Em 17 dias, as festas de São João no Estado de Pernambuco atraíram 540 mil visitantes a 21 municípios, segundo pesquisa da Empresa de Turismo de Pernambuco132, gerando uma receita de R$ 143 milhões apenas com hospedagem, transporte e alimentação. A ocupação hoteleira nos municípios que realizaram a festa em 2011 ficou na média de 85%, sendo Arcoverde, Carpina e Pesqueira com a ocupação máxima enquanto Caruaru e Gravatá tiveram 98% de taxa de ocupação. A pesquisa revela também o perfil socioeconômico do visitante dos festejos juninos no Estado, caracterizado, em sua maioria, por turistas internos, com uma média de gasto diário de R$ 88,54, permanecendo por volta de quatro dias no local. Os municípios mais visitados em 2011 foram Caruaru (36,16%), Gravatá (14,41%) e Bezerros (11,84%).
A Prefeitura, através da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, encomendou na edição de 2011 a primeira pesquisa exclusiva a tratar do evento de Caruaru. Foram entrevistadas três mil pessoas, entre comerciantes formais e informais, demais trabalhadores envolvidos no evento, turistas e residentes, através instrumentos com perguntas abertas e fechadas, sobre diversos aspectos da festa, que vão da aprovação do novo layout do Pátio de Eventos (92%), a comparação com a edição anterior (86% dos entrevistados preferiu o São João 2011 que o do ano anterior) e os melhores atrativos da festa (60% elegeram o Pátio de Eventos). É a Lei da unanimidade (TORRES, 1959) aplicada na encomenda da pesquisa, ainda que sua justificativa esteja na atenção por melhorar o evento, mas ao final demonstrando o quanto a festa é apreciada e aprovada.
132 Festejos de São João 2011 movimentam R$ 143 milhões em Pernambuco. Disponível em
<http://ointeriornet.blogspot.com/2011/07/festejos-de-sao-joao-2011-movimentam-r.html> Acesso em 06 set. 2011.
Ao comentar os resultados da pesquisa, ressalta o prefeito “o que significa o São João
para a cidade e para o Estado do ponto de vista econômico”, na consolidação do “processo de profissionalização do São João de Caruaru, que é irreversível”. Essa finalidade
econômica, não cultural, é sacramentada na declaração do secretário municipal de Desenvolvimento Econômico pela necessidade de definição de estratégias de marketing visando os mercados alvo e a captação de investidores para aumentar os ganhos: “nunca
tivemos uma série para avaliar o tamanho da festa. Tínhamos alguns indicativos, mas faltava uma pesquisa consolidada, que pudesse nos indicar as melhores estratégias”133.
É visível o interesse do governo municipal pelos aspectos econômicos da festa e a pesquisa teve esse direcionamento, ao menos na divulgação dos números e declarações referentes. Como verificado, a face cultural é negligenciada pela avaliação quantitativa, que servirá ao estabelecimento de estratégias para atrair mais público e renda. O que importa é que se a festa é boa (91% dos visitantes declararam o desejo de retornar no ano seguinte), “isto significa que estamos no caminho certo, afinal as pessoas sentem-se satisfeitas com
nossa festa. Nossa obrigação é fazer um evento ainda melhor no ano que vem”, segundo o
prefeito. A preocupação com o resgate e inclusão de antigas e novas expressões culturais e artistas populares sem espaço na festa, respeitando o preceito constitucional do apoio e incentivo, não foi encontrada durante a busca por dados nessa festa.
O direcionamento correto, portanto, é o que leva ao desenvolvimento econômico e a declaração que marca a festa de 2011 no tocante à cultura ficou por conta de entrevista do presidente da Fundação de Cultura e Turismo de Caruaru134 no endereço eletrônico que serve ao evento. Instado a se posicionar sobre as críticas recebidas pelo tradicionalismo que marcou a festa de 2010 e pelas justificativas das “mudanças mais modernas” de 2011, defende a criação da Tenda Eletrônica como forma de agradar a juventude, declarando que
esse é um evento que essa fórmula tem que sempre estar pronta, que é cultura, turismo e economia. São esses três fatores que você tem que estar com essa fórmula pronta para poder trabalhar cada um deles no momento que a mídia se expande aqui e lá fora, a partir do momento que nossos grupos culturalmente estão presentes nos palcos, nos cinco polos que acontece o São João, a partir do momento que a economia tem esse aquecimento.
133 São João de Caruaru movimentou R$ 181 milhões agora em 2011. Disponível em
<http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2011/07/20/sao_joao_de_caruaru_movimentou_r_181_ milhoes_agora_em_2011_107232.php> Acesso em 21 jul. 2011.
134
Disponível em <http://www.saojoao2011.com.br/index.php?pagina=noticias&id=81> Acesso em 27 mar. 2012.
Em suma, as respectivas declarações desses três gestores públicos deixam evidente a importância da festa para a economia da cidade e, por esse motivo, a irreversibilidade de sua profissionalização. Por sua vez, se a fórmula cultura, turismo e economia vêm dando resultado com o público e com a aceitação pela mídia é de supor que a fase da Apropriação já se consolidou, sendo a Dependência mútua, já que se o evento somente ocorre com a ação governamental, a economia local também passa a depender da festa.
Outro componente que merece consideração na definição de estratégias para o desenvolvimento econômico é o comércio. Segundo a pesquisa, 89% dos visitantes aprovaram o atendimento nos estabelecimentos comerciais. A originalidade de Caruaru quanto a essa atividade fica com a Lei Municipal nº 4.416/2005, que dispõe sobre os festejos juninos no município, determinando ao Poder Executivo Municipal, através de ato normativo, o poder de definir as áreas e perímetros da cidade em que, no período dos festejos juninos, as empresas patrocinadoras ou apoiadoras do São João poderão divulgar suas marcas e beneficiar-se da exclusividade da comercialização de seus produtos nos postos de vendas autorizados (artigo 55).
Além da comercialização, qualquer empresa ou pessoa física que pretender realizar ações de propaganda, publicidade, patrocínio, ação promocional, apoio ou merchandising que sejam relacionados, direta ou indiretamente com o São João de Caruaru, deverá, necessariamente, obter a licença específica para esse fim, após autorização expressa do Comitê Gestor, sob pena de multa. Há flagrante afronta à livre iniciativa, à concorrência e à livre escolha do consumidor.
O fato de o governo municipal autorizar ou não a venda de produtos não fabricados pelos patrocinadores oficiais da festa até mesmo fora das áreas a ela destinadas significa, na prática, que a exclusividade prevista na lei leva à comercialização de cerveja e refrigerante, por exemplo, de marca única, independente da vontade e do gosto do consumidor, na festa e em seu entorno, local público agora demarcado como área de comércio protegida.
A festa, apropriada pelo governo, é então dividida com uma ou poucas pessoas jurídicas de direito privado, com fim de lucro, que pagaram por esse direito. Isso dá base legal ao
saloon instalado na entrada da festa de São João em Caruaru, em dissonância à vizinha estátua
de Luiz Gonzaga, mas não justifica o ataque à Constituição da República, à Constituição Estadual e aos direitos do consumidor.
Elementos juninos também estão presentes, como as bandeiras no espaço central e o balão feito de lâmpadas da entrada, disputando a atenção com enormes bolas e estandartes promocionais do governo estadual, LG, Bradesco, Caixa, Skol, dentre outros. Estão
espalhados no Pátio de Eventos 29 restaurantes da cidade e 160 barracas de comidas típicas com preços razoáveis, algumas instaladas em espaço atrás do palco principal (apenas 135 foram efetivamente ocupadas durante o evento de 2011).
No espaço central, em frente ao palco principal é possível adquirir bebidas nos diversos ambulantes cadastrados pela Prefeitura sem correr o risco de perder o show. Uma rápida conversa com uma ambulante foi o suficiente para conhecer sua indignação com a taxa cobrada pela Prefeitura para cadastramento na festa, pesada para sua condição financeira e para o parco lucro advindo da venda de refrigerante, água e cerveja na única caixa de isopor que dispunha, colocada no chão.
Por outro lado, jogos de luzes que mudam constantemente de cor dão tom moderno aos dois andares de camarotes situados ao lado esquerdo do palco. A área de camarotes nada mais faz do que reproduzir a divisão existente na sociedade. Ainda que a festa seja denominada como popular, os que detêm condições financeiras para tanto compram esses espaços privilegiados, outros são agraciados pela proximidade com o poder político. O fato é que a área de camarotes avança sobre o terreno destinado aos espectadores do palco principal, espaço delimitado por grades de ferro, para proporcionar aqueles o privilégio de sentir-se como se no meio do povo estivessem, porém confortavelmente seguros e servidos com o fornecimento de comidas e bebidas diferenciado, segurança e banheiros próprios.