A implantação do ECA e a conseqüente mudança de paradigma no campo das políticas públicas para as crianças e adolescentes, no Brasil, ampliaram a responsabilidade do Estado e da sociedade por soluções eficazes e capazes de assegurar a essa juventude, particularmente os que cometeram atos infracionais, oportunidade de desenvolvimento e reconstrução de seus projetos de vida. Neste sentido, os direitos estabelecidos em lei (ECA) precisariam repercutir positivamente na materialização de políticas públicas, particularmente quanto à questão do adolescente em conflito com a lei.
É verdade que simplesmente mudar políticas não seja o suficiente para o equacionamento dessa questão. Mas sabemos, porém, que, para grande parte da sociedade brasileira, ainda prevalece a tradicional visão preconceituosa, repressiva e policialesca, característica de muitas opiniões e intervenções neste campo. E, a propósito, assim afirmam Sales et al. (2006, p. 17):
Largas parcelas da população infanto-juvenil deste país, sabe-se, vivem na berlinda, sendo exemplo cabal os dados mais recentes de mortalidade por causas externas e violência, o recrutamento de segmentos infantis para o narcotráfico e a prevalência ainda da lógica punitiva e criminalizadora – em detrimento da dimensão socioeducativa – no atendimento ao adolescente autor de ato infracional. Assim, infância e adolescência vêm historicamente rimando com desesperança e é necessário mudar esse enredo.
E essa visão policialesca, por paradoxal que pareça, também está presente e se reproduz no interior das instituições privativas de liberdade, pelas evidências mostradas em vários estudos9, de atos de violência, repressão, tortura e até mortes, resultado de políticas ditas socioeducativas, mas que, na verdade, são mais conhecidas pela sua histórica incapacidade de promover ações capazes de ultrapassar os limites da ficção. E aqui caberia a pergunta: será que essa visão policialesca da população não expressa a ordem que se instaura na “sociedade de controle?”
Sabemos que o envolvimento com a violência não é exclusividade do segmento juvenil. Mas a exposição a esse fenômeno social é, na atualidade, uma ameaça real para todos os jovens, sobretudo se adolescentes. Dados do IPEA (2006) mostram, nesse sentido, uma situação que parece ser geral no Brasil: a de que os jovens do sexo masculino, negros e pobres
9 Bierrenbach (1987), Queiroz et al. (1987), Altoé (1990), Evangelista (1998), Assis (1999), Takeuti (2002b),
são aqueles mais vitimados por homicídios. Resumidamente, segundo o IPEA (2006, p. 80), “o grupo populacional mais vitimado é composto pelos homens, jovens (18 a 24 anos), negros com até 7 anos de estudo”. No caso dos jovens egressos do CEDUC, objeto do nosso estudo, situados nessa mesma faixa etária, eles se acham, tanto em função de suas histórias de vida quanto do seu envolvimento com o mundo do crime, muito mais expostos a riscos maiores, seja como atores seja como vítimas da “violência criminalizada”.
Nesse contexto, eles passam a ser os alvos privilegiados das representações negativas da sociedade, e vítimas maiores do preconceito, da rejeição e da estigmatização por parte de expressivas parcelas da população, ostensivamente interessadas apenas na sua punição.
No Brasil, basta que haja uma ocorrência policial, com forte repercussão na mídia, que resulte em morte ou tenha características violentas contra a vítima, e, sobretudo, tendo como protagonista um adolescente pobre, para que a sociedade logo demonstre sua sede de punir e desperte uma efêmera atenção para a questão da criminalidade juvenil. Nesses casos, para importantes setores da sociedade, a punição mais comentada e mais desejada não é outra senão a redução da idade penal para dezesseis anos ou menos, numa clara opção pela criminalização da juventude pobre.
Ressalte-se que, nos casos em que os protagonistas são jovens ricos, as reações da sociedade se conduzem, naturalmente, por outras veredas, a exemplo do que ocorreu com o caso do índio pataxó, Galdino Jesus dos Santos, de 44 anos, queimado em Brasília, no dia 20 de abril de 2007, enquanto dormia, por cinco jovens brasilienses de classe média, por motivo torpe.
Em outro caso, o do menino João Hélio10, de 6 anos, no Rio de Janeiro, cuja família fora assaltada por jovens pobres, o desfecho parece ter sido bem diferente, sendo os acusados presos algum tempo depois e condenados a penas que totalizam, no conjunto, 167 anos de cadeia. Dessa forma, criado um clima propício pela mídia, marcado por forte emoção ou comoção pública, quando o espectro da violência parece rondar as pessoas e lares, logo são promovidos ciclos de debates, sessões parlamentares, mesas redondas, enquetes populares, entre outros eventos, tudo com apoio e cobertura dos principais meios de comunicação do país.
Acontece que, embora essas discussões sejam válidas, nem sempre alcançam o cerne da questão. E, aí, logo surgem as idéias conservadoras, materializadas em reações coletivas
10 O crime ocorreu no dia 7 de fevereiro de 2007, quando João Hélio Fernandes Vieites, após sua família ser
assaltada, ele foi vítima de latrocínio, arrastado por sete quilômetros, preso ao cinto de segurança do veículo da própria família, levado pelos assaltantes.
irracionais em face da ocorrência de crimes, muitas vezes, bárbaros. Assim, pede-se a pena de morte, a redução da idade penal para os jovens, o combate aos “direitos humanos dos infratores”, o aumento das penas vigentes, alterações radicais no ECA, dentre outras demandas, tudo forçando o Estado a exercer vingança implacável contra os acusados, a partir do endurecimento da legislação. Os debates se renovam. E circulam do ambiente doméstico de cada cidadão até o Plenário do Congresso Nacional, sempre fortalecidos pela crença de que “a impunidade alimenta o crime”.
Por outro lado, mesmo considerando-se que o sistema penitenciário se encontra permanentemente abarrotado de presos; e ainda que a violência - um fenômeno multifacetado - se alimenta de uma estrutura social perversa e cruel, na qual os direitos de cidadania são negados à maioria da população - especialmente às crianças e adolescentes pobres – logo se fala no endurecimento das penas e da lei como opção única para se lidar com a questão.
E, no cerne da discussão, cria-se um ambiente atemorizante e inseguro, favorável ao recrudescimento das iniciativas conservadoras e repressivas, beneficiado pelos índices de aumento da criminalidade juvenil no país, embora nem sempre se leve em conta que muitos desses jovens, responsabilizados para cumprimento de medidas socioeducativas, definidas pelo ECA, também já vivam submetidos a práticas desumanas e violentas, como no caso do CEDUC Pitimbu, segundo recentemente nos mostrou Frota (2007).
Como a realidade do CEDUC já se identifica com a história de instituições que funcionam nos moldes das “instituições totais”, analisadas por Goffman (2007), a sociedade pouco demonstra preocupação ou interesse, mesmo sabendo que ali a violência é seriamente banalizada e as práticas punitivas são severas demais. Então, por que isso acontece no cotidiano dessa juventude? Por que, já punidos nesses ambientes insalubres, jovens pobres precisam de mais punição, de mais repressão, de mais encarceramento? Por que, no Brasil, o tratamento conferido aos jovens pobres não muda mesmo na vigência de leis avançadas para este campo? Por que queremos puni-los cada vez mais cedo?
Estas e muitas outras perguntas vêm sendo estudadas e discutidas por Takeuti (2008) cujas idéias são explicitadas em texto inédito intitulado “A juventude e a vontade de punir?”, em vias de publicação, onde a autora faz uma profunda reflexão sobre o sentido da punição na sociedade contemporânea.
Embora sejam questões em aberto para discussão, no âmbito deste estudo apenas procuramos articular, de forma breve, alguma possível ligação entre a escalada da repressão à delinqüência juvenil e a doutrina econômica neoliberal que fundamenta a passagem do Estado Providência para o Estado Penal ou Estado Penitência (WACQUANT, 2001a), quando se
desenvolveu, nas sociedades contemporâneas, um processo de transferência de recursos e interesses das políticas de assistência para o custeio do sistema penitenciário.
Assim, de acordo com as políticas neoliberais de desmantelamento do Estado Providência, tomando-se de partida a experiência americana, a solução para o desemprego em massa, residiria na fórmula “menos Estado e mais mercado”, baseada na “flexibilização” do trabalho assalariado, para estimular a produção de riquezas e a criação de empregos. De acordo com Wacquant, os partidários dessas políticas estão menos interessados em
[...] abordar as conseqüências sociais devastadoras do dumping social que elas implicam: no caso, a precariedade e a pobreza de massa, a generalização da insegurança social no cerne da prosperidade encontrada e o crescimento vertiginoso das desigualdades, o que alimenta segregação, criminalidade e o desamparo das instituições públicas. (WACQUANT, 2001a, p. 77).
O autor, portanto, afirma que os neoliberais americanos optaram pela criminalização da miséria como complemento da generalização da insegurança salarial e social. E assim a gestão penal da insegurança social, materializada no desmantelamento das políticas de assistência social destinadas aos pobres, resultou na doutrina americana da “tolerância zero”, com o objetivo de ampliar a ação policial e as sanções penais a todos os crimes inclusive os mais simples comportamentos incivilizados.
Mas, a propósito, Bourdieu chama a atenção ao escrever que
Para resistir à involução do Estado, isto é, contra a regressão a um Estado penal, encarregado da repressão, sacrificando pouco a pouco as funções sociais, educação, saúde, assistência etc., o movimento social pode encontrar apoio nos responsáveis pelas pastas sociais, encarregados da ajuda aos desempregados crônicos, que se preocupam com as rupturas da coesão social, com o desemprego etc., e que se opõem aos responsáveis pelas finanças, que só querem saber das coerções da “globalização” [...]. (BOURDIEU, 1998, p. 48, grifo do autor).
Conforme alerta Takeuti (2008), ao pretender cobrir as áreas de “risco social”, esse procedimento tem o agravante de instaurar o princípio da suspeição, que passa a permear toda a sociedade.
O conceito de “tolerância zero” se baseava na idéia de que era preciso prender ou punir qualquer pessoa pelo menor crime cometido. A população deveria entender que o Estado não aceitava aqueles tipos de crime. Assim, não só esses crimes seriam reduzidos como também os de maior periculosidade. De certa forma, essa dita doutrina parece ter sido
bem acolhida pela sociedade brasileira, embora se possa admitir como insanidade a idéia de que a questão da segurança poderia ser resolvida, simplesmente com a prisão de mais pessoas. Um outro aspecto que se relaciona com a ânsia da sociedade em desejar punir cada vez mais cedo e mais pesadamente os seus jovens é o crescente “sentimento de insegurança”, fundamentado na crença de que a vida pública está cada vez mais contagiada pelos riscos e ameaças do cotidiano, o que pode intensificar as demandas por punição. A respeito dessa insegurança que afeta a todos, Bauman assim se manifesta:
Nossa vida está longe de ser livre do medo, e o ambiente líquido-moderno em que tende a ser conduzida está longe de ser livre de perigos e ameaças. A vida inteira é agora uma longa luta, e provavelmente impossível de vencer, contra o impacto potencialmente incapacitante dos medos e contra os perigos, genuínos ou supostos, que nos tornam temerosos. (BAUMAN, 2008, p. 15).
E tudo isso vai alimentando o imaginário social sobre a violência urbana, sentida no espaço público, no âmbito privado e também no âmbito do nosso corpo, “legitimando”, por conseguinte, o clamor da população por mais repressão, mais violência, mais punição.
E, nesse sentido, Takeuti (2008) procura compreender a “vontade de punir” jovens adolescentes, articulando hipóteses associadas a
Dois processos entrelaçados que fundamentam uma sociedade punitiva. De um lado, o desenvolvimento da sociedade de controle com sua “nova” política de punição articulado ao próprio perfil da economia globalizada, e, de outro, o da instauração de uma “cultura de suspeição e do medo”. (TAKEUTI, 2008, p. 4).
Ao que parece, discutir a questão da maioridade penal, no Brasil, extrapola em muito a demanda social do simples ordenamento jurídico, voltado para apenas um segmento da população - os jovens da periferia pobre envolvidos no mundo do crime. Essa questão, como, de resto, todas as dimensões dessa intransigente “vontade de punir” os jovens, está, segundo Takeuti, “açambarcada numa política mais totalizante da sociedade de controle”.
Portanto, com base nas idéias de Wacquant (2001a) quanto às tendências recentes da globalização, um estado social mínimo se transforma em um estado penal máximo, que contra-ataca os efeitos perversos da condição precária da população, gerando uma criminalização da pobreza e uma gestão penal carcerária da questão social.
Na atualidade, tem-se percebido, seja pelos meios de comunicação e mesmo através de inúmeras dissertações e teses defendidas nas Universidades, que, embora o novo texto da
lei tenha avançado significativamente ao propor uma forma de gestão democrática, através de diferentes conselhos, com representação paritária; ao reduzir o papel do Judiciário, incluindo novos atores na atenção e proteção da infância e adolescência; ao regular sobre medidas socioeducativas em contraposição às práticas repressivas do passado, tem-se a certeza de que, no plano da execução das políticas públicas nesse setor - ratifique-se - a prática tem demonstrado estar muito aquém da expectativa daqueles que lutaram intensamente e se mobilizaram pela promulgação do ECA.
Um breve contato com os adolescentes internados – como constatamos in loco nas várias visitas feitas ao longo deste estudo, sobretudo no CEDUC Pitimbu - já nos dá pistas do desrespeito aos direitos humanos, no âmbito dessas instituições, especialmente quando se trata de educação, trabalho, liberdade, solidariedade e dignidade.
Assim, é preciso que se compreenda melhor os paradoxos presentes na sociedade contemporânea, quando identificamos, de um lado, os movimentos em rede que avançam para a conquista dos direitos humanos, e, de outro, o desenvolvimento de um tipo de poder que coloniza a vida e que reduz o homem à sua dimensão residual, em que não resta senão a possibilidade de sobrevida, como nos alerta Agambem (2007, p. 121) quando afirma que “o que temos hoje diante do nossos olhos é , de fato, uma vida exposta como tal a uma violência sem precedentes, mas precisamente nas formas mais profanas e banais.”
4 EXCLUSÃO SOCIAL E CONDIÇÕES DE EXISTÊNCIA DA POPULAÇÃO BRASILEIRA
Discutir a questão da “exclusão social” envolve algumas dificuldades teóricas e práticas, as quais, em princípio, podem comprometer a sua compreensão. Com freqüência, o conceito é utilizado para abordar diversos problemas nem sempre claramente diferenciados, nem rigorosamente definidos.
O termo em si não é novo e muito tem se difundido no seio das sociedades capitalistas, sendo objeto das discussões relacionadas com as mudanças no mundo do trabalho, com as políticas econômicas geradoras de desigualdades sociais e com aspectos outros situados no plano subjetivo e cultural dos próprios excluídos “de algum lugar”, reconhecido como “oficial ou dominante”. Assim, a exclusão só pode ser pensada como um fenômeno multidimensional, particularmente por causa das múltiplas orientações teóricas que inspira .