3.2. Araştırma Bulguları ve Yorumu
3.2.5. Aile Kurumu ve Stüdyo Daireler
Pedro Nava afirma:
Eu não teria sido um escritor de memórias se não tivesse tido minha época de exteriorização literária num momento em que nós estávamos debaixo de uma ditadura, uma ditadura militar. E comecei a escrever, talvez para me livrar desse espantalho, para conversar comigo mesmo na impossibilidade de fazer isso com os outros. (NAVA, 1984).28
Esta breve afirmação denota o quanto a imposição do silêncio durante a ditadura militar (1964-1985) afetava Nava e o fez voltar-se para sua escrita memorial. Entretanto, segundo Souza, uma de suas principais comentadoras, as
primeiras manifestações de Pedro Nava como memorialista surgem ―em 1952, com
a publicação da crônica Evocação da rua da Bahia.‖ (SOUZA, 2005, p. 17), reproduzida como anexo em ―Chão de Ferro‖ (2001). Essa crônica fez parte das homenagens ao cinquentenário de Carlos Drummond de Andrade. Já Villaça (2007) defende a tese de que o memorialista aparece com a publicação do livro ―Território de Epidauro‖ (NAVA, 2003d), publicado em primeira edição em 1947. Contudo, vemos na epígrafe que a decisão de escrever suas Memórias, para além das crônicas da vida e da medicina, está mais ligada, conforme o Narrador, à condição existencial e social de ter decidido tornar-se escritor quando o Brasil se encontrava governado por uma ditadura militar que, para ele, era um espantalho do qual queria se livrar.
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Ver entrevista completa em entrevista à Folha: Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/ folhetim_15mai1984.htm>.
79 Como memorialista, o Narrador destacou-se na cena literária brasileira, tornando-se para alguns críticos, como Candido (1987), Bueno (1997), Fávero (2000) e Cançado (2003), um escritor notável. Seu trabalho de construtor memorial de si e do país começou a ser posto na escrita em 1968, quando o Brasil vivia a ditadura civil-militar imposta ao país em março de 1964, regime que impunha a censura prévia sobre todas as produções artísticas e literárias e se destacava pelo autoritarismo praticado pelo governo. Esta era, portanto, mais uma ditadura vivida por Nava, e como enfrentá-la? Em seu livro inacabado das Memórias diz que
Getúlio e o Estado Novo estavam passando a bola para os Tenentes e para o treino da partida jogada em 1964 e que a Journée de dupes dos civis que conspiravam com a farda e ajudaram a dar aspecto de legalidade, à finalmente solução da famosa questão militar que vinha se arrastando desde o Império. Mal sabiam eles que estavam ajudando a pôr a seva de
Tiestes onde cada casaca a gorilas serviu de mantimento. (NAVA, 2006, p.
14-15, grifos do autor).
Esta interpretação aproxima-se das desenvolvidas por Germano (2008) sobre este período, quando afirma: ―em todo percurso de 1889 a 1964, o afã de construir um Brasil forte e poderoso rondou as mentes dos militares.‖ E, acrescenta: ―ganhou mais força, no entanto, a partir de 1937, quando cresceu, no meio militar e em setores dominantes da sociedade brasileira, a ideia de construir um Estado
autoritário de segurança nacional, para conduzir o desenvolvimento
capitalista/industrial do país.‖ (GERMANO, 2008, p. 80-81).
É dessa forma que, segundo Souza (2005), no conjunto das Memórias o Narrador fez um acerto de contas com o passado, oferecendo ao memorialismo brasileiro um novo fôlego, pois, ao falar de si, ele reconstruiu histórias de família e de personagens históricas do Brasil, ―transformando sua obra em referência histórica para a pesquisa sobre a cultura mineira e, por que não, brasileira,‖ (SOUZA, 2005, p. 15), em narrativas situadas política e socioculturalmente. Trata-se de um testemunho de uma época registrada por um intelectual brasileiro que se tornou memorialista, podendo essa apreciação ser reiterada pela tese de Santos (2004), de que todo conhecimento é autoconhecimento.
80 As Memórias formam um conjunto literário29 e nele o escritor brinda o leitor com uma narrativa de sua vida articulada à vida da cultura brasileira, faz saber de um tempo social por ele vivido, todavia, retroage um pouco no tempo ao fazer uma espécie de arqueologia de seus antepassados. O escritor trabalhou nas Memórias, já idoso, em seu espaço-tempo – momento vivido, retratando fragmentos do não esquecido. Enveredou pelas cenas da vida cultural e social, preservadas pela memória e temperadas pelo imaginário que permeia, dosa a escrita de seu eu Narrador com um toque não sutil de saudade e tristeza, fazendo desabrochar duas de suas preocupações: a condição humana em seus momentos existenciais os quais desejava ver e sentir com dignidade para todos e com o respeito necessário aos povos que formaram o Brasil.
O primeiro livro das Memórias é ―Baú de ossos‖ (NAVA, 2002), publicada em primeira edição em 1972, que começou a ser escrito em 1968, ano em que o Brasil e o mundo viviam grande turbulência em todos os setores, inclusive nas universidades; o ano do AI 530 e da implantação da ditadura militar com ―D‖ maiúsculo. Neste ano também morre sua mãe dona Diva Jaguaribe.
―Balão cativo‖ (NAVA, 2000) é o segundo livro das Memórias e Nava começou a esboçá-lo em 1970 (quando ainda não havia sido lançado ―Baú de ossos‖). Neste traz suas vivências como uma criança órfã, desnudando suas primeiras experiências escolares. A primeira edição foi publicada em 1973.
―Chão de ferro‖ (NAVA, 2001) é o terceiro livro de memórias e foi concluído em 1975, um ano após a publicação do segundo livro das Memórias. O ―Chão de ferro,‖ de Nava, retrata sua vida escolar como interno no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro e sua convivência com familiares que tiveram grande importância em sua formação como homem, leitor e escritor. Foi publicado em primeira edição em 1976.
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Excelentes resumos de todos os livros que formam o conjunto das Memórias podem ser lidos em Vale (2009), entre outros, daí porque consideramos desnecessário fazê-los novamente, embora reconheçamos que todo pesquisador faz suas próprias leituras e escolhas.
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O Ato Institucional nº5 ou AI-5 emitido pelo regime militar brasileiro, se sobrepunha à Constituição Brasileira de 24 de janeiro de 1967 e às constituições estaduais, delegava poderes extraordinários ao Presidente da República e suspendia várias garantias constitucionais. Foi redigido pelo ministro da justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, e entrou em vigor em 1968, durante o governo do general Artur da Costa e Silva, quando presidente do Brasil. Foi uma represália à decisão da Câmara dos Deputados, que não concedeu licença para que o deputado Márcio Moreira Alves fosse processado por um discurso no qual questionava: ―até quando o Exército abrigaria torturadores?‖. Mais informações em Germano (1995).
81 Em 1976 Nava dá início à estruturação do quarto livro das Memórias: ―Beira- mar‖ (2003a) concluído em abril de 1978,31
e lançado no mesmo ano. Para Vale (2009, p.164), trata-se de um livro documento sobre o Modernismo e o ensino médico em Minas Gerais. Neste, trata de sua formação médica, discorrendo sobre a dinâmica da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte em termos de conteúdos, postura de professores, relação entre alunos, em meio a outros temas sociais e profissionais. Assim, reconta a história desta Faculdade a seu modo, pois esta já havia sido escrita por outros escritores.
―Galo-das-trevas: as doze velas imperfeitas‖ (NAVA, 2003b) é o quinto livro das Memórias e começou a ser escrito em 1978, sendo publicado em primeira edição em 1981. Aqui traça seu percurso profissional no início de sua carreira como médico, mostrando suas dificuldades de atuação.
O sexto livro de Memórias é ―O círio perfeito‖ (NAVA, 2004c), concluído em 1983 e publicado no mesmo ano, quando o autor já iniciava o sétimo livro ―Cera das almas‖ do qual ficou apenas um fragmento com 36 páginas que foi publicado após sua morte. ―O círio perfeito‖ traz as vivências de sua carreira como médico já maduro, participante da vida social na cidade que ele escolheu para viver e morrer, o Rio de Janeiro.
Nava inicia seu trabalho memorialístico indo ao passado de sua família para chegar ao seu próprio passado. Mostra assim, os modelos de educação ao qual ele foi submetido, os ciclos de sua vida, seus amores e des/amores, as relações pessoais, profissionais e sociais, enfim, o processo de sua formação, amalgamado no do povo brasileiro nas décadas iniciais do Século XX. Vai conduzindo seus escritos tendo a memória como um instrumento que deve ser talhado, moldado pelo escritor para dar lógica à narrativa. Desse modo, dedica boa parte das Memórias ao seu ser criança e à sua infância, especialmente no primeiro e no segundo livro. Nestes o escritor oferece sua vida de criança aos seus leitores e intérpretes, já por ele avaliada, para que se possa refletir sobre a infância em um sentido ampliado do termo: infância como momento da vida recheado de experiências e aprendizagens que conduzirão os sujeitos vida afora, momento da formação do Narrador.
As Memórias de Pedro Nava possibilitam inferir que ao narrar vida social e cultural brasileira, transitando do Sudeste para o Nordeste brasileiro, vai fazendo
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82 uma prospecção do passado e expondo as singularidades de seu próprio viver. Conforma experiências que configuram a multiculturalidade do seu povo – o brasileiro – através de descrições que apresentam, de forma peculiar, aspectos da alimentação, das relações sociais e familiares, da visão de morte, impregnados no seu eu e no imaginário social brasileiro por ele relatado.
Os conteúdos das Memórias remontam a lugares e pessoas conhecidos e situados geograficamente no espaço brasileiro, muitas dessas pessoas são biografadas por ele e descritas no movimento da vida que lá existia. Talvez o autor desejasse fixar o passado no presente, dizer que para pensar a cultura da sociedade brasileira é necessário situá-la na história de seu povo, falando também de pessoas comuns. Torna-se, assim, um biógrafo não apenas de seu grupo, mas de sua sociedade, pois também evidencia a existência de pessoas comuns com seus hábitos cotidianos de forma quase antropológica.
Nava mostra-se nas Memórias como um observador arguto das particularidades, modos de vida, jeito de ser brasileiro, na concretude do dia-a-dia, nas dinâmicas familiares, sociais, políticas e culturais, na práxis do cotidiano, na mistura ao mesmo tempo homogênea e heterogênea de suas diferentes e diversificadas culturas, em suas festas e rituais e nos usos da Língua Portuguesa. Podemos afirmar que seus escritos memorialísticos são crônicas que informam sobre modos da cultura brasileira que existem e são praticados para além das visões hegemônicas do mundo.