Verificada a necessidade de coleta de dados primários, o trabalho contou com uma pesquisa de campo através da observação não participante e da realização de entrevistas, visando à maior interação entre o pesquisador e a realidade observada e, com efeito, melhor compreensão do fenômeno, construindo, segundo Minayo (2010, p. 61), “um conhecimento empírico importantíssimo para quem faz pesquisa social”, cujos procedimentos adotados são relatados separadamente, neste e no item seguinte.
As festas do período junino têm especial destaque para o povo nordestino, sendo grande a expectativa por essa época do ano não somente pela desejada manutenção da tradição do festejo, transmitida entre gerações, quanto para a economia local. O desejo do nordestino pela festa junina parece ultrapassar em importância o carnaval que, em regra, serve de expoente máximo da cultura brasileira, ao menos na publicidade ligada ao turismo e no discurso da cultura enquanto geradora de emprego e renda. O São João no Nordeste é alegria, dança, comidas típicas, visitas de parentes que há muito deixaram sua terra e voltam para encontrar familiares, amigos e tradições, em uma festa que dura todo o mês de junho.
Para justificar a utilização da observação, é necessário resgatar o problema: afinal, como a festa popular nordestina do ciclo junino é utilizada para fins políticos-eleitoreiros? Se as práticas amplamente aceitas são por si só espaço privilegiado para exposição de políticos, é preciso destacar a importância de “uma perfeita observação do ambiente no qual o fato social acontece” (PARRA FILHO, 1998 p. 105), já que ele pode determinar comportamentos, valores e aceitação ou não de práticas.
Registrar o comportamento dos indivíduos em seu contexto temporal-espacial é uma das principais vantagens da observação (ALVES-MAZZOTTI e GEWANDSZNAJDER, 2001) e festejar o período junino é uma sólida tradição nordestina. Assim, estar no local e no momento da festa oficial, objeto central da observação já claramente definido, tornou possível identificar elementos de propaganda política presentes em seus espaços de reprodução, e os suportes técnicos de que se serve.
Ainda que o papel do pesquisador seja de mero espectador em uma observação não participante (VERGARA, 2009), limitando-sea registrar o acontecimento, isso não significou a ausência de planejamento prévio e foco na busca da resposta ao problema formulado, muito embora a não estruturação seja uma característica marcante da observação nos estudos qualitativos, “na qual os comportamentos a serem observados não são predeterminados, eles são observados e relatados da forma como ocorrem, visando descrever e compreender o que está ocorrendo numa dada situação” (ALVES-MAZZOTTI e GEWANDSZNAJDER, 2001, p. 166).
A flexibilidade da exploração permitiu detectar o que pareceu significativo, tornando a descrição livre para responder ao problema formulado. Nesse momento, optei pela descrição das festas entremeada de argumentações próprias e de outros autores, entendendo ser o lugar conveniente para esse debate específico, servindo o referencial teórico inicial para uma discussão ampla que levasse à problematização e à construção empírica do quadro de referência preliminar. Acredito que isso não subverte o rigor científico exigido, ao contrário, procura maior unidade no texto deste relatório, que pretende comunicar da forma mais inteligível possível descobertas e interpretações de uma realidade agora conhecida por mim, mas ainda não pelo leitor.
Estando o contexto da pesquisa circunscrita à região Nordeste, por sugestão da banca de qualificação, foram visitadas durante a segunda quinzena do mês de junho de 2011 cinco festas juninas de quatro estados da Federação que já haviam se destacado na fase exploratória, o que resultou numa observação descritiva através das anotações de campo, cujo acervo de apontamentos, fotos e vídeos foi de grande interesse e relação direta com a busca pela
resposta ao problema formulado e ao objetivo final proposto, viabilizando uma apresentação geral das festas e sua distribuição espacial.
Dessa forma, a presença nas festas juninas de Mossoró-RN (19 de junho), Patos-PB (21 de junho), Campina Grande-PB (23 de junho), Caruaru-PE (24 de junho), e de São Luis-MA (de 26, 29 e 30 de junho) aprofundou o conhecimento do contexto da reprodução da prática, complementando a pesquisa documental com os detalhes observados in loco. A escolha desses municípios, portanto, não seguiu um critério previamente especificado senão por sua representatividade, como realizadores de festas juninas de grande apelo popular e, sobretudo pelo destaque nos veículos de comunicação, além de serem notadamente promovidas pelo governo.
Foi constatada uma substancial semelhança nas festas de Mossoró, Patos, Campina Grande e Caruaru, o que me levou a concluir pela existência de um padrão determinado. Conquanto a pesquisa qualitativa não pretenda a generalização, é preciso ressaltar a riqueza resultante da observação das festas juninas desses lugares, tendo cada uma contribuido ao seu modo para a compreensão do uso político da festa popular, razão pela qual optei em incluí-las neste relatório final.
Como exemplo, a abertura oficial da festa da cidade de Patos deixou evidente a transformação do palco em palanque, quando o gestor público e seu grupo político se apoderaram do espaço principal para fazer um comício dissimulado, comportando-se como se aquela festa fosse um presente conseguido pelo esforço daqueles poucos e para o bem de todos. Nas outras, a exceção de São Luis que não tem um espaço único, ocorre igualmente a transformação da abertura em inauguração, momento em que o gestor público toma o microfone e profere um discurso de entrega de obra pública, modorrento e dissonante com o início da folia, que não é dele nem de ninguém.
Essa semelhança já tinha sido notada na fase exploratória, com o padrão do espaço único com a disposição física em forma de retângulo e fechado por muros provisórios, com áreas de acesso monitoradas pela Polícia Militar e segurança privada, palco central, camarotes ladeando o palco, barracas e quiosques de bebidas e alimentos posicionados ao fundo, assim como as atrações artísticas, com trios de forró acústico, bandas de forró eletrônico, quadrilhas juninas e outras manifestações típicas do período no Nordeste.
Campina Grande conta com a maior festa junina do Brasil, tanto em duração quanto em investimento e público presente no Parque do Povo, local destinado pela municipalidade à manifestação. Em 2011, foram 31 dias de festa com o investimento de R$ 6,3 milhões, comparecendo um público estimado em dois milhões de pessoas e gerados cerca de 10 mil
empregos diretos e indiretos, segundo dados fornecidos pela Prefeitura na página oficial da festa. Visitei a cidade por três vezes, sendo a primeira durante a festa de 2011, a segunda para a realização das entrevistas e a terceira para complementação da observação durante o lançamento do Maior São João do Mundo de 2012, momento em que a Prefeitura pretendia entregar as obras de melhoria no piso, no que chamou de “reinauguração” do Parque do Povo, que não se concretizou. Acredito que dentre as demais, a notabilidade do Maior São João do Mundo a credenciou para as entrevistas.
A exceção é atribuída a São Luis por apresentar um São João diferente dos demais visitados, cuja diversidade de manifestações culturais inclui o bumba meu boi, as danças do coco, do caroço, do lêle, o cacuriá, a dança portuguesa, as tribos de índios e outras, reproduzidas em espaços distribuídos pela cidade, em áreas livres e na maioria em praças públicas, sendo realizadas tanto pelo governo municipal quanto pelo estadual, além do patrocínio com verbas públicas aos arraiais privados. A diversidade cultural, a disposição dos locais e a variada programação do São João ludovicense permitiu considerar sua festa como de dinâmica singular em se tratando de festas oficiais do ciclo junino no Nordeste.
Essas, portanto, as razões que direcionaram as primeiras entrevistas às referidas cidades, onde a pesquisa documental, a observação e a coleta de dados primários permitiu um maior aprofundamento do fenômeno da festa oficial, em consonância com Vergara (2009, p. 75), para quem a observação complementa a realização de entrevistas, principalmente “quando a participação em eventos lhe enseja descobrir causas, efeitos, interações”.
A pesquisa documental trouxe maior amplitude de significados ao tratar de diversas festas realizadas por governos municipais, facultando um caráter mais ilustrativo ao fenômeno, e a limitação na recolha dos dados primários aos municípios de Campina Grande e São Luis foi resultante da saturação nas entrevistas, como explanarei, não maculando a profundidade na busca pela resposta ao problema de pesquisa, pois que ainda concentrada em seus aspectos mais relevantes, a desvelar o interesse político na festa popular.
Certamente não foram incluídos todos os aspectos do contexto observado, já que limitado ao ambiente físico e ao ambiente social humano diretamente relacionados ao problema, fornecendo dados para o conhecimento do contexto e a construção do roteiro de entrevistas. Apontamentos sobre fatores econômicos como custo, geração de emprego e renda e resultados para o comércio e a rede hoteleira locais, ajudam na compreensão sobre a composição e dimensão das festas e sua importância para a economia local.
Considerada como segunda fase, ao final da observação direta foi possível reiterar as dimensões Apropriação – Dependência – Campanha determinadas na fase exploratória, com a
verificação das práticas sociais e discursivas, conjuntamente às fotos, vídeos, reportagens e demais registros que forneceram informações acerca do fenômeno social da festa, passando a nortear o roteiro de entrevistas.
A respeito disso, ainda que discursos estivessem presentes nas propagandas oficiais, fotos, vídeos, notícias e posts, não foram os documentos tratados com base no método da análise de discurso, pois que o interesse da investigação documental se restringia a verificar os meios técnicos empregados e enquadrar o dito nas leis de propaganda política, não sendo primordial para o objetivo da pesquisa perseguir as relações de poder, a manipulação através de mecanismos persuasórios e a disseminação de certa ideologia enquanto “mecanismo estruturante do processo de significação” (ORLANDI, 1999, p. 96).
Ademais, o volume de dados poderia não permitir o aprofundamento exigido, se formalmente proposta a utilização do método da análise de discurso para seu tratamento, sendo suficiente aos objetivos traçados seu conhecimento e posicionamento no quadro de referência acima. Portanto, os dados nele expressos ajudaram a observação, sendo apresentados nesse momento.
A seguir, quadro que resume os aspectos gerais da observação, construído a partir de Cicognani (2002):
Observação Etapas
Critérios Especificação
O que olhar
A festa oficial - a dinâmica da festa
O que perseguir O uso da festa oficial para fins políticos- eleitoreiros
- elementos de propaganda política
Seleção
Representatividade - Mossoró, Patos, Caruaru, Campina Grande e São Luis
Escala temporal Durante as festas de 2011 - 19 a 30 de junho de 2011
Após as festas - 1º de maio de 2012
Grau de participação
Como observador - limitado a registrar o
acontecimento
Grau de estruturação
Não estruturada - detectou tudo o que
pareceu significativo
Observação descritiva
Anotações de campo - apontamentos, fotos,
vídeos
Apresentação geral do campo
- investimento e infraestrutura - distribuição do espaço - apresentações de artistas e grupos Observação focalizada Ambiente físico - espaço de reprodução (elementos de propaganda política)
Ambiente social humano
- presença dos agentes políticos na festa e comportamento dos presentes em geral
Fim
Descrição
- forneceu dados para o conhecimento do contexto, reiterou as dimensões e auxiliou na construção do roteiro de entrevistas
Quadro 6: Resumo da observação Fonte: Adaptado de Cicognani (2002)