2.2. Sponsorluk Kategorileri
2.2.3. KuruluĢun Sponsorluğa Verdiği Öneme Göre Sponsorluk
Minutos antes da sessão começar, encontrei T., L. e P. conversando com outras duas adolescentes na rua. Todos riam muito, cantando e dançando funk e pareciam confidenciar histórias de namorados. Ao me aproximar do grupo, P. vem me dar um abraço e diz: “Pode entrar. Já está cheio de gente lá dentro. Só a Jnt. ainda não chegou”.
Entrei na residência e havia algumas pessoas conversando animadamente na cozinha. Cumprimentei a todos e um homem que ainda não conheço me acompanhou até o cômodo onde funciona o “terreiro” propriamente dito. Fiquei sozinha por uns instantes,
80 Essa cerimônia semanal é as vezes denominada também de “toque” por alguns dos meus anfitriões. 81 O dia da sessão varia somente em caso de feriados ou quando o Pai J. precisa se ausentar de sua “Casa”
para cumprir alguma obrigação no terreiro de sua mãe-de-santo, a Mãe C..
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Como me explicou a mãe-pequena Jnt., fazer uma “puxada” significa realizar, durante uma sessão ou consulta particular, o “transporte” (ou descarrego) de espíritos obsessores, sendo executada por caboclos ou demais entidades das falanges que dão apoio a esse tipo de ritual. Os espíritos obsessores são então “puxados” do Umbral Inferior, para que sejam desfeitos “trabalhos” de assédios malévolos que se utilizam de magia negra para obsedar alguém. São desfeitos também os despachos encomendados nos terreiros que se utilizam de rituais com derramamento de sangue. Na maioria das vezes, os médiuns que servem de “cavalos” durante as “puxadas” são poupados das lembranças referentes a isso. Segundo os umbandistas, os médiuns ficariam sobremaneira exauridos mentalmente e isso poderia prejudicá-los em sua vida cotidiana.
94 mas em seguida chegaram duas pessoas que também se sentaram nas cadeiras destinadas a assistência e ficaram em silêncio.
Logo depois, o G. também entrou neste cômodo (à que chamam de “barracão”) acompanhado de quatro rapazes (todos trajando roupas brancas) e nos saudaram com um acolhedor e festivo boa noite. O grupo começou a conversar sobre o caso de um vizinho que atropelou um homem e que não socorreu a vítima. Contaram outros casos semelhantes e comentaram que na família do tal vizinho acontecem muitas coisas ruins, estranhas. Um dos rapazes comentou em tom de brincadeira: “Aquela casa tem alguma demanda”. Todos riram e concordaram com a observação.
No “congá” (altar), há uma caixinha de papelão em que está escrito:
Contribuição para os 3 atabaques. Ajudem! Como a “gira” ainda não havia começado,
aproximei-me do G. e lhe perguntei do que se trata. Ele explicou que para “fazer o toque” (outra forma de se referir às sessões ou “giras” de umbanda) é interessante que se tenha esta quantidade de instrumentos.
G.S.: No candomblé é que é obrigatório. Na umbanda até que nem tanto, mas é bom ter três, sabe? Os três irmãos83. Aqui só tem um, porque é muito caro. Os outros dois são emprestados. Por isso que a gente pede a contribuição das pessoas.
Aproveitei o ensejo para saber mais sobre a manutenção da “Casa” e quem são os responsáveis por seu funcionamento.
G.: Tudo que a gente faz aqui é de graça, é caridade. Mas não é fácil manter uma “casa”. Tudo tem um custo. Cada santo tem suas coisas. Por exemplo, cada um gosta de uma bebida, de um cigarro diferente, uma roupa, um chapéu. Aí tem que ter tudo. E pra nós só daqui de “casa” para manter é difícil, por isso a gente pede a colaboração.
Com o local ainda um pouco vazio, os médiuns rodantes foram ocupando seus lugares na parte da frente do cômodo formando um semicírculo de frente para a assistência. Ao entrarem no barracão, os médiuns tocam o solo sagrado do terreiro com as pontas dos dedos, o
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São três os atabaques em um terreiro, Rum, Rumpi e Lê, sendo o Rum o atabaque maior com som mais grave e que “puxa o toque” do ponto que está sendo cantado, no qual fica o ogã responsável pela curimba. É também no Rum que se “dobra” ou repica o toque para que as batidas não fiquem repetitivas. O Rumpi é o segundo atabaque maior, tendo como importância responder ao atabaque Rum, e o Lê seria o terceiro atabaque onde fica o ogã que está iniciando que acompanha o Rumpi. Os atabaques são objetos sagrados na umbanda, sendo os segundos assentamentos mais importantes da “Casa”, já que os médiuns respeitam- no como orixás. Nos dias de festa, esses instrumentos são envolvidos com tiras de pano nas cores do orixá ou entidade evocado. Além dos atabaques, os ogãs da “Casa do J.” algumas vezes usam também o agogô.
95 que constitui o primeiro gesto ritual84 da sessão. Esta é uma forma de pedir permissão para entrar no terreiro, de saudar os orixás e entidades ali presentes ou que irão se apresentar e de demonstrarem que sabem que estão ingressando em um local próprio para o contato com o sagrado.
Ao sinal de Pai J. que acabara de entrar no terreiro trajando roupas brancas e ornado com as guias de seus orixás, G. (por ser o ogã com mais tempo de feitura ali presente) começa a entoar um ponto cantado85 de boas-vindas e de abertura dos “trabalhos”. Os presentes acompanham batendo palmas. Por último entram Jnt. e T. que usam blusa branca e saias longas estampadas. As duas se posicionam próximas a P. que logo que entrou na sala já começou a cantar alto e ficou bem perto dos atabaques. Aqui na “Casa do J.” mulheres e homens (tanto da assistência quanto os médiuns) não ficam em lados separados, como é mais comum à organização dos terreiros de umbanda.
P. parece estar completamente a vontade nesse ambiente. Observei que nos momentos em que não está tocando os instrumentos, ele fica batucando em todos os objetos que vê pela frente: bancos, cadeiras, paredes, seu próprio corpo, etc.
No chão, marcando o ponto central do terreiro, há uma vela acesa e uma pequena jarra de louça branca cheia de água. O primeiro movimento ritual da “gira” consiste na condução destes dois objetos para a entrada da casa, o que é executado por Pai J. e acompanhado pelos ogãs que não estão tocando atabaques. Ao som de pontos cantados, este grupo sai do barracão em uma fila encabeçada pelo pai-de-santo que carrega a jarra, seguido de um ogã que leva a vela. A água contida na jarra é lançada na rua pelo portão de entrada da casa e a vela é posta junto a este, escorada na parte interna do muro.
O grupo volta para a sala e tem início a defumação realizada por Jnt. que utiliza como turíbulo uma lata de alumínio presa a uma grande alça feita de arame. Na lata, queimam-se ervas aromáticas86 que exalam uma fumaça perfumada e densa que tem a
84 Há diferentes modos de executar esse ritual e cada um deles tem um significado:
- dedos da mão esquerda, e depois cruzando os dedos com as palmas das mãos voltadas para o solo: saudação a exu;
- dedos da mão direita, fazendo uma cruz e depois fazendo a cruz no peito: saudação aos pretos-velhos; - dedos da mão direita no solo, depois tocando a fronte (saudação à Eledá, o orixá de cabeça), o lado direito da cabeça (saudação à Otum, o segundo orixá) e a nuca (saudação aos ancestrais e guias espirituais).
85 Os cantados e tocados são parte fundamental da liturgia umbandista, pois são eles que “marcam” todas
as etapas dos rituais da religião. Assim, tem-se pontos para a abertura e fechamento das cerimônias, para os momentos de defumação, de “bater cabeça”, dar passes, “chamar”as entidades, etc, auxiliando na concentração dos médiuns. Nas palavras de G. S.: “os toques e cantos envolvem a mente do médium e não deixa ele desviar do propósito do trabalho espiritual”.
86 Como o próprio ponto cantado sugere, as ervas mais comumente utilizadas para defumações em
96 função de purificar o ambiente e as pessoas, livrando-os de energias negativas. Da mesma forma que Pai J., Jnt. também é acompanhada pela fila de ogãs que cumprem a função de segurança, uma espécie de “guarda-costas” da mãe-pequena. Primeiro defuma-se o altar, depois os quatro cantos do terreiro, seguido pela defumação das pessoas presentes na assistência e por último os médiuns rodantes, as equedes, os ogãs e seus atabaques. Enquanto auxilia a tia, P. fica batucando o ponto cantado no potinho de plástico que guarda as folhas que serão queimadas no incensário.
“Dá licença Pai Oxossi, filhos querem se defumar A umbanda tem fundamento, é preciso preparar
Com incenso e benjoim, alecrim e alfazema Eu defumo essa casa com as folhas da Jurema”
Terminada a defumação, Pai J. dá as boas-vindas e convida a todos a ficarem de pé para rezarem três vezes as orações Pai-nosso e a Ave- M.. Cada vez que se reza, dedica-se a uma intenção específica: a primeira para as pessoas que não puderam estar aqui neste dia, a segunda para presentes na “gira” de hoje e a terceira para aqueles que necessitam e nos pediram ajuda. Agora a cerimônia já conta com um número significativo de pessoas, composto por crianças, adolescentes, adultos e idosos, sendo a grande maioria pretos e pardos e do sexo feminino.
Após as orações e cantigas iniciais, Pai J. faz um pequeno sermão exaltando a importância de se ter fé, de ir às sessões de coração aberto e ficar concentrado durante a realização dos rituais. Adverte sobre a seriedade da religião e o respeito que devemos aos guias que vem prestar caridade junto a nós. Ele também pede que as pessoas da assistência procurem conversar em voz baixa para não atrapalharem o andamento dos trabalhos.
PAI J.: Aqui é como se fosse uma igreja. Tem que ter o mesmo comportamento, o mesmo respeito.
Apesar de assumir uma postura firme ao falar, o tom de suas palavras é calmo e acolhedor, o que ajuda a criar e manter o clima amistoso e alegre que caracteriza esta comunidade. Para dar maior sustentação ao seu discurso, Pai J. contou um episódio de sua vida particular em que obteve ajuda de um exu.
PAI J.: Vocês sabem que meu Pai Oxossi pediu uma “casa”, né? E pra montar uma “casa” precisa de muito dinheiro por isso que ainda não consegui terminar. Mas graças aos meus guias eu tenho
97 conseguido sempre fazer alguma coisinha lá. Aos pouquinhos a gente vai fazendo. [...] Mas teve uma época que eu não tinha da onde tirar dinheiro pra poder investir na “Casa”. Eu tava muito chateado com essa situação. Triste, preocupado. Aí eu fui conversar com os exus. Pedi pra eles uma ajuda. Não é que logo apareceu mais trabalho, eu comecei a trabalhar mais e pude voltar a mexer na “Casa”? Lá no terreiro nosso, que a gente está construindo em Esmeraldas. [...] Então assim, gente, o que eu queria falar pra vocês é isso. Pode vir aqui, pedir, mas tem que ter fé. E tem que agradecer o que os guias fazem pra gente. Não pode só pedir, não. Tem que aprender a agradecer também. Isso é muito importante.
Dona M., sua tia de sangue (médium “rodante”) também contou a história de um sobrinho que esta com câncer e que tem sido muito amparado pelos caboclos. G. reitera esses depoimentos dizendo que as entidades são poderosas, mas que para que possamos ser ajudados por elas temos que ter fé, estar concentrado, “livrar os pensamentos de tudo que ficou lá fora” e durante a sessão “firmar o pensamento” no que desejamos.
O pai-de-santo solicita que os ogãs iniciem o “toque” para os exus. Esta é uma precaução ritualística realizada em terreiros “traçados com o candomblé”, como é o caso desta “Casa”. Segundo os fiéis, antes do início das manifestações mediúnicas, é preciso homenagear estas entidades com seus pontos cantados e, eventualmente, com alguma comida de sua predileção, levada a sua “casa” ou “altar” 87. O objetivo é pedi-lhes proteção e também agradá-los a fim de evitar a sua intromissão no momento em que outras entidades estiverem trabalhando no terreiro.
Feito isto, os médiuns (rodantes ou não) começam, então, a “bater cabeça” 88, isto é, fazem uma saudação que consiste em prostrar-se no chão tocando-o com a testa, seguindo esta ordem hierárquica: aos pés do congá (altar), dos atabaques e de Pai J.. Por último, saúdam-se e
27 A “casa ou altar de exu”, também chamada de “tronqueira”, fica instalada junto à porta de entrada, no
quintal da residência da família de Pai J., em que se encontra o terreiro. Trata-se de uma casinha de alvenaria, fechada com um portão de ferro, onde são colocados materiais para fixação de energias positivas e desagregação das negativas, bem como oferendas destinadas a satisfazer o Exu Tronqueira. Entre esses materiais destacam-se a água, defumadores, velas e aguardente. Este é o exu que guarda o terreiro e faz uma espécie de triagem nas pessoas que se dirigem a ele. Os umbandistas afirmam que é preciso ter o máximo de respeito ao Exu Tronqueira, pois se uma “gira” corre bem e firme”, devemos agradecer principalmente a sua atuação.
88 O cumprimento feito por filho-de-santo cujo orixá principal é masculino chama-se “dobalé” e é
executado deitando-se de bruços no chão, tocando-o com a parte da frente da cabeça (testa). Já o filho-de- santo que possui um orixá principal feminino realizará o “iká” que consiste em deita-se de bruços no chão, tocando-o com a cabeça e, posteriormente com o lado direito e depois com o esquerdo do quadril no chão.Segundo Gomes (1989), o ritual de bater cabeça “demonstra um ato de humildade e reverência, no qual o medianeiro se propõe a abdicar da própria personalidade e de se colocar na condição de mero instrumento à disposição do guia com o qual vai trabalhar” (p:130).
98 se benzem simultaneamente dando-se um aperto de mão, seguido de um beijo nas costas da mão direita de cada um de seus irmãos-de-santo. Este é um sinal claro de humildade e respeito.
“Laroye , Exu …”
Na seqüência, a equede mais antiga da “Casa” toca o adejá e os médiuns passam a cantar e dançar formando um círculo. Para a incorporação de exus, pombas-gira e malandros, os médiuns tiram suas guias (colar cerimonial feito de contas) referentes aos orixás de cada médium e colocam guias próprias destas entidades feitas de contas vermelhas e pretas. Quando se esquecem de fazer isso, as entidades pedem, sem tocar nos colares, para que alguma equede ou ogã tire-os de seus “cavalos”.
Todos estes elementos (música, canto, dança, vestimentas) são necessários para que se forme a “corrente” que produz a vibração adequada para a “descida” de entidades específicas a que se quer ter a acesso em cada etapa da “gira”. Neste momento, as entidades solicitadas a se manifestarem no terreiro fazem parte do chamado “povo-de- rua”.
“O sino da igrejinha faz belém, blem, blom O sino da igrejinha faz belém, blem, blom
Deu meia noite o galo já cantou Seu Tranca Rua que é o dono da “gira”
Oi corre “gira” que Ogum mandou”
Produzida a corrente, logo os médiuns rodantes começam a “virar no santo” – modo como os fiéis se referem às pessoas em estado de incorporação. Observo que pouco antes de incorporar, T. fez uma caretinha divertida e, olhando para Jn., diz em tom de brincadeira: “Tchau, tia. Lá vou eu. Daqui a pouquinho eu volto. Não precisa ficar com saudade, não”.
Cada entidade que “baixa” no terreiro tem nome próprio. Estão presentes hoje: Seu Sete Favelas, Seu Tiriri, Seu Veludo, Seu Tranca-Rua, Maria Padilha e Ciganinha. Os exus e malandros cantam, dançam, bebem cerveja quente misturada com cachaça e fumam cigarros comuns dos quais tiram o filtro com os dentes. Já as pombas-gira, circulam pela sala soltando suas gargalhadas escandalosas, tomam champanhe em bonitas taças providenciadas por seus “cavalos” e fumam usando charmosas piteiras. Os ogãs e equedes passam a convidar a assistência para se “consultarem” com os guias.
99 Lá na chefia já mandaram me chamar
Eu tenho um sentimento profundo Se a polícia me prender como um vagabundo”
“Ciganinha, ciganinha Da sandália de pau Ciganinha, ciganinha
Da sandália de pau Aonde ela passa o pé Ela faz o bem, ela faz o mal”
Cada pessoa se posiciona em frente a uma das entidades e as conversas se dão de modo intimista, empregando-se um tom de voz bastante baixo para que outros não possam ouvi-las. Acompanhando freqüentadores mais assíduos, é comum encontrarmos também gente nova nas “giras”. Pessoas que estão indo pela primeira vez ou a uma cerimônia de umbanda ou aquele terreiro em particular e que, por isso, ficam receosas de se aproximarem das entidades. Seu Sete Favelas (malandro incorporado por Pai J.), observando este tipo de atitude, se dirige a uma pessoa sentada na assistência, dizendo: “Tá com medo de mim, moxa?”. Esboçando um sorriso tímido, a jovem respondeu “não” e se encaminhou para falar com ele. Seu Sete segura sua mão e pergunta sorrindo: “Tá firmado?’89 e ela responde: “Tô firmando”. O malandro ri e eles estabelecem uma rápida conversa e a moça volta a se sentar em seu lugar esboçando uma nítida expressão de satisfação.
Há também na sessão de hoje um ogã (K.) que está começando seu processo de aprendizado dentro da comunidade umbandista. Por este motivo, ele fica sempre muito atento a tudo e procura se envolver ao máximo em todas as funções que seu cargo exige. Imitando as ações realizadas por outros ogãs, K. se empenha sobretudo no cuidado e atendimento as entidades. Seu Sete Favelas pede que ele lhe sirva cerveja e percebendo o nervosismo do novato90 que treme e sua muito ao realizar a tarefa solicitada, brinca com a situação.
SEU SETE FAVELA: Cê tomou cachaça hoje? Eu acho que ocê já tomou um cachacinha antes de vir pra cá, foi não, sá?
89 Expressão comumente usada pelo povo-de-rua e que equivale a “está tudo bem?” ou “como você
está?”. Com a mesma intenção, os pretos-velhos dizem: “Tá formoso?”. Já os caboclos perguntam: “Como é que vai essa filharada tudo meu?”
90 Vou adotar a palavra novato para me referir aos recém-chegados, ou seja, ao usar este termo não me
100 Todos riem muito dessa provocação. Sucessivamente as pessoas se levantam para se consultar com os guias; algumas pessoas procuram mais de uma para expor seus problemas e pedir a intervenção espiritual. Seu Sete Favela é o mais solicitado e há sempre uma pequena fila de espera em sua direção, sendo que a clientela masculina se dirige quase que exclusivamente a ele em busca de auxílio. De fato, parece que cada guia vai se especializando na resolução de determinados tipos de problemas.
Assim, assuntos referentes ao amor – dificuldades no casamento ou a procura de namorados e maridos (ou “par de calças”, como preferem dizer) – são da alçada das pombas-gira. Problemas que envolvem dinheiro (desemprego, dívidas) é assunto para o Tranca-Rua. Seu Tiriri é muito procurado por esposas e mães que sofrem com os vícios de seus maridos ou filhos. Alcoolismo e drogas estão sempre em suas pautas de trabalho. Já os temas das consultas com Seu Veludo quase sempre se referem a questões como conduta moral e estudo. Com seus conselhos diretos e francos, é bastante solicitado por adolescentes que pedem ajuda para irem bem na escola, melhorarem o relacionamento com seus pais, resolverem brigas com os amigos.
Ao terminar uma consulta, enquanto aguardam a solicitação de um próximo consulente, os guias circulam pelo terreiro observando as pessoas e conversam com os ogãs e equedes. Em um de seus “passeios” pelo barracão, Seu Tiriri veio em minha direção e me saldou como se fossemos velhos amigos: “Ei moxa! Tá boa? Vem cá pra gente conversar”. Eu então me levantei e segurei em sua mão que me havia estendido. Seu Tiriri me pergunta coisas referentes à conversa que tivemos na sessão da semana passada e logo volto a me sentar no mesmo lugar. “Eu vou ti judá, viu moxa?, ele diz se despedindo de mim e já se encaminhando para atender uma outra pessoa da assistência.
Apesar de estar em campo já há algum tempo, sempre que percebo que alguma entidade me reconhece dentre tantas pessoas e se aproxima de mim durante uma sessão ou festa, meu corpo estremece e meu coração bate mais acelerado. Imediatamente sou tomada por uma profunda alegria, pois me sinto acolhida e bem-vinda nesta “Casa”. De fato, é como se eu encontrasse ali amigos de toda uma vida ou membros queridos de minha própria família.
Após todos terem se consultado, cantamos uma música para a “subida” dos guias e sacudimos nossas roupas para retirar a “poeira” por ventura deixada pelos exus.
“Quando exu vai embora Sacode a poeira da sua saia Sacode a poeira da sua saia”
101 Um novo ponto cantado começa a chamar os boiadeiros e caboclos e mais uma