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E. MADEN VE DEMĠRCĠLĠK

6. Silahların Yapım ve Süsleme Teknikleri

Carles põe uma bandeja de papel sobre a mesa. Nela há uma xícara emborcada em um pires, três caixas de fósforo e um grão de café sobre a xícara. Anuncia que o segundo e último suicídio será por amor e apresenta os objetos-personagem: uma semente de café brasileira, chamada Pita, e um palito de fósforo sueco de nome Jörg.

Enquanto espeta o palito em diferentes lugares da bandeja, Carles repete o nome Jörg, transferindo para o seu corpo a expressão do fósforo sueco. O corpo e as expressões do ator mudam completamente quando ele incorpora Jörg, caracterizando-o como alguém esguio e arqueado.

A semente de café, que antes estava sobre a xícara, é revelada na orelha do ator. Posta sobre a bandeja, Pita e Jörg estabelecem um diálogo de reconhecimento. Ele move-se e diz “Jörg” com gravidade; ela move-se e diz “Pita” com delicadeza. Em seguida, Carles abre uma das caixas de fósforo e esconde Jörg dentro dela. Pede que Pita o encontre, emprestando- lhe o dedo indicador para a semente apontar a direção em que estaria Jörg. Ela aponta para uma das caixas e o indicador faz que não. A ação se repete, e Pita não consegue encontrar o palito.

Instantes depois, Carles pega Jörg, coloca-o num canto da bandeja e esconde Pita em sua orelha. Jörg procura Pita e não descobre o seu esconderijo. Ajudando o palito, o ator indica o seu ombro esquerdo. Jörg escala o braço de Carles e vai até a sua orelha. Instantaneamente é surpreendido por um cigarro, e os dois entram em combate.

Nesse suicídio o corpo de Carles funciona como suporte expressivo para os objetos. O seu dedo é emprestado para Pita procurar Jörg, suas orelhas tornam-se esconderijo, seu braço esquerdo converte-se em caminho para o palito buscar a semente de café. As objetivações desse corpo cênico transformam-no ora em ferramenta dos objetos, ora em lugar expandido do espaço de representação, convertendo-o, inclusive, em extensão da mesa em que se desenrola a história.

O combate estabelecido entre Jörg e o cigarro é real, com risco iminente de morte pela função prática desses dois objetos: para acender um cigarro, o palito de fósforo necessita incendiar-se. Logo, a morte de um implica a morte do outro. Jörg luta para não cumprir sua função primeira, tentando prolongar o seu tempo de vida ao lado de Pita. Todavia, o destino

do casal é inevitavelmente conduzido para o trágico fim, anunciado antes mesmo de eles se encontrarem.

Num dado momento, Carles coloca Pita e outros grãos iguais a ela em uma máquina de moer café, que não está à vista do espectador. Transforma-os em pó e, com o auxílio de uma cafeteira italiana, prepara um cafezinho e o serve na xícara que está sobre a mesa. Desconsolado, chamando por Pita, Jörg entra no recipiente em que está sua amada, mas não consegue encontrá-la. Então, em um ato de desespero, ele derruba a xícara e escreve o nome de seu amor com o líquido negro que escorre sobre a bandeja. Em seguida, o palito se incendeia. Voluntariamente ele se deixa consumir pela chama, ao lado do nome de seu amor impossível. Carles diminui a iluminação até a sala ficar completamente escura, justamente no momento em que Jörg se apaga.

Um ponto que gostaria de destacar é que, antes de perderem sua materialidade funcional, Pita e Jörg foram postos em situação de singularização. O lugar primeiro de Jörg era a caixa de fósforos, espaço coletivo que deveria ser dividido com outros palitos, idênticos, impessoais. Esse seu lugar comum, como um palito de fósforo igual a milhares de outros palitos, foi transposto para um lugar de afetividade, ao lado de Pita, onde ele se tornou único. Esta, igualmente, protagonizou um momento de singularização, sendo reconhecida por Jörg em meio a um punhado de outros grãos de café. Pita e Jörg tornaram-se únicos um para o outro – e também para o espectador – apesar de serem iguais a outros tantos palitos de fósforo e grãos de café. A transferência dessa singularização para as relações humanas é praticamente automática: também buscamos e (quase sempre) encontramos nossos pares em meio à multidão.

Todavia, os protagonistas dessa narrativa têm um destino trágico inscrito em suas materialidades: eles são coisas para que sejam consumidas: ela em forma de café, ele como a chama que, inclusive, pode ser usada para preparar o café. Por causa de suas constituições

físicas, eles experimentam processos de finitude diferentes; com isso, até o ato de morrer é algo que os distancia.

As intervenções de Carles constantemente separam os dois apaixonados, apesar de todos os seus esforços para ficarem juntos. Não há intenção visível de separá-los pelo prazer de causar-lhes sofrimento. Tais intervenções parecem mais uma força invisível, que fatalmente os conduz para caminhos nefastos. As ações do ator, manipulando os pequenos destinos de Jörg e Pita, encaixam-se como a sequência de um jogo de tabuleiro. Entretanto, nesse jogo, não há ganhadores. O que resta é apenas morte, mas morte sem angústia, sem choro. Morte como condição de quem está vivo, como transformação de tudo o que é palpável.

E esses objetos realmente deixam de existir, tornando-se metáforas da nossa singularidade e fragilidade. Vale ressaltar que a finitude da matéria como material cênico- simbólico não é algo novo no campo das artes cênicas. Conforme já foi mencionado, em “Tragédia de Papel”, de Yvez Joly, essa relação já era explorada, com um personagem sendo picotado e queimado em cena. E, embora não tivesse encontrado tais informações documentadas, antes e depois de Joly, certamente existiram outros artistas que tenham percorrido caminhos semelhantes, pois tudo o que nos rodeia pode tornar-se imagem poética de nossas efêmeras existências, uma vez que o tempo age sobre todos, seres vivos, pedras, edifícios, carros, computadores, telefones, palitos de fósforos, grãos de café.