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Y. Ö.K DOKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU

1. BÖLÜM

1.3. Alevi İnanç ve Kültürü

1.3.3. Sayı Mistisizmi

Requiem e Lux Æterna

Uma outra distinção entre Etiam per me Brasilia Magna de Celso Mojola e Lux Æterna

de György Ligeti se faz notória: em Etiam per me Brasilia Magna nota-se a presença de diversos materiais oriundos de uma mesma série matriz, guardando todos os materiais direta relação com sua matriz estrutural, conferindo, assim, uma notável unidade harmônica à peça. Sob esse aspecto, “Crase”, de Flo Menezes, também se distingue de Lux Æterna e Requiem. Em Lux Æterna, por outro lado, nota-se a presença de quatro materiais elementares, além de outros materiais derivados destes quatro materiais elementares. Em Requiem, as estruturas têm suas origens em dois distintos materiais primordiais. Ligeti aplica esses materiais em diferentes seções, o que poderia gerar críticas oriundas da comparação com a premissa de que uma obra serial deve ser originada por uma única série. Quanto à questão da repetição linear destes materiais, repetições podem ser observadas em todas as vozes que compõem a grade coral da peça. O simples fato de tais sequenciamentos não serem repetidos em uma mesma voz (são igualmente repetidos por todas as outras vozes), não descaracteriza a existência e nem mesmo a incidência uma série. Porém, é nesse momento que se faz pertinente a previamente citada afirmação de Ligeti, em seu artigo “Fragen und Antworten von mir selbst”, quando ele explicita que, para ele, sistema serial assumira um caráter funcional, e que ele havia aplicado em sua obra aspectos oriundos do sistema serial enquanto princípio de seleção e sistematização de elementos e procedimentos, assim como enquanto princípio de consistência, como mostra, abaixo, a já anteriormente mencionada citação:

Eu tenho falado sobre modificações, não total abandono [...] Há aspectos do pensamento serial que eu tenho sentido serem promissores para o desenvolvimento dos meus próprios métodos de trabalho, acima de tudo, o princípio de seleção e sistematização de elementos e procedimentos, assim como o princípio de consistência: postulados, uma vez decididos, devem ser conduzidos em frente, logicamente, porém somente naquelas áreas nas quais eles são musicalmente relevantes (LIGETI, 1971, p. 131).

Como também previamente mencionado, Ligeti defende a ideia de que o predomínio do

controle serial deva ser aplicado sobre categorias globais gerais, deixando, assim, a “conformação dos momentos isolados [...] para escolha do momento” (LIGETI, s/d, p. 5). Eis a abordagem de Ligeti frente ao modelo serial, sua maneira de pensar o serialismo enquanto princípio de seleção de elementos, sem ter necessariamente de lidar com o dogmatismo, automatismo e o sistematismo inerentes ao modelo serial integral.

Trata-se então, no caso de Ligeti, evidentemente, não de um simples processo variacional

oriundo da tradição, mas de um preceito que aproxima a técnica de micropolifonia do modelo serial, ainda que dentro deste denso universo sonoro onde cada voz não é entendida como elemento individual. Dessa forma, a estruturação do material melódico de Lux Æterna assenta-se, em linhas gerais, em algum ponto entre o cânone e a série. Porém, há de se notar que a quebra do sequenciamento rítmico, no caso da micropolifonia, descaracteriza o cânone enquanto procedimento imitativo; enquanto que as repetições de alturas nas sequências dispostas na peça não caracterizam, de forma alguma, um afastamento do modelo serial: pelo contrário, reforçam a ideia de caracterização de uma estrutura serial não dodecafônica ao se encaixar com perfeição dentro de uma determinada categoria contemplada pelo modelo serial. Para reforçar essa aproximação, ainda há o fato de os processos imitativos serem altamente recorrentes dentro da prática serial. Edwards aponta também o fato de que a música micropolifônica de Ligeti mantém - sob o ponto de vista estético - algumas afinidades com o repertório serial desenvolvido na década de 1950: aparente estaticidade, assim como as densas texturas, afirmam uma conexão entre esses dois modelos, de extrema relevância para a vanguarda (2012, p. 217).

Ainda que a concepção da micropolifonia mostre-se enquanto consequência da reação de Ligeti ao seu descontentamento frente ao modelo serial, tal fato caracteriza-se como mais um indício da influência do modelo serial sobre a concepção e aplicação da técnica de micropolifonia. Pois, ainda que Ligeti tenha lecionado contraponto e assumidamente tenha se baseado em um modelo contrapontístico - oriundo da transição da era medieval para a renascença - quando da concepção da micropolifonia, Ligeti detinha maior proximidade com o modelo serial do que com tal modelo contrapontístico. Dessa forma, seria mais cabível assentar tal sequenciamento de alturas sobre influência que o modelo serial exerceu sobre a concepção técnica da micropolifonia. Uma vez quebrada a relação rítmica, não haveria motivo – em âmbito macro – para a manutenção do sequenciamento de alturas. Pois, além de ser perfeitamente possível manter o resultado estético-sonoro mesmo com tais alterações, tais alterações não são entendidas enquanto elementos a serem decodificados pela audição – uma vez que o modelo serial estabelece uma distinta maneira de organização dos elementos musicais, porém, de maneira alguma, um padrão textural. Assim, tal argumento, ainda que tecido sob a ótica do modelo serial, encontra perfeito sentido e sintonia com a afirmação de

ao aplicar estruturas canônicas94 (BERNARD, 1987, p. 233), mesmo quando tal relação contrapontística não é concebida com o intuito de ser ouvida enquanto elemento individual ou sequer se mostra enquanto estrutura canônica perfeita.

A presente pesquisa não visa associar a micropolifonia de Ligeti com os procedimentos de

“super-série” e “módulos cíclicos”. Estes dois procedimentos exemplificam, na prática, a

aplicação de preceitos oriundos do modelo serial durante o processo de obtenção do material pré-composicional, e atualmente ainda se mostram em plena utilização. Tais procedimentos assumem, na verdade, a posição de exemplos de criação e expansão do material pré- composicional em uma realidade pós-serial, realidade a qual Ligeti pertencia e a sobre a qual a práxis composicional da atualidade se assenta. Dessa maneira, identifica-se na figura Ligeti a gênese do pensamento pós-serial, assim como o caráter de pioneirismo na aplicação de procedimentos pós-seriais somados ao conjunto de aspectos que mais tarde conhecer-se-iam pelo termo tecnomorfismo. As repetições das alturas nas supracitadas estruturas denotam uma superação do dogmatismo e do sistematismo particulares ao serialismo integral, porém, de maneira alguma, descaracterizam o sistema serial e nem mesmo negam os preceitos referentes a este modelo. Tais procedimentos divergem do conceito de serialismo integral, mostrando-se enquanto uma evolução do sistema serial e não enquanto uma negação do mesmo. As repetições de alturas no material de Lux Æterna podem ser explicadas pela necessidade da predominância dos intervalos de 2m, 2M, e 3m, intervalos esses indispensáveis na aplicação da micropolifonia e no controle textural, tímbrístico e da densidade. Tais repetições justificam-se até mesmo pela observação da incidência de distintos ideais composicionais dentre os supracitados compositores, uma vez que Ligeti, Menezes e Mojola possuem distintos conjuntos de questões e soluções, particulares a cada um. Em uma realidade onde o serialismo integral mostrava-se enquanto paradigma, como era o caso de Darmstadt e Colônia durante os anos de 1950, tais ideais seriam suprimidos pela necessidade de manter íntegro o paradigma do modelo serial integral, impossibilitando, dessa forma, a tão fértil pluralidade inerente ao pensamento pós-serial. Ainda que o serialismo integral tenha se mostrado enquanto um importante elemento histórico e composicional durante um determinado período, a manutenção deste paradigma fatalmente acarretaria, com o decorrer do tempo, em uma esterilidade poética e composicional. Tal fato dar-se-ia pelas restrições impostas por tal paradigma à prática composicional. Mas, ainda que o serialismo integral possa ser visto

94 É importante frisar que Bernard denomina enquanto “canônico” somente o rigoroso requenciamento das

enquanto um pensamento restrito, entrópico e datado, é inegável a sua importância enquanto elemento propulsor de toda essa revolução pós-serial.