Redigir um texto consistia em uma atividade árdua em que o aluno deveria se postar diante da folha em branco e escrever sobre um assunto sobre o qual, muitas vezes, não tinha praticamente nada a dizer, por ser uma escolha do professor e não sua. Além disso, não tinha a oportunidade de se informar acerca do tema antes de se pronunciar a respeito dele.
É papel da escola promover a formação de cidadãos atuantes em uma sociedade globalizada, e fomentar a constituição de leitores e produtores críticos das várias espécies de gêneros de textos. No entanto, observa-se que nem todas as espécies de gênero de texto são ensinadas e quando se testa o potencial escrito dos alunos, nota-se que o desempenho deles não é dos mais satisfatórios.
Nesse sentido, é importante saber sobre os processos psicológicos ou operações mentais acionadas durante a produção de um texto. O ato de redigir implica realizar operações mentais de natureza conflitante, satisfazendo a um grande número de exigências simultaneamente. Na prática, não há uma sequência linear de procedimentos. Durante a
redação de um texto, eles podem ser desencadeados ao mesmo tempo como podem ocorrer diversas vezes.
Serafini (1994) afirma que a tarefa de redigir é vista como uma série de fases sucessivas que incluem atividade de leitura, de seleção e relacionamento dos dados disponíveis, de realização de esquemas e roteiros, de escrita e revisão. Nessa abordagem, o professor deve cuidar para que o processo de escrita não seja percebido pelos alunos como uma atividade fragmentada. A redação requer método múltiplo, já que envolve diferentes tipos de capacidades e habilidades. Se, no processo da produção de texto, o professor julgar necessário reforçar determinados padrões de texto, poderá recorrer à abordagem imitativa, ou seja, o professor deverá expor textos par servirem de modelo ao aluno, como também usar estratégias de liberação da linguagem na fase de geração de ideias ou reforçar os recursos de interação verbal.
A produção de um texto envolve distintos processos, subprocessos ou habilidades, que podem ser isolados para fins de ensino e aprendizagem, embora não costumem ser ensinados de forma explícita. Esta visão de escrita, conhecida como abordagem processual ou componencial, vem enfatizar os aspectos cognitivos envolvidos no ato de redigir.
No processo de composição de textos, existem quatro aspectos a serem considerados, conforme o Quadro 1:
Quadro 1 – Processos de composição de textos PROCESSOS DE
COMPOSIÇÃO Planejamento
Os que redigem bem planejam mais, gastam mais tempo pensando ou tomando notas antes de escreverem e realizam mais atividade de pré- escrita fora da escola.
Revisão
A releitura do que está sendo escrito é um meio de manter o senso de totalidade da composição e de ir adequando o texto prévio ao que está sendo produzido, identificando o que precisa ser reformulado. No ato da releitura, o redator tem a possibilidade de não perder a visão de conjunto do texto que se está escrevendo. Além de sustentar os relacionamentos entre as ideias, mantendo o tópico, vai modulando o texto em relação aos seus propósitos comunicativos e expressivos.
Editoração.
A revisão eficaz focaliza mais o conteúdo, em uma visão macroestrutural do texto, voltando-se para o significado do que os alunos estão escrevendo. O produtor do texto usa a revisão mais para inventar, acrescentar mudanças de conteúdo e para organizar longos trechos da composição. A revisão auxilia a criar significados.
Consciência da audiência
Esse processo prioriza o efeito que o texto pretende causar no leitor, no conhecimento prévio que este precisa entender o texto e em quais são os interesses deste leitor. A prosa centrada no leitor representa o momento final da produção de texto, aquele em que o redator, já tendo descoberto o que pretende dizer, já pode apresentar suas ideias em uma ordem e organização mais claras e objetivas para o leitor. Fonte: Elaborado pela autora com base em Vieira (2005)
Vieira (2005), ao tratar dos processos e das habilidades de escrita, propõe uma síntese da abordagem processual aplicada ao ensino da produção textual. A autora afirma que,
Para entender como funciona um ensino voltado para o desenvolvimento de processos e habilidades de escrita, precisamos saber que, ao redigir, realizamos operações mentais de natureza conflitante, tentando satisfazer simultaneamente a um grande número de exigências. É por isso que redigir é uma atividade difícil. (VIEIRA, 2005, p. 99)
Durante o ato de redigir, o redator deve saber conciliar a influência dos diferentes aspectos, seja de conteúdo, seja de estrutura e de estilo, no nível da palavra, da frase, do parágrafo e do texto. Ele pode operar com a estruturação sintática da frase ou com a organização dos parágrafos no texto para depois selecionar o vocabulário. O redator experiente é capaz de se dedicar primeiro à composição do texto e mais tarde pensar na transcrição, nas convenções de escrita, nos aspectos de forma ou de estilo.
Nesse contexto, sob a perspectiva do ensino da escrita, Vieira (2005, p. 100) afirma que
Deveríamos ensinar ao estudante que compor em linguagem escrita não é uma simples colocação de palavras no papel ou na tela de um computador, mas requer o domínio integrado de um conjunto de habilidades. Deveríamos compartilhar as diferentes versões por que um texto passa até atingir sua forma final, não escondendo os problemas a solucionar em cada novo texto, nem passando a falsa ideia de que na prática de redigir exista uma sequência rígida e linear de procedimentos.
Assim, para aprender a escrever textos significativos e bem formados, é importante propor atividades voltadas para os diferentes subprocessos e habilidades envolvidos no ato de redigir (SUID; LINCOLN, 1989 apud VIEIRA, 2005) a saber:
a) gerar ideias: encontrar algo sobre o que escrever, discutir, pesquisar, coletar informações, fatos, opiniões e materiais (fotografias, gráficos, mapas) necessários para construir o texto;
b) organizar as ideias e planejar o texto;
c) esboçar: produzir uma versão inicial do texto
d) revisar ou editorar: melhorar conteúdo, palavras e mecanismos textuais; e e) editar e publicar o texto definitivo.
Cabe ao professor, portanto, desenvolver essas habilidades adequando-as às necessidades dos seus alunos. Nesse aspecto, é válido salientar que o trabalho com a escrita por componentes não dispensa a escrita de textos completos, passando por todo o círculo de ações inerentes ao ato de redigir.
Como o propósito deste trabalho é desenvolver habilidades no uso produtivo e eficiente dos mecanismos de referenciação anafórica em alunos do Ensino Fundamental II, bem como refletir em que medida o conhecimento dos mecanismos de referenciação pelos alunos, sobretudo os relacionados ao processo anafórico, favorece o desenvolvimento da escrita. Com a aplicação dessas estratégias e por meio de atividades diversificadas espera-se que os estudantes se motivem a escrever e passe a interagir, a dialogar com o próprio texto.
Assim, nesse processo de ensino da escrita, focalizando os gêneros e a produção de textos, a referenciação, em uma perspectiva linguística interacionista e discursiva conforme propuseram Mondada e Dubois (2005), constitui uma questão importante, uma vez que deve ser vista como um processo de múltiplas possibilidades de escolhas lexicais que o escritor- aprendiz pode fazer para construir seu projeto de dizer. Trataremos da referenciação no próximo capítulo.