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Molla Câmî’nin Yûsuf u Zelîhâ’sına Yapılan Nazireler

BÖLÜM 2: MOLLA CÂMÎ ve YÛSUF U ZELÎHÂ’SI

2.3. Molla Câmî’nin Yûsuf u Zelîhâ’sının Klasik Türk Edebiyatındaki Etkisi

2.3.1. Molla Câmî’nin Yûsuf u Zelîhâ’sına Yapılan Tercüme, Nazire ve Şerhler

2.3.1.3. Molla Câmî’nin Yûsuf u Zelîhâ’sına Yapılan Nazireler

Antoine J.L. Bayle (1799-1858), neuropsiquiatra francês, publicou em 1822 a sua obra “Investigações sobre as Doenças Mentais” (Recherches sur les Maladies Mentales) e, em 1826, o seu “Tratado das Doenças do Cérebro e das suas Membranas” (Traité de Maladies du Cerveau et de ses membranes), este último totalmente voltado ao estudo da “Paralisia geral” ou “Demência paralítica”, que ele havia descrito pela primeira vez em 1822.

As teses de Bayle foram rejeitadas em sua época e somente trinta anos após teria influência na psiquiatria. Ele contrastou nosograficamente o grupo da “mania- melancolia”, em que as faculdades mentais eram totalmente prejudicadas, com o grupo das “monomanias”, instintiva e intelectual, em que o prejuízo mental era parcial.

A nosografia de sua época carecia da entidade nosográfica “paralisia geral” (neurossífilis), que embora fosse uma síndrome reconhecida por Esquirol e Georget, era tida como uma simples complicação da loucura que poderia ocorrer em qualquer forma, principalmente na demência, com um prognóstico fatal em curto prazo. Para Baillarger, esse enfoque teórico, que Delaye e Calmeil defendiam, era dualista na medida em que considerava a loucura e a paralisia geral como sendo dois processos psicopatológicos diferentes (Bercherie, 1980[1989], FC, p.85). O objetivo de Bayle era evidenciar as causas imediatas da alienação mental, isto é, o seu substrato ou patogenia. Ele atribuiu à meningite crônica (aracnite crônica) a causa desencadeante de uma alienação mental que evoluía em três fases ou períodos: 1) exaltação; 2) agitação, com logorréia e às vezes furor; e 3) demência com incoerência e amnésia (Bercherie, 1980[1989], FC, p.86).

A paralisia geral incompleta seria semelhante à forma completa, mas a ela faltaria um dos períodos, o segundo ou de agitação. Antoine Bayle publicou em 1825 sua “Nova Doutrina das Doenças Mentais” (Nouvelle Doctrine des Maladies Mentales) onde

expressou seu anatomismo integral; Em sua obra “Traité des Maladies du Cerveau et de ses Membranes” (Paris, 1826, p.24-26) ele afirma que:

... a maioria das alienações mentais é sintoma de uma flegmasia (inflamação) crônica primitiva das membranas do cérebro (...), algumas alienações muito raras dependem de uma irritação simpática do cérebro (...), um certo número de monomanias e melancolias prende-se primitivamente a uma lesão profunda e duradoura das afecções morais e a um erro dominante (...); Mas estou longe de não atribuir ao físico nenhuma influência no desenvolvimento dessas espécies de alienação (...). Há predisposições hereditárias e constitucionais (e)... essas espécies de alienação produzem no cérebro e em suas dependências alguns efeitos que, por sua vez, tornam-se causas de alguns sintomas (...), 4) o idiotismo decorre ordinariamente, (...) de um defeito inato na conformação ou na organização do cérebro. (Bercherie, 1980[1989], FC, p.86)

Bayle generalizou sua concepção anatomista à maioria das doenças mentais e tentou uma explicação patogênica dos sintomas, atribuindo à inflamação meníngea e à sua irradiação para o córtex cerebral a causa da exaltação do humor que desencadearia o delírio (delírio de bem estar) e a agitação; a demência e a paralisia seriam devidas à compressão e à atrofia progressiva do córtex. Essas idéias lhe pareceram confirmar as teses de Flourens e enfraquecer as de Gall, como também as de Foville e de Delay, sobre a questão da localização das funções intelectuais e motoras. (Bercherie, 1980[1989], FC, p.86-7).

Apesar de não ter descrito as lesões primitivas do córtex na anatomo-patologia da paralisia geral, Bayle descreveu, pela primeira vez na psiquiatria, uma entidade mórbida fundada numa base anatomo-patológica evidente e que apresentava um caráter processual com uma seqüência temporal de diversos quadros clínicos sucessivos, associando simultaneamente sinais psíquicos e físicos (Bercherie,1980[1989],FC,p.87). O diagnóstico bayleano era feito a partir dos sintomas acessórios (idéias delirantes, afeto, distúrbios motores, etc.) e do conjunto de aspectos clínico-evolutivos, rumo à conclusão do processo demencial, quando os sintomas se tornavam mais característicos (Bercherie, 1980[1989], FC, p.88). Deste modo, “não se tratava da monomania, da mania ou da demência, mas de um processo

específico que integrava estados monomaníacos, maníacos e demenciais específicos que era possível distinguir de outros estados da mesma ordem”. (Bercherie, 1980[1989], FC, p.88)

Bayle propôs uma teoria monista para a paralisia geral ao considerar as lesões intelectuais e motoras como simultâneas e dependentes de um mesmo processo mórbido (Bercherie, 1980[1989], FC, p.88). Parchappe, aluno de Esquirol, foi o primeiro a admitir a paralisia geral como unidade clínico-evolutiva e anatomo-patológica, isto é, “uma doença sintomaticamente caracterizada por uma lesão apirética (sem febre), simultânea e geral da inteligência, da motilidade voluntária e da sensibilidade”, uma lesão “constante e patognomônica, um amolecimento inflamatório da camada cortical”, que nem sempre acompanhava a meningite crônica (Bercherie, 1980[1989], FC, p.88-9). A loucura paralítica, na expressão de Parchappe, apresentava-se intelectualmente como um enfraquecimento demencial puro, ou então como um delírio maníaco, com idéias de riqueza e grandeza.

Baillarger descreveu, pela primeira vez, a variedade melancólica da paralisia geral com delírio hipocondríaco (Síndrome de Cotard) e publicou numerosos casos da forma demencial pura, sem delírio, de demência paralítica (Bercherie, 1980[1989], FC, p.89).

Jules Falret (1824-1902) retomou a teoria monista de Antoine Bayle enquanto Baillarger assumiu o dualismo de Esquirol, opondo a “demência paralítica pura” às “loucuras paralíticas” (congestivas), nas quais o delírio antecedia a paralisia, a demência e a morte, que seriam complicações lesionais da congestão cerebral. O dualismo baseava-se nos numerosos casos, totalmente idênticos clinicamente e que pareciam terminar em cura, sem o aparecimento da paralisia; a doutrina bayleana impôs-se lenta e progressivamente, rumo à demolição de edifício nasológico esquiroleano. Jean-Pierre Falret procurou reestruturar completamente o campo nosológico psiquiátrico, a partir de uma concepção anatomo-fisio- psicológica, fundada num paralelismo psicofísico e que consistia em “encontrar uma lesão de

alguma faculdade para colocá-la em paralelo com cada um dos atos dessa faculdade no estado normal”. (Bercherie, 1980[1989], FC, p.93)

A doença mental era uma doença cerebral cuja “modificação orgânica primária era desconhecida em sua essência, mas apreensível em seus efeitos” (Bercherie, 1980[1989], FC, p.95); tais efeitos eram modificações sutis que criavam “a aptidão para delirar”, isto é, um fundo mórbido e autônomo engendrava idéias delirantes (delírios) que se desenvolviam segundo leis próprias. No entanto, J.-P. Falret acreditava na eficácia do tratamento moral e criticava os somatistas alemães e Moreau de Tours, os quais queriam identificar o delírio agudo das doenças somáticas, e das intoxicações, ao delírio crônico da loucura.

J.-P. Falret, publicou sua tese “A Loucura Circular” (De la Folie Circulaire) e reclamou a prioridade da descrição da loucura de forma dupla (futura psicose maníaco- depressiva ou transtorno afetivo bipolar) em suas aulas clínicas de 1850, contestando a paternidade da entidade clínica a Baillarger. O pensamento de J.-P. Falret introduziu uma distância fundamental entre a clínica e a nosologia, em que as espécies constitutivas de um mesmo gênero eram separadas pelo jogo das diferenças e das semelhanças, isto é, pelo método taxionômico que estruturou os saberes da idade clássica. (Bercherie, 1980[1989],FC,p.105).

Benedict Augustin Morel, em seu “Tratado de Doenças Mentais” (Traité des Maladies Mentales, Paris, 1860) afirmava que:

Assim, é indispensável que a causa que produz a loucura extraia os elementos de sua atividade de uma ordem de fatos que se originem e se rejam de tal maneira que deles resultem efeitos determinados, fixos e invariáveis, que produzirão necessariamente, não apenas a loucura, com todas as suas conseqüências, como também, antes, uma dada variedade de loucura e não outra.

(Bercherie, 1980[1989], FC, p.107).

Por conseguinte, o problema das entidades ou formas naturais, que para J.-P. Falret tinham uma existência independente de seus homólogos, foi considerado resolvido por B.A. Morel através dos critérios de unidade (do quadro clínico), de evolução e de causa. Morel tentou mudar o eixo da orientação analítica de J.-P. Falret para uma orientação sintética ou global, baseada no fator etiológico. (Bercherie, 1980[1989],FC,p.105)

O maior problema das classificações etiopatogênicas era a existência de listas intermináveis de causas, a exemplo de Winge (1860), Hack Tuke (1870) e Henry Maudsley em seu tratado de 1876 (La Pathologie de l’Esprit). Morel, para fugir de uma simples enumeração etiológica, procurou estabelecer uma distinção entre 1) causas racionais, que incluíam fatores físicos e morais e 2) causas determinantes, tais como as loucuras por intoxicação, as loucuras decorrentes das neuroses (histeria, hipocondria e epilepsia), as loucuras simpáticas provenientes de outros órgãos que não o cérebro e as loucuras idiopáticas do cérebro (paralisia geral, etc).

A atribuição de uma causa determinante à loucura abriu caminho para a tese da degenerescência hereditária, considerada como a causa mais importante e mais difundida das doenças mentais, conforme o seu Tratado das Degenerescências, de 1857 (Traité des Dégénérescences) e de sua parte aplicada, o Tratado das Doenças Mentais, de 1860 (Traité des Maladies Mentales). Para Morel, “a doença mental não é outra coisa senão a expressão sintomática das relações anormais que se estabelecem entre a inteligência e seu instrumento enfermo, o corpo” (Bercherie, 1980[1989], FC, p.109); assim, a base da doença mental concebida por Morel coincide com a das teorias organicistas.

A essência da doutrina da degenerescência de Morel consistia no aspecto de transmissibilidade hereditária da degenerescência, isto é, na crença de que o portador de tal carga degenerativa herdada estaria condenado à incapacidade e à transmissibilidade aos descendentes, numa hereditariedade progressiva em que o germe patológico iria se

transmitindo e seus efeitos iriam se agravando, tornando seus descendentes cada vez mais decadentes, física e moralmente, até a esterilidade, a imbecilidade, a idiotia e a degenerescência cretina, terminando na extinção da linhagem pela eliminação natural. (Bercherie, 1980[1989], FC, p.110)

A idéia de que os indivíduos que apresentavam traços de caráter anormais desde a infância eram portadores de defeitos hereditários veio a ser a base sobre a qual a psicologia dinâmica viria estruturar o seu edifício teórico, pois da idéia de uma somatogênese para a de uma psicogênese, filogeneticamente herdada, havia pouca distância. Entretanto havia na nosologia moreliana a classe das loucuras simpáticas, de excelente prognóstico, que desapareciam quando a causa patológica desencadeante findava, isto é, os sujeitos eram isentos de predisposição ou de lesão cerebral adquirida; tal concepção “somatista” persistiria em todas as nosologias até Kraepelin.

Karl Ludwig Kahlbaum rejeitou a teoria da degenerescência e tornou flexível o quadro clínico etiopatogênico, edificando uma classificação etiológica baseada numa oposição entre doenças mentais 1) idiopáticas propriamente ditas; 2) simpáticas, equivalentes ao delírio agudo de Georget; e 3) estados congênitos ou adquiridos de debilitação psíquica, isto é, demências involutivas precoces ou da adolescência e demências senis. Segundo Bercherie, a grande idéia de K.L. Kahlbaum foi a divisão das doenças mentais verdadeiras (idiopáticas) em duas classes: 1) com dissociação mental, evolução cíclica e semelhante à paralisia geral; e 2) sem dissociação mental ou enfraquecimento secundário (Bercherie, 1980[1989], FC, p.126). A obra prima clínica de Kahlbaum foi “A Katatonia ou A Loucura de Tensão” (Die Katatonie oder das Spannungsirresein, 1874), que ele definiu como sendo uma “doença cerebral de evolução cíclica, alternante, na qual a sintomatologia psíquica apresenta sucessivamente o aspecto da melancolia, da mania, do estupor, da confusão (Verwirrtheit) e da demência (Blödsinn)”, e em que o estado de estupor, a flexibilidade cérea

(rígida como estátua de cera), os ataques de contraturas musculares e as convulsões eram as características principais. (Bercherie,1980[1989],FC,p.126)

Para Kahlbaum, a catatonia apresentava uma simetria clínica com a paralisia geral, uma vez que os sintomas motores tendiam ao espasmo, ou seja, à contratura muscular; Kraepelin retomaria o mesmo quadro clínico posteriormente, ocasião em que o mesmo seria então aceito universalmente.