O contexto da guerra fria consistiu em na disputa de poder político entre dois blocos com sistemas econômicos distintos. Cada bloco buscava angariar prestígio no cenário mundial para que os demais países se sentissem atraídos e formasse coalizões nos campos militares e econômicos.
Na visão dos Estados Unidos, a União Soviética era o inimigo que pensava que tinha a história a seu favor, aceitaria um estado prolongado de conflito, e por isso não correria riscos desnecessários de entrar em embates com o ocidente. Porém, quando existisse vácuo de poder, ou os EUA não demonstrasse uma firme vontade de manter uma determinada posição, os soviéticos ocupariam aquele espaço.
Deste modo, surge a hipótese que a instalação dos mísseis ofensivos em Cuba seria uma ação soviética devida à percepção da fraqueza estadunidense no cenário mundial, o que teria sido reforçado pela tentativa fracassada de invasão de Cuba promovida pelos Estados Unidos quando lançou mão de refugiados cubanos, mas sem empregar suas próprias tropas.
Em retrospectiva pode-se especular que, durante o inverno e início da primavera de 1962, quando os soviéticos estavam fazendo suas grandes decisões em Cuba, eles examinaram a postura dos Estados Unidos e perceberam uma mudança. É possível que eles observaram a nossa aceitação de contratempos em Cuba (Baía dos Porcos), em Berlim (o muro), e no Laos como evidência de um abrandamento da política dos EUA? Talvez assim fizeram e com base nisso estimaram os riscos de colocar mísseis em Cuba como aceitavelmente baixo. Talvez, quando eles contemplaram os grandes ganhos estratégicos que resultariam se a operação tivesse êxito, a sua estimativa do humor dos EUA foi ansiosamente empurrada nesta direção. E, talvez, mais uma vez, para fechar o circuito, eles não conseguiram estimar a todas as consequências de se verem em uma crise. Se todas essas especulações estão corretas - e não há argumento persuasivo para sustentá-los - mesmo em retrospectiva, é extremamente difícil para muitos de nós seguir sua lógica interna ou para nos culpar por não ter pensado em paralelo com eles (KENT, 1994, p. 205-206, tradução nossa135).
A questão é colocada de maneira similar por Absher (2009):
Ele [Khrushchev] esperava que Kennedy aceitasse a situação, como os soviéticos haviam aceitado mísseis americanos na Turquia. Mikoyan duvidou que operação seria mantida em segredo, ele duvidava que Castro estaria de acordo, e ele duvidava de que os americanos aceitariam os mísseis. O Ministro das Relações Exteriores Andrei Gromyko avisou Khrushchev que "colocar mísseis em Cuba poderia causar uma explosão política nos Estados Unidos. Estou absolutamente certo disso, e isso deve ser levado em conta.” Khrushchev não atendeu a estes avisos. Assim Kruschev decidiu colocar mísseis ofensivos em Cuba, não somente desconsiderando as ações de Kennedy desde a Cúpula de Viena de Junho de 1961, mas também, apesar das advertências de dois conselheiros seniores. Em retrospecto, é difícil imaginar que, nestas circunstâncias, o que os Estados Unidos poderiam ter feito para Khrushchev mudar sua mente. Sua mentalidade abraçou a supremacia da ideologia comunista, apoiado pela fraqueza percebida de Kennedy, a tal ponto que até ignorou o conselho contundente tanto seu Ministro do Exterior e seu Primeiro Vice-Premiê (ABSHER, 2009, p. 23, tradução nossa136).
135 With hindsight one may speculate that during the winter and early spring of 1962, when the Soviets were making their big Cuba decisions, they examined the posture of the United States and thought they perceived a change in it. Is it possible that they viewed our acceptance of setbacks in Cuba (the Bay of Pigs), in Berlin (the Wall), and in Laos as evidence of a softening of US resolve? Perhaps they did, and on this basis they estimated the risks of putting missiles into Cuba as acceptably low. Perhaps, when they contemplated the large strategic gains which would accrue if the operation succeeded, their estimate of the US mood was wishfully nudged in this direction. And perhaps again, to close the circuit, they failed to estimate at all the consequences of being themselves faced down in a crisis. If all these speculations are correct--and there is persuasive argument to sustain them--even in hindsight, it is extremely difficult for many of us to follow their inner logic or to blame ourselves for not having thought in parallel with them.
136 He expected Kennedy to accept the situation, as the Soviets had accepted U.S. missiles in Turkey. Mikoyan doubted the operation could be kept secret, he doubted that Castro would agree, and he doubted that the Americans would accept the missiles. Foreign Minister Andrei Gromyko told Khrushchev that “putting missiles into Cuba would cause a political explosion in the United States. I am absolutely certain of that, and this should be taken into account.” Khrushchev did not heed these warnings. Thus Khrushchev decided to place offensive missiles in Cuba not only in spite of Kennedy’s actions since the June 1961 Vienna summit, but also despite warnings from two senior advisors. In retrospect, it is difficult to imagine under these
Da mesma maneira, Horelick (1963) ao avaliar os cálculos da União Soviética, afirma que a “confiança de que sua ação não poderia causar uma guerra nuclear diretamente foi um pré-requisito para embarcar na aventura do míssil em Cuba (HORELICK, 1963, p. 37, tradução nossa).” E alega que tal confiança pode ter vindo de uma percepção da falta de firmeza dos Estados Unidos ao lidar com a questão de Cuba um ano antes.
Tal hipótese também é objetada por Allison e Zelikow (1999) pelos seguintes motivos: primeiro, como foi exclamado por Robert McNamara em várias ocasiões, qual o motivo para a União Soviética testar a firmeza das ações dos Estados Unidos depois da forte reação desse país na crise de Berlim em 1961? Por que outro teste?
Além do mais, para angariar prestígio perante o cenário internacional, algumas armas nucleares seriam suficientes, mesmo porque o tamanho da escalada militar, que incluiu mísseis MRBM e IRBM, tornou mais difícil a instalação rápida do aparato antes que eles fossem descobertos. Se o motivo era simbólico, armas nucleares de menor porte e de rápido emprego estavam disponíveis. Finalmente, porque escolher Cuba como território para demonstrar a falta de firmeza política dos Estados Unidos, já que lá era imensa a desvantagem dos soviéticos. Uma resposta bélica dos Estados Unidos teria maior probabilidade de ganho de forma que o grande perdedor no cenário mundial seria a União Soviética.