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A N Kononov, Grammatika Sovremennogo Turetskogo Literaturnogo Yazıka

Nesta seção discuto alguns princípios gerais da proposta do linguista britânico Norman Fairclough para uma ACD. Nos últimos vinte cinco anos, Fairclough vem desenvolvendo as bases teóricas e analíticas de uma abordagem ao estudo crítico da linguagem que tem como um de seus objetivos ocupar o espaço existente entre a Linguística e as Ciências Sociais; ou, em outras palavras, entre uma análise propriamente linguística e uma análise de fenômenos sociais. Em razão disso, o trabalho de Fairclough para uma ACD destaca-se, segundo

Magalhães (2005, p.3), pela “criação de um método para o estudo do discurso e seu esforço

extraordinário para explicar por que cientistas sociais e estudiosos da mídia precisam dos linguistas”.

Para Fairclough, a proposta de sua ACD tem um objetivo fundamental: empossar as pessoas com conhecimentos necessários para o desenvolvimento de uma consciência e de um conhecimento críticos acerca do funcionamento social, político e ideológico da linguagem na vida social contemporânea. Aliás, a preocupação com uma perspectiva emancipatória é uma característica marcante na produção acadêmica de Fairclough. A defesa de uma consciência

crítica da linguagem “tem uma função muito importante em sua intenção de alertar os

indivíduos sobre possíveis mudanças sociais [muitas vezes para o benefício de uns, mas em

detrimento de outros] que resultam do poder constitutivo e ideológico do discurso”

(MEURER, 2005, p.83). Fairclough acredita que uma consciência crítica da linguagem pode sim empoderar as pessoas de modo que possam compreender, dentro de uma perspectiva linguística e discursiva, como suas vidas são determinadas e limitadas por estruturas sociais.

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Fairclough (1992) entende que essa orientação crítica é uma exigência face às circunstâncias sociais que estamos vivendo.

Se as relações de poder são, de fato, cada vez mais exercidas implicitamente na linguagem, e se as práticas de linguagem são, de fato, conscientemente controladas e inculcadas, então uma linguística que se contenta com a descrição de práticas de linguagem sem tentar explicá-las nem relacioná-las às relações sociais e de poder que lhes são subjacentes parece estar falhando em um ponto importante. E um ensino de língua centrado no treinamento de técnicas de linguagem sem um componente crítico parece estar falhando na sua responsabilidade para com os aprendizes 32 (FAIRCLOUGH, 1992, p.6).

Diante disso, o autor afirma que “as pessoas não podem ser cidadãos efetivos em uma

sociedade democrática se sua educação poda-as da consciência crítica de elementos-chave

dentro de seu ambiente físico ou social” 33

(FAIRCLOUGH, 1992, p.6).

Outro comprometimento característico da versão faircloughiana de ACD é a interdisciplinaridade: a ACD estabelece relações interdisciplinares que a constituem como um recurso para a investigação de práticas discursivas em transformação, permitindo-a, assim, contribuir para um tema principal de pesquisa nas Ciências Sociais: a análise das mudanças sociais e culturais em curso nas sociedades contemporâneas (FAIRCLOUGH, 1998). Esse comprometimento interdisciplinar para os estudos da ACD se dá, conforme observa Resende

(2009, p.7), “a fim de contemplar reflexões acerca da relação entre linguagem e sociedade que

não poderiam ser logradas no interior das fronteiras da Linguística”.

É importante ressaltar que, para Fairclough, a proposta de uma ACD não resulta simplesmente da articulação de uma teoria linguística com uma noção social de discurso, nem tampouco se trata apenas de uma disciplina que visa mapear a natureza social da linguagem. Mas antes, consiste em perceber que a relação entre textos e sociedade/cultura é mediada por práticas discursivas (FAIRCLOUGH, 1998, p.144), e que práticas sociais influenciam textos, moldando o contexto e o modo em que esses textos são produzidos; textos esses que, por sua vez, ajudam a influenciar a sociedade, moldando os pontos de vista daqueles que os leem ou os consomem. Nesse processo, os significados do mundo estão sempre numa relação dialética

32Nossa tradução de: “If power relations are indeed increasingly coming to be exercised implicitly in language,

and if language practices are indeed coming to be consciously controlled and inculcated, then a linguistics which contents itself with describing language practices without trying to explain them, and relate them to the social and power relations which underlie them, seems to be missing an important point. And a language education focused upon training in language skills, without a critical component, would seem to be failing in its

responsibility to learners”.

33Nossa tradução de: “People cannot be effective citizens in a democratic society if their education cuts them off

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entre o social e o linguístico: atores sociais organizados em grupos (sociedade) poduzem textos (linguístico), em situações de comunicação, da mesma forma que a sociedade impõe determinadas formas de agir discursivamente, em determinadas ocasiões para esses atores sociais; e essas formas de agir discursivamente podem causar efeitos na sociedade. É daí que a noção de ordem de discurso – conceito tomado, mas também adaptado, de Foucault – é indispensável à compreensão da ACD de Fairclough.

Assumindo o princípio de que os textos não irrompem de um vazio sociohistórico, e, portanto, que a linguagem não está isenta de suas condições sociais de produção, Fairclough

(2001a, p.67) define uma ordem de discurso como “a totalidade de práticas discursivas dentro

de uma instituição ou sociedade e o relacionamento entre elas”, para considerar que todo discurso está situado em uma determinada ordem de discurso. Em nossa pesquisa, o que está sob análise é a ordem de discurso da mídia, analisada particularmente em seis reportagens jornalísticas sobre escândalos políticos de corrupção. Uma referência central a essa compreensão de ordem de discurso advém do trabalho de Foucault (2004, p.8-9), para quem o discurso jamais é um elemento neutro, pois em toda sociedade sua produção “é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certos números de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu

acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade”. Por conseguinte, podemos afirmar que no discurso da mídia há condições que permitem o aparecimento de certas informações e a proibição de outras, de forma que em um dado momento histórico, há algumas ideias que devem ser ditas e outras que precisam ser caladas.

Enquanto uma teoria e um método de análise do discurso, a ACD de Fairclough salienta a importância da linguagem para a compreensão de questões de ordem social e política. Já que a linguagem é um elemento irredutível de todos os processos sociais (CHOULIARAKI e FAIRCLOUGH, 1999), então ela é uma parte da sociedade e por isso, fenômenos sociais são em parte fenômenos linguísticos, ou seja, questões sociais e políticas, como, por exemplo, escândalos políticos, têm um caráter parcialmente linguístico-discursivo. Assim sendo, a análise linguístico-discursiva de textos tem um papel fundamental na investigação de processos sociais. Chouliaraki e Fairclough (1999, p.113) entendem que as características linguísticas e semióticas de qualquer interação comunicativa estão sistematicamente conectadas com aquilo que está acontecendo socialmente, e aquilo que está

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acontecendo socialmente está, de fato, acontecendo, parcial ou completamente, linguística ou semioticamente.

Mas esse tipo de análise crítica requer observações feitas tanto no nível das micro- estruturas do texto (escolhas lexicais, sintáticas e semânticas), como no nível das macro- estruturas da sociedade e das instituições sociais (ideologia, hegemonia, identidades, papeis sociais) que moldam e determinam essas micro-estruturas. Ao propor uma dimensão tridimensional para a análise de qualquer evento discursivo, Fairclough busca reunir três tradições analíticas (a hallidayana, a bakhtiniana e foucaultiana) de modo a dar a todo evento discursivo uma análise de texto, de prática discursiva e de prática social. Essas três dimensões são processos analíticos interrelacionados que se complementam.

A primeira dimensão – o texto – envolve a descrição de elementos linguísticos, como, o léxico, a gramática, a coesão e a estrutura do texto. A segunda dimensão – a prática discursiva – busca a interpretação do texto em termos de sua produção, distribuição e consumo, buscando discutir, principalmente, os aspectos intertextuais, interdiscursivos, os aspectos de coerência e de força do texto. Já a terceira dimensão – a prática sociocultural – procura explicar as condições sociais que regem as outras duas dimensões através de processos ideológicos e hegemônicos.

De um modo geral, podemos resumir a proposta de Fairclough para uma ACD a partir de algumas perspectivas teóricas tomadas em nossa investigação: (1) a ACD trabalha do linguístico para o social, ou melhor, ela vê o linguístico dentro do social (KRESS, 1990); (2) a linguagem é considerada uma prática de significação do mundo, pois contribui para a construção de (i) sistemas de conhecimento e crença, (ii) relações sociais e (iii) posições de sujeito ou identidades sociais; (3) discursos são modos particulares de conhecer, avaliar e representar o mundo; (4) características linguísticas (como signos) em qualquer nível são o resultado de processos sociais e, por isso são conjunções motivadas de formas e significados (KRESS, 1990);