Não temos aqui o propósito de elaborar um conceito de exclusão social, mas, apenas, desenvolver uma reflexão com a finalidade de esclarecer sobre possíveis limitações que possam ser percebidas ao longo deste estudo, na utilização desse conceito, em face de sua dimensão multifacetada.
Refletindo-se, inicialmente, dentro de uma perspectiva histórica da sociedade brasileira, destacamos que os jovens das periferias urbanas sempre sobreviveram, basicamente, na condição de “negligenciados” das políticas públicas e de outros mecanismos institucionais de regulação, na defesa de seus interesses, pelo menos até os anos 1990, a partir do surgimento do ECA.
Assim, optamos, também, neste estudo, pela utilização do conceito de “relegação social”, trabalhado por Takeuti (2002b), o que justificamos pelo fato de ele espelhar mais apropriadamente as situações e relações sociais dos jovens, nosso objeto de estudo, e, ao que parece, por caracterizar melhor a situação de “exclusão social” em que eles se encontram, conforme percebemos a partir da análise de suas trajetórias de vida, aqui resgatadas. De acordo com Takeuti,
Viver a condição de relegado social significa ser “inapto” para participar da sociedade legal, de tal modo que o indivíduo deve ser “afastado e colocado à parte”, no limite “banido”. É certo que o jovem continua tendo existência na e para a sociedade, porém unicamente na condição de desprezado, de um “pária social.” (TAKEUTI, 2002b, p. 154. Grifos da autora).
Retomando-se a discussão sobre o tema aqui tratado, Martins (1997) polemiza seriamente os debates sobre a temática, sustentando que não pode haver exclusão no sistema capitalista. Para ele o que de fato ocorre é uma “inclusão perversa”, uma inclusão degradante. Ele adverte que o sistema capitalista exclui para incluir, pautando sua argumentação nos marcos da reprodução ampliada do capital, que se realiza tanto pela produção quanto pelo consumo. Argumenta ele que, ao consumirem, os mesmos chamados excluídos estão contribuindo para o sistema capitalista, ou seja, continuam nele “incluídos”.
A exclusão social se dissemina por distintos processos históricos, o que torna o fenômeno cada vez mais heterogêneo, de difícil compreensão e determinação. Esse fenômeno passou a ser estudado mais sistematicamente, desde as últimas décadas do século XX, com o agravamento da crise econômica nos países capitalistas, a adoção de políticas macroeconômicas de corte neoliberal e a difusão de uma nova onda de inovação tecnológica.
Como entendem Campos et al. (2004, p. 32), por exemplo, o conceito de exclusão se tornou cada vez mais diferenciado entre “velha e nova exclusão”. Explica-se isto pelo fato de as condições de exclusão social identificadas a partir dos primeiros anos da década de 1970, nas economias desenvolvidas, terem passado a se manifestar de forma distinta daquelas até então conhecidas, conforme trataremos mais adiante.
O conceito de “nova exclusão social” passou a identificar a manifestação de categorias de desigualdade, como no caso dos desprotegidos pelas políticas sociais de inclusão existentes, particularmente no caso do desemprego generalizado e de longa duração, dos moradores de rua, do desemprego de jovens e das formas de emprego precário das pessoas de elevada escolaridade sem trabalho, como nos países europeus, e do que Paugam (2003) denominou “desqualificação social”, resultado do emprego precário e, atualmente, prevalecente na sociedade francesa.
É importante deixar claro, aqui, um alerta de Campos et al. (2004) de que não se pode segmentar a população brasileira entre velhos e novos excluídos. A verdade é que se trata de uma análise dos diversos processos socioeconômicos de geração de exclusão social, que se superpõem, tornando a realidade social cada vez mais complexa e o seu enfrentamento uma tarefa ainda mais espinhosa. Nesse sentido, a velha exclusão social não desaparece e o
problema dos baixos níveis de renda e de instrução se mantém, embora sob nova forma. O desemprego e a informalidade contribuem para o rompimento dos vínculos sociais numa sociedade cada vez mais competitiva, onde há um desejo veemente por padrões de consumo mais sofisticados e na qual a violência vem a acirrar-se.
E, assim, a exclusão social - tanto a velha como a nova – somente pode ser entendida a partir de uma compreensão da dinâmica geradora de excluídos sociais, de “desestabilização dos estáveis” - trabalhadores que ocupavam uma posição sólida na divisão do trabalho clássica e que se encontram ejetados dos circuitos produtivos – o que traz para parcelas crescentes da sociedade brasileira sua “instalação na precariedade” (CASTEL, 2004, p. 253) – fenômeno que atinge freqüentemente os jovens, com alternâncias de períodos de atividades, de desemprego, de trabalho temporário e de ajuda social (CASTEL, 2004, p. 252). Daí, ao conjunto dos tradicionais “despossuídos” do passado, junta-se agora uma legião de “deserdados”, às vezes com níveis médios de instrução relativamente elevados.
Para Campos et al. (2004), a nova exclusão mal consegue esconder a manifestação da velha exclusão. Na verdade, ela intensifica aquela exclusão associada a baixos níveis de renda e de instrução, ao reproduzir níveis de consumo abaixo do mínimo necessário e bloquear a ascensão profissional, oferecendo empregos precários. E, nessas circunstâncias,
enquanto o nível de instrução médio da população avança e a qualidade do emprego regride, a concorrência entre os trabalhadores – geralmente por postos de trabalho abaixo de sua qualificação – se amplia e o resultado desses movimentos é sintetizado pelo avanço da exclusão social (CAMPOS et al. 2004, p. 55).
Assim, o jovem que ingressa na população economicamente ativa já se encontra, em grande medida, excluído do acesso a emprego e renda, apesar de ter níveis de instrução mais elevados do que no passado. Paradoxalmente, segundo os citados autores, o problema do jovem surge quando a sua participação na força de trabalho, embora expressiva, começa a decrescer, gradualmente, tal a incapacidade de se promover o crescimento econômico sustentado e de se elevar os níveis de investimento e emprego.
Nesse contexto, a explosão da violência, no último decênio, pode ser resultado da falta de intervenções efetivas para diminuir a enorme desigualdade que caracteriza a sociedade brasileira, e que, agora, passados 20 anos de baixo crescimento econômico e, portanto, de ausência de “amortecedores sociais”, se expressa de forma atemorizadora, ressaltando-se que não se pode negar a associação entre a violência, com suas diversas conexões, e a falta de perspectivas de inserção do jovem na vida social.
Na atualidade, a escassez de empregos acirra a concorrência entre os trabalhadores, que passam a ser considerados responsáveis por sua condição de desempregados. Eles são vistos como auto-excluídos pelos segmentos conservadores à medida que sua desqualificação é vista por estes como a única razão para o seu insucesso em obter um posto de trabalho no mercado. Assim, a exclusão social se naturaliza, sendo considerada pelos segmentos conservadores como fruto do atraso, e não como resultado de uma modernidade específica.
Nesse contexto, os excluídos sociais, agora concentrados nas grandes metrópoles, com baixos salários – tanto por pressão do desemprego quanto pela redução dos direitos trabalhistas - empregos temporários e rebaixamento dos preços dos serviços e produtos cobrados pela multidão de trabalhadores autônomos, abrem novas formas de geração de excedente num momento em que o capital produtivo se mostra engolfado pela dinâmica financeira. Assim, ao longo das quatro últimas décadas, assistiu-se a um processo que tornou mais complexa a exclusão social. Surgiram novas formas de manifestação do fenômeno, as quais, longe de substituir as antigas, somam-se a elas.
Em resumo, a exclusão social manifesta-se, crescentemente, como um fenômeno que diz respeito tanto ao não acesso a bens e serviços básicos como à existência de “segmentos sociais sobrantes” – na expressão de Castel (2004, p. 254) - de estratégias restritas de desenvolvimento socioeconômico, passando pela exclusão do trabalho e renda suficiente, pela exclusão da terra, da seguridade e segurança pública e dos direitos humanos.
E é na etapa contemporânea de expansão do sistema capitalista internacional, quando as desigualdades sociais se revelam cada vez mais cruéis, que os processos de exclusão atingem, de forma diferenciada, os mais diversos segmentos da sociedade e do mundo global, desafiando as possibilidades de acesso ao desenvolvimento e ao bem-estar das populações. Castells (2002a) se refere a essa questão dizendo que, sob a perspectiva da lógica do novo sistema de produção, um número considerável, provavelmente em crescimento, de seres humanos não é mais pertinente nem como produtor, nem como consumidor. Daí que milhões de pessoas estão o tempo todo com e sem trabalho remunerado, freqüentemente em atividades informais e, em grande parte, “no chão de fábrica da economia do crime”. E afirma:
Além disso a perda da relação estável com o emprego e o pequeno poder de barganha de muitos trabalhadores levam a um nível mais alto de incidência de crises profundas na vida familiar: perda temporária de emprego, crises pessoais, doença, vícios em drogas/álcool, perda de empregabilidade, perda de bens, perda de crédito. Muitas dessas crises ligam-se entre si, provocando a espiral descendente da exclusão
social rumo ao que chamei de “os buracos negros do capitalismo informacional”, dos quais é difícil [...] escapar. (CASTELLS, 2002a, p. 421).
Assim, ao mesmo tempo em que modificações significativas têm ocorrido no mercado de trabalho e no emprego, o modelo de bem-estar social mostra-se incapaz de atender às demandas da sociedade, abrindo caminho para a redefinição do papel do Estado e para o redimensionamento dos serviços que este se propõe a prestar aos cidadãos.
Nos países avançados se intensificam os chamados conflitos distributivos, mais ainda em virtude da presença crescente de imigrantes oriundos de inúmeros países, alguns deles de longa data envolvidos em relações de subordinação econômica, apesar de independentes. Assim, restrições e muitos preconceitos colocam muitos obstáculos à integração de segmentos populacionais atraídos pela possibilidade de usufruírem os benefícios do estado de bem-estar social nas metrópoles dos países centrais.
Um dos exemplos mais recentes, para ilustrar, é o caso da França. Como acompanhamos, o mundo pasmou, em outubro de 2005, diante da revolta de jovens que, durante três semanas, emergiu dos subúrbios parisienses para se espalhar por todo o país, deixando no ar em toda a Europa a preocupação de que aquele espectro se estendesse pelos demais países. A França parecia não conseguir enquadrar em sua imagem as impressionantes cenas incendiárias produzidas por jovens das classes populares, em violentos conflitos com a polícia.
É claro que, naquele momento, os setores conservadores, certamente com a cumplicidade de uma cobertura distorcida de parte da mídia, procuraram explicar a revolta e o emprego de medidas repressivas em seu enfrentamento, através de idéias como a de grupos de “marginais” contrários à ordem ou de descendentes de imigrantes. É verdade que, pela sua complexidade, esse evento poderia ser abordado de diferentes perspectivas, embora não seja esse o nosso propósito aqui. Todavia, é importante mencionar que ele é resultado de um longo e complexo processo histórico que presidiu as relações entre a França e a imigração, tanto em decorrência de sua posição como potência colonial, quanto pela sua necessidade de força de trabalho, desde o século XIX, para fazer a maquinaria econômica francesa se movimentar nos fluxos e refluxos do capitalismo.
Acontece que, mais recentemente, para grande parte das gerações de imigrantes, já franceses nos documentos de identidade, mas portadores de características próprias, que os tornavam oriundos da imigração, só restara “um lugar” no “não-lugar”. São franceses, mas vistos como “árabes”, “negros”, “africanos”, e outros, os quais se viram diante do desencantamento do mundo urbano, envolvidos em problemas relacionados com o
desemprego, a insegurança, o mercado negro do trabalho, o terrorismo e também com a segregação espacial, associando desigualdades sociais e discriminação racial.
São esses jovens o alvo principal das ações policiais, portando as marcas de sua origem e de seu lugar de moradia (banlieues) quando procuram entrar no mercado de trabalho. São jovens, filhos da classe operária, os quais, diferentemente de seus pais, só conheceram a precarização. Logicamente, em função das movimentações do capitalismo e das necessidades econômicas da França, a exemplo de outras partes do mundo, os imigrantes e seus descendentes sempre serviram como importante apoio tanto para o funcionamento econômico (“necessários”), quanto para servir nos momentos de crise (“indesejáveis”) de bode expiatório, na expressão de Beaud e Pialoux (2006). E aqui, lembrando Castells (2002a, p. 418), embora, no conjunto, “esses trabalhadores sejam imprescindíveis ao processo produtivo, individualmente são dispensáveis, pois o valor agregado de cada um deles representa uma pequena fração do que é gerado pela e para a organização.”
Deflagrado o movimento de revoltas, que, em 2005, surpreendeu pela sua vitalidade e duração, algumas semanas depois foi reprimido pela repressão governamental, via decretação de “estado de emergência” e “toque de recolher”, em certas regiões, voltando o país a uma aparente tranqüilidade, embora o estrago material e simbólico já tivesse sido feito, demonstrando o estado de vida e ânimo das jovens gerações de vida precarizada.
Retomando a discussão sobre o fenômeno da exclusão social, ao longo do tempo, apesar das várias iniciativas de universalização de direitos, a exclusão social, no Brasil, permaneceu manifestando-se generalizadamente. Segundo Campos et al. (2004), de um lado, a “velha exclusão”, ou exclusão tradicional, que continua sendo a marca das regiões geográficas menos desenvolvidas, manifestada pela permanência da baixa escolaridade, da pobreza absoluta no interior das famílias numerosas e da desigualdade nos rendimentos. E, de outro, a “nova exclusão” que vem contagiando rapidamente as regiões mais desenvolvidas, através do desemprego generalizado e de longa duração, do isolamento dos jovens, da pobreza no interior de famílias monoparentais, da ausência de perspectiva para a parcela da população com maior escolaridade e do acirramento da violência.
Os estudos de Campos et al. (2004) permitem compreender a velha exclusão social como “a forma de marginalização dos frutos do crescimento econômico e da cidadania, expressa pelos baixos níveis de renda e escolaridade”, recaindo com mais freqüência sobre os migrantes, os analfabetos, as mulheres, as famílias numerosas e os negros. Ela fora sobretudo fruto, num primeiro momento, de uma pressão da mão-de-obra do campo que inundou as cidades, num processo de intensa urbanização e num contexto de ausência de reformas e da
repressão sindical, no período de 1964 a 1982. No momento seguinte, que vai de 1980 a 2000, a estagnação da renda seria fruto da generalização do desemprego e da informalidade. A valorização do capital financeiro, nos anos 1980, empurrou a maior flexibilidade para o mercado de trabalho. Segundo Campos et al. (2004, p. 47), “a velha exclusão foi apenas atenuada ao longo dos últimos quarenta anos, constituindo-se como um desafio a ser vencido, no momento em que a nova exclusão se manifesta de forma avassaladora”.
Dentro do contexto da chamada “nova exclusão”, é possível entendê-la como um fenômeno de ampliação de parcelas significativas da população em situação de vulnerabilidade social11, e também as diferentes formas de sua manifestação, abrangendo as esferas política, econômica e cultural. Ressalte-se que esta nova exclusão afeta segmentos sociais antes relativamente preservados do processo de exclusão social, como os jovens com elevada escolaridade, pessoas com mais de 40 anos, homens não negros e famílias monoparentais. Sobre esse fenômeno, Campos et al. afirmam que
A nova exclusão, ao revelar-se nas diversas esferas de sociabilidade, produz resultados diferentes ao se sobrepor às velhas formas de manifestação desse fenômeno, deixando-o mais complexo e mais amplo, aumentando ainda mais o desafio do poder público para eliminá-la. O desemprego e a precarização das formas de inserção do cidadão no mercado de trabalho são as fontes “modernas” de geração da exclusão, tendo como subproduto a explosão da violência urbana e a vulnerabilidade juvenil, acentuadas pela maior flexibilidade ocupacional e dos níveis de renda. (CAMPOS et al. 2004, p. 49).
Alertam-nos os autores que a explosão da violência no final do século XX, considerando-se o aumento assustador da taxa de homicídios por 100 mil habitantes no país, não pode ser associada somente à nova exclusão social. Todavia, considerando-se sua identificação temporal, o caráter de sobreposição que a nova exclusão tem em relação à exclusão tradicional, e, ainda, as coincidências geográficas de sua manifestação em localidades onde a nova exclusão se apresenta com mais ênfase, tudo isto faz do crescimento da violência um indicador fidedigno desse novo fenômeno.
Nesse contexto, a restrição dos mecanismos de proteção social e a diminuição da população por eles assistida, o estreitamento de oportunidades pela redução de postos de trabalho, o desemprego tecnológico, enfim, todos esses fatores configuram uma nova exclusão, diferente, portanto, daquela conhecida em etapas anteriores do capitalismo.
11 Vulnerabilidade social é um conceito aqui tratado como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade
dos recursos materiais ou simbólicos dos atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais, econômicas, culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade. Segundo Abramovay (2002, p. 31), “o enfoque de vulnerabilidade social constitui ferramenta válida para compreender a situação dos jovens, especialmente aqueles de camadas populares, e da sua relação com a violência [...].”
No caso do Brasil, sabemos que o país, marcado por sua herança colonial e pelo papel periférico que assumiu ao longo do processo de consolidação mundial do capitalismo monopolista, tem enfrentado grandes desafios diante da nova reordenação global. Assim, se os caminhos e alternativas escolhidos pela sociedade brasileira representaram avanços rumo ao progresso e a estágios mais avançados de desenvolvimento, ao mesmo tempo ampliou-se a desigualdade, expressa em uma distribuição de renda das mais desiguais do mundo.
Refletindo-se ainda sobre a exclusão social do ponto de vista econômico, particularmente em relação ao mercado formal, os trabalhadores, mesmo explorados pelo sistema, estão incluídos ou integrados, e, ao mesmo tempo, convivem com os excluídos desse mercado (desempregados, subempregados, trabalhadores sem carteira assinada, segmentos do mercado informal, o “exército dos dispensados” supérfluos, inúteis, desnecessários). Esses “excluídos” são representados basicamente pelos imigrantes nos países centrais, como vimos no caso da França; e, nos países periféricos, sobretudo, por contingentes crescentes que vivem numa condição de “apartheid social”.
Para Castells (2002a), a exclusão social é um processo, não uma condição. Assim seus limites são flexíveis, podendo os excluídos (e incluídos) se revezarem no processo ao longo do tempo, em função do seu grau de escolaridade, características demográficas, preconceitos sociais, práticas empresariais e políticas governamentais. Segundo o autor, apesar de a falta de trabalho regular, como fonte de renda, ser, em última análise, o principal mecanismo em termos de exclusão social, as formas e motivos pelos quais indivíduos e grupos são expostos a dificuldades estruturais de prover o próprio sustento seguem trajetórias totalmente diversas, porém todas elas correm em direção à indigência. E, nesse sentido, afirma:
Não se trata apenas de não contar com determinadas habilidades ou de ser incapaz de encontrar emprego. Pode ser alguma doença grassando com rapidez em uma sociedade que não dispõe de um “sistema de saúde” para uma parcela significativa de sua população [...] ou a dependência de drogas, ou o alcoolismo que destrói o que há de humano em uma pessoa. Ou a cultura das cadeias e o estigma carregado pelo ex-presidiário que impedem o retorno a uma vida não-criminosa ao recuperar sua liberdade. Ou os danos provocados por doenças mentais, ou por um colapso nervoso, deixando a pessoa no limiar entre a repressão psiquiátrica e a desinstitucionalização irresponsável, entre a paralisação da alma e a anulação do desejo. Ou ainda, simplesmente, analfabetismo funcional, ilegalidade, falta de dinheiro para pagar o aluguel, o que acaba transformando o indivíduo em um sem- teto, ou puro azar com um chefe ou um policial, desencadeando uma série de eventos que atira a pessoa (e, muitas vezes, a sua família) à margem da sociedade, habitada por farrapos humanos. (CASTELLS, 2002a, p. 98-99).
Pensados do ponto de vista político, são os excluídos da cidade, da vida política, da identidade nacional, da legalidade jurídica, em última instância da cidadania. Neste sentido, um aspecto correlato ao da cidadania é o da oposição entre os cidadãos de fato (nacionais, eleitores, assalariados, consumidores) e os excluídos destas características, o que gera uma condição de destituição e de destruição da honra do indivíduo e perda de status: são os desprezados, desonrados, humilhados pelos outros, etc.
Em qualquer referência à exclusão social como campo de discussão, não é possível