Para os umbandistas, os orixás são forças naturais que estão presentes em todos os lugares, influenciando as pessoas e irradiando energias que mantém o equilíbrio dos elementos do planeta Terra em relação ao universo. Cada pessoa está ligada mais fortemente a uma dessas “forças”, o que determina seu “orixá de cabeça” ou de “frente”. Por isso se diz que “fulano é filho de Xangô”, por exemplo. Os orixás (ou “santos”, como são mais comumente designados na umbanda) imprimem em sua prole suas características, seja em seus aspectos físicos, seja em suas características psicológicas e comportamentais, e tem como função primordial protegê-los e guiá-los. Além disso, os “santos” devem também proporcionar aos filhos a “firmeza” necessária para que estes tornem possível a realização dos trabalhos mediúnicos de caboclos, preto-velhos, crianças e exus que incorporam.
O sistema de organização sacral da umbanda coloca cada orixá no comando de sucessivas hierarquias de espíritos ou falanges. De modo geral, este sistema pode ser assim apresentado:
1- a umbanda subdivide-se em nove “linhas” e cada uma delas é comandada por um orixá sincretizado com um santo católico.
2- as “linhas” são classificadas de duas maneiras: as de direita: das quais fazem parte o falangeiros dos orixás, pretos-velhos, caboclos, boiadeiros, mineiros, crianças, marinheiros, ciganos, baianos e orientais; e as de esquerda: composta pelo “povo de rua”, ou seja, os espíritos guardiões e mensageiros: exus, pombas-gira e malandros.
3- cada “linha” se desdobra em legiões e falanges, que nos níveis mais baixos da hierarquia se identificam com os espíritos desencarnados. Nos graus superiores, assumem formas intermediárias, mais próximas das figuras nacionais (acima citadas) e dos orixás.
89 Devido à pressão social e política exercida pela igreja católica na época da colonização no Brasil, alguns orixás africanos passaram ser associados a certos santos cristãos. Mas essa associação não se deu a revelia: procurou-se identificar as características de cada deus negro com traços da personalidade e elementos da história pessoal e missionária das santidades católicas.
O arranjo das “linhas”, bem como a organização das legiões e falanges varia enormemente em cada terreiro. Para efeito de exemplificação, apresentarei a maneira como o G.S. me informou a respeito deste esquema geral78:
ORIXÁS ELEMENTOS NOS
QUAIS SE MANIFESTAM
SINCRETISMO
1) Linha de Ogum (exu) Estradas, matas, ferramentas, encruzilhadas
São Jorge
2) Linha de Oxossi Matas, plantações, Caças
São Sebastião
3) Linha de Xangô Pedreiras, justiça, Fogo
São Jerônimo
4) Linha de Obaluaiê
Vida, morte, terra, saúde, pragas (doenças),
Cemitérios
São Lázaro
5) Linha de Oxum Águas doces, riquezas, útero
N.S. da Conceição
6) Linha de Iemanjá Águas salgadas, Maternidade
N. S. da Glória
7) Linha de Iansã Ventos, tempestades, Cemitérios
Santa Bárbara
78 Várias vezes conversei informalmente com ogãs e equedes a respeito do panteão umbandista. Apesar
da grande colaboração de todos, tive bastante dificuldade em compreendê-lo e, por isso, freqüentemente acabava me confundindo e cometendo gafes quase imperdoáveis, o que foi motivo de muitas gargalhadas. Numa tentativa de “sanar o problema” enviei ao G. um e-mail contendo um quadro em que solicitava, se fosse possível, que organizasse as informações de um modo que facilitasse a minha compreensão; ao que ele respondeu prontamente.
90 8) Linha de Nanã
Vida, morte, velhice, lama (barro, argila),
sabedoria.
Sant’Ana
9) Linha de Oxalá
Onipresente. Vida, pureza, juventude,
velhice, paz.
Jesus Cristo
Este quadro79, tão sistematicamente organizado, pode dar a falsa impressão de que ele corresponde ao modo como todo e qualquer umbandista representa em seu esquema mental as divindades de seu credo religioso. Obviamente que ao vê-los assim apresentados, os féis reconhecem os elementos doutrinários em que acreditam, todavia é fundamental lembrar o que sabem sobre a religião que professam está diretamente ligado as vivências e participação. Sendo assim, é bastante improvável que na prática cotidiana da religião, a comunidade umbandista seja apresentada ou conceba dessa maneira os orixás e seus respectivos locais e formas de atuação.
Dizendo isto estou apenas querendo chamar a atenção para o fato de que este tipo de estruturação tão “didática” não corresponde ao modo como os filhos-de-santo habitualmente trocam saberes a respeito da umbanda. As informações contidas no quadro só me foram enviadas desta forma porque assim solicitei. E justamente por este tipo de sistematização não dar conta de toda a complexidade do fenômeno religioso, G. julgou necessário acompanhá-la de algumas explicações complementares, que reproduzo a seguir.
Na umbanda, além dos elementos da natureza, os orixás atuam em vários outros lugares. Isso pq no Brasil misturarmos os orixás com os santos católicos e na África são os orixás puros em si. Por ex: se eu estiver com dificuldades financeiras, me apego a Ogum (São Jorge), porque ele trabalha como um exu na umbanda, ele abre caminhos e estradas. O exu pra muitos seria o demônio no sincretismo, por isso não citei por ele ser visto como mal ao contrário de um santo cultuado. Já no candomblé, o exu é um orixá como qualquer outro. Ou seja, na umbanda não se cultua o orixá, mas sim o santo católico com o qual ele se misturou. Mesmo porque apesar do candomblé
79 A organização de quadros e listas é um recurso bastante utilizado por autores que se dedicam a escrever
sobre as religiões de matriz africana. A título de ilustração, apresento em anexo quadros e listas presentes em algumas das bibliografias mais referenciadas deste campo temático. Esta apresentação visa também ilustrar a variedade que se pode encontrar quando se trata da composição do panteão umbandista.
91 africano ter sido trazido pra cá pelos escravos, os umbandistas não conhecem a raiz, mas só alguns elementos (uma idéia geral, uma essência). Já na África, cultuam o orixá puro, não conhecem os santos católicos. Por isso, na umbanda foi necessário acrescentar elementos nos quais eles passaram a se manifestar.
(E-mail recebido em 13/01/2010)
Os “orixás de umbanda” se manifestam na natureza (tempestades, matas), lugares (cemitérios, pedreiras), tempos da vida (juventude, velhice), estados físicos (saúde, doença) e materiais (ferramentas, argila). G. ainda me explicou que não são todos os deuses do candomblé que têm sua representatividade presente na umbanda, como por exemplo, Logum-Edé e Ossãe, sendo seus filhos apadrinhados então por outro orixá. Cada uma das “linhas” se desdobra em legiões e falanges. Assim, Iemanjá, deusa do mar, possui uma coletividade de sereias, ondinas, caboclas do mar, caboclas do rio, dentre outros seres aquáticos que trabalham na sua “vibração”. Já a linha de Oxossi, que representa o índio brasileiro, tem legiões de caboclos das matas e boiadeiros. Há inclusive uma oração frequentemente repetida na “Casa do J.” que ajuda à conhecer e entender as especificidades de cada uma das dessas divindades.
Peço hoje…
Peço saúde a Omulu.
Peço liberdade aos ventos de Iansã. Peço justiça ao machado de Xangô. Peço força à espada do meu pai Ogum. Peço proteção ao arco e as flechas de Oxóssi. Peço sabedoria a querida mãe Nanã.
Peço a benção das águas de Oxum.
Peço a grandeza de espírito dos mares de Iemanjá. Peço a alegria do gargalhar dos Exus e Pomba Giras. Peço humildade e paciência aos sábios Pretos Velhos. Peço a lealdade dos amigos Caboclos.
Peço a fé das rezas do Sr. Boiadeiro. Peço o colorido do mundo Cigano. Peço a doçura e a inocência dos Erês.
Peço vida, paz, amor e felicidade a Oxalá e ao Criador, à todos os irmãos de fé.
Diferentemente do que ocorre no candomblé, na umbanda a relação entre os vivos e os mortos é mais direta e funcional. Incorporados em seus “cavalos” (termo utilizado na umbanda para designar os médiuns “rodantes”), os guias espirituais se comunicam com os fiéis estabelecendo conversas francas, dando conselhos, consolando,
92 e ajudando-os em suas necessidades. Outra diferença é que no candomblé há o reconhecimento da existência de “egum” (espírito dos mortos), mas sua presença não é admitida nas reuniões religiosas. Estes espíritos são “despachados”, ou seja, são afastados ritualmente, pois orixás e “eguns” não podem se misturar. Este tipo de relação tão direta entre humanos e entidades encontrada na umbanda explicita a influência do espiritismo na doutrina umbandista.
Sobre este aspecto quero chamar a atenção para o fato de que todos os espíritos que incorporam em um médium são eguns, pois já morreram, mas não são chamados como tal. A palavra egum é destinada a denominar aqueles espíritos que não foram doutrinados por nenhuma religião, que vagam carregando desordem no seu “fluido diferente” dos demais, aceitando qualquer tipo de oferta ou sacrifício. Qualquer médium pode ser possuído por um egum, desde que não esteja devidamente atento e protegido, mas nem todos podem ser possuídos por seu orixá e suas entidades umbandistas.
O orixá precisa ser “feito”, alimentado pelo sangue do sacrifício de animais, para que possa “nascer” e ocupar seu filho. Já as entidades de umbanda não precisam ser feitas, pois que são espíritos de escravos, índios, boiadeiros, malandros, crianças dentre outras que viveram no passado, ou seja, todos eles já “existiram” e continuam existindo, só que agora em uma outra condição. Estes espíritos precisam ser doutrinados conforme as regras do terreiro em que trabalharão. Sendo assim, pode-se afirmar que na umbanda entre os filhos-de-santo e seus guias espirituais precisam aprender a conviver.
Pai J. costuma dizer aos membros da “Casa” que é preciso se tornar capaz de “vivenciar e sentir a força e a determinação” dos caboclos, a paciência, o amor, a simplicidade e a humildade dos pretos-velhos, a proteção e a coragem dos boiadeiros, a leveza e a pureza das crianças e, é claro, “a força, a alegria, a sabedoria, a proteção, a coragem dos senhores exus e senhoras pombagiras”. Numa noite quente, em que conversávamos na rua do terreiro o tema foi justamente “os sinais” que ajudam os médiuns a identificarem e distinguirem as diferentes entidades. G.S. dizia que vários fatores são importantes nessa tarefa: o nome, o ponto riscado, a forma de se expressar, artigos usados durante os atendimentos à assistência e principalmente a comunicação do médium com o guia.
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3.4- As “giras”
Na “Casa do J.” as sessões ou “giras”80 acontecem ordinariamente às quintas- feiras81 – dia consagrado a Oxossi, orixá do qual Pai J. é filho e que, portanto, também é o orixá deste terreiro – e tem início às 20 horas e encerramento por volta das 22, caso a cerimônia transcorra dentro do esperado. Se ao longo da cerimônia houver algum acontecimento que traga maiores implicações para sua resolução (a realização de uma “puxada” 82, por exemplo), o horário de término torna-se imprevisível. Por isso, obviamente cada sessão é uma sessão. Contudo, apresentarei um relato em que abordo os elementos mais característicos e rotineiros de tais cerimônias, procurando produzir uma exposição o mais ampla possível. Este tipo de descrição, além de proporcionar ao leitor uma visão global da cerimônia que movimenta e dá sentido a uma casa de umbanda, também tem subjacente o foco principal da presente investigação: pensar a relação entre a aprendizagem e a prática.