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2.OKSİMORON SANATI ÜZERİNE DÜŞÜNCELER

3. Oksimoron Yapıların Fark Edilmeyişi: Oksimoron yapılar, “tatlı sert

2.1.10. Elena Semino ve Jonathan Culpeper

No ano de 1973, o governo democrático argentino sofreu um golpe de Estado que derrubou a Presidente María Estela Martínez de Perón e instituiu um governo militar de exceção. O governo instaurado foi constituído por uma junta militar composta pelos representantes das três forças armadas (Exército, Aeronáutica e Marinha), que governava o país sob os ditames do estatuto do Processo de Reorganização Nacional (doravante PRN). O estatuto do PRN se sobrepôs à Constituição – que não foi expressamente revogada – e instituiu um verdadeiro Poder Moderador encarnado pela junta militar, que tinha poderes para intervir no Poder Judiciário, no Poder Legislativo (que mais tarde foi substituído por uma comissão de assessoramento legislativo) e, sobretudo, no Poder Executivo, já que indicava até mesmo o Presidente da República (GALINDO, 2012, p. 39-40).

Esse governo autoritário instaurado na Argentina estabeleceu uma prática de repressão às oposições que ganhou notoriedade mundial pela sua abrangência e pela sua impensável violência. As práticas de prisão arbitrária, sequestro, desaparecimento forçado, estupro, tortura e assassinato se tornaram recorrentes. Conforme apurou Galindo:

Nessa conjuntura, a última ditadura argentina se caracteriza como um regime de exceção perpetrador de um grau de violência sem precedentes. Como destaca Pilar Calveiro, não é a violência estatal a novidade nesse processo político argentino pós-março de 1976, mas a sua força descomunal, tornando o Estado um poder desaparecedor, que avançou sobre o material e o simbólico, sobre corpos e ideias.

De fato, os números da ditadura argentina impressionam95: é de longe a ditadura latino-americana proporcionalmente mais sanguinária (GALINDO, 2012, p. 41).

Ao lado da intensa repressão por parte dos organismos estatais, desenvolveu-se uma ampla força paraestatal de extrema direita, a exemplo dos esquadrões da morte reunidos em torno do triplo A (Aliança Anticomunista Argentina), organizados clandestinamente, mas com apoio direto da Secretaria de Bem-Estar Social a cargo de José López Rega (GALINDO, 2012, p. 40).

Esse regime de exceção permaneceu no poder na Argentina até o ano de 1983, quando, por conjunturas políticas mundiais e locais, bem como por uma grave

95 A Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP) apurou em 1984 um total

de cerca de dez mil desaparecimentos forçados no decorrer do regime militar na Argentina. Dados obtidos no site da CONADEP: http://www.desaparecidos.org/arg/conadep/lista-revisada/. Acesso em 13

crise econômica, cedeu lugar ao restabelecimento de um governo democrático. As conjunturas políticas mundiais que contribuíram para a derrocada da ditadura militar argentina são sabidas: o incontornável enfraquecimento da URSS e da sua influência mundial, que trouxe, como consequência, a “morte” do principal inimigo e justificativa dos governos autoritários – o perigo comunista. Por conjunturas políticas internas da Argentina pode-se entender dois fatores primordiais: o crescimento da oposição e a humilhante derrota na inexplicável Guerra das Malvinas promovida pelo governo militar contra a Inglaterra em 1982, objetivando a ocupação das Ilhas Malvinas (ou Falklands) (BANDEIRA, 2003, p. 445-447).

A oposição, que já havia surgido logo no início da ditadura militar, ganhou expressão, sobretudo, a partir dos movimentos das Madres e das Abuelas de la

Plaza de Mayo, surgidos em 1977 e através de diversos outros redutos de

resistência formados pela sociedade civil (GALINDO, 2012, p. 42).

Diante das pressões políticas e econômicas, o governo militar cedeu à restituição de um governo democrático no ano de 1983. Não obstante, já em 1982, o governo editou perniciosamente uma lei de autoanistia – a Lei 22.924 de 1982 – que excluía a possibilidade de punibilidade dos crimes contra a humanidade cometidos pela ditadura militar nos últimos sete anos (GALINDO, 2012, p. 42).

Porém, logo no primeiro ano do novo governo democrático, conduzido pelo Presidente Raul Alfonsín, foi criada a Comisión Nacional sobre la Desaparición de

Personas (doravante CONADEP), dando início ao processo de justiça de transição

argentino. A esse processo foi dado seguimento através da publicação dos surpreendentes resultados da referida comissão no livro Nunca más96, que gerou um intenso debate social acerca dos crimes perpetrados pelo regime ditatorial e culminou com a revogação da lei de autoanistia, através da promulgação da Lei n. 23.040 (CONADEP, 2009).

Com a revogação da lei de anistia, muitos dos responsáveis pelos crimes de Estado foram levados a julgamento e condenados. Porém, esses julgamentos se viram prejudicados diante da edição de duas novas leis que impediam novamente a persecução penal face aos governantes e militares do período ditatorial: a Ley de

Punto Final (Lei n. 23.492 de 1986) e Ley de Obediencia Debida (Lei n. 23.521 de

96 ARGENTINA. Secretaría de Derechos Humanos. Comissión Nacional sobre la Desaparición de

Personas. Nunca más: informe de la Comissión Nacional sobre la Desaparición dePersonas. 8ª ed. 5ª reimp. Buenos Aires: Eudeba, 2009).

1987) além da concessão de indultos pelo então Presidente Carlos Ménen aos militares (GALINDO, 2012, p. 43).

Ocorre, porém, que a superveniência de novas conjunturas políticas e jurídicas fez com que o processo de justiça de transição argentino não findasse dessa forma fracassada. Com a reforma constitucional de 1994, que incorporou o Pacto de San José da Costa Rica (Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969) ao regime jurídico argentino, e com a ascensão de Néstor Kirchner à presidência da República, houve uma significativa restruturação da legislação e do procedimento jurisdicional no país. No ano de 2005, a Suprema Corte argentina declarou inconstitucionais as leis do “ponto final” e de “obediência devida”. Logo em seguida, o próprio Congresso Nacional revogou as referidas leis. Por fim, em 2007, a Corte ainda declarou inconstitucionais os indultos concedidos pelo Presidente Ménen (PIOVESAN, 2009, p. 180).

Por meio de todo este processo de justiça de transição sob o qual a Argentina se submeteu, foi permitido ao governo argentino realizar a prestação de contas aos familiares dos mortos bem como a persecução penal dos responsáveis pela reiterada perpetração de crimes contra a humanidade no decorrer da ditadura, inclusive com a condenação de agentes do primeiro escalão do governo autoritário, como o ex-ditador Jorge Videla, que, após condenado à prisão perpétua, faleceu em cárcere no dia 17 de maio de 2013, aos 87 anos de idade.