3.8. Mûsikî/Lahin/Gınâ:
3.8.4. Mûsikînin/Lahnin/Gınânın Tesiri:
Por um lado, o fato técnico que caracteriza esta última década consiste no aumento da potência dos processadores, na diminuição significativa do tamanho e custo dos componentes digitais, e na ampliação da conectividade por meio de redes sem fio, com grande capacidade de transmissão de dados. Por outro, uma vez que a tecnologia digital e a internet encontraram seu espaço no cotidiano e foram incorporadas ao imaginário das pessoas, passou-‐se a questionar o formato limitado do computador pessoal enquanto ponto de acesso à informação. Isso, somado ao interesse do mercado em aproveitar os ganhos econômicos trazidos por inovações, faz com que aumente o interesse na experimentação com as possibilidades oferecidas pela tecnologia digital, em especial, aquelas relacionadas à disponibilidade da informação em todas as coisas, lugares e momentos.
Em relação a este contexto tecnológico, para explorar com profundidade as possibilidades da tecnologia digital, é necessário ir além do estereótipo mouse-‐tela-‐ teclado, de forma a enfatizar que a computação (e não o computador) é o que caracteriza sua essência. Computação ubíqua e interfaces tangíveis, dentre outros, são conceitos que esboçam diferentes perspectivas de uma vertente do desenvolvimento da tecnologia digital que repensa seus modos de manifestação, por meio de sua disseminação pelos objetos e ambientes. Por mais que “[...] diferenciações são quase sem sentido da perspectiva das pessoas expostas à computação que todas essas teorias parecem descrever”40 (GREENFIELD, 2006, p. 15), tratam-‐se de conceitos paralelos que compartilham características básicas, mas diferem-‐se em suas ênfases e aplicações.
Neste sentido, a arquitetura interativa pode ser entendida como um desses movimentos que busca integrar a computação ao espaço físico e, assim como os outros, ao mesmo tempo que compartilha algumas de suas características, possui suas próprias peculiaridades. Esta pluralidade de perspectivas pode ser considerada uma das diversas artimanhas da tecnologia digital e para entender os diferentes discursos em suas semelhanças e diferenças é importante, primeiramente, um entendimento básico dos embasamentos técnicos que dão suporte a eles.
1.2.3 Características básicas da tecnologia digital
O modelo associado ao computador pessoal tem este como uma máquina genérica centralizadora de ações, cuja funcionalidade é determinada pelos softwares e
hardware periféricos, comprados prontos para serem instalados e utilizados. O
conhecimento necessário a não especialistas vai pouco além da manipulação destes.
40 Do original em inglês: Distinctions are close to meaningless from the perspective of people exposed to the
Mesmo para programadores que desenvolvem softwares altamente elaborados, qualquer experiência com a criação de hardware e circuitos eletrônicos é dispensável.
No entanto, para compreender os discursos relacionados a alternativas de incorporação da tecnologia digital nos objetos e no espaço físico, os computadores precisam ser entendidos sob outra perspectiva. Nesta, de forma simplificada, seu núcleo básico é formado por três componentes: sensores, núcleos processadores e atuadores, como Figura 18. Os sensores são responsáveis pela aquisição de informação para o sistema (input); os processadores comparam e processam essas informações, de acordo com as seqüências de instruções implementadas em sua memória; e os atuadores devolvem o resultado da computação para o ambiente (output).
Figura 18: Sensores de luz e de som conectados a um microcontrolador conversor analógico-digital. As informações recebidas são processadas e o resultado deste determina o controle de um LED e de um motor. Além disso, pulsos ritmizados enviam (tx) e recebem (rx) informações (Fonte: Gabriela Carneiro)
Os sensores e os atuadores, também denominados transdutores, são os elementos responsáveis pela conexão entre mundo físico e sistema digital ao transformarem diferentes tipos de energia (calor, luz, pressão, etc.) em pequenos pulsos elétricos apropriados para serem interpretados pelo computador (O’SULLIVAN; IGOE, 2004). Quando o que fornecem é uma alternância de estados (ligado-‐desligado, zero-‐um) são considerados digitais; caso induzam uma variação gradativa da voltagem elétrica são classificados como analógicos.
Um botão, por exemplo, é um componente que, quando acionado, fecha um circuito elétrico e deixa a energia passar, sendo assim, é um sensor digital. Um sensor fotoelétrico é composto por materiais semicondutores que variam a resistividade, de acordo com a quantidade de luz a qual é exposto, e consequentemente a quantidade
de energia que deixa passar, o que faz dele um sensor analógico. Um motor é um atuador, que pode ser controlado tanto como digital quanto analógico. Quando o controle liga ou desliga o motor, se quando ligado a sua velocidade é constante, ele é digital, caso o controle varie sua velocidade, é considerado analógico. A manipulação destes pequenos pulsos elétricos, também denominados energia discreta, é a base da tecnologia digital, o que torna os sensores e atuadores dois de seus principais componentes.
Os núcleos processadores são compostos por circuitos lógicos responsáveis, dentre outros processos: por receber os valores dos sensores; interpretá-‐los, conforme instruções; tomar decisões, de acordo com as mudanças identificadas, e ativar atuadores. As possibilidades lógicas entre input e output é o grande diferencial da tecnologia digital, e a programação (softwares) é o que determina as sequências de ações a serem executadas.
Um circuito formado por um interruptor e uma lâmpada não precisa de computação. Neste caso, a relação é simples e direta: uma vez que o interruptor é acionado, ele fecha um circuito que permite a passagem de energia pela lâmpada fazendo, com que ela acenda. Com um computador digital, a relação entre o interruptor e a lâmpada pode ser muito mais complexa. “Por exemplo, você pode fazer a luz acender de acordo com o número de vezes que o botão foi pressionado, por quanto tempo foi pressionado, ou se ele foi pressionado junto com outros botões em outros cômodos ou em outros continentes”41 (O’Sullivan; Igoe, 2004, p. xviii). Neste sentido, a presença de sensores e atuadores e um núcleo processador de informação digital já é suficiente para configurar um objeto como um computador.
Além de receber informações de um sensor ou controlar um atuador, a capacidade de emitir e receber pulsos elétricos de um computador pode ser coordenada de forma a possibilitar a troca de mensagens. Para que isso aconteça, de acordo com Igoe (2007, p.19), uma conexão compartilhada entre dois computadores deve ser estabelecida e os pulsos elétricos precisam ser temporizados (ritmados) em padrões específicos, denominados protocolos de comunicação, que definem “[...] o ritmo no qual as mensagens são trocadas, o arranjo dos dados nas mensagens, e a gramática da troca.”42
Dados nada mais são do que uma sequência de pulsos que podem ser tanto elétricos, quanto convertidos para outros tipos de energia, conforme o meio utilizado para sua
41 Do original em inglês: For example, you can make the light’s turning on dependent on the number of times the
button was pressed, for how long it was pressed, or whether it was pressed in conjunction with other buttons in other rooms or on other continents (O’SULLIVAN; IGOE, 2004, p. xviii).
42 Do original em inglês: A communications protocol usually defines the rate at which messages are exchanged,
transmissão. Por exemplo, para transmitir dados por fibra ótica, é necessário sua conversão em pulsos luminosos, da mesma maneira a utilização de transceivers (rádios emissores e receptores) permite a troca de informações via rádio frequências. “O significado dos pulsos de dados é independente do meio que os carregam. Você pode utilizar a mesma sequência de pulsos se enviá-‐los por fios, cabos de fibra óptica, ou rádios”43 (IGOE, 2007, p.19).
Além de possibilitar a troca direta de informações, a sobreposição de diversos tipos e níveis de protocolos permite a comunicação entre múltiplos computadores interconectados, tal como acontece com a internet. Segundo Galloway (2007), sua estrutura pode ser explicada a partir de quatro camadas, cada uma com sua função. A primeira camada é responsável por encapsular o conteúdo, ou seja, as informações que precisam ser transferidas, sejam elas referentes a um comando, texto, imagem, áudio ou vídeo. Os protocolos dessa camada dividem as informações em pequenos pacotes para serem transportados de maneira eficiente ao longo da rede e reagrupadas uma vez que o destino é alcançado.
Na segunda camada, um protocolo distinto é responsável pelo estabelecimento e manutenção da conexão entre dois computadores e por garantir que a informação chegue ao seu destino. Na terceira camada, um outro protocolo possui a tarefa de movimentar a informação pelas vias de transmissão menos congestionadas, mesmo que não sejam as mais curtas, de forma que o importante é garantir que a informação chegue ao destino correto com a máxima eficiência. Por último, a variação do meio físico pelo qual a informação é transmitida também exige protocolos específicos, de acordo com as propriedades do material utilizado para a propagação dos pulsos. A função dos protocolos, desta última camada, é garantir que a alternância entre meios não modifique a informação que está sendo transmitida (GALLOWAY, 2007).
A internet é um dos conjuntos de protocolos utilizados para conectar computadores em rede, mas não é o único. Redes privadas, por exemplo, podem ser criadas, utilizando sua própria estrutura e padrões para a troca de informações. A disponibilidade irrestrita da internet e o crescente número de aplicações acopladas a ela contribuiram para sua popularidade e produziram um efeito progressivo que estimula cada vez mais a adição de novas redes e conteúdos. Isso, somado à sua capacidade de abranger uma ampla gama de outros protocolos, a fez “[...] evoluir lentamente como uma rede universal de redes, que conecta quase todas as redes de
43 Do original em inglês: The meaning of data pulses is independent of the medium that’s carrying them. You can
use the same sequence of pulses whether you’re sending them across wires, fiber optic cables, or radios (IGOE,
dados do mundo com um alcance espalhado por toda a terra.”44 (TALUKDER; YAVAGAL, 2007, p.34).
Assim sendo, em seu nível mais fundamental (baixo), a tecnologia digital pode ser resumida à conversão de diferentes tipos de energia em pulsos elétricos, somada ao armazenamento, à manipulação lógica destes e (quando necessário) sua transmissão por diferentes meios físicos. Ao longo das décadas, foram construídas diversas camadas acima deste zero ou um, que vêm transformando a forma como a tecnologia é pensada e utilizada, tal como linguagens de programação, protocolos de comunicação e interfaces físicas. A partir deste entendimento, fica claro que computadores não precisam, necessariamente, assumir a forma do computador multimídia tradicional. Pelo contrário, segundo O’Sullivan e Igoe (2004, p.xvii), “[...] os computadores devem tomar qualquer forma física que se adéque às nossas necessidades de computação.”45
Todos estes discursos, que permeiam o contexto tecnológico, devem ser encarados com ressalva. Araya (1995), por exemplo, aponta algumas preocupações tão importantes quanto a projeção de possibilidades tecnológicas, em cenários futuros, e critica a abordagem de Weiser (1991) ao apontar que a computação ubíqua se justifica mais pela própria tecnologia do que pelas necessidades e atividades dos usuários.
Levando em consideração a prioridade dada à tecnologia acima das necessidades, a sugerida penetração massiva na vida cotidiana por um tipo particular de tecnologia, a tentativa de imergir tecnologia no pano de fundo como forma de ultrapassar a resistência a ela, e o fato de que esses desenvolvimentos não são questionados e sim vistos como absolutos, caracterizamos o pensamento que permeia a computação ubíqua como uma forma emergente de absolutismo tecnológico46 (ARAYA, 1995, p.236).
Para o autor, o que falta no discurso tecnológico é uma preocupação sobre os efeitos mais profundos que essa tecnologia teria no cotidiano. Aspectos relacionados com as transformações da vida, na qual a computação ubíqua é inserida e como essas transformações afetam a forma como o mundo se mostra para as pessoas, as pessoas para o mundo, e como dialogam entre si, devem ser cuidadosamente tratados. Desse modo, os fatores que conduzem uma proposta tecnológica, ou seja, como o
44 Do original em inglês: Internet slowly evolved as the universal networks of networks, which connects almost
every data networks of the world with a reach spread over the whole earth (TALUKDER; YAVAGAL, 2007, p.34).
45 Do original em inglês: Computers should take whatever physical form suits our needs for computing
(O’SULLIVAN; IGOE, 2004, p. xvii).
46 Do original em inglês: Taking into account the primacy given to technology over needs, the proposed massive
penetration of everyday life by a particular kind of technology, the attempt to immerse technology into the background partially as a way to bypass resistance to technology, and the fact that these developments are not questioned but regarded as absolute, we characterize the thinking underlying Ubiquitous Computing as an emerging form of technological absolutism (ARAYA, 1995, p. 236).
pensamento por trás dela a justifica, devem ter a mesma importância das soluções e possibilidades alcançadas.
Por outro lado, por mais que o cotidiano não precise, necessariamente, de computação e que a disponibilidade de muita informação possa apresentar tantos problemas quanto sua escassez, o que Greenfield (2006) descreve é uma realidade na qual tarefas habituais tendem a ser cada vez mais mediadas por ela. Entender a natureza das questões colocadas pelo discurso tecnológico, assim como a forma que este vem se realizando, a partir da segunda metade do século XX, é imprescindível para criar novos espaços nos quais possam ocorrer o direcionamento de sua realização, ou, até mesmo, sua superação.
Do mesmo modo, para completar a trama com a qual a arquitetura interativa dialoga diretamente é importante delinear alguns aspectos do contexto socioespacial. Este, entendido como a conjuntura física na qual as relações sociais mediadas pela computação acontecem, e onde os antagonismos do paradigma técnico se manifestam intensamente. Além disso, é nele e para ele que a arquitetura interativa deve ser pensada e realizada.