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O professor-pesquisador britânico Ivor Goodson é uma referência mundial na área dos estudos sobre o currículo e a escolarização. Autor de várias obras que tratam da história do currículo e das disciplinas escolares, Goodson possui também diversos estudos que têm em comum a preocupação em desvendar o passado contingente no currículo, que contribui para legitimar a forma como ele se apresenta nos dias de hoje.

De acordo com Goodson (1995b, p. 24), o nosso atual conhecimento da natureza da construção préativa dos currículos – que se traduz quanto à exposição e quanto à teoria – é insignificante, tornando-se, até mesmo, impossível de se fazer um estudo mais amplo sobre sua relação com a dimensão prática do currículo. Sendo assim, o autor destaca a necessidade de pesquisas que analisem a construção social dos currículos, pois, para ele, esse tipo de estudo, que tem como foco as relações sociológicas envolvidas na construção de currículos, apresenta “intrinsecamente a vantagem de proporcionar insights nas conjeturas e interesses envolvidos na elaboração do currículo” (GOODSON, 1995a, 1995b, 1997). Prossegue Goodson, enfatizando:

[...] se não analisarmos a elaboração do currículo, a tentação será de aceitá-lo como pressuposto e buscar variáveis dentro da sala de aula [...]. Estaríamos aceitando como “tradicionais” e “pressupostas” versões de currículo que num exame mais aprofundado podem ser consideradas o clímax de um longo e contínuo conflito (GOODSON, 1995b, p. 24).

Goodson (1995b, p. 28) destaca que “não merece o título de pesquisa aquela que aceita como fato consumado o que é particularmente variável”. Conforme o autor, “a luta existente para definir um currículo envolve prioridades sociopolíticas e discurso de ordem intelectual” (p. 28). Sendo assim, ele ressalta que “a história dos conflitos curriculares do passado precisa, pois, ser retomada” (GOODSON, 1995b).

Para Goodson (1995a, 1995b, 1997, tradução nossa), o currículo, como qualquer outra reprodução social, é uma arena de todos os tipos de mudanças, interesses e relações de dominação. Na medida em que a elaboração de um currículo é um processo que envolve escolhas e interesses, as lutas e o conflito são quase inevitáveis.

Apple (1982) também destaca e vai mais além nessa questão dos interesses envolvidos na elaboração do currículo. Segundo o autor, “se devemos entender por que o conhecimento de apenas alguns grupos foi primeiramente representado nas escolas, precisamos ver os interesses sociais que em geral orientaram a seleção e a organização do currículo” (APPLE, 1982, p. 97). O autor enfatiza que uma das funções que o currículo deveria ter era a de “acentuar suposições hegemônicas, que ignoram a atuação real do poder na vida cultural e social e que apontam para a naturalidade de aceitação, prebendas institucionais e uma visão positivista em que o conhecimento está desvinculado dos atores humanos concretos que o criaram” (APPLE, 2006, p. 127). Ou seja, a questão do conflito no currículo não é somente desconsiderada, mas, sim, intencionalmente ocultada por indivíduos em posições privilegiadas da sociedade em prol de um consenso. Apple (2006) destaca que, nas sociedades, há uma forte tendência para o consenso e uma negação da necessidade do conflito em virtude de um equilíbrio social e de uma preservação do sistema. Em direção oposta, o autor insiste para que “os conflitos passem a ser encarados como uma dimensão básica e em geral dialética de atividade a que se denomina sociedade” e que, dessa forma, sejam utilizados para “impedir a reificação das instituições sociais vigentes, pressionando indivíduos e grupos para que sejam inovadores e criativos ao realizarem mudanças nas atividades institucionais” (APPLE, 2006, p. 147-148). Especialmente, para a questão do currículo, Apple (2006, p. 127, grifo do autor) destaca que a chave para pôr isso a descoberto está no tratamento do conflito no currículo.

A posição dos sujeitos envolvidos nos processos de elaboração dos currículos, suas articulações, seus interesses, os conflitos e as lutas envolvidas nesses processos são fatores de extrema importância, da mesma forma que se torna imprescindível também elucidar o contexto histórico, social, político e econômico em que se desenvolveram esses currículos. Nesse sentido, temos de considerar as questões microssociológicas envolvidas nos processos

de elaboração dos currículos sem pôr em prejuízo uma análise macrossociológica do currículo, pois, concordando com o próprio Forquin (1993):

[...] a “construção social” dos saberes, das representações, das situações e das instituições não se efetua num vazio social, num espaço aberto e indeterminado onde todos os “construtores” potenciais partem de algum modo “em igualdade”, tendo por única bagagem sua criatividade nativa; ela se efetua, ao contrário, num espaço social sempre já determinado, sempre já estruturado, onde alguns grupos portadores de interesses e de ideologias específicas têm mais poder de imposição e de controle simbólico do que outros (FORQUIN, 1993, p. 101)

É justamente nesse ponto que acreditamos que os estudos sociais construcionistas, propostos por Goodson, trazem uma importante contribuição para o campo por fazerem uma análise do particular (micro) com uma preocupação de elucidar suas relações em um contexto mais amplo (macro), uma vez que “as práticas institucionais e as relações e estruturas sociais são mutuamente constitutivas” (GOODSON & ANSTEAD, 1998 apud LOPES, 2006, p. 629).

Joe Kincheloe (1997) destaca, no prefácio à obra do autor, a posição privilegiada de seus estudos quando Goodson “se coloca no meio termo entre o teórico e o particular, uma posição que lhe proporciona uma visão única sobre o processo confuso da confrontação com o poder do currículo” (KINCHELOE, 1997, p. xv, tradução nossa). Prossegue ele enfatizando que, “com uma sofisticada macro-visão sócio-política intacta, Goodson é um raro estudioso que conecta isto ao estudo do micro-mundo, o domínio particularista do currículo” (KINCHELOE, 1997, p. xxxi, tradução nossa).

Nesse sentido, outro aspecto que distingue os estudos historiográficos do currículo de Goodson é a intenção de recuperar o passado com o intuito de construir um olhar crítico sobre a atualidade. Sua preocupação está em não “se interessar meramente com a documentação da informação do passado educacional para apenas uma consumação passiva por outros historiadores da educação” (KINCHELOE, 1997, p. xxxvi, tradução nossa). Dessa forma, os estudos de Goodson revolucionam a pesquisa do currículo estabelecendo o que Kincheloe (1997) intitula de the new historiography paradigm, ou, o novo paradigma historiográfico, o qual, segundo ele:

[...] são tentativas de mover o diálogo entre passado e presente a um nível mais sutil - um domínio no qual reconhecidamente a história é usada, mas o seu uso envolve a

aquisição de uma visão crítica em situações já existentes e uma sensibilidade para os valores historicamente incorporados dentro das realidades presentes (KINCHELOE, 1997, p. xxxvi, tradução nossa).

Como vimos, importantes questões são evidenciadas por diversos estudiosos sobre o currículo. Uma visão sociológica mais crítica sobre o currículo, que adotamos neste estudo, teve sua origem com os estudos da NSE, os quais partiam do princípio de ser o currículo uma construção social. A partir de tais estudos, começaram a ser evidenciadas as participações dos sujeitos envolvidos na construção dos currículos, seus interesses, concepções e estratégias. Teóricos como Forquin (1993), chamavam a atenção para as seleções e organizações do currículo não se efetuam em um vazio, mas sim, em um espaço social sempre já determinado e hierarquizado, e dessa forma lutas pela representação de interesses de determinados grupos obviamente aconteceriam. Apple (1982, 2006), por sua vez, revela a importância de se desvendar os conflitos estabelecidos na construção de um currículo, uma vez que para o autor, esses são elementos fundamentais para entendermos como determinados conhecimentos foram representados e para impedimos assim que sejam realizadas reificações. Por fim, consideramos que diante dessas discussões, os estudos que Goodson (1995a, 1995b, 1997) propõe sobre a adoção de estudos históricos-sociais-construcionistas, sintetiza bem todas essas ideias e se adéqua a intenção desta pesquisa que se propõe a investigar a construção social do currículo de um curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG).