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2.OKSİMORON SANATI ÜZERİNE DÜŞÜNCELER

3. SANAT OLARAK OKSİMORON

3.3. Oksimoron Sanatının Diğer Edebi Sanatlarla İlişkis

3.3.1. Paradoks ve Oksimoron

Os costumes sempre estiveram presentes nas sociedades do passado. Eles eram instrumentos importantes para a organização social e para o exercício da justiça. A importância dos costumes era claramente alvo de análise entre os representantes do rei. No ano de 1783, o governador D. Rodrigo Jozé de Meneses, Conde de Cavalleiros, escreveu a Martinho de Melo e Castro sobre o sistema informal de crédito que se havia estabelecido em Minas Gerais.

As grandes distancias que há de humas e outras povoações; os contínuos tratos de Comercio interior que pede toda a rapidez na sua operação; e a fé publica tão necessária em hum paiz onde faltão boas hipothecas e seguranças tinhão estabelecido nesta Capitania huma especie de Direito Costumario, oposto na verdade à diposição da ley, mas necessário atendendo as circunstâncias. Quase todos os Contratos das mais avultadas somas se celebravam por simples obrigações particulares, a que os

Ministros de Justissa vendo a geral desordem que do contrario rezultaria, forão obrigados a dar a força das Escrituras publicas, julgando pela sua vistoria a validade das maiores dividas, e vendo na Relação confirmadas as suas sentenças. Assim se continuou este ponto a decidir athé que de muito pouco tempo a esta parte entrarão alguns Ministros na dúvida se podião afastar-se tão expressamente da Ley, e refletindo seriamente assentarão que não obstante a necessidade obrigasse [?] a seguir os principios estabelecidos pela serie [?] dos tempos, com tudo, só ao legislador pertencia atender as circunstancias para derrogar, ou declarar em todo, ou em parte a disposição da Ley, e conformando-se a ela devão algumas Sentenças Comdemando só na parte em que a mesma Ley dá validade às ditas obrigações.126

O governador D. Rodrigo analisa em sua correspondência um sistema de crédito informal estabelecido por meio de um costume. Devido à ausência de uma estrutura hipotecária, firmemente estabelecida, os colonos adaptaram-se à situação, celebrando contratos de elevadas quantias através de “simples obrigações particulares”. Os funcionários da coroa também se adaptaram à situação, caso contrário os créditos e os débitos, contraídos em grande escala em virtude da dinâmica econômica interna da Colônia, não teriam como ser executados127. A adaptação e o reconhecimento desse “Direito Costumário” é evidente, pois os Ministros da justiça eram obrigados a dar validade jurídica aos costumes em suas sentenças. É interessante notar que algumas autoridades da administração, ao chegarem à Colônia, ficavam em dúvida sobre qual referência adotar, se as leis do reino ou os costumes em uso na Colônia. É reveladora a atitude tomada pelas mesmas autoridades. Embora reconhecessem o afastamento das leis estabelecidas pela coroa em relação ao “Direito Costumário”, cujos critérios de validade já estavam expressos desde 1769 na Lei de Boa Razão, “e refletindo seriamente” sobre o caso, resolveram que o legislador deveria atender às circunstâncias e conformar-se

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Arquivo Histórico Ultramarino, 1783. Documento gentilmente cedido por Carla Anastasia. 127

SANTOS, Raphael Freitas. “Devo que pagarei”: sociedade, mercado e práticas creditícias na

comarca do Rio das Velhas (1713-1773). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-

aos padrões aqui estabelecidos, sem, contudo, se afastar muito da “disposição da Ley”. Em outras palavras, os costumes e as leis do reino não se anularam mutuamente. Ao invés disso, foram adaptadas à maneira que as situações exigiam. Não se trata de afirmar que os direitos costumeiros eram opostos “à disposição da Ley”, como afirma o governador D. Rodrigo Joze de Meneses. O costume foi aqui adotado como fonte supletiva do direito, portanto, era mais uma referência jurídica, com suas particularidades, em meio a várias outras. O próprio governador relativiza o seu ponto de vista quando admite que, apesar de opostos os costumes, eram necessários e atendiam às circunstâncias. Se atendiam às circunstâncias, é porque, em alguma medida, eram favoráveis às autoridades que representavam o rei, evitando conflitos com os colonos. Essas diferentes concepções de mundo coexistiram sem que necessariamente, tenham convivido ou tenham-se mesclado. Ao compreenderem esta forma de funcionamento da sociedade, marcada pelo pluralismo de estatutos jurídicos, os escravos utilizaram-se dela a seu modo. Eles passaram a transitar na estrutura judiciária, e, embora fossem considerados instrumentos de trabalho, tiveram seus encaminhamentos aceitos como justos pelo rei, em Portugal, e por seus representantes na América portuguesa. Os cativos parecem ter entendido bem a força dos costumes e passaram a sustentar seus pedidos sobre eles a fim de ter seus direitos respeitados.

Um destes embates envolvendo a quebra do direito costumeiro envolveu a escrava Anna Crioula e o procurador de seu senhor. O documento enviado para a Secretaria de Governo, em Vila Rica, continha o seguinte pedido.

Diz Anna crioula que sendo escrava de Antonio Ferreira Coelho morador que foi no sertão do Corimatahi este a coartou a suplicante no preço de oitenta mil reis com a declaração que consta da copia do corte emcluzo reconhecido em publica forma e como Jerônimo Francisco Ribeiro

comduzio a suplicante para sua caza aonde se acha trabalhando para o dito Ribeiro como escrava privando por este modo a suplicante de toda a sua agencia para com ella satisfazer a comdissão exposta no mesmo papel de Areto e assim se vale a esta mizeravel pobre da piedade de V. Ex.ª para não ter quem por ella seja mandante a quem V. Ex.ª vir demais pureza pague o suplicado a suplicante todo o tempo em que a tem retido de baixo do seu domínio trabalhando no seu serviço em que lhe deve pagar a três coartos por semana e outro ssim deixando a seu senhor Coartada e liberta pela aseitação do fiador que este se obrigou a dita coantia dos oitenta mil reis e como o dito Ribeiro era procurador do falecido Senhor e no mesmo papel de corte declara que este lhe passara sua carta de alforria quer este que o exista com a suplicante os mesmos poderes quando elles se achão ssem mães vigor por falecimento do dito seu Senhor...128

Essa querela envolveu a escrava Anna Crioula e Jeronimo Francisco Ribeiro, procurador de Antonio Ferreira Coelho, proprietário de Anna. Jerônimo, ao assumir as responsabilidades pelo cumprimento dos legados testamentais de Antonio Ferreira Coelho interrompeu o processo de coartação da escrava Anna. Além disso, o procurador de Antonio a levou para sua casa, obrigando-a a trabalhar em prol de seus interesses, sem lhe pagar a devida quantia pelo dia de serviço. Como foi dito antes, durante o processo de coartação, o coartado não poderia ser obrigado a trabalhar para o seu senhor ou para algum herdeiro ou representante dele sem receber o devido pagamento. Caso isso não fosse feito, o escravo não teria como quitar as parcelas do processo de coartação. Entretanto, houve acordos pelos quais o valor dos trabalhos realizados pelo coartado e prestados ao senhor foi abatido nas prestações, sem que ele recebesse, portanto, o pagamento diretamente. Porém, este não foi o caso de Anna Crioula. Não tendo alternativa, a escrava recorreu à instância judicial para fazer valer seus direitos. O despacho expedido pelo Governador ordenava que o suplicado apresentasse-se e respondesse às acusações feitas pela cativa.

O requerimento de Anna leva-nos a uma série de reflexões sobre a sociedade mineira colonial. A condição de escravo não significava a total ausência de

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direitos. Os direitos eram conquistados e baseavam-se, sobretudo, nos costumes, que se mostravam capazes de gerar embates de grandes dimensões, por serem conhecidos pela maioria da população. As autoridades coloniais reconheciam a validade dos costumes, muitas vezes aceitos pela Justiça, como se tivessem força de lei. Durante o século XVIII, a coroa viu-se diante da necessidade de alterar várias leis em virtude do desrespeito destas em relação aos costumes estabelecidos pela população. O reconhecimento por parte das autoridades coloniais dos direitos dos escravos revela que os cativos sabiam explorar os costumes a seu favor, sobretudo em ambientes urbanos, onde os movimentos eram mais variados, permitindo, inclusive, ações judiciais de escravos.