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3.5. AB’ye Üyelik Sürecinde Kalkınma Planları Bağlamında Türk Yerel Yönetim Sisteminin

3.5.3. Onuncu Kalkınma Planı

Para explicitar o aspecto construtivo da língua, Flusser constrói uma alegoria acerca do desenvolvimento individual e coletivo da língua. Ele propõe, através de um gráfico, uma fisiologia da língua, que serve tanto para o sentido amplo, quanto para o restrito.

Gráfico 2. Fisiologia das línguas29

29 Encontrado em FLUSSER, 2004, p.222. Essa versão do gráfico foi tirada da internet, e é mais interessante do

que a presente no livro, pois permite visualizar a tridimensionalidade do globo, tornando mais claras as tendências laterais.

O gráfico se subdivide em camadas progressivas de baixo para cima e para a direita e a esquerda. É um eixo mercator que reproduz a realidade em uma relação direta com o globo terrestre. O gráfico possui polos sul e norte e um equador. É importante lembrar que é uma projeção cilíndrica, ou seja, deve ser pensado em três dimensões, apesar de estar retratado em duas.

Como pode ser visto, o eixo é rodeado pelo silêncio, pelo nada. Tudo que existe está dentro de seus limites. Mas os silêncios que o circundam não são o mesmo, são silêncios de tipos deferentes. O silêncio do polo sul, onde o desenvolvimento da língua se inicia é um silêncio inautêntico. O silêncio da ausência de articulação, pois é anterior ao desenvolvimento do intelecto. O silêncio do polo norte é um silêncio autêntico, já que é o silêncio do “poder ser”, o silêncio do enriquecimento da realidade. Vilém Flusser percebe a língua como progresso em camadas, onde o fim é o mesmo do início, mas um mesmo muito diferente. O desenvolvimento de um silêncio ao outro encontra-se no decurso de cada vida humana.

O equador da realidade é o lugar onde os intelectos se mantêm cotidianamente. Eles oscilam entre a conversa fiada e a conversação. Cada uma das camadas é pensada em oposição à outra, já que ambas ocupam o mesmo lugar dentro do eixo, mas com uma relação diferente com o nada. As camadas do norte são língua surgida do silêncio autêntico em um caminho descendente rumo ao equador da realidade, e as camadas do sul são língua surgida do silêncio inautêntico em um caminho ascendente rumo a esse mesmo equador. Assim, a conversa fiada se opõe à conversação, a salada de palavras à poesia, e o balbuciar à oração.

Analisarei o globo tendo como mote a dualidade criação-repetição. Flusser mostra que tudo que existe o faz enquanto criação humana, pois provém dela os universos de significado com os quais o homem se relaciona, e não das coisas mesmas, então a língua é entendida como um processo constante de criação de novos universos de significado e da sua transformação na realidade cotidiana dos que a vivenciam. Três camadas, especificamente, são responsáveis por esse processo: as camadas da poesia, da conversação e da conversa fiada.

A camada da poesia é o lugar do aumento do território da realidade. É importante compreender o que Vilém Flusser chama de poesia, pois ele não está se referindo ao gênero literário que leva o mesmo nome e que tem toda relação com a língua. Seu objetivo é utilizar a origem grega do termo poesia, fazendo uma espécie de filogênese do termo. Poesia deriva de poiein – fazer, no sentido de estabelecer – e de poietés – produzir (FLUSSER, 2004, p. 144). Assim, a camada da poesia é a camada da produção de língua, da criação de realidade. O poeta retira o dizível do indizível. Para discorrer sobre o processo de criação, as alegorias serão necessárias, já que não há possibilidade de falar sobre o assunto em outros termos.

O problema que surge da definição do que seria a camada da poesia é: como a transformação de nada em realidade acontece? A resposta é pela admiração, pelo espanto (FLUSSER, 2004, p. 147). A poesia é fruto de um movimento duplo, ela tem origem na conversação e retorna a ela. Tem origem na conversação, pois o intelecto em conversação se interioriza com o objetivo de fazer poesia. Nessa camada é gerado um isolamento do intelecto, mas um isolamento produtivo. Ele gera um adensamento poético da matéria do intelecto que é a língua. Esta se torna tão densa, tão cheia do novo, que se torna impenetrável pelo intelecto, ou seja, é impossível a sua análise sem perda de sua qualidade poética.

Isso significa que um intelecto se isola do equador da realidade, cria novos significados, os quais podem ser variados, podem tanto ser uma descoberta científica, quanto uma obra de arte, e retorna ao equador da realidade. “Tentemos resumi-la: filogeneticamente a poesia surge da conversação, recolhendo-a, encolhendo-a, impermeabilizando-a e superando- a” (FLUSSER, 2004, p. 148).

A poesia transforma a criação em objeto a ser manipulado ao retornar à conversação (FLUSSER, 2004, p. 146). Essa nova criação é como um todo uniforme que, devido a sua densidade, não permite compreensão imediata. Nesse sentido, a poesia supera a conversação para dar novo material a ela. Esse todo uniforme passa a ser discutido, tangenciado e admirado pelos intelectos em conversação. A poesia é responsável por ampliar o terreno da realidade, por propor novas formas de pensar e novos conteúdos de pensamento (FLUSSER, 2004, p. 149). “O poeta é, pois, um positor, que fornece matéria-prima para os compositores, isto é, os intelectos em conversação” (FLUSSER, 2004, p. 146).

A camada da poesia é o lugar da originalidade, o lugar do novo e por isso é também o lugar da liberdade. A única liberdade autêntica é a liberdade da criação poética, a liberdade sem determinação alguma. Ela está na tentativa do intelecto de se libertar das rédeas da língua ao expressar com ela o que antes ainda não existia, o que antes ela não permitia. Isso é poiesis.

O problema é que com a poesia o intelecto se expõe ao nada e ele pode não suportar essa exposição (FLUSSER, 2004, p. 151). O perigo do intelecto em poesia é a loucura, pois ela é a dissolução do intelecto. É a descida rumo ao silêncio inautêntico. No silêncio inautêntico não existem regras e na ausência dessas não há liberdade, pois não há liberdade possível onde tudo é permitido (FLUSSER, 2004, p. 150). Toda aparência de poesia dos loucos é só aparência, já que ela não surge do nada, mas caminha na sua direção (FLUSSER, 2004, p. 151).

Portanto, a poesia é a camada que possibilita a ampliação da conversação. É a camada que vai contra o processo entrópico30 da própria língua, permitindo o desenvolvimento contínuo do intelecto. Nesse sentido, ela não é uma camada inferior à da oração como proposto no gráfico, ela gera acesso direto ao nada. A diferença fundamental da camada da poesia para a camada da oração é que a primeira tem um movimento duplo, ela sobe da conversação rumo ao nada e retorna à conversação, e a segunda parte da conversação e se dissolve no nada.

Já a conversação é a camada do equador da realidade que é alimentada pelo silêncio autêntico. Juntamente com a conversa fiada, ela compõe o que é chamado de realidade cotidianamente. Diferentemente da conversa fiada, a função da conversação é gerar informação. Nela os conteúdos poéticos são transformados em conteúdos conversáveis. A formação de novas frases faz crescer o seu território. Ela é a atividade da crítica por excelência (FLUSSER, 2004, p. 147), pois reorganiza conteúdos, propõe novas relações, interpreta. Ela utiliza todas as ferramentas que permitem a expansão do território da realidade. Quase toda a produção intelectual acadêmica, grande parte da ciência, da filosofia, da literatura e da própria arte são conversação. São atividades críticas, no sentido estrito do termo, pois não são produção de novo, não são criações, mas interpretações e reinterpretações (FLUSSER, 2004, p. 136).

A expansão do território da realidade na camada da conversação é derivada da sua função de interpretar a densidade característica da poesia. Ela não é uma camada produtora, e por isso não permite ao intelecto atingir toda a sua capacidade (FLUSSER, 2004, p. 140). É uma “produção de informação” que não se configura como tal, pois nada é criado, apenas reestruturado (FLUSSER, 2004, p. 139).

Para recorrer ao gráfico, diria que a produtividade da conversação é plana, desenvolve-se em duas dimensões, estende a língua, mas não a aprofunda. Não é criadora de novas palavras, de novos elementos da realidade, não é poética no sentido de poiesis, de estabelecer (Herstellen) realidade. (FLUSSER, 2004, p. 139).

Então, a conversação é uma camada autêntica, importante e muito produtiva da língua, mas também é uma camada limitada. Nesse sentido, o importante é compreender a amplitude dessa camada, pois ela não alimenta a língua no sentido vertical, de criação de realidade, mas a expande no sentido horizontal de compreensão e utilização da criação poética na conversação.

30“A entropia é a tendência do universo rumo à desinformação, ou seja, ao não armazenamento de informação.

Mas o homem é um ser histórico, constrói memória, age contrariamente ao processo entrópico (FLUSSER,1983, p. 57). É o único ente que, deliberadamente, age contra esse processo no sentido de guardar informação, de obter memória, isto é, ele é um “epiciclo negativamente entrópico” (FLUSSER, 2002, p. 45). O resultado desse armazenamento de informação, característico do ser humano, é a cultura (FLUSSER, 2002, p. 46). Deste modo, a comunicação humana é a antítese da entropia, pois se realiza na contramão de um processo natural” (COSTA, 2007, p. 26).

O que significa que a conversação em sua polaridade com a conversa fiada, se configura como o lado positivo da realidade. Como o lado responsável pela diminuição do hiato existente entre a realidade e a poesia.

A conversa fiada é uma camada com características bastante diferentes das duas anteriores, pois ela é uma das camadas que compõem a realidade cotidiana do ser humano. Essa camada está abaixo do equador da realidade. Ela é o último estágio do desenvolvimento do intelecto para que ele possa ser utilizado. Este desenvolvimento ocorre passando pelas camadas do balbuciar e da salada de palavras. Contudo, esse desenvolvimento é ainda precário e simplório. Uma pessoa consegue pensar, articular, abstrair, falar, escutar e compreender nessa camada. Todas as atividades comuns do pensamento são adequadas a ela. Porém, ela é caracterizada pela ordinariedade, não havendo produção de conhecimento, nem atividade crítica. O intelecto não é ativo, apenas passivo, reprodutor do já existente.

Assim, a conversa fiada é a camada de pseudo-intelectos, onde não há realização, apenas disseminação. Ela se alimenta de detritos da camada acima, a conversação. É dela que o intelecto parte para subir às zonas criadoras, às zonas autênticas da língua (FLUSSER, 2004, p. 143).

Apesar de Vilém Flusser não ter feito esta interpretação, a conversa fiada é o lugar da Indústria Cultural do modo como estabelecido por Adorno e Horkheimer na “Dialética do Esclarecimento”. É o eterno retorno do sempre idêntico e, justamente por isso, ela não existe independentemente, é parte do processo. Não existe aspecto subjetivo31 na conversa fiada, pois não existe produção, realização do intelecto. Como já foi dito, o intelecto só existe em processo, ele não é um algo. Quando o intelecto não está se realizando ele decai no equador da realidade para as camadas fictícias (balbuciar, salada de palavras e conversa fiada). Na conversa fiada o intelecto se dilui em nada, tendo em vista que o nada representa a ausência de pensamento. Dessa forma, o Eu decai e se transforma em “A Gente” (FLUSSER, 2004, p. 142). A tensão entre língua e nada se dá na medida em que a língua é ativa e o nada é somente uma possibilidade. Essa possibilidade só se concretiza a partir do momento em que o intelecto é colocado em ação, mas não somente a ação de se manter funcionando, ele deve ser colocado em ação criativa, e essa ação só existe nas camadas superiores. Várias pessoas vivem a vida sem ultrapassar o equador da realidade, sem desenvolver a subjetividade, apenas repetindo e

31A dualidade concernente à subjetividade e à objetividade, na verdade, se refere também às camadas do intelecto,

cuja análise é feita contrapondo camadas opostas que se justificam mutuamente pela comparação com as duas possibilidades do nada, o silêncio autêntico e o inautêntico. As camadas inferiores são as camadas objetivas e as superiores as subjetivas.

participando da coletividade. Esse é o objetivo da Indústria Cultural, manter todas as pessoas na conversa fiada.

Dessa forma, a realidade se organiza através da criação do novo pela poesia, de sua interpretação e crítica pela conversação, e da veiculação indefinida das obviedades derivadas desse processo pela conversa fiada.