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1.5. KAYNAK BAĞIMLILIĞI KURAMINI OLUŞTURAN TEMEL KAVRAMLAR

1.5.3. Kuramların Bağımlılığa Bakışı

Minha identificação com Igarassu teve início no dia em que Ayrton Carvalho me levou lá para conhecer a pinacoteca que o IPHAN instalara no primeiro andar do Convento de Santo Antonio. [...] Mas o encanto maior foi mesmo a pinacoteca, principalmente por causa dos painéis que, pintados sobre madeira, representam a paixão do Cristo, com os perseguidores do Salvador representados numa linha que lembra Bruegel. E então, aos poucos, devagar, o casario, os conventos, as igrejas e os jardins, o povo e os espetáculos populares de Igarassu foram sendo recriados dentro de mim, dando origem ao misterioso elo, à encantação que hoje me liga inelutavelmente à cidade. [...] esta estranha identificação, o encanto, a ligação indissolúvel que me possui diante dela e que julgo ser parecida com a que havia entre Péguy e Chartres, entre Proust e Combray. Principalmente com esta última, porque era uma cidade forjada pelo sangue e pelo espírito do Poeta, uma fusão de “matéria e memória”, de sonho e realidade.

Ariano Suassuna (TEIXEIRA, 1998, p. 21)

Este capítulo analisa as políticas públicas de preservação patrimonial e exploração turística da Igreja e Convento de Santo Antonio em Igarassu, nas esferas federal, estadual e municipal. O padrão de exploração por parte do trade turístico, a administração do monumento e a participação da comunidade local em atividades de turismo e conservação patrimonial são outras questões aqui exploradas.

5.1. História, características sócio-econômicas e potencial turístico de Igarassu.

O nome Igarassu é corruptela de ygara-açú, palavra tupi que significa barco ou canoa grande. A presença constante de navios portugueses e franceses no litoral norte pernambucano, desde os primeiros anos do século XVI, deveu-se ao comércio e tráfico do pau-brasil, utilizado na Europa para tingir tecidos. O colonizador português, ouvindo o termo em expressões de espanto da população indígena, batizou a terra recém conquistada de Igarassu.

No início de 1535, o donatário da Capitania de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira, desembarca no Rio Igarassu, acompanhado da família e trazendo suprimento, armas, colonos

e soldados para ocupar o território e assegurar a posse da capitania. Após permanecer um curto período de tempo no hoje denominado Sítio dos Marcos, onde já existia uma feitoria e um pequeno reduto de madeira construídos pelos portugueses, ele organiza uma incursão ao interior do território, disposto a fundar uma vila.

Após percorrer alguns quilômetros pelo Rio Igarassu, o donatário escolhe o sítio onde hoje se encontra a cidade de Igarassu para estabelecer a primeira vila da Capitania de Pernambuco. Após longa resistência dos índios tupis, que ali mantinham “forte e abastada” aldeia, e muito combate, os portugueses conseguem repelir os índios para o interior. A última vitória ocorre em 27 de setembro de 1535, dia dos Santos Cosme e Damião, o que faz Duarte Coelho Pereira ordenar pessoalmente a construção de uma igreja em homenagem aos dois mártires (UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, 1974).

Após residir algum tempo em Igarassu, Duarte Coelho Pereira ruma em direção ao sul, onde encontra as Colinas de Marim, ponto considerado ideal para a construção da sede da Capitania de Pernambuco. Após vencer os índios caetés, funda a Vila de Olinda em 1536, sede do governo de Pernambuco até o século XIX (UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, 1974).

Neste sentido, Gilberto Freyre considera Igarassu cidade mãe de João Pessoa e Olinda e avó do Recife, lugar onde foi registrada a primeira civilização euro-tropical do Brasil. Mota (1983) escreve a respeito:

Na sessão inaugural de 1983, do Seminário de Tropicologia da Fundação Joaquim Nabuco, quando Marcos Vilaça fez excelente conferência sobre os valores de Olinda, que a levaram à categoria de monumento da humanidade, Gilberto Freyre considerou-a filha de Igarassu, levando em conta o começo do regime donatarial. E pediu a atenção da assistência para a circunstância de o fato não ser conhecido nas dimensões em que devera sê-lo.

Os historiadores apontam que a Vila de Igarassu desenvolve-se lentamente, não acompanhando o ritmo de crescimento de Olinda e Recife nos séculos XVII, XVIII e XIX. Relatos de viajantes estrangeiros, membros da Igreja Católica, funcionários e autoridades públicas descrevem Igarassu como uma vila acanhada, pequena, cujo único destaque são os

edifícios religiosos, construídos em escala monumental, e os engenhos de cana-de-açúcar, principalmente o Engenho Monjope.

Em 28.02.1893, é criado o município de Igarassu, dentro da nova estrutura política e administrativa brasileira. Igarassu assiste à emancipação de três distritos ao longo do século

XX116. Em 1958, Itamaracá, antiga sede da capitania de mesmo nome, torna-se cidade. Em

1982, é a vez de Itapissuma. Por fim, o antigo distrito de Araçoiaba emancipa-se em 1995, após a realização de plebiscito neste sentido.

Atualmente, o município de Igarassu localiza-se na Região Metropolitana do Recife (RMR), em sua nucleação norte. Limita-se ao norte com Goiana e Itapissuma, ao sul com Paulista e Abreu e Lima, a leste com a Ilha de Itamaracá, Itapissuma e o Oceano Atlântico, e a oeste com Nazaré da Mata, Carpina, Paudalho e Tracunhaém. Possui trezentos e seis quilômetros quadrados de área, divididos entre os distritos sede, de Nova Cruz e Três Ladeiras. O sítio histórico localiza-se a trinta e dois quilômetros do marco zero do Recife.

O clima é tropical quente e úmido, As’, na classificação climática de Köppen, com chuvas de outono/inverno. O período chuvoso compreende os meses de abril, maio, junho e julho, com pluviometria média anual inferir a 2.000 mm (IGARASSU, 2005a).

Até os anos 1960, Igarassu caracterizava-se como uma típica cidade da Zona da Mata pernambucana, com pequeno núcleo urbano e zona rural dominada pelas culturas de coco-da-

baía (região litorânea) e cana-de-açúcar117. A criação da SUDENE, em 1959, possibilitou a

instalação de indústrias de grande porte na cidade, como a Ondunorte (papel e papelão),

116

Os primeiros desmembramentos ocorrem no final do século XVIII, quando a Matriz do Paudalho é transformada em Curato, não respondendo mais à Igreja dos Santos Cosme e Damião. No século XIX, as hoje cidades de Nazaré da Mata, Tracunhaém, Limoeiro, Taquaritinga do Norte e Vertentes deixam de ser distritos ou povoados de Igarassu.

117 O município possui duas usinas de cana-de-açúcar: Usina São José e Usina Petribu. A área plantada de cana-de-açúcar em Igarassu foi de 7.448 hectares em 2002 (IBGE, 2002).

A cidade de Igarassu foi, durante muito tempo, a maior produtora de coco-da-baía do Estado de Pernambuco. A área plantada de coco-da-baía foi de 1.200 hectares em 2002 (IBGE, 2002).

As culturas de coco-da-baía e cana-de-açúcar ocuparam a quase totalidade das áreas destinadas à agricultura em 2002, através de grandes propriedades rurais.

Musashi do Brasil (produtos metalúrgicos), Açonorte (usina siderúrgica) e Unilever (produtos

de higiene e limpeza), entre diversas outras118.

Igarassu participou do processo de adensamento populacional das regiões metropolitanas brasileiras, a partir dos anos 1960. O crescimento da população residente em Igarassu deve- se, entre outros fatores, às oportunidades de trabalho geradas pela instalação de grandes indústrias na cidade, o êxodo rural verificado na Zona da Mata pernambucana e a pouca distância do Recife (apenas trinta e dois quilômetros), que faz com que Igarassu seja utilizada como cidade dormitório por muitos de seus habitantes.

A perda de distritos nos anos 1950 (Itamaracá), 1980 (Itapissuma) e 1990 (Araçoiaba) não impediu o crescimento populacional acelerado da cidade nos últimos cinqüenta anos. O Gráfico 5 mostra a evolução da população residente em Igarassu entre 1950 e 2000:

118 A instalação da Alumínio Extrusão S/A (atual Alcoa) é considerado o marco da industrialização igarassuense, mas a fábrica encontra-se hoje no município de Itapissuma.

Gráfico 5 - Evolução da população residente em Igarassu (1950-2000). Fonte: CENSO DEMOGRÁFICO, 1940-.

0 10000 20000 30000 40000 50000 60000 70000 80000 90000 1950 1960 1970 1980 1991 2000

Evolução da população residente em Igarassu