Em fevereiro de 2002, foram aprovadas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, bem como a duração e carga horária dos cursos de licenciatura75. O curso de História da UFMG começou suas discussões para a adequação à nova legislação, em fins de 2004. Segundo depoimento de uma professora do Departamento:
[...] nós não começamos a pensar nisso em 2002... nós começamos a pensar nisso atrasados. [...] Não lembro, acho que começamos a pensar nisso em 2004, 2005... quando eu ainda era coordenadora.
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Fundamentado nos Pareceres CNE/CP 09/2001 e CNE/CP 28/2001, o Conselho Nacional de Educação aprovou as Resoluções CNE/CP 01/2002 e CNE/CP 02/2002, que instituíram, respectivamente, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica e a Duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação pela, de formação de professores da Educação Básica em nível superior.
(Professor D, entrevista realizada com professora do Departamento de História da UFMG, em 15/12/2010).
Diferente da reforma anterior, desta vez não participaram da comissão de reformulação do curso, professores da FaE, nem discentes do curso76. Todavia, de acordo com a ex-coordenadora do Colegiado, as propostas de “prática de ensino” e de estágio aconteceram “em diálogo” com a Faculdade de Educação, por meio de algumas reuniões com o coordenador do Colegiado das Licenciaturas.
As novas mudanças curriculares vieram para responder às novas possibilidades do mercado de trabalho e, no caso da formação de professores, atender uma exigência legal e os desafios que se colocavam para a Educação Básica. Segundo o Projeto Pedagógico do Curso de Graduação em História (Licenciatura e Bacharelado), versão curricular 2009/2:
A História, como campo de conhecimento [...], abre-se a novos sujeitos, novos objetos e novas metodologias, estabelecendo cada vez mais nexos interdisciplinares com os estudos literários, as demais ciências humanas, as artes e as ciências naturais. Ao mesmo tempo, professores e pesquisadores vêem alargar seu campo de trabalho, com crescimento das possibilidades de atuação na assessoria à mídia impressa e falada, à televisão e ao cinema. Esses três tipos de transformações vêem repercutindo na estrutura do Curso, que tem se modificado para corresponde aos desafios impostos, acompanhando, em sua matriz curricular, disciplinas e ementas, a expansão da História em termos de objetos e métodos e, ainda, respondendo às novas possibilidades do mercado de trabalho. No que se refere às práticas, as de natureza histórica e aquelas estritamente pedagógicas, [...], as mudanças precisam ser aprofundadas, seja para atender às novas exigências legais, seja principalmente porque os desafios da atuação do licenciado na Educação Básica as impõem77.
Porém, de maneira distinta do documento, as entrevistas dos professores do Departamento de História da UFMG apontaram uma única razão para as mudanças curriculares, tanto em 2001 quanto em 2009: a imposição!
[...] ambas as reformas chegaram [...] de fora. Elas não foram fruto de uma discussão interna. De maturação interna. Foi pelo contrário, adequação a uma legislação, uma exigência legal. [...] Tanto a
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Participaram da Comissão de Elaboração do Novo Projeto Pedagógico e Reforma da Licenciatura os professores do Departamento de História: Luiz Carlos Villalta, como Presidente, Kátia Gerab Bággio, Coordenadora do Colegiado do Curso de Graduação, e os professores José Carlos Reis e Regina Horta Duarte.
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flexibilização, quanto a questão de “prática” foram mudanças que vieram de fora. Foram imposições! Flexibilização, projeto da Reitoria. E as “práticas”, um projeto, um aumento da carga horária, foi da LDB de 96. Então, nós nos adaptamos, nos dois casos. (Professor C, entrevista realizada com professor do Departamento de História da UFMG, em 29/11/2010).
Essa reformulação se deu na marra, por pressão do Ministério da Educação que introduziu lá a obrigatoriedade de haver 400 horas de prática, não propriamente prática de ensino... Mas de “prática”, nos cursos de licenciatura, e 400 horas de estágio.[...] Fizemos a reformulação na marra, fizemos a reformulação a contra gosto! (Professor A, entrevista realizada com professor do Departamento de História da UFMG, em 12/11/2010).
Os motivos, na verdade, tanto da entrada das 300 horas de prática de ensino, em 2001, como agora as 800 horas, 400 de prática e 400 de estágio, em 2009, foram determinações do Ministério da Educação. Então, se não fosse isso nós não teríamos feito essa ampliação das disciplinas pedagógicas. Eu tenho segurança que continuaria muito provavelmente como era antes, com as disciplinas pedagógicas a cargo da Faculdade de Educação. (Professor D, entrevista realizada com professora do Departamento de História da UFMG, em 15/12/2010).
Esse novo Projeto Pedagógico apresentou, como vocação do curso, a formação de profissionais em três áreas: pesquisa, ensino e assessoria. Ainda de acordo com o documento:
O Curso de História tradicionalmente forma professores (na modalidade Licenciatura), pesquisadores e assessores culturais (na modalidade Bacharelado, embora também o faça na Licenciatura) 78.
Dessa maneira, o Projeto apresenta também aos licenciados a prerrogativa de atuarem como pesquisadores, embora tenham como especificidade a atuação na educação básica:
Os pesquisadores atuam em instituições desenvolvendo investigações históricas. Os assessores culturais fazem-se presentes em empresas e órgãos públicos, assim como em entidades privadas vinculadas à difusão cultural. Os professores, que podem desenvolver as atividades dos pesquisadores, têm como especificidade a atuação nos ensinos fundamental e médio79.
78
Projeto Pedagógico, 2009, Belo Horizonte, p. 02. 79
É interessante observar que, apesar do bacharel e do licenciado terem uma formação comum como pesquisadores, o texto do Projeto faz a seguinte ressalva: “distinguindo-se um do outro pelo maior aprofundamento das técnicas e práticas de pesquisa, no caso do bacharel, e pela competência pedagógica compatível com a atuação como docente no Ensino Básico, no caso do licenciado” 80.
Por fim, uma nova área de atuação, a chamada “assessoria cultural”, que não aparece nos antigos currículos, é também colocada nesse novo Projeto. Trabalha-se com a ideia de que esse “assessor” pode se formar tanto no bacharelado, quanto na licenciatura.
Esse novo currículo manteve como base a flexibilização curricular, formada pelas dimensões da “formação específica” e “formação complementar” (flexibilização vertical) e atividades acadêmicas curriculares extra-classe, que geram créditos (flexibilização horizontal). Como foi preciso reestruturar o currículo, em função das determinações legais, alguns outros pontos foram também reorganizados: por exemplo, a inserção das disciplinas de “História da Educação81” e “História da África” para as duas modalidades, bem como uma retomada da convergência temporal entre as disciplinas realizadas nos semestres, ou seja, disciplinas que tratam de um mesmo período temporal foram colocadas em um mesmo semestre. Segundo a professora do Departamento:
[...] a partir de agora tivemos que colocar Antiga e Medieval no primeiro semestre para permitir que, a partir do segundo, a Era Moderna... as disciplinas estivessem casadas. Então, Brasil Colonial, América Colonial e Moderna. Depois, Brasil Século XIX, América Independente e Contemporânea I. E tentar Brasil República com Contemporânea II. [...] Esse casamento... ainda que não de uma maneira tão rígida... mas que houvesse uma retomada dessa convergência temporal. Acho que isso foi uma correção na reforma de 2009 de algo que havia se perdido na reforma de 2001, quando os alunos faziam Brasil Colônia, no segundo período, Moderna no terceiro junto com América Colonial, mas Brasil Colônia era antes. Esse era o problema, na verdade... eles faziam Brasil Colonial no segundo período antes de fazer História Moderna. Então, voltamos a ter Brasil Colonial junto com Moderna e com América Colonial, no mesmo semestre. (Professor D, entrevista realizada com professora do Departamento de História da UFMG, em 15/12/2010).
80
Projeto Pedagógico, 2009, Belo Horizonte, p. 05. 81
De acordo com o Projeto Pedagógico versão 2/2009 essa disciplina é de responsabilidade do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação - DECAE. Ainda de acordo com o documento esta é uma disciplina de conteúdo pedagógico, de natureza teórica.
Nas mudanças curriculares da última década, 2001 e 2009, as propostas de modificações mais amplas, tanto no que refere à proposta pedagógica como à estrutura curricular, ocorreram na modalidade Licenciatura, no que diz respeito principalmente às disciplinas de “Prática de Ensino”. Sendo assim, no próximo capítulo, faremos uma análise mais minuciosa sobre a criação de tais disciplinas no Departamento de História da UFMG e o significado deste suposto envolvimento maior com a formação do professor para o próprio Departamento.
Capítulo 4 – O desenvolvimento institucional das disciplinas de Prática de Ensino