender, a posteriori, sua importância para o entendimento dos grupos econômicos.

Habermas (2002) assinala quatro atribuições fundamentais quanto ao papel do poder institucional, ou, poderíamos considerar funções do Estado na contemporaneidade. O Estado exerce um papel de constituidor de mecanismos geradores de garantias para a expansão do processo de acumulação de capital, sejam eles traduzidos em políticas públicas que atingem a vários segmentos das economias e demais ações, e, necessariamente, estão voltadas para a garantia do mercado. Em termos de lei civil, o Estado assegura instituições básicas como a propriedade; protege o sistema de mercado de efeitos colaterais que, segundo Habermas, são autodestrutivos. Cumpre pré-requisitos do sistema produtivo, como a diversidade dos serviços públicos. Constitui e fortalece a capacidade da economia doméstica frente à competição interna e internacional entre empresas, e de possíveis constrangimentos externos.

Mas o Estado também adequa-se às lógicas impostas pelo mercado, assim como as grandes empresas ajustam e elaboram estratégias tomando as políticas públicas como referência. Precisa acomodar sua forma legal às condições de organização comercial, financeira, industrial e de serviços. “Assim agindo, o Estado se limita a adaptações

complementares do mercado num processo cuja dinâmica ele não influencia” (HABERMAS,

1980, p. 72).

Além das ações constituidoras e complementares, o Estado capitalista é um executor de ações substitutivas de mercado. Ele cria condições e mecanismos legais que, em meio à fraqueza de empresas e grupos econômicos, possibilitam a contínua acumulação e reprodução de excedentes, de troca, crédito e proteção ao mercado financeiro.

Por outro lado, o Estado enquanto sujeito limita-se a quatro determinações, fortemente importantes na discussão sobre os grupos econômicos neste trabalho. Segundo Claus Offe, a primeira refere-se à privatização da produção. Os Estados estão impedidos de organizar, exclusivamente, as estruturas de produção material obedecendo a critérios apenas políticos. A produção material é, em grande medida, privada, cabendo ao mercado a organização da produção e, ao Estado, a criação das condições para sua realização. A segunda determinação é a dependência de impostos. Os Estados dependem, ainda que indiretamente, do volume de produção e de seu resultado tributável como um incremento ao orçamento institucional. A

acumulação como ponto de referência. O poder estatal consiste em nutrir as condições

propícias ao processo de acumulação.

Desse ângulo não são fundamentalmente os agentes do processo de acumulação que estão interessados em instrumentalizar o poder estatal, mas, ao contrário, são os agentes do poder estatal que - a fim de assegurar sua própria capacidade de funcionamento – obedecem, como seu mandamento mais alto, ao imperativo da

constituição e consolidação de um desenvolvimento econômico favorável (OFFE, 1980, p. 124).

Voltados à Legitimação democrática:

O Estado capitalista está sujeito a determinações do poder político, segundo a sua forma institucional, determinadas pelas regras do governo democrático- representativo e, em segundo lugar, por seu conteúdo particular, determinado pelo desenvolvimento e pelos requisitos do processo de acumulação (OFFE, 1980, p. 125).

Esses são pilares estruturais do estado capitalista que, segundo Offe, dão-se exclusivamente pela mercadoria e, necessariamente pelas regras do mercado. A estratégia da política estatal fica voltada para oferecer condições necessárias a cada instituição, indivíduo e grupos sociais de acessar o mercado. “O elo entre as estruturas políticas e econômicas da sociedade capitalista é, portanto, a forma de mercadoria. A estabilidade de cada uma dessas estruturas depende da universalização da forma – mercadoria” (OFFE, 1980, p. 126).

Estas características discutidas por Habermas e Offe permitem o restabelecimento de várias esferas da vida social e, sobretudo, dos grupos econômicos. A realização de estruturas jurídicas e coercitivas permite que o Estado atue em diversos pólos; o da sua própria reprodução interna e a do sistema econômico por forças de concessões às suas instituições representantes.

Mas retomada a premissa weberiana de que o mercado é um modo de integração conflituoso, em que as diferenças competitivas se expressam via o aparato econômico ou social que cada participante detiver, por meio dessa perspectiva, o que caracteriza o mercado autoregulável é uma competição desigual entre instituições representativas de sua própria lógica. Estes traços diferenciam grupos fortes e fracos, por sua capacidade de acumular capital e por suas relações de intervenção no Estado.

Granovetter (1994) e Gonçalves (1991) enfatizam que a dinâmica da acumulação e poder dos grupos econômicos envolvem um complexo conjunto de relações, internas e externas a esta grande empresa. Assim, têm influência as políticas e estratégias de governo, a estrutura de mercado, a própria dinâmica da acumulação capitalista, o contexto político- econômico nacional ou internacional determinado. Portanto, a questão da organização e configuração dos grupos econômicos é dependente não somente de fatores econômicos, mas também da “interação de fatores políticos e socioculturais” (GONÇALVES, 1991, p. 498).

Sobre os grupos econômicos, Portugal Júnior (1994) aponta a importância desempenhada pelos fundos públicos na capitalização e no financiamento dessas empresas.

Mas ainda de fatores como o crescente investimento governamental em ciência e tecnologia; nas condições jurídicas trabalhistas, nas regras em defesa do meio ambiente, perseguição à formação de trustes, barreiras alfandegárias e controle sobre fusões, vendas e fechamento de empresas.

Entendida a relação Estado e grupos econômicos, é possível pensar o protagonismo que essas instituições econômicas vem exercendo sobre os mercados e a sociedade em geral quando atentado para um determinado processo histórico, o que veremos a seguir.

CAPÍTULO II

3 ANTECEDENTES HISTÓRICOS DOS GRUPOS ECONÔMICOS E O SISTEMA DOMINANTE DE EMPRESA

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