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S N Ġvanov, Kurs Turetskoy Grammatiki Çast II., Grammatiçeskiye Kategor

Os processos verbais também têm uma função significativa para a representação linguística e discursiva do escândalo do mensalão. Nesse domínio experiencial, as escolhas no Sistema de Transitividade permitem aos jornalistas indicar, principalmente, como os atores falam (contam, dizem, desabafam, etc.), qual é o conteúdo desse dito e a quem é dirigido. Processos verbais representam, pois, o que foi dito, relatado, contado, sobre o escândalo. A análise dos dados aponta para uma grande ocorrência de processos de dizer em torno dos atores Roberto Jefferson e o presidente Lula. Vejamos essas ocorrências nos recortes abaixo.

(23) Na entrevista [Circunstância de lugar], entre insinuações, provocações e recados explícitos ou velados [Circunstância de meio],Roberto Jefferson [Dizente] disse [Processo Verbal] que (...).

(24)Em um ano de peregrinação para denunciar o caso [Circunstância de tempo], Jefferson [Dizente] relatou [Processo Verbal] o episódio [Verbiagem] – pela ordem - aos ministros Walfrido Mares Guia (Turismo), José Dirceu (Casa Civil), Ciro Gomes (Integração Nacional), Miro Teixeira (então ministro das Comunicações) e Antônio Palocci (Fazenda) [Receptor]. Em janeiro deste ano [Circunstância de

tempo], contou [Processo Verbal] ao presidente Lula [Receptor] em reunião com quatro testemunhas

[Circunstância de lugar].

(25) "Ele meteu o pé no breque" [Oração projetada],disse[Processo Verbal] Jefferson [Dizente].

51 Nossa tradução de: “(…) it is the essence of representation that it is always representation from some

ideological point of view, as managed through the inevitable structuring force of transitivity and lexical categorization”.

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Para Thompson (2002), o desenrolar de um escândalo político é um contar e recontar histórias sobre os acontecimentos. Escândalos midiáticos são constituídos, necessariamente, por um conjunto de narrativas midiáticas com uma trama indeterminada e em contínua evolução. A representação dos dizeres de Roberto Jefferson nos recortes acima cumpre exatamente essa função: eles ajudam a narrar o escândalo - como funcionava o pagamento das mesadas, quem sabia e quem o interrompeu. O processo “disse” no recorte (23) projeta uma série de representações experienciais que retratam o que Jefferson disse sobre o esquema do mensalão. Chama atenção a escolha da circunstância de meio que caracteriza o dizer do deputado, mostrando o modo pelo qual esse dizer se desenvolveu - através de insinuações, provocações e recados explícitos ou velados. A informação veiculada por essa circunstância revela, na verdade, aquilo que faz parte do jogo político de todo escândalo.

O recorte (24) indica na escolha do processo “relatar” um aspecto descritivo e

explicativo do dizer de Roberto Jefferson. Em outras palavras, seu dizer foi uma narração do esquema (o deputado teria, então, dado detalhes do funcionamento das mesadas). Isso mostra que a especificidade do esquema já havia sido delatada e que muitos já sabiam disso, conforme mostram o participante receptor e a circunstância de lugar. Além disso, as circunstâncias de tempo revelam há quanto tempo políticos de alto escalão já sabiam do esquema; isso mostra que houve uma tolerância por parte dos políticos para com o fato, visto que foi o próprio Roberto Jefferson quem revelou à mídia a existência do esquema de mesadas.

No recorte (25), o jornalista registra uma declaração de Jefferson fazendo referência a uma atitude tomada pelo presidente Lula após saber do mensalão. O conteúdo desse disso mostra que foi o presidente quem interrompeu o pagamento das mesadas. A escolha desse conteúdo tem, de certa forma, sua razão de ser. "Ele meteu o pé no breque" envolve um traço linguístico característico do vocabulário coloquial. Esse estilo conversacionalizado do dizer tem, para Fairclough (1995a), uma função importante: a naturalização da realidade que está sendo representada, pois torna a linguagem midiática mais acessível às pessoas, diminuindo as assimetrias, o que facilita a distribuição e o consumo dessa informação (para mais detalhamento sobre conversacionalização, ver Fowler, 1991, capítulo 4; Fairclough, 1995a).

Após se ver envolvido em denúncias de corrupção em um esquema de pagamento de propina que fraudava licitações (o escândalo dos Correios), Roberto Jefferson enfrenta um processo de cassação de seu mandato, e sem o apoio daqueles com quem trabalhava, faz uma

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série de acusações, revelando ainda mais sobre o funcionamento do mensalão. Vejamos alguns recortes que retratam esse aspecto.

(26) Ao depor no processo de cassação de seu mandato [Circunstância de tempo], o deputado Roberto Jefferson, do PTB [Dizente], pediu [Processo Verbal] a demissão de Dirceu [Verbiagem]. (...) confessou [Processo Verbal] crimes que ele próprio cometeu [Verbiagem], desmentiu [Processo

Verbal] mentiras que ele próprio contara antes [Verbiagem] e distribuiu [Processo Verbal] acusações

abertas [Verbiagem] a cinco ministros e sete deputados [Alvo].

(27) Fez questão de inocentar [Processo Verbal] o presidente Lula [Alvo] (...) e acusar [Processo

Verbal] o que chamou de "cabeça do PT” composta, além de José Dirceu, pelo presidente José Genoíno,

pelo secretário-geral Silvio Pereira e pelo tesoureiro Delúbio Soares [Alvo].

(28) Sobre Genoíno [Alvo], disse [Processo Verbal] que, ao receber malas de dinheiro do PT [Circunstância de tempo], indagou [Processo Verbal] como esquentariam a grana [Verbiagem]. Genoíno,despreocupadamente, teria ditoquetudoseria acertadomais tardecom uma manobra contábil entre os dois partidos.Sobre Dirceu [Alvo],contou [Processo Verbal] queo ministroreclamara queo PT estava na penúriaporque a Polícia Federal, "meio tucana", prendera dezenas de doleiros e "a turma que ajuda não está podendo internar dinheiro no Brasil" [Oração projetada].

(29) Em seu depoimento [Circunstância de lugar], Jefferson [Dizente] confessou [Processo Verbal] abertamente [Circunstância de qualidade] que os partidos só exigem cargos no governo com o objetivo de levantar dinheiro – e não, como diz o discurso da hipocrisia para "ajudar o Brasil" [Oração

projetada].

Os recortes experienciais acima assinalam escolhas de transitividade verbal que ratificam a função dada ao participante Roberto Jefferson na representação do escândalo. A semântica dos próprios processos verbais juntamente com as escolhas de participantes e circunstâncias constroem uma realidade de crise política instaurada pela revelação pública do escândalo.

Em (26), o objeto do pedido de Jefferson é a demissão do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu; fato que acabou se concretizando posteriormente. Segue-se a esse dizer uma série de três processos verbais, “confessou”, “desmentiu” e “acusou”, representando enunciações feitas pelo deputado no processo de sua cassação. O conteúdo dessas enunciações caracteriza uma realidade de mundo típica de processos de cassação de mandato político: acusações, revelações, refutações, etc.

No recorte (27), o presidente Lula e o PT são alvo do dizer de Jefferson; a Lula é atribuída inocência, ao passo que ao PT a acusação de formar um núcleo político para gerir o esquema de distribuição de mesadas. Em (28), percebe-se um tom de acusação, onde o jornalista representa o dizer de Jefferson em diálogo com o presidente do PT, José Genoíno, e com o ministro José Dirceu sobre o esquema do mensalão. Neste recorte, tem-se uma

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representação de “diz-que-diz-que”: o jornalista cita o dizer de Jefferson que cita os dizeres de Genoíno e Dirceu. Em vez de mencionar simplesmente “de acordo com Roberto Jefferson”, o

jornalista atribui à voz do deputado uma força persuasiva, tentando criar a ilusão de

transparência naquilo que foi dito. Por fim, no recorte (29) a escolha do processo “confessar” implica o sentido de “revelar algo de errado”. Com esse dizer, Jefferson não só declara a

existência de algo que seria corriqueiro na política brasileira, mas, também, compromete sua reputação - já que o próprio deputado disse ter pressionado o presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) a arrecadar verbas para seu partido, o PTB.

De acordo com Thompson (2002, p.50), uma estratégia empregada por aqueles que se

encontram no centro de um escândalo é a confissão pública, “onde as pessoas reconhecem

claramente sua culpa na esperança que a honestidade em face à adversidade irá despertar simpatia dos outros”. A organização discursiva em torno dos dizeres de Jefferson parece retratar exatamente essa estratégia, além de revelar a existência de um ambiente de crise na conjuntura política do governo.

Com relação às escolhas de processos verbais para a representação dos dizeres do presidente Lula, podemos observar que a realidade representada vai ao encontro daquela instanciada no domínio material: evitar que sua reputação seja prejudicada pelo escândalo. A seleção dos processos verbais no recorte experiencial abaixo retrata o aspecto discursivo de uma tentativa de reorganizar o cenário político de seu governo, o que inclui mudanças na base do PT. Podemos observar que a organização discursiva identifica as entidades atingidas pelos dizeres do presidente, o que significa dizer que Lula sabia onde estavam situados os problemas a serem resolvidos.

(30) Segundo relato obtido por VEJA de dois ministros que testemunharam o diálogo [Circunstância de

fonte], Lula [Dizente] acusou [Processo Verbal] o PT [Alvo] de estar "acabando com o governo"

[Oração projetada] e exigiu que o partido afastasse o tesoureiro do cargo enquanto as investigações fossem realizadas. No dia seguinte [Circunstância de tempo], ao saber que não fora atendido [Circunstância de razão], fez [Processo Verbal] um desabafo [Verbiagem] a dois ministros [Receptor]. "O PT não entendeu o tamanho da crise", disse [Processo Verbal]. Falou [Processo Verbal] mal [Verbiagem] do ministro José Dirceu [Alvo]responsabilizando-o [Processo Verbal] pela construção de uma base política tão irremediavelmente fisiológica. Criticou [Processo Verbal] outros ministros petistas, como Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social, e Humberto Costa, da Saúde [Alvo], reclamando [Processo Verbal] que nunca lhe apresentam soluções, apenas problemas [Oração

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“Acusar”, “desabafar”, “criticar” e “reclamar” são processos verbais que apresentam,

ao mesmo tempo, características de processos materiais e mentais. Isso mostra que as falas do presidente ocupam um espaço intermediário entre processos de fazer e sentir. Sabedor que sua reputação está em jogo, Lula busca apreciar e agir sobre a situação, e para isso acusa, desabafa, critica e reclama. Se tomarmos as escolhas de processos materiais para a representação do agir de Lula no item 4.1.2, veremos que essa organização experiencial em (30) descreve exatamente o aspecto discursivo da realidade material vivida pelo presidente.

Um aspecto importante a ser observado nas escolhas de processos verbais em o presidente é codificado como dizente é a ocorrência de orações projetadas pelo processo verbal. Encontramos dez ocorrências onde o dizer de Lula projeta ideias relacionadas à sua reputação, conforme mostram os recortes abaixo.

(31) "E agora, como é que fica meu governo?" [Oração projetada],comentou [Processo Verbal] com interlocutores próximos [Receptor].

(32) Para um ministro [Receptor], Lula [Dizente] comentou [Processo Verbal]: "Não vou segurar ninguém acusado de corrupção. Esse governo não é conivente com corruptos e não vou manchar minha biografia” [Oração projetada].

(33) “Eu não sou Collor. Não sou Fernando Henrique. Não vou sujar minha biografia por causa de uma

reeleição” [Oração projetada], desabafou [Processo Verbal].

(34) Em seu programa quinzenal de rádio [Circunstância de lugar], disse [Processo Verbal] que estava "indignado" com as denúncias de corrupção [Oração projetada] e prometeu [Processo Verbal] que não sobrará "pedra sobre pedra" [Oração projetada].

(35) Em pleno choque de perder um auxiliar como Dirceu [Circunstância de tempo], Lula [Dizente] voltou a ameaçar [Processo Verbal] desistir da reeleição [Oração projetada].

Examinando semanticamente essas orações projetadas, percebe-se um predomínio de ideias materiais e relacionais que, lexicogramaticalmente, se completam no processo verbal projetante. Em (31) e (32), o sentido da ideia projetada é de uma reflexão sobre o futuro de seu governo; em (33), a preocupação com sua biografia (leia-se reputação) é um desabafo e não mais um comentário; no recorte (34), chama atenção que a ação material a ser realizada é um comprometimento assumido frente à crise do mensalão, ao passo que em (35) a desistência da reeleição é uma advertência, um aviso dado. Neste recorte (35), a circunstância de tempo parece sugerir um significado de justificativa à ameaça feita, isto é, um dos motivos de o presidente ameaçar desistir da reeleição é a possível perda de José Dirceu.

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