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M S Mihaylov, Ġssledovaniya po Grammatike Turetskogo Yazıka.

Fairclough (1995a; 2003) faz notar que o processo da representação, em qualquer texto, está relacionado à decisão de quais escolhas linguísticas efetuar – o que incluir e o que excluir, o que tornar explícito e o que deixar implícito, o que colocar em primeiro/segundo plano, quais tipos de processo e quais categorias usar –, pois nesse momento uma representação particular de algum aspecto do mundo está sendo engendrada e construída nas proposições do texto. Isso implica um olhar atento nas motivações sociais e políticas das escolhas que são feitas em detrimento daquelas que poderiam ter sido feitas, mas que por algum motivo não foram. Com isso, a análise da representação fundamenta-se não só naquilo que está presente no texto, mas também nas ausências, nas coisas que poderiam estar no texto, mas não estão. É por isso que esse tipo de análise requer uma sensibilidade nas presenças e ausências do texto.

Quando as pessoas representam na língua eventos sociais de qualquer tipo, há sempre escolhas alternativas para aquilo a ser dito. Para Fairclough (1995a), toda escolha é, parcialmente, uma questão de vocabulário, pois o vocabulário com o qual o sujeito está familiarizado lhe fornece conjuntos de categorias pré-construídas, e a representação sempre envolve a decisão de como organizar o que está sendo representado dentro desses conjuntos de categorias. Ademais, nossas escolhas são também, parcialmente, uma questão de gramática, visto que a mesma pode diferenciar um pequeno número de tipos de processo, participantes e elementos circunstanciais para representarmos nossa experiência de mundo.

Pode parecer, à primeira vista, que a diferença entre uma ação (por exemplo, “Como Matilde, outros ministros caíram na folia”) e um sentir (por exemplo, “Os políticos nunca sabem onde termina o homem público e começa o cidadão particular”) é uma diferença na realidade, na

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natureza das coisas. Entretanto, as coisas não são simples nesse sentido. Quando representamos na língua algo que acontece no mundo, temos de escolher se representamos isso como uma ação, um sentir, uma relação, um dizer, um comportamento ou uma existência; logo, temos de escolher se representamos atores sociais como dizentes, comportantes, experienciadores, dentre outros tipos; se situamos essa representação em termos de tempo, lugar, razão, propósito, frequência, dentre outros tipos. Fairclough (1995a) salienta duas observações sobre esses tipos de escolha: primeiro, há padrões sistemáticos e tendências de escolha em certos tipos de texto e discurso; segundo, essas escolhas podem realizar discursos contrastantes.

Para analisar como eventos sociais são representados no nível do texto, Fairclough (1989; 1995a; 2001a; 2003) propõe examinar as orações a partir de uma perspectiva representacional. Essa proposta fundamenta-se na teoria sistêmico-funcional da linguagem, discutida fundamentalmente nos trabalhos de Michael Halliday. Nessa perspectiva, toda oração indica como o sujeito concebe a realidade a sua volta e como a gramática é usada para representar suas experiências de mundo. Diante desse ponto de vista representacional, Fairclough (2003) observa que os eventos sociais reúnem vários elementos, tais como, formas de atividade, pessoas, relações sociais, objetos, tempos, lugares e linguagem, que podem ser seletivamente escolhidos para representar um determinado aspecto da experiência de forma mais proeminente.

Convém ressaltar que o discurso jornalístico funciona na representação de eventos sociais como um princípio de recontextualização, removendo elementos de outras práticas sociais e incorporando-os dentro do contexto de sua própria prática. Segundo Fairclough (2003, p. 222), a recontextualização é uma relação entre diferentes redes de práticas sociais, uma questão de como elementos de uma prática social são apropriados e recolocados no contexto de uma outra prática. Ao representar um evento social, o jornalista pode seletivamente filtrar elementos de outras práticas sociais, tais como, atores sociais, objetos, ações, lugares, e recolocá-los em seu texto, acrescentando-lhes outros significados, avaliando- os, explicando-os e legitimando-os, por exemplo. Em decorrência disso, alguns elementos se perdem, outros são acrescidos e outros transformados no seio da prática discursiva. Uma vez que estamos lidando com linguagem, isso pode implicar mudanças semânticas no modo como os elementos são recontextualizados. Chouliaraki e Fairclough (1999, p.109) entendem a recontextualização como uma condição para a constituição de qualquer prática no discurso.

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Para Van Leeuwen (2008), todo discurso recontextualiza práticas sociais e todo conhecimento está, portanto, em última análise, baseado em práticas sociais.

Há de se observar, diante disso, que as escolhas lexicais têm um papel crucial na forma como os elementos das práticas produzem significados quando são recontextualizados. Além desse tipo de escolha, há também as escolhas dos tipos de processo, participantes e elementos circunstanciais responsáveis por representarem nossas experiências de mundo, ou seja, escolhas no sistema gramatical da língua. Um exemplo eloquente desses tipos de escolha pode ser visto no seguinte recorte de uma das reportagens de nosso corpus: “Depois que a farra veio à tona [CIRCUNSTÂNCIA DE TEMPO], o Palácio do Planalto [ATOR] adotou [PROCESSO MATERIAL] um discurso moralizador [META] e mandou investigar

[PROCESSO MATERIAL] os ministros perdulários [META]”. Diante de sucessivos acontecimentos envolvendo o escândalo dos cartões corporativos, o jornalista escolhe, neste recorte, representá-lo no domínio das ações materiais, incluindo, por exemplo, não só o tempo dessas ações, mas também modos particulares de representar tanto o evento (a farra) como os acusados de gastos abusivos com cartões corporativos (os ministros perdulários).

Fowler (1991, p.80-85) reconhece que o vocabulário é o principal determinante da estrutura ideacional da linguagem. Para o autor, o vocabulário de uma língua corresponde a um mapa de objetos, conceitos, processos e relações, sobre os quais a cultura dessa língua precisa comunicar. O vocabulário seria considerado, então, como uma representação do mundo para uma cultura; em outras palavras, ele seria o mundo como é percebido de acordo com as necessidades ideológicas de uma cultura. Diante disso, uma tarefa fundamental para o analista crítico é observar, no discurso que está estudando, que termos ocorrem com frequência e quais segmentos da sociedade desfrutam de constante atenção discursiva.

Em face dessas considerações, lançamos mão aqui de uma característica distintiva da LSF. Quando usamos a linguagem, temos de fazer escolhas lexicais e gramaticais de modo a significar o que queremos dizer. Toda escolha feita no sistema da língua acarreta uma decisão de não fazer outras escolhas, isso porque a língua é um potencial de significados: cada escolha realizada dentro da variedade de opções lexicais e gramaticais disponíveis determina como esse potencial é realizado. E mais, nossas escolhas são motivadas, quer política, quer social, quer culturalmente, a comunicar significados particulares e a causar efeitos particulares, pois

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(HALLIDAY, 1978, p.34). Produzimos textos para agirmos no mundo em situações específicas determinadas por um contexto sociocultural. A prova disso é que textos posicionam seus leitores, seja na posição de leitor (fornecendo-lhes instruções sobre como ler um texto ou um conjunto de textos, como conformar-se ou adaptar-se a esses textos, como agir com eles e como tomar posições com eles), seja na posição de sujeito (fornecendo-lhes um conjunto de informações que descrevem modos de pensar, ser e agir em contextos específicos) (KRESS, 1989, p.37).

2.5 A metafunção ideacional e o Sistema de Transitividade na Gramática Funcional de