Segundo Bakhtin, os gêneros textuais definem-se principalmente por sua função social. São textos que se realizam por uma (ou mais de uma) razão determinada em uma
situação comunicativa (um contexto) para promover uma interação específica. Trata-se de
unidades definidas por seus conteúdos, suas propriedades funcionais, estilo e composição organizados em razão do objetivo que cumprem na situação comunicativa.
Essas noções revelam a complexidade de fatores que estão envolvidos no fenômeno comunicativo que o texto representa, abrangendo aspectos lexicais, sintáticos, subjetivos e de identidade. É preciso pensar no texto como atividade sociointerativa, em que os elementos linguísticos não são organizados sem se levar em conta fatores histórico-sociais e cognitivos, ou seja, os sujeitos e a sociedade.
No que se refere ao gênero textual, Marcuschi (2008, p. 84) afirma que “situa-se entre o texto e o discurso”, sendo apontado como “prática social e prática textualdiscursiva”. Para esse autor os gêneros textuais
são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas. [...] são formas textuais escritas e orais bastante estáveis, histórica e socialmente situadas. (MARCUSCHI, 2008, p. 155)
Nesse sentido, ao conceber a relação entre os gêneros como ação social e as ações humanas, buscamos compreendê-los julgando os propósitos dentro de um contexto situacional, já que estas são históricas, marcadas no tempo e espaço, voltando-se a um público específico, numa situação retórica, como afirma Miller (2009). Para a autora, mais do que classificar os gêneros nomeando-os, importa saber como eles funcionam. Ela adota gêneros como convenções discursivas, situadas e contextualizadas socialmente, que atendem às necessidades e motivações de um campo comunicativo. Desse modo, a estrutura formal de um gênero atende a uma convenção discursiva e a reflete socialmente, ou seja, é definida por essa sociedade e por ela utilizada em situações específicas.
Dessa forma, pode-se concluir que os gêneros textuais são caracterizados por sua função social. Cada evento ou situação linguística permite ao usuário da língua utilizar um texto com padrões estruturais e linguísticos próprios, e que são socialmente reconhecidos, apropriado aos seus anseios comunicativos.
No mesmo âmbito, para Bakhtin (2003, p. 261-262) os gêneros do discurso ou textuais correspondem a “tipos relativamente estáveis de enunciados”. Para esse autor, os
sujeitos se comunicam por meio de enunciados que apresentam traços que são indissociáveis como o conteúdo temático, o estilo e o conteúdo composicional. Esses elementos são estabelecidos de acordo com propósitos específicos de comunicação.
Os gêneros textuais podem ser caracterizados, de certa forma, como modelos de textos que utilizamos em determinadas situações, e que por suas especificidades são facilmente reconhecidos. Os gêneros fazem parte do cotidiano, estão presentes na sociedade e se concretizam por meio das práticas sociais. Eles são inúmeros, pois à medida que são produzidos também sofrem modificações e dão origem a outros gêneros. Neste sentido, Bazerman (2006) aponta que
gêneros são tão-somente os tipos que as pessoas reconhecem como sendo usados por elas próprias e pelos outros. Gêneros são os que nós acreditamos que eles sejam. [...] Gêneros emergem no processos sociais em que pessoas tentam compreender umas as outras suficientemente bem para coordenar atividades e compartilhar significados com vistas a seus propósitos práticos. [...] Os gêneros tipificam muitas coisas além da forma textual. São parte do modo como os seres humanos dão forma às atividades sociais. (BAZERMAN, 2006, p. 31)
Novamente a ênfase encontra-se na conexão existente entre o gênero textual e as necessidades sociais e de comunicação dos sujeitos usuários da linguagem. No entanto, embora os gêneros textuais sigam uma espécie de esquema que possibilitam reconhecê-los, é interessante refletir a respeito das postulações de Bazerman (2006) quando aponta que um texto, mesmo reconhecido dentro de determinado gênero textual, apresenta certas características que o torna distinto, e essas diferenças estão relacionadas a aspectos sociais e a intenção que ele traz consigo.
Desse modo, sendo o gênero textual o resultado de práticas sociocomunicativas, ele apresenta distinções aos olhos do interlocutor. Assim, as representações a respeito de um mesmo gênero diferem de interlocutor para interlocutor, pois fatores como conhecimento de mundo, conhecimentos linguísticos, área de interesse entre outros, interferem no modo como um texto é lido.
Essas considerações atentam para a relevância da relação dos gêneros textuais com os processos de produção da linguagem escrita. Pois, embora o gênero seja social e compartilhado por todos nós em situações de comunicação, ele é ao mesmo tempo individual, já que traz consigo marcas de seu produtor (nível de conhecimento linguístico e de conhecimento de mundo) e o sentido é construído a partir das experiências de cada interlocutor.
Nas atividades de referenciação, a luz dos gêneros textuais, quando os referentes são retomados ou servem de base para a introdução de novos referentes, as formas ou
expressões nominais assumem papel de destaque pelo fato de propiciarem uma ampla gama de escolhas lexicais, o que influi diretamente na estruturação do discurso que se pretende produzir, visto que essas escolhas determinarão a construção e a reconstrução dos referentes ao longo do processo de produção discursiva, interferindo na progressão temática e na argumentação.
Dessa forma, a escolha do artigo de opinião como gênero textual base para nosso estudo de referenciação anafórica justifica-se, primeiramente, pela orientação argumentativa que as expressões nominais podem assumir em um texto e, em segundo lugar, pela necessidade de estruturação do discurso argumentativo de alunos da educação básica, o que é de fundamental importância para a plena participação na vida social pública: ter a possibilidade de expressar seus pontos de vista e sustentá-los com justificativas e argumentos consistentes.