FINANCIAL DECISIONS
2. MUHASEBE VE ADLİ MUHASEBE HAKKINDA GENEL BİLGİLER Özellikle 1980’li yıllardan itibaren yaşanan büyük şirket skandalları
2.2. ADLİ MUHASEBENİN TANIMI VE ÖZELLİKLERİ
A questão do Estado é um tema recorrente nas discussões no interior do Partido dos Trabalhadores das quais a revista Teoria e Debate foi a porta-voz das discussões entre os anos de 1987 e 1991.
Em entrevista a Eugênio Bucci362 e Ricardo Azevedo, José Dirceu363 reavaliou o legado deixado pelo socialismo soviético e propôs uma revisão da teoria marxista desenvolvida pelas sociedades do Leste Europeu e pela União Soviética. A crítica de Dirceu se concentrou no que se convencionou chamar de “marxismo-leninismo”, o marxismo oficial do “socialismo real”. Uma das categorias para a qual chamou a atenção foi a revisão do Estado: “É preciso repensar essas sociedades, repensar o socialismo, repensar a teoria. Particularmente a teoria do Estado”.364
Verifica-se uma recusa declarada à acepção de Estado de Karl Marx, tomada como “comitê executivo das classes dominantes” (denominada pelo entrevistado como “bolchevique”), em favor de uma concepção gramsciana do “Estado ampliado” – como uma esfera pública que se torna espaço de disputa hegemônica entre as classes. Este
361 Nas palavras de José Chasin: “Miséria brasileira é determinação particularizadora, para o âmbito do
capital e do capitalismo de extração colonial, da fórmula marxiana de ‘miséria além’. Compreende processo e resultantes da objetivação do capital industrial e do verdadeiro capitalismo, marcados pelo acentuado atraso histórico de seu arranque e idêntico retardo estrutural, cuja progressão está conciliada a vetores sociais de caráter inferior e à subsunção ao capital hegemônico mundial. Alude, portanto, sinteticamente, ao conjunto das mazelas típicas de uma entificação social capitalista, de extração colonial, que não é contemporânea de seu tempo”. CHASIN. A Miséria Brasileira: 1964-1994 – do golpe militar à
crise social. Santo André: Ad Hominem, 2000, p.160.
362 Eugênio Bucci é jornalista e professor doutor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de
São Paulo. Integra o conselho curador da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura de São Paulo). Foi presidente da Radiobrás (de 2003 a 2007) e secretário editorial da Editora Abril (1996-2001). É autor de, entre outros livros, Sobre ética e imprensa (2000), Videologias (2003, em parceria com Maria Rita Kehl) e Em Brasília, 19 horas (2008). Filiado ao Partido dos Trabalhadores desde o início dos anos 1980, foi um dos criadores e o primeiro editor da revista Teoria e Debate.
363 José Dirceu de Oliveira e Silva formou-se em Direito, em 1983, pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP). Participou ativamente da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980. Em janeiro de 2003, José Dirceu assumiu uma cadeira de deputado federal, mas logo se licenciou do cargo no Congresso Nacional para assumir a função de ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, permanecendo no cargo até junho de 2005, quando retornou à Câmara dos Deputados. Seu mandato foi cassado em dezembro do mesmo ano e teve a inelegibilidade decretada por oito anos.
153 novo entendimento levou o partido a formular uma nova estratégia para a construção de uma sociedade socialista.
A recusa ao legado de Marx pode ser observada em diferentes artigos escritos nesse período. Em 1989, Augusto de Franco recusou a concepção marxista, já que para ele, naquele momento, não era mais “possível”, baseado em sistematizações “tão gerais”, “ficar remoendo velhas fórmulas simplificadoras do Estado como mero ‘comitê executivo das classes dominantes’ e de sua possível destruição pela via clássica da instalação de um polo competitivo de poder”. 365
O professor Renato Janine Ribeiro366 citou os gregos para afirmar a política como “arte da palavra”, da persuasão, do convencimento, do respeito à opinião alheia, em que ora se vence, ora de perde. Esta caracterização da política é realizada para se contrapor à tese da política como violência, preconizada por Marx, em Dezoito
Brumário,que caracteriza os discursos persuasivos como “cretinice parlamentar”. Assim, ao invés da afirmação dos gregos pela aceitação das regras do jogo, temos, na tese marxista, a negação das próprias regras do jogo parlamentar e eleitoral, em favor da guerra aberta entre as classes. Para Renato Janine Ribeiro, essa concepção acerca da política culminou no monopólio de poder de um partido e nas práticas stalinistas: “Moscou virou Veneza, o governo dos sinistros ‘Dez’ que na calada da noite mandavam prender e matar”. 367 Assim, mesmo depois da morte de Stálin, quando
caíram os “assassinos políticos”, manteve-se – até Gorbatchev – a essência do sistema, que era a do grupo fechado controlando tudo. O autor avalia que o “inquietante é que, se pensamos a política como guerra, e nossa atitude nela como científica, um tal resultado é inevitável”.368 Mais adiante, a crítica ao marxismo é enfatizada:
No caso do marxismo, como é que o pensamento rigoroso, ou ciência, mesmo ali onde teve melhores frutos (a crítica da ideologia), redunda num autoritarismo tão forte, o da figura de “quem sabe" protegendo, ensinando, até perdoando "quem não sabe"? [...] Se uma classe porta a verdade e a ação correta, que espaço resta para a ação e pensamento das demais classes? E, pior ainda, da ideia de uma classe operária portadora dos
365 FRANCO, Augusto de. Os três desafios do Partido dos Trabalhadores. Teoria e Debate, n.5, 1989, p.
42.
366 Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo,
dedica-se ao estudo de uma filosofia política a respeito de sociedades ocidentais "dissidentes", como a brasileira e outras de Terceiro Mundo, que dão maior importância ao afeto na vida pública. Entre seus principais interesses, estão a natureza teatral da representação política e as dificuldades na construção da democracia no Brasil.
367 RIBEIRO, Renato Janine. Corrupção em Casa: Os Perigos do Universal. Teoria e Debate, n.10, 1990,
p.25.
154
valores universais parece resultar a necessidade de que alguém decifre esses valores, essa missão.369
Vale observar que a crítica de Janine Ribeiro às teses marxistas acerca da política e do Estado abre espaço para a tese gramsciana de “Estado ampliado”, típica das “sociedades ocidentais” nas quais, por meio da “guerra de posições”, os agentes da transformação acumulariam forças suficientes para disputas nos espaços conquistados no Estado. Assim, nessa concepção, o Estado já não seria mais uma força da violência política, mas um espaço de disputa entre diversos agentes, de diversas classes que se subordinaram às regras do jogo.
Tal concepção se assemelha a de Marcos Rolim que, valendo-se do instrumental teórico gramsciano, debruça-se sobre a discussão acerca da “guerra de posições” como estratégia de luta para a construção da sociedade socialista. Tal discussão é desenvolvida através da distinção gramsciana de “Estado do oriente” e “Estado do ocidente”. Nessa discussão, o “Estado do oriente” fechado, como um “comitê executivo das classes dominantes” seria aquele erguido sob uma sociedade civil fluida e incipiente (gelatinosa) que, por meio de uma “guerra de movimento”, realizaria um “assalto ao poder de Estado” como na revolução russa bolchevique. Já o “Estado do ocidente” traria uma nova discussão para os petistas, pois teria uma forma ampliada em relação à concepção de Marx do século XIX que exigiria uma nova forma de estratégia de luta: a “guerra de posições”, caracterizada por um acúmulo político, ideológico e cultural de longo prazo e que permitiria a construção de uma “contra-hegemonia” sustentada por um “bloco histórico” capaz de realizar a revolução.
A concepção de “Estado ampliado” ou “Estado do ocidente” se sustenta apoiada na constatação de que o Estado capitalista moderno já não é apenas o domínio da violência, da coerção, mas é, também, o exercício de uma capacidade hegemônica. De acordo com essa concepção, o Estado seria também um corpo político vivo, relativamente autônomo, que organiza, em complexas mediações, o consenso na sociedade.
Marcos Rolim, no entanto, reconhece que a conjuntura de 1989 passava por um período chamado de “hegemonia passiva” que foi “responsável pelo traço estrutural de despolitização que contaminou toda a sociedade e marcou os movimentos populares em
155 nosso país. A dominação burguesa se nutre, então, da apatia, do ceticismo, do conformismo”.370
Verifica-se a busca por uma justificação teórica que embase a compreensão da realidade brasileira. Coutinho, Sokol, Genro e outros petistas a encontram em Gramsci. Carlos Nelson Coutinho, especialista e tradutor de Gramsci no Brasil, afirma a necessidade de se valer da contribuição das categorias gramscianas para a compreensão da realidade brasileira, como por exemplo, a categoria de “revolução passiva” que compreende os processos de “transformação pelo alto” como as que ocorreram nos eventos da passagem do Império para a República ou sobre a chamada “Revolução de 30”. Todavia, a categoria mais ressaltada por Coutinho foi a de “Estado Ampliado”:
Para nós o conceito gramsciano de "Estado ampliado", que nos permite apontar algumas das características essenciais de nossa situação atual (ou seja, o fato de que o Brasil é hoje uma formação social de tipo “ocidental”) e, por conseguinte, fornecer indicações para a construção de uma estratégia democrática para a luta pelo socialismo no Brasil.371
Em concordância com a maioria dos petistas, Markus Sokol372 também se vale das compreensões gramscianas de “Estado ampliado” e de “hegemonia”:
A noção de Estado ampliado pode ser muito útil para aqueles que um dia conceberam (o autor se inclui entre estes) o Estado como um "reduzido" aparelho de coerção, desconhecendo os mecanismos de consenso, cooptação etc [...] Outra novidade teórica é a de que a nova hegemonia não se concebe como produto de uma ruptura ("batalha final"), mas de uma sucessão de rupturas.373
A respeito desta temática, Tarso Genro afirmava haver semelhanças entre a Itália de Gramsci e o Brasil em que o PT está inserido. Demonstrava assim, o caminho percorrido por Gramsci para desenvolver as principais categorias características do seu pensamento:
O Estado capitalista desenvolvera, além do mero aparato coercitivo, mecanismos de controle, dissuasão e domínio que eram de qualidade infinitamente superior à mera violência estatal. Gramsci passa a pensar a complexidade da dominação no Estado burguês moderno a partir de novas categorias:
370 ROLIM, Marcos. O futuro como referencial. Teoria e Debate, n.6, 1989, p.53. 371 COUTINHO, Carlos Nelson. Cidadão Brasileiro. Teoria e Debate, n.9, 1990, p.63.
372 Markus Sokol é membro do Diretório Nacional do PT pela corrente "O Trabalho". Ainda jovem,
participou das mobilizações políticas no colégio. Na luta contra a ditadura militar, foi preso e torturado pelo DOI-CODI. Ajudou na reconstrução do DCE-Livre da USP. Dedicou-se à organização independente dos trabalhadores. Participou da Oposição Metalúrgica de São Paulo.
156
consenso, hegemonia, guerra de posição, guerra de movimento, novas relações entre Estado e Sociedade Civil.374
Assim, as concepções gramscianas traziam à baila a noção de Estado ampliado, dando novas características à concepção marxista do século XIX. A nova concepção acerca do Estado abriria caminho para a formulação de novas categorias ao pensamento marxista do século XX, impulsionando a revisão das estratégias de luta da esquerda.
Em Gramsci vemos uma reflexão política específica sobre a nova qualidade do Estado burguês moderno e suas relações com a sociedade civil. Vemos no desdobramento dos escritos de Gramsci uma noção ampliada de Estado que, segundo ele, invade na sociedade capitalista moderna, o mundo privado da sociedade civil, estatizando-a e vinculando-a aos seus desígnios e aos seus movimentos no processo de dominação. Poder-se-ia dizer, com certa ironia, que a Rede Globo está colocada como plena possibilidade na concepção gramsciana de Estado "ampliado".375
Como já afirmado anteriormente, a noção gramsciana de “Estado ampliado” abre caminho para a formulação de novas estratégias de construção da sociedade socialista. Neste caso, o partido socialista de massas, tal como entendido por Gramsci, teria a função de realizar, durante um longo período de acúmulo de forças, a “guerra de posições” para a conquista da hegemonia do Estado. Um novo Estado socialista se edificaria como produto de um enfrentamento de longo curso “onde a questão da hegemonia torna-se elemento fundamental da prática revolucionária do partido”.376 Do
mesmo modo, Tarso Genro reivindicou o legado gramsciano:
A retomada criativa de Gramsci, ao incorporar na reflexão marxista a especificidade da cultura nacional italiana e a sua compreensão de que o leninismo era insuficiente para o Ocidente moderno, são apenas alguns dos sinais mais evidentes daquilo que, na política, já aparecera como heresia nos próprios alvores da Revolução Russa.377
A interpretação petista do pensamento de Gramsci deu margem à reivindicação de um “Estado de Direito Socialista”.
É preciso a partir daqui construir um projeto teórico que possa combinar a universalidade de certos valores fundamentais para o socialismo – liberdades individuais ao Estado de Direito Socialista – com a impossibilidade de pensar a superação do capitalismo sem adjudicar uma função desestabilizadora e
374 GENRO, Tarso. Gramsci, Rosa e o PT: A história se reflete. Teoria e Debate, n.10, 1990, p.45. 375 Idem, ibid.
376 Idem, ibid.
377 GENRO, Tarso apud GENOINO, J. Repensando o Socialismo, 2.ed., São Paulo: Brasiliense, 1991,
157
orientadora aos trabalhadores em geral e ao proletariado em particular. 378
Em 1987, José Genoíno, quando ainda era membro da tendência Partido Revolucionário Comunista,379 reconheceu que a afirmação do Estado como uma forma especial de repressão se conservava verdadeira apenas parcialmente. Para sustentar essa afirmação, vale-se da contribuição de Gramsci.
Gramsci legou-nos assim o conceito de "Estado integral", ampliando as fronteiras do Estado tal como definidas pelos clássicos do marxismo. O Estado deixava de ser concebido apenas como aparato de força, como máquina especial representada pela burocracia civil, as Forças Armadas, a polícia, os tribunais, as prisões, o governo etc. Passavam a ser concebidas como parte integrante dele também as instituições privadas de hegemonia: o sistema escolar, os meios de comunicação de massa, partidos políticos, a Igreja etc.380
Em seguida, Genoíno afirmou existir no Brasil um acentuado processo de “ocidentalização”, transformando tanto as suas bases econômicas como a superestrutura da sociedade. Desse modo, houve um “desenvolvimento dos mecanismos de dominação e do Estado, tanto dos instrumentos de força, como das instituições privadas de hegemonia”. 381 Tal dominação teria se aprofundado com a massificação do sistema
escolar e com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa.
Ao constatar o aperfeiçoamento dos mecanismos de dominação burguesa, Genoíno traça o longo caminho gradual de luta socialista, já que para ele as características da dominação burguesa – sob as condições do capitalismo monopolista – “indicam que o processo revolucionário demandará um largo período de acumulação de forças até que os ‘de baixo’ possam fazer frente aos ‘de cima’ numa luta decisiva”.382
A reivindicação do legado teórico gramsciano consolidou uma nova estratégia de luta, o que, consequentemente, implicou numa nova visão de partido. Delimitando a proposta petista de sociedade, Francisco Weffort afirmava que o PT deveria ser constituído de baixo para cima e a partir de núcleos de base entendidos não como “aparelhos de militantes, mas organismos abertos para a participação da sociedade”. Daí resultam as concepções de conselhos populares e do “poder como algo que não apenas
378 GENRO, Tarso in GENOINO, 1991: p.17
379 O Partido Revolucionário Comunista tem origem em 1984, como tendência petista, sob orientação
“marxista-leninista”. Em 1992, os seus principais líderes formaram a Democracia Radical, sob influência de teses de Antonio Gramsci, Jurgen Habermas, Hannah Arendt e Noberto Bobbio.
380 GENOINO, José. A Transição Fardada. Teoria e Debate, n.1, 1987, p.03. 381 Idem, ibid.
158 se toma (no Estado), mas também se cria (na sociedade)”. Neste sentido, inferiu que a “nossa visão do partido é o ponto de partida de uma visão nova do Estado e da sociedade”.383
Como a maioria dos petistas daquele início dos anos de 1990, Bucci faz questão de vincular as burocratizações das experiências do “socialismo real” à ausência de uma “teoria geral do Estado” em Marx e Engels.
Não é mais lícito esconder de qualquer simpatizante do socialismo que Karl Marx e seu parceiro Engels jamais desenvolveram uma Teoria Geral do Estado, o que abriu campo ao caráter (hesito em me valer do conceito) totalitário do regime soviético. Lenin rascunhou alguma coisa bem prepotente mas pouco fez além de submeter a coisa pública, lato sensu, à lógica estratégica ou tática do partido de quadros que concebeu. Aos olhos de Marx, o estado era uma questão a ser resolvida. Aos olhos de Lenin, o estado era um militante do partido384.
Polemizando com os articulistas da revista Teoria e Debate que reivindicam o legado de Lenin e Trotsky, Bucci vinculou os feitos do stalinismo com a concepção de Estado dos dois bolcheviques.
Gostaria de chamar a atenção dos nobres leitores materialistas de Teoria & Debate para o fato de que Stalin, seu aparelho e seus métodos não caíram do céu. São todos eles a mais acabada resultante do partido bolchevique que substituiu-se a qualquer noção de Estado. A ditadura stalinista é também obra de Lenin e de Trotsky385.
Contrapondo-se à concepção da tradição marxista acerca do Estado, Bucci afirmou que o Estado, hoje, possui uma natureza tão complexa, incorporou tantos conflitos que deixou de ser burguês.
O Estado burguês não é apenas instrumento de dominação, senão um espaço público de organização do conflito interno e externo à burguesia. Iria assinalar muito mais: que à medida que incorporou mais conflitos em sua natureza pública o Estado burguês foi deixando de ser simplesmente burguês.386
Em 1984, Weffort escreveu Por que Democracia?, texto em que já evidenciava a opção por um novo entendimento acerca do Estado e pelo socialismo democrático. Posteriormente, em 1992, em Qual Democracia?, o sociólogo reivindicaria categorias
383 WEFFORT, Francisco. Consolidar o partido, construir a democracia. Teoria e Debate, n.4, 1988, p.35. 384 BUCCI, Eugênio. A Revolução Perdida: Nós que amávamos tanto as reformas. Teoria e Debate, n.14,
1991, p.41.
385 Idem, ibid.
386 BUCCI, Eugênio. A Revolução Perdida: Nós que amávamos tanto as reformas. Teoria e Debate, n.14,
159 gramscianas e teses de Hannah Arendt e Noberto Bobbio. A compreensão de “Estado ampliado” abriu caminho para a tese de democracia como meio e fim, não apenas como instrumento, mas como valor universal para a construção do socialismo:
Organizar o partido pela base junto aos trabalhadores e construir a democracia pela base da sociedade não são proposições sinônimas, mas estão muito próximas. E quem se coloca estes dois temas está muito perto de se propor também o tema do socialismo.387
A assertiva de Weffort apontava para uma aproximação entre a organização partidária e a construção de uma democracia pela base que nos coloca mais perto do socialismo. Sua proposição, contudo, esgota-se na sugestão do aperfeiçoamento do Estado e da vida política em geral sem atentar para a essência do problema, centrada justamente no fato de que a emancipação humana só poderia se realizar a partir da própria superação da política e da liberdade fundada na perspectiva do trabalho.
Deve-se evidenciar que os documentos expostos se afastam da ideia inicial do PT, segundo a qual os “grupos dominantes controlam o aparelho de Estado”.388 Naquele
momento, reivindicavam de forma “decidida” a concepção de que o Estado não é a “expressão mecânica de uma classe, mas relação de forças”.389
As discussões acerca do caráter “ampliado” do Estado Moderno encontraram ecos nas resoluções políticas, como no caso do 5° Encontro Nacional, de 1987, de acordo com a qual, embora mantivesse modernos aparelhos coercitivos, o Estado brasileiro, por meio do funcionalismo público, possibilitava a inserção das classes trabalhadoras nos mecanismos do Estado.
É preciso levar em conta que a sociedade brasileira já foi capaz de desenvolver razoavelmente algumas organizações da sociedade civil, que jogam determinado peso na determinação das políticas do Estado. E de que o Estado brasileiro, embora tenha se reforçado muito, contando com modernos aparelhos coercitivos (Forças Armadas, Serviços de Informação etc.) e de concessões e participação (Legislativos, assistência social, centros comunitários etc.) não tem condições de se fechar completamente à participação das classes subalternas em seu interior. Ao contrário, a própria magnitude do Estado moderno brasileiro só é viável se a burguesia for buscar, na massa das outras classes, os funcionários do Estado. E se, para conseguir consenso e legitimidade para esse mesmo Estado, for obrigada a
387 WEFFORT, Francisco. Consolidar o partido, construir a democracia. Teoria e Debate, n.4, 1988, p.35. 388 MANIFESTO de 1980. In: ALMEIDA; VIEIRA; CANCELLI (Org.). Op. cit., p. 67.
160
abrir, pelo menos formalmente, o Estado à disputa das diversas classes.390
Ainda de acordo com as resoluções do 5° Encontro Nacional, o Estado moderno estaria em constante processo de ampliação devido à correlação de forças criada pelas organizações da sociedade civil, que transformariam o Estado, de um aparelho coercitivo da classe economicamente dominante, para um aparelho que forjasse um