"O PT derrubou o Muro de Berlim em 1980, quando nasceu".51
Datado de 10 de fevereiro de 1980, o manifesto de fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) teve como primeiros signatários, presentes à cerimônia de lançamento da legenda que ocorreu no auditório do Colégio Sion, na cidade de São Paulo, homens e mulheres cuja trajetória de vida figuravam como símbolos de luta, de resistência, entre os quais: o militante e crítico de arte Mário Pedrosa; o líder das Ligas Camponesas, Manoel da Conceição; o historiador Sérgio Buarque de Holanda; a atriz, militante e presidente do Sindicato dos Artistas de São Paulo, Lélia Abramo; o herói da Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa, Apolônio de Carvalho; e o professor Moacir Gadotti, em nome do educador Paulo Freire.52
Com forte tônica da luta de classes, os trabalhadores e as “elites” são denominados ao longo do Manifesto de maneira inconciliável: os primeiros como os “construtores das riquezas da nação”, “povo trabalhador”, “explorados”, “massas exploradas” e, os segundos, como “exploradores”. De acordo com o documento, o partido nascia “da decisão dos explorados de lutar contra um sistema econômico e político que não pode resolver os seus problemas, pois só existe para beneficiar uma minoria de privilegiados”53, “da vontade de emancipação das massas populares”.
Emerge, portanto, engajado na luta contra o modo de produção capitalista, de modo a
51 LULA em entrevista à João Machado e Paulo Vannuchi, n°13, jan/fev/mar de 1991. 52 SINGER, André. O PT. São Paulo: Publifolha, 2001 (Folha Explica), p.10.
53 MANIFESTO. Aprovado pelo Movimento Pró-PT, em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion (SP),
45 projetar a organização da classe trabalhadora54para que a “situação social e política seja a ferramenta da construção de uma sociedade que responda aos interesses dos trabalhadores e dos demais setores explorados pelo capitalismo”. 55
O ideário da transformação social em prol da classe trabalhadora “dá o tom” do
Manifesto, que exterioriza o entusiasmo da conquista política dos trabalhadores no histórico episódio das greves do ABCD Paulista, apontando a conscientização da luta por parte do trabalhador como a mais importante lição desse movimento que “aprendeu em suas lutas que a democracia é uma conquista que, finalmente, ou se constrói pelas suas mãos ou não virá”.56
Assim, após a “dura resistência democrática”, a sociedade brasileira se deparou com a “novidade histórica” da “mobilização dos trabalhadores para lutar por melhores condições de vida para a população das cidades e dos campos”, 57 para a qual o partido
deveria ser “uma real expressão política de todos os explorados pelo sistema capitalista”. Queriam ver “a política como atividade própria das massas que desejam participar, legal e legitimamente, de todas as decisões da sociedade” e, por isso mesmo, buscavam:
Um partido amplo e aberto a todos aqueles comprometidos com a causa dos trabalhadores e com o seu programa. Em consequência, queremos construir uma estrutura interna democrática, apoiada em decisões coletivas e cuja direção e programa sejam decididos em suas bases.58·.
A ideia inicial era a configuração de um partido plural e democrático, comprometido e focado nas bandeiras sociais da classe trabalhadora, grupo que o constituiu – já que o PT foi fundado, também, por trabalhadores que se empenharam na luta contra os mecanismos de repressão imposta pela ditadura militar e o seu modelo de desenvolvimento.
As greves que ocorreram entre os anos de 1978 e 1979, foram o germe da fundação do PT. Já no ano de 1978, começou a ser considerada a necessidade da organização de um partido que representasse os trabalhadores. As lutas travadas nesse contexto levaram ao enfrentamento dos mecanismos de repressão impostos aos
54 O Manifesto caracteriza a classe trabalhadora como constituída por operários industriais, assalariados
do comércio e dos serviços, funcionários públicos, moradores da periferia, trabalhadores autônomos, camponeses, trabalhadores rurais, mulheres, negros, estudantes, índios e outros setores explorados.
55 MANIFESTO. Aprovado pelo Movimento Pró-PT, em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion (SP), e
publicado no Diário Oficial da União de 21 de outubro de 1980.
56 Idem. 57 Idem. 58 Idem.
46 trabalhadores – em especial a proibição do direito de greve e o arrocho salarial – e mostraram ao trabalhador o vínculo indissolúvel do Estado com as classes dominantes, já que não faltaram soldados armados para conter os manifestantes, tampouco medidas “legais” para proibir a atuação dos sindicatos. Assim, do enfrentamento a um regime organizado no sentido de afastar o trabalhador do centro de decisão política, o movimento popular se viu limitado em suas lutas imediatas e específicas. Chegaram à conclusão de que era necessária uma organização política que garantisse a conquista dos direitos e dos interesses do povo trabalhador.
Ao ser questionado sobre o assunto em um programa de televisão, Lula afirmou: “Eu vejo a possibilidade de, num trabalho de preparação da classe trabalhadora, num futuro bem próximo, nós, trabalhadores, criarmos um partido saído da base” 59, o qual
contaria com a participação não só de trabalhadores, mas de todos que se afinassem com os princípios da classe trabalhadora.
Em 1979 se intensificaram as discussões acerca da criação do partido. André Singer explica que aquele ano foi decisivo para sua fundação pelo caráter organizativo e unificado das greves que, no seu decorrer, contou com a mobilização e solidariedade de setores democráticos e de esquerda.60
Sob essa atmosfera, na ambiência de forte movimentação de massa, o movimento Pró-PT se fortaleceu. Antes do acordo assinado, em 1º de maio de 1979, a Comissão Nacional Provisória divulgou uma Carta de Princípios.61 Valendo-se do binômio explorados e oprimidos X classes dominantes, o texto fundamentava a necessidade da organização política dos trabalhadores em prol de “melhorias de sua condição de vida e de trabalho” e demarcava a importância da greve geral do ABCD para essa iniciativa:
Os trabalhadores entenderam ao longo desse ano de lutas, que as suas reivindicações mais sentidas esbarravam em obstáculos cada vez maiores e é por isso, dialeticamente, que vão sendo obrigados a construir organizações cada vez mais bem articuladas e eficazes.62
59 SILVA, Luiz Inácio da. Lula: Entrevistas e Discursos. São Paulo: ABCD, 1980, p.70. 60 SINGER, André. Op. cit., p.23.
61 A carta foi elaborada por um comitê composto por Jacó Bittar, Paulo Skromov. Henos Amorina,
Wagner Benevides e Robson Camargo. Como o partido só foi oficializado em 1980, a carta não é considerada, stricto sensu, oficial. Cf. GADOTTI, Moacir; PEREIRA, Otaviano. Pra que PT: Origem, Projeto e Consolidação do Partido dos Trabalhadores. São Paulo: Cortez, 1989, p. 33.
47 A historiografia acerca da fundação do PT, de maneira geral, caracteriza-se por apontar o partido como uma novidade na política brasileira devido ao seu processo de formação, proposta política e organização interna. Destacam-se os estudos de Meneguello63 e Keck64 que dissertam, com base na análise do contexto histórico e
institucional que envolveu o partido nos seus primeiros anos, sobre a posição singular do PT no quadro partidário brasileiro, caracterizado por agremiações “fracas”, ou seja, pouco institucionalizadas.
Keck considera que alguns fatores contribuíram para a formação do PT. Em primeiro lugar, o surgimento de lideranças trabalhistas conhecidas nacionalmente, tendo como núcleo central São Paulo, particularmente Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema e líder das primeiras grandes greves do final da década de 1970. Em segundo lugar, uma base de massa que já se manifestara em São Paulo no final dos anos 1970, nas greves e lutas sociais.
A autora, contudo, também considera que estes dois elementos não são suficientes para explicar o surgimento de um partido com as características do PT, numa conjuntura que ainda conservava muitos elementos do regime militar. Para ela, outros elementos foram importantes para a formação do PT, como a preparação do terreno para seu lançamento pela esquerda organizada, cuja visibilidade crescente no plano público no final da década de 1970 ajudou a ampliar a possibilidade de que um espaço à esquerda do espectro político viesse a ser ocupado. E também o fato de que, à medida que se consolidava o processo de criação do Partido dos Trabalhadores, um grupo de deputados estaduais da esquerda do PMDB, em São Paulo, sentiu-se aos poucos marginalizado em relação à liderança do partido e filiou-se ao PT no início dos anos 80. Estes parlamentares forneceram-lhe um apoio essencial em termos logísticos e de infraestrutura durante o período de sua legalização.65
Para as autoras, a formação do PT está diretamente ligada ao surgimento do “novo sindicalismo” urbano no final dos anos 1970. Forjado na região do ABCD Paulista e consequência das transformações socioeconômicas pelas quais passou o Brasil nos anos de 1960 e 1970, que resultaram na formação de uma classe operária numerosa e representativa econômica e politicamente, o “novo sindicalismo” foi assim denominado por enfrentar o conflito entre capital e trabalho de forma distinta do
63 MENEGUELLO, Rachel. PT: A formação de um partido, 1979-1982. São Paulo: Paz e Terra, 1989. 64 KECK, Margaret E. PT: a lógica da diferença. O Partido dos Trabalhadores na construção da
democracia brasileira. São Paulo: Ática, 1991.
48 sindicalismo antes verificado no Brasil, atrelado ao Estado. Independente, teria questionado por meio de greves e campanhas salariais no final dos anos 70, as ordens política e econômica estabelecidas durante o período do regime militar. As mobilizações de trabalhadores entre 1977 e 1979 transformaram o “novo sindicalismo” em um importante ator político e deram impulso às discussões para a formação de um partido de trabalhadores, possibilidade que se abria com a reforma partidária de 1979.
Nessa avaliação, além do “novo sindicalismo”, outros sujeitos políticos encamparam a ideia de organização de um partido popular, fazendo com que a proposta nascida no chão de fábrica suplantasse suas bases sindicais rapidamente. Líderes comunitários ligados às Comunidades Eclesiais de Base e vinculados à Teologia da Libertação, parlamentares de esquerda do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) – partido de oposição ao regime militar –, intelectuais, membros de organizações de esquerda e militantes de movimentos populares urbanos enxergaram na construção do PT a possibilidade de participar mais ativamente do processo político institucional. No entanto, os sindicalistas foram o principal grupo político presente na fundação do Partido dos Trabalhadores. A posição de maior projeção que a chefia de organizações sociais conferiu a seus dirigentes, pesou na formação inicial do PT, tanto que, já em sua Comissão Provisória, formada em outubro de 1979, nove dos 17 membros eram presidentes ou diretores de sindicatos, o que representava 60% da mesma, contra apenas um parlamentar, que representava 6%.66
O trabalho de Meneguello, além de apontar a origem do partido como uma das razões de sua novidade no cenário político brasileiro, destaca a proposta política e a organização interna partidária como elementos singulares na experiência petista. Para a autora, a negativa em se alinhar automaticamente a qualquer matriz ideológica específica e o caráter classista de sua proposta política marcaram o partido durante o processo da sua formação e seus primeiros anos foram, que se afirmava como socialista e democrático, mas se recusava a definir claramente suas posições ideológicas mais amplas, e defendia a inserção de novos atores na política institucional a partir da noção de representação política orgânica.
Quanto ao aspecto organizacional, a agremiação teria apresentado um desenho institucional inovador com relação aos padrões verificados no Brasil. O PT teria primado por garantir a participação das bases no processo decisório e a ligação com os
66 COUTO, Cláudio Gonçalves. O desafio de ser Governo: o PT na Prefeitura de São Paulo. São Paulo:
49 movimentos sociais, superando as restrições impostas pela legislação. O símbolo dessa preocupação do partido com a democracia participativa interna seria a criação dos Núcleos de Base, cujas principais funções eram ligar o partido à sociedade, ampliar a conexão entre as várias instâncias partidárias e servir como um local de educação política e permanente atividade de militância.67
Keck tem uma posição semelhante à de Meneguello com relação aos primeiros anos de vida do PT. O forte enraizamento social, a natureza programática, a dinâmica democrática interna e a preocupação com a representação dos interesses das bases fizeram do PT uma anomalia. Nas palavras da autora:
Afirmei que o PT constitui um fato novo entre as instituições políticas brasileiras por diversas razões: primeira, porque ele se propôs a ser um partido que expressava os interesses dos pobres e dos trabalhadores na esfera política; segunda, porque procurou ser um partido inteiramente democrático; e, por fim, porque queria representar todos os seus membros e responsabilizar-se perante eles pelos seus atos.68
Embora sem o alcance e a influência dos trabalhos de Meneguello e Keck, outros estudos contribuíram para a compreensão das características e dilemas vividos pelo PT nos seus primeiros anos. Moacir Gadotti e Otaviano Pereira69 analisam documentos que marcaram a fundação do partido e as tensões causadas pela sua entrada na arena eleitoral. Isabel Oliveira70 também oferece um panorama acerca das transformações do “novo sindicalismo” no sentido da construção de uma agenda política mais ampla e inclusiva no período imediatamente anterior à formação do PT.
Gadotti e Pereira chamam a atenção para a configuração, em 1979, de uma conjuntura política “contraditória”: de um lado, “tendências extremamente promissoras de um futuro de liberdades e de conquistas de melhores condições de vida” e, de outro, os perigosos riscos das lutas populares mediante o processo chamado “abertura política” que, a saber, constitui no fato dos “detentores do poder” reformarem o “regime de cima para baixo”, de modo que:
Pretendem reformar alguns aspectos do regime mantendo o controle do Estado, a fim de evitar alterações no modelo de desenvolvimento econômico que só a eles interessa e que se baseia sobretudo na superexploração das massas trabalhadoras,
67 MENEGUELLO, Rachel. PT: A formação de um partido, 1979-1982. São Paulo: Paz e Terra, 1989. 68 KECK, Margaret E., op. cit., p.271.
69 GADOTTI, Moacir, PEREIRA, Otaviano. Pra que PT: origem, projeto e consolidação do Partido dos
Trabalhadores. São Paulo: Cortez, 1989.
70 OLIVEIRA, Isabel R. de. Trabalho e Política: as origens do Partido dos Trabalhadores. Petrópolis:
50
através do modelo econômico de onde sobressai o arrocho salarial.71
Diante da pretensão da manutenção da política econômica ditada pelo capital financeiro internacional, se pôs a urgência da participação política dos trabalhadores:
É por isso que a ideia de um Partido dos Trabalhadores, que, ressurgindo no bojo das greves do ano passado e anunciado na reunião intersindical de Porto Alegre em 19 de janeiro de 1979, tende a ganhar hoje uma irresistível popularidade. Porque se trata hoje, mais do que nunca, de uma necessidade objetiva para os trabalhadores. 72
A tendência concretizou a atração pela autenticidade e liderança do movimento operário e pelo seu carismático líder, Lula, que trouxe uma “irresistível popularidade” e uma gama de adesões para a proposta do PT. Vale notar que nesse processo, os trabalhadores receberam um grande apoio de setores da Igreja Católica, atuantes na própria formação do PT. Para André Singer, a adesão mais significativa foi justamente a dos grupos católicos progressistas que durante a “noite autoritária” criaram uma rede de pequenas organizações populares dispersas pelo Brasil, a começar pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A importância dessa incorporação se dá, principalmente, pela capilaridade que dá ao partido: “onde menos se esperava, nos rincões mais afastados, aparecia, como do nada, um núcleo pró-PT. Eram militantes anônimos da Igreja”.73
Vale destacar as importantes adesões de figuras de expressão no meio religioso, tais como Frei Betto, Plínio de Arruda Sampaio e a ex-freira Irma Passoni.
Apresentado como uma “novidade histórica”, sob o argumento de ser o primeiro partido político brasileiro de “massas” e organizado “de baixo para cima”, ou seja, construto da vontade dos próprios trabalhadores e que, desde a origem, rompe com a estrutura sindical então vigente e ao mesmo tempo nega os partidos oficiais74 ou clandestinos, o PT atraiu setores variados e heterogêneos da sociedade: professores universitários, parlamentares do MDB, a exemplo de Eduardo Suplicy; diversos grupos clandestinos de orientação leninista, tais como a Ação Popular (AP), o Movimento de
71 GADOTTI, Moacir; PEREIRA, Otaviano. Op. cit, p. 36. 72 Idem, p. 34.
73 SINGER, André. Op. cit., p.21.
74 Na Carta de Princípios, de 1º de maio de 1979, rejeitou-se a possibilidade de incorporação do
trabalhismo, que ressurgia no seio da Reforma Partidária: “As tentativas de reviver o velho PTB de Vargas, ainda que hoje sejam anunciadas ‘sem erros do passado’ [...] não passam de propostas de arregimentação dos trabalhadores para defesa de interesses de ‘setores do empresariado nacional’”. No documento, são proferidas ainda críticas ao MDB que, “pela sua origem, pela sua ineficácia histórica, pelo caráter de sua direção, por seu programa pró-capitalista [...] jamais poderá ser reformado”. GADOTTI, Moacir; PEREIRA, Otaviano. Op. cit., p. 36-38.
51 Emancipação do Proletariado (MEP), os resquícios da Ação Libertadora Nacional (ALN), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), e o Partido Revolucionário Comunista (PRC), entre outros.75
Leôncio Martins Rodrigues afirma que as análises sobre o PT enfatizam excessivamente o peso dos sindicalistas na formação do partido e dão pouca atenção às organizações católicas que tiveram um papel decisivo na viabilização do partido em todo o país, ajudando na formação de diretórios e, posteriormente, nas eleições em favor de candidatos petistas. Para o autor, o apoio da Igreja e de suas organizações, embora não de modo oficial, manifestou-se desde os primeiros momentos da formação do partido. Além dos setores mais progressistas e das tendências ligadas à Teologia da Libertação, personalidades ligadas às tendências mais tradicionais, vindas do antigo Partido Democrata Cristão, também aderiram ao PT. Enfim, segundo o autor, “a Igreja Católica foi um fator decisivo tanto na formação como no crescimento posterior do PT”.76
Além dessas duas instituições, sindicatos e Igreja, o PT também contou, desde o início, com o apoio de outro segmento importante e legítimo da sociedade brasileira: a alta intelectualidade. Assinaram a ficha de filiação do PT, no momento de sua fundação intelectuais do porte do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, do crítico literário Antônio Cândido, do crítico de cinema e arte Mário Pedrosa, do educador Paulo Freire, o filosofo José Arthur Gianotti e do cientista político Francisco Weffort, este último com uma participação bastante ativa na direção do partido.77
Outro grupo importante na formação do PT foi a esquerda marxista, pois praticamente todas as organizações da esquerda brasileira, com exceção do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8), ingressaram no PT. A posição desses agrupamentos diante do PT variava muito: alguns deles se dissolveram após a filiação, outros viam no partido um mero abrigo provisório, sem maiores chances de tornar-se um partido revolucionário efetivo. Quanto aos agrupamentos de esquerda, Leôncio Martins Rodrigues afirma que exerceram papéis ambíguos na formação do partido. Por um lado, contribuíram muito para sua organização inicial, trabalhando nas campanhas de filiação; mas, por outro, procuraram fechar o partido ao ingresso de simpatizantes
75 SINGER, André, op. cit., p.22.
76 RODRIGUES, Leôncio Martins. Partidos e sindicatos: escritos de Sociologia Política. São Paulo:
Ática, 1990, p. 14.
52 vistos como não confiáveis e, ainda, em alguns momentos, prendiam-se a questões de princípio provocadoras de discussões intermináveis, prejudicando as deliberações.
Ainda segundo Rodrigues, os agrupamentos de esquerda também exerceram uma influência difusa na formação das convicções ideológicas partidárias, pois a pouca clareza das outras lideranças do PT quanto ao que se entendia por socialismo e democracia, fator presente desde seus primórdios, fez com que o partido se mostrasse suscetível à influência ideológica dos agrupamentos de esquerda. Muitas pequenas organizações de esquerda, frequentemente originárias do movimento estudantil, começaram a organizar-se de forma mais aberta. Um dos mais ativos, dentre a constelação de grupos de esquerda, era a Convergência Socialista, que desde sua formação, em janeiro de 1978, havia apontado a necessidade de criação de um partido socialista. A Convergência foi um dos primeiros defensores da ideia de um Partido dos Trabalhadores. A Liberdade e Luta (Libelu), organização estudantil, e o Movimento de