BÖLÜM 4: ŞERH-İ YÛSUF U ZELÎHÂ’NIN İNCELEMESİ
4.1.1. Gramer Terimleri
Uma outra modalidade de convicção organicista é o “organicismo realista” ou “não encefalista” de Carlo Livi (1823-1877), diretor do manicômio de Siena, que publicou em 1875 um artigo intitulado “Del metodo sperimentale in freniatria”, no qual afirmou que os “três guias e mestres” que levarão à solução do problema da loucura são: o microscópio, a experimentação e a observação. (Pessotti, 1996, SM, p.244)
Numa de suas obras (“Relazione del Manicomio S. Nicolo di Siena”, 1876) Carlo Livi afirmou que:
A loucura não pode ser considerada de outro modo, senão como doença corporal [...] [Mas] o tratamento físico se exerce não sobre o estado doentio, não sobre a causa, mas sobre o efeito, não sobre a doença, nas sobre algum elemento doentio conhecido. Como se pode, realmente, dirigir o tratamento para o estado doentio, se tal estado não conhecemos? (Livi, 1862; in: Pessotti, 1996, SM, p.245)
Nesta visão organicista hipotética, a lesão encefálica permanece suposta, tanto anatômica como funcionalmente, à espera das elucidações da microscopia, da experimentação e da observação clínica, mas, em princípio, já está dada a petição de princípio acerca da natureza orgânica da doença. Quanto à terapêutica moral da loucura, o caráter iluminista encontra-se presente na forma de agente modulador, excitador, frenador e recondutor ao equilíbrio orgânico, corrigindo a sua vontade alienada para os honestos prazeres dos sentidos, as boas excitações da inteligência, os impulsos virtuosos, a operosidade corporal, a ordenação da vida, a tranqüilidade, a alegria e a correta educação. (Livi, 1862; in: Pessotti, 1996, SM, p.245-6)
Além disso, o tratamento moral na perspectiva organicista realista “não encefalista” de Carlo Livi pretende agir não como agente curativo, mas, “talvez”, como
agente facilitador de outras terapêuticas físicas mais eficazes já que a causa primária da loucura é hipotetizada como sendo de natureza orgânica:
O tratamento moral, talvez, não vos conduzirá à cura do doente: mas sempre lhe dará uma disposição favorável à ação de outros remédios; pode torná-lo mais calmo, mais dócil, mais razoável; vos trará ordem e quietude no manicômio, ou seja, aquela atmosfera moral que é, para uma mente enferma, o que é o ar puro para um corpo doente. Numa palavra, o tratamento moral, ainda que não tenha a virtude de medicamento, serve, como disse Guislain, como veículo para medicamentos mais eficazes. (Livi, 1862; in: Pessotti, 1996, SM, p.246)
As idéias organicistas de Wilhelm Griesinger (1817-1868), anatomopatologista e docente da Universidade de Berlin, traduzidas e difundidas por Carlo Livi na Itália, resultaram num progressivo distanciamento das idéias de Pinel e de Esquirol e um revigoramento do positivismo organicista e reducionista, em oposição à visão “sistemática” e globalizante da vida psíquica do homem. Os desejos insatisfeitos podiam explicar os sonhos e até mesmo alguns sintomas psíquicos, mas o processo de ação do desejo funcionaria em termos de “ação reflexa” neurofisiológica. As práticas morais são excelentes fatores coadjuvantes do tratamento físico. (Pessotti, 1996, SM, p. 247-8)
O tratamento moral era demorado, complexo, individualizado e economicamente mais dispendioso que o tratamento físico, o que trazia o grave inconveniente de retardar a cura e dificultar o esvaziamento dos manicômios superlotados do século XIX. Tanto para Wilhelm Griesinger como também para Emil Kraepelin (1856-1926), defensores de um organicismo encefalista, a causa da loucura era algum distúrbio toxometabólico, endócrino ou uma deformação orgânica. A loucura era uma degenerescência demencial que poderia aparecer precocemente no jovem (Dementia Praecox) ou tardiamente no indivíduo senil, ambas incuráveis, na esteira teórica das degenerescências de Morel, onde os fatores hereditários patológicos cursavam inexoravelmente para a incurabilidade e a morte. No organicismo kraepeliniano a loucura assume uma natureza inteiramente física, isto é, resulta de lesões estruturais do encéfalo. Já no organicismo realista de Carlo Livi e de seu sucessor,
A. Tamburini (1848-1919), a loucura resulta de desarranjos orgânicos tanto cerebrais como também não cerebrais, isto é, infecções, intoxicações exógenas, etc. Por isso, Tamburini afirma em 1906 que as descobertas da medicina somática:
[...] Esclarecem a gênese íntima de muitas psicopatias [...] iluminam, sobretudo, as condições patológicas da epilepsia, da paralisia progressiva, do delírio agudo, da pelagra e do cretinismo [...] e demonstram que, na maior parte das doenças mentais, as manifestações doentias pertencem não exclusivamente ao cérebro, mas a todo o organismo. (Tamburini, 1906; in:Pessotti, 1996, SM, p.249).
O organicismo realista teve o mérito de distinguir a loucura exógena da loucura endógena, além de excluir da categoria da loucura crônica os casos de doenças essencialmente infecciosas, desnutricionais (pelagra), endêmicas, etc. O locus anatômico da loucura passou a ser o objetivo principal e o organicismo anti-mentalista tornou-se o paradigma reinante. Entretanto, Carlo Livi afirmava que a mesma lesão cerebral podia associar-se a qualquer tipo de loucura, o que contrastava com o localizacionismo radical da época, conforme se verifica numa carta que ele escreve a Andrea Verga em 1872:
Achar lesões no cérebro dos doentes não é tão difícil [...] Mas a obra não termina nisso, apenas começa. É preciso saber conectar a lesão material à desordem psíquica, [...] é preciso, nesta matéria doentia, encontrar a forma viva da doença [...] ou seja, dizer, dadas essas lesões, esse tal foi lipemaníaco, esse outro foi maníaco, esse outro teve paralisia progressiva, aquele era demente, o outro era monomaníaco, e esse outro um imbecil [...] A mesma lesão anatômica nos pode dar tanto uma lipemania como uma demência, uma imbecilidade como uma epilepsia; uma dessas formas nos pode apresentar, no cadáver, as lesões mais disparatadas. (Livi, 1872; apud Pantozzi, 1994, p.96; in: Pessotti, 1996, SM, p.250)
E, completando, Livi afirma a quase descrença na localização da causa cerebral da loucura: “[...] Esse exame não nos dá, na maioria das vezes, senão os últimos resquícios, superficiais, aparentes, de um processo morboso primordial [...] A condição patológica primitiva nós nunca conheceremos”. (Livi, 1872; apud Pantozzi, 1994, p.96; in: Pessotti, 1996, SM, p.250)
A unificação da psiquiatria com a neurologia na segunda metade do século XIX foi em parte o resultado do realinhamento político da Europa, com o declínio da influência francesa e a dominância da influência alemã e de sua ideologia organicista. Uma prova disto é que a “Rivista Sperimentale di Freniatria”, fundada em 1875 na Itália, seguia o modelo do “Arquivo de Psiquiatria e Doenças Mentais” de Berlin (Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankenheiten). (Pessotti, 1996, SM, p.250-1)
O organicismo francês de J.L. Calmeil, um brilhante discípulo de Esquirol, considera os episódios traumáticos, o tédio, o desinteresse pela vida e pelas atividades habituais como importantes fatores desencadeantes da Lipemania (Melancolia, loucura triste). Tais fatores poderiam levar ao desejo de isolamento e à solidão; posteriormente as idéias de tristeza seriam substituídas por verdadeiras idéias delirantes de ruína e de condenação eterna ao sofrimento atroz, associadas a distorções perceptivas graves, como ilusões e alucinações persistentes e ameaçadoras. Em decorrência disso, o doente passaria a tomar decisões inflexíveis, rígidas, e expressaria o seu sofrimento na forma de atos bizarros como contorções musculares e gemidos. O resultado seria o medo do contato social e o desinteresse pela vida a fim de defender-se dos supostos perseguidores e horrores imaginários, chegando em alguns casos graves ao suicídio. (Pessotti, 1994, LE, p.186)
No aspecto clínico-descritivo ou semiológico, os melancólicos costumam apresentar os seguintes sinais, segundo a descrição de J.L.Calmeil em sua obra “Lipemania” de 1876:
Têm os olhos lacrimosos e parados e suas pernas tendem a avermelhar-se e a inchar. A pele é fria, têm prazer de se depilar, de roer unhas e até as pontas dos dedos. A circulação é lenta, a ação do coração é como entorpecida. De costume, lhes falta o apetite, o hálito é freqüentemente infecto.
(Calmeil, 1876, p.546; in: Pessotti, 1994, LE, p.186)
As mulheres melancólicas apresentam sintomas psicossomáticos característicos e próprios à sua condição hormonal: “Nas moças melancólicas a menstruação é quase sempre
irregular ou suspensa, o sangue é enfraquecido e é muito provável a ocorrência de corrimentos leucorrêicos”. (Calmeil, 1876, p.546; in: Pessotti, 1994, LE, p.186)
Na concepção organicista não há propriamente uma ação psicossomática primária, mas uma ação somatopsíquica inicial que agirá como um fator precipitante sobre o cérebro predisposto à loucura, e só posteriormente poderá ocorrer um efeito secundário sobre os demais órgãos do organismo. O cérebro mantém, assim, o papel centralizador no processo etiológico, “É então que a ação reativa do estômago sobre o cérebro se manifesta com toda a evidência”. (Calmeil, 1876, p.546; in: Pessotti, 1994, LE, p.187)
Aqui e em outras passagens, uma doença externa ao sistema nervoso possui um papel desencadeante sobre a predisposição hereditária cerebral, levando o cérebro a produzir sintomas mentais: “As afecções reumáticas crônicas e algumas inflamações crônicas do couro cabeludo, do canal alimentar, do fígado ou as afecções cancerosas, a impotência... predispõem à tristeza e ao delírio triste”. (Calmeil, 1876, p.548; in:Pessotti, 1994, LE, p.187)
Não obstante, as explicações mostram alguns problemas epistemológicos como verificaremos na seqüência: “... a continuidade e a freqüência dos prazeres venéreos, as perdas seminais e as emoções que os acompanham, a continuidade do onanismo agem, alongo prazo, de uma maneira igualmente funesta sobre as condições morais e intelectuais”. (Calmeil, 1876, p.548; in:Pessotti, 1994, LE, p.187)
Neste ponto, as coisas começam a ficar confusas na medida em que fatores morais como as emoções e a masturbação crônica (onanismo) se misturam às causas orgânicas, embora se possa admitir que a tese organicista se apóia de algum modo em concepções de tipo humoral, dada a importância que parece dar à ação dos fluidos corporais (perdas seminais) sobre a economia orgânica; mas, no caso das emoções, a tese parece enfraquecer ao conceder aos fatores afetivos alguma relevância etiológica. No entanto, em
princípio, é o sistema nervoso herdado que comanda a primariedade do processo, apesar das explicações sugerirem o contrário, conforme a seguinte passagem do texto de Calmeil:
Entre as causas predisponentes morais da lipemania, deve-se notar: a tristeza de caráter, a falta de confiança, a timidez exagerada, a vida contemplativa, os tormentos do ciúme, as contrariedades do amor, as práticas de uma devoção estrita, os escrúpulos de consciência e a ação de todas as paixões opressivas.
(Calmeil, 1876, p.548; in: Pessotti, 1994, LE, p.188)
A idéia central desta abordagem é a crença de que a melancolia acomete ambos os sexos, mas se torna incurável nos homens que se excedem nos prazeres sexuais a ponto de lesarem a intimidade da estrutura cerebral de modo irreversível. As condições climáticas também exerceriam sua ação patogênica, mas freqüentemente se associam a outros fatores tais como o desgosto pela vida, a miséria econômica, a devassidão moral e os vícios perniciosos em geral; assim, as condições geográficas e climáticas atuam conjuntamente com a miséria, os vícios, “a embriaguez, a devassidão, que reinam na Inglaterra, com os refinamentos do luxo e da civilização”. (Calmeil, 1876, p.551; in: Pessotti, 1994, LE, p.188)
As causas da loucura mais freqüentes nos homens estão ligadas à sexualidade desregrada, ao álcool, à violência e às perdas financeiras:
Entre os homens as causas físicas principais são os contínuos excessos alcoólicos, os repetidos excessos venéreos, os hábitos solitários e uma alimentação copiosa. Entre as causas morais estão as brigas domésticas, as perdas de dinheiro, os trabalhos do espírito e as decepções das ambições.
(Calmeil, 1876, p.554; in: Pessotti, 1994, LE, p.188)
No caso das mulheres, as causas morais são tidas como mais importantes na determinação da doença mental: “É no caso das mulheres que a ação das causas morais é mais evidente. (...) os desgostos devidos à miséria, às privações, às contrariedades amorosas, ao ciúme, à perda de um ou mais filhos”. (Calmeil, 1876, p.554; in: Pessotti, 1994, LE, p.189). Há, também, a influência de causas menos habituais na etiologia da Melancolia:
Menos freqüentes são outras causas, como os exageros em alguma devoção, os escrúpulos de consciência, as feridas ao amor-próprio, a má conduta, os sustos, os temores da morte, da desonra e das doenças. Há ainda os hábitos da ociosidade e a leitura de romances, que têm um papel importante entre as causas morais da melancolia feminina. (Calmeil, 1876, p.554; in: Pessotti, 1994, LE, p.189)
Um outro gênero de loucura, a Mania, também é explicado de modo semelhante à Melancolia, conforme nos esclarece A. Linas em sua obra “Manie”, de 1876. Para Linas, a Mania se caracteriza por:
... Uma superexcitação ou uma perturbação geral das faculdades psíquicas. Superexcitação ou perturbação que, mesmo conservando seu caráter essencial de generalidade, podem predominar numa das três ordens de faculdades que concorrem para o funcionamento mental (...) A mania é, sem dúvida, a espécie mais freqüente de loucura. (Linas, 1876, p.510; in: Pessotti, 1994, LE, p.190)
Na concepção de Linas, conforme a herança teórica de Pinel, a teoria médica da loucura se mistura às teses moralistas para explicar a conduta maníaca das mulheres, as quais “... mesmo as mais reservadas, as mais modestas, as mais escrupulosas, esquecem o recato, a timidez de seu sexo e abjuram todo pudor, empregam palavras grosseiras, obscenas, e se entregam a atos de um cinismo revoltante”. (Linas, 1876, p.517; in: Pessotti, 1994, LE, p.192)
Quanto à tese da excitação dos órgãos genitais na Mania, Linas nos afirma que:
... à vista de um homem ou ao som de sua voz, ou ao ruído de seus passos, as maníacas... entram em paroxismos de agitação, com olhares provocadores, gestos expressivos e propostas obscenas. Quase todos os maníacos são inclinados ao onanismo e esse funesto hábito contribui para torná-los incuráveis.
(Linas, 1876, p.519; in: Pessotti, 1994, LE, p.192)
A Mania instintiva ou impulsiva é também uma das formas de loucura; os maníacos oscilam de modo bipolar da tranqüilidade à agressão, do amor ao ódio, da tristeza à alegria e quando se enfurecem tornam-se violentos: “... Prichard... entende a mania impulsiva como uma perversão dos instintos. Essa opinião vale... para aquela variedade de delírio
impulsivo que é apenas a expressão exagerada e inadequada de uma inclinação natural...”. (Linas, 1876, p.558-9; in: Pessotti, 1994, LE, p.193)
Os conceitos de instinto, impulsividade, inclinação natural e expressão exagerada desta citação mostram que Linas é um dos precursores da futura teoria psicodinâmica freudiana das pulsões, ao lado de Jules Cotard e outros; também as condições meteorológicas e a lua exerceriam uma influência patogênica no desencadeamento da loucura e na freqüência dos acessos de Mania, segundo Linas e Lombroso. Um censo de Lombroso, em 1866 e 1867, teve, como resultado, a média de 14% de acessos maníacos na lua nova, 10% na lua cheia e 9% nas outras fases lunares, dados estes que são questionáveis em vários sentidos. Esquirol registrou 45 curas em março, abril e maio, 61 em junho, julho e agosto, 67 em setembro, outubro e novembro e apenas 32 em dezembro, janeiro e fevereiro. Calmeil também endossava a influência sazonal no processo de cura da Mania:
A mania que resiste à influência favorável da primavera cessa, quase sempre, quando volta o outono. A mania que surge durante o verão, e que se prolonga para além do mês de novembro, acalma-se ordinariamente ou desaparece ao chegar a primavera seguinte. (Calmeil, 1876, p.547; in: Pessotti, 1994, LE, p.193)
Ao lado dos fatores coadjuvantes do processo de cura havia o isolamento, os ambientes confortáveis, os banhos tépidos, as duchas frias, as drogas calmantes (ópio e derivados), as aplicações de métodos purgativos, vomitórios e até sangrias: “As aplicações de sanguessugas no ânus, na vulva e nos maléolos são indicadas às vezes para prevenir os acessos intermitentes...” (Calmeil, 1876, p.553; in: Pessotti, 1994, LE, p.193). A exaltação erótica era tratada com o bromuro de potássio. Muitas das antigas práticas cáusticas foram abandonadas: cauterização da nuca, moxas ardentes (algodão em fogo), fios de seda sob a pele (seton) para provocar supuração e expulsão dos “humores”, etc. A terapia moral na Mania foi excluída da terapêutica de Linas pelo fato de que os maníacos apresentavam uma intensa dispersão da atenção, além de que a causa primária estaria no cérebro:
Ninguém, hoje em dia, coloca em dúvida que a mania tem sua sede no cérebro e sua razão anatômica numa alteração da textura desse órgão. Embora as pesquisas necroscópicas não dêem sempre resultados evidentes, não se deve concluir que a lesão não existe; Ela apenas escapa aos nossos meios de investigação.
(Linas, 1876, p.550; in: Pessotti, 1994, LE, p.194)
Esta última afirmação mostra bem o caráter “metafísico” do postulado central do organicismo, obviamente negado por seus adeptos que tinham um horror a qualquer explicação metafísica ou puramente psíquica, já que a psique era uma entidade teórica que não se submetia à uma necropsia, por ser de natureza “espiritual”.
Vejamos o que se passou no âmbito da psiquiatria francesa do final do século XIX, a seguir.
Jules Séglas é considerado o clínico mais apurado e brilhante da escola francesa da Salpêtrière, do final do século XIX. Gilbert Ballet e Jules Cotard (1840-1887) foram alunos de Jean-Martin Charcot (1825-1893); Jules Cotard e Arnaud foram colaboradores diretos de Jules Falret enquanto que B. Ball foi discípulo de Ernest Charles Lasègue (1816-1883). O grupo de Henri Claude iria introduzir as idéias de Eugen Bleuler e de Ernst Kretschmer na França do século XX, opondo-se às concepções de Clérambault (1872- 1934). Os principais conceitos do final do período clássico (século XIX) foram a “Confusão Mental”, os “Delírios Sistematizados” e a “Demência Precoce”. A “Confusão Mental” de Ph. Chaslin apareceu em 1892 no Congresso de Blois e, em 1895, na obra intitulada “A Confusão Mental Primitiva: Estupidez, Demência Aguda e Estupor Primitivo” (La Confusion Mentale Primitive: Stupidité, Démence Aigüe, Stupeur Primitive).
Philippe Chaslin conceituou a confusão mental primária como sendo uma afecção comumente aguda, mas a escola de Magnan permaneceu bastante reticente por considerá-la uma simples síndrome categorizada como uma entidade nosológica. Para Chaslin, a confusão mental primária era uma afecção comumente aguda, consecutiva à ação de uma causa ordinariamente apreciável. Tal causa se caracterizaria por fenômenos somáticos
de desnutrição, e também por fenômenos mentais cuja base essencial seria primariamente um estado somático, decorrente de uma forma de enfraquecimento, de uma dissociação intelectual ou uma confusão mental. A confusão mental poderia ou não ser acompanhada de delírio, alucinações e agitação, ou, ao contrário, de inércia motora, com ou sem variações acentuadas do estado emocional. (Bercherie, 1980[1989], FC, p.178-9)
Chaslin estabeleceu uma distinção etiológica entre as confusões sintomáticas (toxi-infecciosas, autotóxicas, tóxicas e organolesionais) e a confusão mental primária idiopática. Emmanuel Régis, autor da obra intitulada “A Loucura a Dois ou Loucura Simultânea” (La Folie à Deux ou Folie Simultanée, 1877) e ex-aluno de Benjamin Ball, inspirado nas concepções nosológicas de Valentin Magnan, completou um estudo sobre a “Confusão Mental” e ampliou o seu quadro clínico introduzindo nele vários estados alucinatórios agudos, pretendendo fazer da “Demência Precoce” uma forma da “Confusão Mental Crônica”, baseado em analogias e análises psicológicas equivocadas do estado mental do demente precoce de Kraepelin. (Bercherie,1980[1989],FC,p.181)
Os delírios sistematizados foram definidos pelo grupo da Salpêtrière num certo número de tipos (Paranóia) através de uma base clínico-evolutiva e de uma cuidadosa diferenciação das demais entidades nosológicas. O “Delírio de Negação” de Jules Cotard (1880) era uma forma clínica que Baillarger considerava característica da “Paralisia Geral” (Demência Paralítica) na sua apresentação hipocondríaco-melancólica. Cotard pretendia contrapor essa forma delirante ao Delírio das Perseguições, de Lasègue e de Morel, pois, enquanto o negador era um melancólico ansioso e auto-acusador (suicida), o acusador, ao contrário, se considerava perseguido e não apresentava melancolia, sendo mais homicida do que suicida. (Bercherie,1980[1989],FC,p.183). Deste modo, o “Delírio de Negação” derivava dos estados de “Hipocondria Moral” de Jules Falret, enquanto que o “Delírio de Perseguição” provinha de um estado de hipocondria física. O negador delirante tinha predominantemente
alucinações visuais enquanto que o perseguido delirante as tinha predominantemente do tipo auditivo. Os negadores recusavam alimento por ser sentirem indignos de viver enquanto que os perseguidos faziam o mesmo por desconfiança ou medo de serem envenenados.
Em 1892, Ballet descreveu uma forma clínica intermediária entre a melancolia com delírio de auto-acusação dos “melancólicos culpados” e o delírio de perseguição dos “perseguidos e vítimas inocentes”. A classe nosográfica de “vítimas culpadas” era um delírio de perseguição geralmente não-alucinatório, cuja culpa imaginária era freqüentemente de conteúdo sexual e ocorria em indivíduos com malformações genitais e sentimentos de inferioridade com culpa, semelhante ao futuro “Delírio de Relação dos Sensitivos” (Kretschmer); já para Jules Séglas, mais importante que a forma clínica ou o conteúdo das idéias era o conjunto clínico-evolutivo ou estrutura que especificava a doença mental. O delírio seria uma interpretação ou uma “projeção” intelectual com base num estado depressivo primário, causado pela dor moral e pela inibição psíquica.
Séglas desenvolveu vários trabalhos sobre as alucinações e descreveu as alucinações sensoriais (elementares, comuns e verbais) e as alucinações motoras (comuns e verbais); contrapôs entre si duas variedades fundamentais de “Paranóia Alucinatória de Perseguição: 1) uma forma alucinatória sensorial (delírio crônico de Falret e Magnan) e 2) uma forma alucinatória motora dos “perseguidos-possuídos”, que mais tarde ele denominaria “delírio de influência” (Bercherie,1980[1989],FC,p.188-9 e nota 37, p.195). Entre as duas grandes classes de “Paranóia Alucinatória” havia muitas formas transicionais e somente os