BÖLÜM 2: MOLLA CÂMÎ ve YÛSUF U ZELÎHÂ’SI
2.3. Molla Câmî’nin Yûsuf u Zelîhâ’sının Klasik Türk Edebiyatındaki Etkisi
2.3.1. Molla Câmî’nin Yûsuf u Zelîhâ’sına Yapılan Tercüme, Nazire ve Şerhler
2.3.1.2. Molla Câmî’nin Yûsuf u Zelîhâ’sına Yapılan Tercümeler
Jean-Etienne Dominique Esquirol (1772-1840), o mais ortodoxo dos discípulos de Pinel, conceituou a loucura como sendo “uma afecção cerebral comumente crônica, sem febre, caracterizada por distúrbios da sensibilidade, da inteligência e da vontade” (Traité des maladies mentales, 1838, I, p.5). (Bercherie,1980[1989],FC,p.48). Ainda que tenha retomado e preservado a nosografia pineliana em transtornos sintomáticos e idiopáticos, excluindo os distúrbios mentais febris (frenesia) das doenças mentais propriamente ditas, Esquirol aprofundou as descrições, a análise e as distinções clínicas entre as síndromes psicopatológicas. Ele baseou sua análise principalmente na filosofia da escola espiritualista eclética de Royer-Collard, salientando a importância volitiva da atenção como uma função de controle, seleção e síntese. Os distúrbios mentais na concepção esquiroleana são concebidos como sendo uma perturbação do equilíbrio entre as faculdades inferiores e a atenção volitiva, a grande função sintética do “eu”.
A nosografia de Esquirol apresenta alguns progressos em relação a de Pinel, tais como: 1) O “Idiotismo adquirido” de Pinel transforma-se em “Demência Aguda”, com curso evolutivo e diversos graus: imbecilidade, idiotia propriamente dita (um vício de conformação do cérebro) e o cretinismo. A “Idiotia” diferencia-se da “Loucura” porque esta “não é uma doença e si um estado em que as faculdades intelectuais nunca se manifestaram ou não puderam desenvolver-se o bastante” (Bercherie,1980[1989],p.50); 2). A Demência dividiu-se em uma forma aguda curável e em duas formas crônicas, uma senil e incurável e uma outra raramente curável. A paralisia geral progressiva (neurossífilis) foi claramente descrita como sendo uma complicação da demência, ou melhor, uma síndrome exclusivamente motora que complicava a loucura; 3) A forma “sem delírio” ou racional da “Mania”, de Pinel, foi inicialmente negada e transformada no conceito de “Monomania”, um
distúrbio primariamente afetivo, isto é, um sentimento essencialmente patológico, e secundariamente intelectual. A “Mania”, de Esquirol, é concebida como sendo uma exaltação do conjunto das três faculdades elementares da mente (sensibilidade, inteligência e vontade) e também como um delírio global que inibia a ação volitiva da atenção por causa do enorme afluxo de estímulos sensoriais, de idéias e de pulsões que acometiam o doente. No caso da “Mania”, o distúrbio primário seria de ordem intelectual; 4) A grande classe das “Monomanias” agrupou todas as doenças com preservação das três faculdades mentais básicas (sensopercepção, cognição e volição) e reintegrou novamente na nosografia a “Mania sem delírio”, de Pinel, juntamente com a “Melancolia”, um conceito ambíguo quando o quadro clínico que englobava também os “Delírios expansivos”, de tonalidade alegre ou exaltada. As “Monomanias” foram primeiramente divididas em: a) Lipemania ou melancolia (lypé, tristeza); e b) Monomanias propriamente ditas, formas clínicas baseadas num sentimento alegre e expansivo. Uma segunda divisão das Monomanias baseou-se na análise das três faculdades mentais fundamentais, já mencionadas: As Monomanias intelectuais, com delírios, ilusões e alucinações; A Monomania afetiva, com preservação do raciocínio e que incluía a loucura moral de Pritchard e a maioria dos casos de Mania sem delírio de Pinel; A Monomania instintiva (volitiva), sem delírio, com compulsão a atos incompatíveis com a razão e o sentimento moral; Essa forma causou grande controvérsia no meio jurídico penal. O conceito de monomania estendia-se a todos os tipos de atos mórbidos, tais como o suicídio, a embriaguez, o roubo, o incêndio, etc, independentemente de sua ligação com outros quadros clínicos psicopatológicos como a mania, a demência ou a idiotia, o que dava à nosografia esquiroliana um caráter genérico e imperfeito (Bercherie, 1980[1989], FC, p.52).
Esquirol distinguiu as alucinações das ilusões e considerou-as como decorrentes de uma lesão da atenção voluntária que propiciava a fascinação pelas imagens mnêmicas de caráter sensoperceptivo ou estésico; Quanto à etiopatogênese (aitia, causa,
motivo) Esquirol atribuiu à alienação mental causas físicas (hereditárias e adquiridas) e morais (paixões ou sentimentos). As causas podiam ser predisponentes e precipitantes, independentemente de serem físicas ou morais; A sede primária da loucura situava-se no sistema nervoso autônomo ou nas vísceras, embora ele insistisse no tratamento moral, procurando conquistar a confiança e a afeição do alienado. Quanto à anatomia patológica da loucura, Esquirol argumentava que muitas lesões cerebrais identificadas como sendo a causa da loucura eram encontradas em indivíduos que nunca tinham enlouquecido e, ao contrário, muitos alienados não apresentavam nenhuma alteração na necrópsia. Atribuiu, então, a causa da loucura a uma modificação desconhecida do cérebro.
A concepção psicopatológica de Esquirol era francamente dualista, pois concernia a aspectos etiológicos (aitiologia, causa) físicos e morais: 1) A “Frenesia” (loucura febril) e a “Idiotia” eram secundárias a afecções somáticas cuja localização era muitas vezes presumida e não necessariamente constatada; 2) a loucura em sua forma pura era causada por uma modificação funcional desconhecida do cérebro e era isenta de bases lesionais estruturais do sistema nervoso; 3) A loucura sem lesão poderia complicar-se pela associação a doenças que podiam ter uma causa lesional, a exemplo da paralisia geral progressiva (neurossífilis), a epilepsia e as lesões orgânicas do cérebro, assunto esse que seria o motivo de uma mudança de paradigma na metade do século XIX. O “Tratado de Doenças Mentais” de Esquirol foi a única obra relativamente completa no período entre 1820 e 1850.
Resumindo, Esquirol representou uma reação à doutrina antiorganicista pineliana e revigorou a concepção organicista e naturalista da loucura, através principalmente de sua obra “As Doenças mentais” (“Des Maladies mentales”, 1838). Para Esquirol, as formas pinelianas de alienação constituem mais propriamente os diversos gêneros da loucura, conforme sua nosografia (1816 e 1818): 1) Lipemania (lypé=tristeza): a natureza desse gênero de melancolia consiste em um delírio parcial, geralmente sobre um ou poucos objetos e
associado a uma tristeza ou depressão patológica; 2) Monomania: delírio parcial, geralmente sobre um único tema delirante, com exaltação ou alegria intensa e patológica; 3) Mania: delírio geral, que se estende a todo tipo de objeto e se acompanha de excitação; 4) Demência: enfraquecimento ou perda do vigor dos órgãos do pensamento para o necessário funcionamento intelectual; 5) Idiotia ou Imbecilidade: os órgãos do raciocínio e da produção do pensamento adequado encontram-se hipofuncionais por falta de desenvolvimento.
Esquirol se distancia do critério pineliano ao introduzir a categoria nosográfica de Monomania entre a Mania e a Melancolia (Lipemania) e a amplitude do delírio deixa de ser um critério nosográfico decisivo, na medida em que o delírio se associa a “paixões” características em cada caso particular. Além disso, a Demência e a Idiotia, tidas por Pinel como “alienações” passam agora a constituir gêneros de loucura. A nosografia esquiroleana busca o retorno dos substratos orgânicos para os diversos quadros clínicos nosológicos e introduz idéias como as de “paixão depressiva” e de “paixão expansiva”. A Mania se torna uma afecção neurológica de curso evolutivo crônico, com expressão sintomática ao nível das funções afetivas (sensibilidade), cognitivas (inteligência) e volitivas (vontade), conforme Esquirol nos afirma nessa passagem de sua obra “Des Maladies Mentales”, de 1838:
“... a mania é uma afecção cerebral crônica [sic], ordinariamente sem febre, caracterizada pela perturbação e exaltação da sensibilidade, da inteligência e da vontade”. (Esquirol, 1838, MM, p.132; in: Pessotti, 1994, LE, p.171). Segundo E. Beaugrand (“Alienation”, 1865), os dados essenciais da nosografia de Pinel e de Esquirol encontram-se presentes nas nosografias da época em Fodéré, Dubuisson, Chambeyron, Foville e Ferrus, na França, e em Burrows e Prichard, na Inglaterra. (Pessotti, 1994, LE, p.172)
A questão etiológica permanecia em aberto: existia ou não uma base anátomo- patológica para a alienação mental? A frenologia do neuroanatomista Gall, foi a primeira teoria coerente das localizações cerebrais, estabelecendo o papel fundamental da massa
cinzenta e do córtex no funcionamento nervoso, assim como uma tentativa de localização cortical das funções mentais intelectuais e afetivas numa concepção teórica multi-orgânica do córtex cerebral (Bercherie, 1980[1989], FC, p.57). No entanto, conclusões prematuras o levaram a equívocos baseados num paralelismo entre a forma cortical e a conformação craniana. Desenvolveu uma lista arbitrária de vinte e sete “faculdades” mentais localizadas que expressavam os dons, talentos e defeitos morais, e que podiam ser diagnosticadas pela presença de bossas na superfície craniana, inclusive a “bossa dos matemáticos”.
Tal concepção deveria levar à descoberta das áreas cerebrais correspondentes a cada tipo de doença mental, no exame da conformação craniana do alienado. A essa concepção de Gall foi atribuída a designação pejorativa de “mitomania cerebral”. Exageros à parte, o sistema de Gall influenciou muitos alienistas e pensadores de valor como por exemplo Broussais e Auguste Comte, pois “bossas à parte” a idéia de localização era muito promissora. G. Spürzheim, colaborador direto de Gall, publicou em 1818 sua obra “Observations sur la Folie”, onde inicia uma orientação de pesquisa anatomo-patológica baseada na idéia de que se a hipertrofia de determinada área cortical se expressava por um determinado tipo de loucura, correspondente ao transtorno de uma faculdade ali localizada, então a irritação lesional ou inflamatória oriunda de qualquer processo mórbido poderia igualmente resultar numa loucura específica. Essa concepção guarda uma certa semelhança de essência com a futura tipologia constitucional de Kretschmer e o continuum da série “temperamento– disposição–psicose”, que Minkowski irá explorar em sua obra psicopatológica no século XX. A esse anatomismo epistemológico contrapôs-se a tradição pinel-esquiroliana com a concepção da etiologia funcional da alienação mental, dado que as lesões das necropsias de alienados podiam ser atribuídas tanto a moléstias independentes quanto às complicações ou conseqüências da loucura.
Georget, em sua obra “De la Folie” de 1820, apresenta uma posição teórica intermediária entre o funcionalismo dualista e o anatomismo enquanto método logicamente dualista, mas ontologicamente monista, formulando a tese que se desenvolveria no movimento psicodinâmico da psiquiatria e das grandes nosologias do final do século XIX. Na concepção dualista de Georget os distúrbios mentais podiam ser etiologicamente divididos em: 1) Sintomáticos, originados de uma causa orgânica conhecida; e 2) Idiopáticos, de caráter funcional e causa desconhecida, ou seja, a loucura propriamente dita. A idiotia, um defeito original de desenvolvimento, foi classificada à parte por não ser considerada propriamente uma doença. Para Georget a loucura era uma afecção do órgão encefálico, de caráter organopsíquico, cujos sintomas mais exuberantes eram psicológicos e cujas causas podiam ser divididas em predisponentes (predisposição hereditária, involução cerebral, menstruação, etc.) e eficientes (causas intelectuais e sentimentais). Na prática terapêutica, o princípio georgetiano de poupar o cérebro doente do alienado de esforços mentais teve como conseqüência o abandono da psicoterapia e o declínio do tratamento moral de Pinel e Esquirol.
Wilhelm Griesinger é considerado o fundador da escola clássica da psiquiatria alemã; Antes dele havia duas escolas com sistemas teóricos fechados e “completos” em si mesmos: a escola “psiquista” e a “somatista”. A primeira concebia a loucura como sendo uma doença da alma e a segunda como sendo sintomática de uma afecção orgânica ou somática. Ambas as escolas partiam de pressupostos metafísicos, pois a concepção somatista, ao atribuir somente ao corpo a capacidade de adoecer o espírito, acabava por conferir à alma uma natureza de inalienabilidade, posição está já presente em Morel (Bercherie,P., FC, 1989[1980], p.70).
Jacobi, o maior representante da escola somatista alemã, atribuía um caráter secundário ao quadro clínico e, portanto, um caráter primário à etiologia; somatistas e
psiquistas eram pré-pinelianos no sentido de que consideravam a etiologia como sendo fundamental, em detrimento da clínica. Enquanto a escola alemã pré-griesingeriana era etiologista, a escola francesa era baseada fundamentalmente na perspectiva de observação empírico-clínica.
Joseph Guislain, o fundador da psiquiatria clínica belga, defendia uma concepção semelhante à de Esquirol, pois considerava a loucura, à qual denominava de “Frenopatia” (frén, mente; frenitis, loucura; pathos, afecção), como sendo uma reação psicológica a um estado de “dor moral” ou “frenalgia” (algos, dor) (Traité sur les Phrénopathie, Bruxelas, 1833) (Bercherie, 1980[1989], FC, p.70). As reações psicológicas, na visão de Guislain, eram oriundas dos estados psíquicos normais, tais como a tristeza, a estupefação, a exaltação etc., ou então, dos estados anormais do caráter ou do pensamento. A frenalgia ou dor moral, como o próprio nome indica, decorria de causas morais e a sua reversibilidade era mais fácil quando a reação que gerava o estado frenopático (a loucura) mais se aproximava dos tipos comuns de reação. Entretanto, Guislain valorizava também a predisposição hereditária no conjunto das causas que constituíam a loucura, pois mesmo a loucura de tonalidade afetiva alegre era a expressão de uma dor psíquica (moral).
Guislain separou clinicamente as psicoses delirantes em formas primárias e secundárias, distinguindo-as sindromicamente dos distúrbios afetivos maníacos e melancólicos; desse modo, a melancolia era uma exaltação da tristeza, a mania uma exaltação moral, a loucura uma anomalia da vontade impulsiva, o delírio uma anomalia das idéias e a demência um bloqueio do ato de pensar. Griesinger foi considerado o primeiro dos organicistas e o autor do primeiro verdadeiro “Tratado de Psiquiatria”, a partir de sua afirmação de que “devemos ver sempre nas doenças mentais, antes de mais nada, uma afecção do cérebro”. (Bercherie, 1980[1989], FC, p.72)
Enquanto as obras de Pinel e de Esquirol caracterizavam-se por um estilo literário, a de Griesinger apresentava as características de um manual prático, dividindo-se didaticamente em: considerações gerais, semiologia, etiopatogenia, formas clínicas, anatomo- patologia, prognóstico e terapêutica, tal como até hoje, no século XXI. A referência teórica de Griesinger provinha das concepções psicológicas de Herbart, antecipando as teses que um século após seriam retomadas por Blondel, Guiraud, Jaspers e Freud, como, por exemplo, a teoria do “ego” e de sua metamorfose no delírio. Para Griesinger, o cérebro era um “imenso centro de ações reflexas no qual (...) as excitações sensoriais (...) se transformam em intuições de movimento” (Bercherie,1980[1989],FC,p.73). As atividades psíquicas superiores seriam formas diferenciadas de atividades neurológicas inferiores ou arcos reflexos medulares, que funcionam como uma esfera intermediária entre a sensação e o impulso motor, isto é, a esfera ou plano da inteligência. A inteligência seria uma atividade associativa baseada nas representações mentais, as quais resultavam das sensações, havendo, portanto, “uma multidão de analogias importantes entre as percepções e a consciência” (Bercherie, 1980[1989], FC, p.74).
As representações mentais portariam as sensações provenientes de todo o organismo, inclusive das vísceras e dos órgãos genitais, impelindo o indivíduo a agir (Bercherie, 1980[1989], FC, p.74). Entre esses motores subjacentes às representações estariam a fome e o instinto sexual, que produziriam os movimentos obscuros da consciência, isto é, os sentimentos e os complexos de idéias que lutariam contra os obstáculos que se opusessem à realização da meta a ser atingida (Bercherie,1980[1989],FC,p.72). As idéias, quanto mais claras, conscientes, fortes e persistentes, mais se transformariam em vontade e tal como na ação reflexa, exerceriam uma influência sobre os músculos. (Bercherie,1980[1989],FC,p.72).
A concepção de Griesinger, como vimos, é uma síntese de associacionismo, materialismo psicofisiológico e concepção herbartiana do “eu” e da “consciência”. As tendências representadas pelas representações lutariam por ocupar o campo da consciência e se transformar em atos, e nessa luta ou conflito pela vida venceria o mais forte. Entretanto, havia alianças entre as tendências associadas que formavam “complexos de idéias”, os quais formavam a “realidade” externa e, ao mesmo tempo, dependiam dos acontecimentos externos e das influências persistentes oriundas do organismo. Na concepção herbartiana, fonte na qual Freud foi buscar muitas de suas concepções, as representações harmônicas eram reforçadas, enquanto que as conflitantes eram “recalcadas” (termo esse cunhado por Herbart) (Bercherie, 1980[1989], FC, p.74).
O “eu” mutável não era uma unidade e sim uma estrutura dinâmica permeada por numerosos conflitos de tendências ou impulsos, em permanente evolução orgânica. A doença cerebral facilitava a emergência de emoções patológicas, o fluxo dos pensamentos, o estado de ânimo (humor basal), os sentimentos, enfim, toda a atividade psíquica e a estrutura do caráter. A sensação inicial de dor psíquica (moral) ou sentimento de angústia (a frenalgia de Guislain) podia ser combatida pelo “eu” ou então ser vivida sem resistência, evoluindo progressivamente para um novo estado patológico constituído por juízos falsos (delírios) e idéias fixas, difíceis de serem justificadas devido à intensidade do estado emocional e à dificuldade de refletir, compreender e modificar intelectualmente o estado ideoafetivo. A transformação psicopatológica do “eu” podia diminuir a intensidade do conflito, mas dificilmente se extinguia esse novo e falso “eu” enlouquecido.
A intensificação do processo podia evoluir para formas muito destrutivas, caracterizadas por uma dissociação intensa das funções do “eu”, de modo incoerente ou contraditório (discordante), resultando num estado de demência global. A cura restringir-se-ia às fases iniciais do processo psicopatológico, quando o “eu” ainda tinha forças de reação ou
de reestruturação. Numa fase mais involuída haveria um tal estado de viciação e corrupção, de recalque e transformação em que o “eu” se fixaria na impossibilidade de recuperação da “doença do entendimento” e da lesão cerebral.
A nosologia de Griesinger apoiava-se nas teses de Johann Friedrich Herbart (1776-1841), um dos fundadores da psicologia moderna e o sucessor de Immanuel Kant (1724-1804) na cátedra de filosofia de Königsberg em 1809. Herbart foi aluno de Johann Fichte (1762-1814) e tentou fundar uma ciência naturalista do homem a partir do associacionismo inglês e do idealismo especulativo alemão, em sua principal obra “A Psicologia como Ciência fundada na experiência, na Metafísica e na Matemática” (Psychologie als Wissenschaft, Neugegründet auf Erfahrung, Metaphysik und Mathematik, 1824), que influenciou os austríacos Franz Brentano, Franz Exner e Sigmund Freud.
Griesinger contrastava as formas primárias, a depressiva e a expansiva, das formas secundárias, a saber: o delírio sistematizado, a demência agitada, a demência apática, o idiotismo e o cretinismo. A base da nosologia griesingeriana estava na idéia da evolução das formas clínicas, o que lhe permitiu isolar os delírios crônicos. Adotou também a tese da “Monopsicose” de seu mestre Zeller, que seria sistematizada por Neumann, em 1860, no sentido de que a loucura era uma única doença que poderia se expressar sob diversas formas clínicas, em fases sucessivas de um mesmo processo psicopatológico, da “Frenalgia” inicial à “Demência” completa terminal. Cada etapa do processo podia fixar-se ou regredir, dependendo da posição evolutiva inicial ou terminal em que se encontrasse (Bercherie, 1980[1989], FC, p.78).
Temos aqui, um novo critério clínico, a evolução, na construção nosológica da loucura. O sistema conceitual de Griesinger, embora dogmático, foi o reflexo da tradição acadêmica alemã que aliava a formação científica à filosófica.