1.5. Küresel (leşen) Kent Söylemi
2.1.2. Kentsel Mekânlarda Ayrışma ve Kimlik Kazanımı
Por se tratar de um aspecto do ECA diretamente relacionado com o nosso objeto de estudo, as medidas socioeducativas, definidas no seu art. 112, merecem aqui atenção maior. São medidas que se configuram como sanções impostas aos adolescentes acusados da prática de atos infracionais.
Na verdade, elas materializam a manifestação do Estado em resposta ao ato infracional cometido por qualquer adolescente, bem como pelo subseqüente desenvolvimento de programas e ações destinados a redirecionar sua trajetória de vida.
Elas são aplicadas quando os direitos dos adolescentes se acham ameaçados ou violados por ação ou omissão da sociedade, do Estado, dos pais ou em razão da conduta dos próprios adolescentes. As medidas socioeducativas são as seguintes: advertência; obrigação de reparar o dano; prestação de serviços à comunidade; liberdade assistida; inserção em regime de semi-liberdade; internação em estabelecimento educacional; ou qualquer uma das medidas de proteção previstas no art. 101, I a VI, do ECA.7
Elas podem ser agrupadas em medidas de execução “em meio aberto” ou não privativas de liberdade; e medidas de execução “em meio fechado”, ou privativas de liberdade (regimes de semiliberdade e de internação). As medidas previstas no art. 101 se referem à possibilidade da aplicação das medidas protetivas conforme as respectivas cominações legais.
Para a aplicação dessas medidas, é necessário o respeito aos princípios constitucionais que regem o processo e a pessoa do acusado em cometer o ato infracional. De acordo com DAL RI (2006, p. 37), esses princípios foram transferidos minuciosamente para o ECA, sendo garantidos ao adolescente infrator todas as garantias processuais, bem como os direitos individuais. Assim, as garantias estão contidas nos arts. 110 e 111; e os direitos, explicitados nos arts. 106 a 109, ambos consignando correspondência expressa à Constituição Federal.
Hoje, sem dúvida, embora disponhamos de uma moderna legislação, paradoxalmente as práticas institucionais, após dezoito anos de vigência do ECA, ainda se mantêm repressivas, exigindo propostas emancipatórias de atendimento e alternativas educacionais destinadas aos adolescentes em conflito com a lei. Neste sentido, embora reconhecendo que,
7 O art. 101 prevê as seguintes medidas: encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de
responsabilidade; orientação, apoio e acompanhamento temporários; matrícula e freqüência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental; inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente; requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; colocação em família substituta; abrigo em entidade. O abrigo é medida provisória e excepcional, utilizável como forma de transição para colocação em família substituta, não implicando privação de liberdade.
em se tratando do ato infracional, a realidade nacional é heterogênea, a antropóloga Paula Miraglia, do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (ILANUD) afirma:
[...] infelizmente, na maior parte do país, o cenário ainda é caracterizado por inúmeras violações de direitos, tais como adolescentes privados de liberdade em presídios e delegacias, o não-respeito aos 45 dias de internação provisória e medidas socioeducativas que privilegiam o aparato repressivo e punitivo, revelando a incapacidade institucional de contribuir para que o adolescente seja capaz de reconstruir um projeto de vida alternativo ao envolvimento com o universo infracional. (MIRAGLIA, 2008).
Por isso, um breve olhar no interior dos espaços institucionais, onde as ações socioeducativas são operacionalizadas, logo percebemos que elas não vêm produzindo os efeitos desejados: a violência institucional permanece, as instituições de internação continuam sofrendo problemas de inadequação das bases físicas, insuficiência de investimentos de apoio às atividades técnicas; profissionais desestimulados, gestores despreparados, excesso de adolescentes confinados, insuficiência de recursos orçamentários, enfim, são obstáculos reais e permanentes a superar que vão de encontro a promessas não cumpridas, transmitidas, pelas instituições de atendimento, aos adolescentes, às suas famílias e à própria sociedade, através das ditas “propostas pedagógicas”
Nesse contexto, no qual as ações são executadas sem atingir os níveis de eficácia desejados, logo surgem propostas de mudança no ECA em busca de ações mais pragmáticas, embora puramente conservadoras. Mas o que parece também grave, no contexto, é a falta de proposta pedagógica consistente8, articulada com a família e a sociedade, capaz de transformar um ser humano inseguro, cheio de incertezas, frustrações, revolta e baixa auto- estima em um cidadão competente para construir e desenvolver um novo projeto de vida, dentro de uma perspectiva emancipatória.
Observando-se todo esse tempo de vigência do ECA, a realidade apresentada no desenvolvimento das ações parece ainda tímida em relação ao que imaginavam os atores que idealizaram o Estatuto. Não são poucas as críticas aplicadas à execução das políticas para o setor, o que tem gerado espaço para o avanço de idéias repressivas e policialescas defendidas pelos setores mais conservadores da sociedade, dentre as quais a redução da maioridade penal.
8 Toda essa realidade fora percebida por Brennand [2002? p. 25], Paiva (2008) e, neste estudo, confirmada nas
É verdade que, segundo os profissionais entrevistados, há avanços nas práticas (bom funcionamento de alguns conselhos, bom combate à exploração do trabalho infantil, importantes iniciativas de capacitação de recursos humanos, ampliação dos espaços para denúncias de violação de direitos), porém ainda persistem problemas graves que precisam ser superados com brevidade (baixa qualidade e desempenho dos programas de liberdade assistida, inexistência de acompanhamento e apoio aos egressos, limitações no desenvolvimento dos programas que executam as medidas socioeducativas, inexistência de um sistema informatizado e confiável de controle de dados sobre a movimentação das crianças e jovens atendidos, má gerência do suprimento de materiais de apoio e transporte para atender às necessidades dos programas).
Pergunta-se, então, por que a implementação do ECA não tem ocorrido com o mesmo entusiasmo e com a mesma determinação com que as políticas ali explicitadas foram pensadas? A busca dessa resposta, segundo Bazílio (2003), deve ser constante, pois, com certeza, ela nunca será completa ou definitiva. Fala-se da insuficiência de recursos e da falta de uma política de financiamento; do esvaziamento dos fundos, da diminuição dos orçamentos, da ingerência política, do amadorismo ou incompetência de gestores públicos, da baixa qualificação e remuneração dos agentes educacionais atuantes no interior das Unidades de atendimento, particularmente aquelas encarregadas do cumprimento das medidas socioeducativas.
São possibilidades que precisam ser bem detectadas, analisadas e compreendidas, evitando-se posturas radicais que possam comprometer ou mesmo prejudicar o encaminhamento adequado das soluções.
Como sugerira outrora Bazílio (2003), é importante revigorar os conselhos tutelares e de direitos, esclarecer a população quanto aos princípios do ECA e ter postura firme em relação aos direitos humanos. Trata-se de uma plataforma política inicial dos grupos e movimentos sociais “que precisam voltar à cena pública e manter viva a chama dos ideais que os uniram nos anos 1980”.
Se isto não vier a acontecer nesses novos tempos, se as ações do ECA na atualidade não vierem a produzir efeito visível no cotidiano das crianças e adolescentes em nossas grandes cidades, sobretudo aquelas marcadas pela violência e pela violação aos mais elementares direitos humanos, talvez a nova doutrina, quase completada a sua maioridade, possa começar a ser substituída por outra, cuja ideologia e métodos sejam vistos como um retrocesso.
É um risco que poderia acontecer não em função de o ECA mostrar fraquezas ou equívocos em suas proposições, mas simplesmente pelo fato de que o seu conteúdo, ao que parece, ainda não está sendo compreendido pela sociedade nem suas práticas se encontram “à altura de sua utopia”.
Talvez seja a hora de se buscar em Boaventura Santos (2005), a idéia do “conhecimento-emancipação”, o conhecimento voltado para o saber solidário. Para este autor “a solidariedade é uma forma específica de saber”. Neste sentido, é necessário destacar a importância do debate, inclusive no nível institucional, pela democratização do saber, da ciência. É um debate que deve ocorrer também através de iniciativas das pessoas, de profissionais de áreas específicas, organizações e, sobretudo, dos movimentos sociais. Essa deve ser uma luta constante e indispensável por um conhecimento aberto aos jovens cidadãos, inclusive adolescentes em conflito com a lei, criando-lhes condições e oportunidades para que participem, efetivamente, das discussões sobre as decisões que os afetam no cotidiano, tornando-os capazes de lidar com os problemas do seu tempo, do seu espaço, da sua existência dentro e fora das instituições, onde se encontram confinados, desenhando ou construindo seus projetos de vidas.