3. BÖLÜM: SOSYAL DURUM
3.2 Konya’da Toplumsal Yapı 1 Zimmîler
3.2.2 Konya’da Mahalle ve Yerleşim
3.2.2.2 Mahallede Mülklere Yol veya Geçiş Hakkı
77 - Francis Alys, 2002.
Francis Alys representa uma categoria muito singular nessa divisão, que permite valiosas considerações sobre novas posturas e estratégias da pintura contemporânea. Como artista, Francis Alys tem uma atuação amplamente diversificada, trabalhando com diversas linguagens como pintura, desenho, instalação, performance e vídeo. Mesmo para este ensaio de classificação, Francis Alys poderia se apresentar simultaneamente em inúmeras divisões. Como por exemplo, na categoria anterior, referente à metapintura, assim como na categoria seguinte que trata de processos em pintura construídos por meio de proposições relacionais.
Entretanto, optei por evidenciar em sua obra o funcionamento da pintura como um esboço dentro do processo criativo, um aspecto que julguei importante para exemplificar uma atitude artística que aponta para uma forma recente de relacionamento
do artista com a linguagem pictórica e que neste estudo possibilitaria importantes reflexões.
Francis Alys nasceu na Bélgica em 1959. Estudou arquitetura em Tournai na Bélgica e também em Veneza. Em 1986 mudou-se para a cidade do México onde iniciou sua atuação como artista e onde atualmente reside e trabalha.
A obra de Francis Alys aponta para um rumo da pintura contemporânea no qual a pintura pode representar apenas uma parte da obra do artista, funcionando como um componente dentro um processo criativo mais complexo. Um sintoma muito característico de um contexto pós-moderno, no qual o artista passa a deter a liberdade de escolha para utilização e combinação das diversas mídias em função do assunto que irá tratar.
De acordo com Douglas Fogle (2002), um dos curadores associados do livro Vitamin P (2002), Francis Alys trabalha com diversas linguagens e uma ampla diversidade de assuntos, porém o ato de pintar ocupa um estranho e paradoxal lugar em seu processo criativo e talvez pudéssemos entender as principais questões de seu trabalho como desdobramentos de sua condição de estrangeiro e de sua situação de andarilho pelo mundo.
Douglas Fogle não considera Alys como um pintor do modo tradicional que costumamos conhecer, mas como um artista que não poderia ser necessariamente considerado um pintor. Uma postura muito semelhante com a de artistas que podem utilizar a fotografia e não se considerarem fotógrafos. Sendo assim, Alys utilizaria a pintura apenas como um meio para elaborar uma complexa rede visual.
Um aspecto importante a ser destacado sobre Francis Alys seria a conexão que ele faz de todo o processo criativo, reunindo a pintura, o desenho, o vídeo e os demais procedimentos da ação em publicações, que passam a constituir um documentário do processo e por consequência passam a representar a unidade da obra. Uma vivência do trabalho como uma forma consciente de produção de um conhecimento a ser compartilhado
A pintura de Alys tem uma participação muito específica em sua obra que é mais conhecida pelos vídeos e ações. Entretanto, seu olhar de pintor tem uma presença direta em muitos de seus trabalhos, notada no enquadramento fotográfico de seus passeios
performáticos (Fig. 79), nos quais o corte de sua imagem se assemelha muito com o enquadramento de pinturas suas em que os indivíduos anônimos aparecem caminhando, tendo a figura cortada na altura da cintura ou mostrada de costas (Fig. 80).
Um exemplo da participação da pintura no processo de Francis Alys e exemplificação da ideia da Pintura como um esboço, é a obra intitulada A Fé Move Montanhas (Fig. 77) em que a pintura funciona como a síntese imagética de uma ação artística colaborativa que posteriormente foi realizada com mesmo nome (Fig. 78).
78 - Francis Alys, 2002.
Francis Alys utiliza a linguagem pictórica com um forte caráter conceitual e explora questões muito específicas do meio. Suas telas quase sempre são realizadas a óleo adensadas com cera de abelha em formatos pequenos e sua aparência formal apresenta uma visível afinidade com as imagens da cultura popular mexicana, os ex-votos e uma simplicidade e clima pictórico próximo ao das pinturas de Magritte.
Apesar de muitas de suas pinturas representarem o início de uma fase do trabalho que posteriormente se desdobrará em uma ação ou em um vídeo, muitas destas obras não se resumem a esse papel, podendo ter autonomia e promover consistentes discussões acerca dos fundamentos da linguagem pictórica.
O trabalho intitulado Déjà vu (Fig. 81 e 82) ocorre por meio da realização por Francis Alys de duas pinturas muito semelhantes com sutis alterações e inversões. A efetivação do trabalho ocorre quando Alys propositalmente distribui as pinturas em pontos distintos do espaço de exposição. Com o intuito de propor uma experiência análoga a de um Déjà Vu, no qual temos um sentimento ou sensação de já termos visto uma determinada imagem. A distribuição das duas pinturas em pontos distanciados e sem o aviso da duplicidade da obra causam ao espectador uma sensação de imagem reminiscente.
Outro importante trabalho em pintura de Francis Alys seria a ação proposta (Fig. 83 e 84) para reprodução de uma determinada pintura na qual Alys, por meio de uma rede de artesãos e pintores comerciais da região, terceiriza a reprodução da imagem pintada original. A pintura feita por ele é reproduzida por um artesão designado, que reproduz a mesma obra a partir da segunda reprodução e a repassa para outros artesões que tem como modelo sempre a ultima reprodução realizada, e assim é criada uma ampla rede na qual a pintura original é relida e seriada indiretamente por meio de um processo que envolve diferentes mãos. O conjunto de pinturas produzidas pela rede representa a unidade da obra, que questiona de modo muito eficiente, a reprodutibilidade da pintura, assim como a colaboração e a transferência do trabalho artesanal, como importantes questões da pintura contemporânea.
81 - Francis Alys, 2003. 82 - Francis Alys, 2003.