II. GENEL OLARAK MEKÂN
II.4. Edebî Metinlerde Mekân
II.4.3. Coşku ve Heyecana Dayalı Metinlerde (Şiir) Mekân
II.4.3.1. Klasik Şiirde Mekân Tasavvuru
1.6. Vadi
É chegado finalmente o momento de proceder ao alargamento de perspectiva da teoria da linguagem de modo a caminhar rumo a uma Semiótica geral. Como lembra o próprio Hjelmslev (2006, p. 110), categorias como análise, classe e componente, tipos de dependência, função semiótica, signo, expressão e conteúdo, forma e substância, valor e sentido, variante e invariante, comutação e substituição etc. não são exclusivas das “línguas naturais”, mas apresentam-se em outras estruturas e hierarquias sujeitas à análise. Isso ocorre porque a forma linguística pode projetar-se sobre substâncias diferentes da substancia da “língua natural”. Logo, ao centrar-se a teoria da linguagem no estudo da forma linguística, e não propriamente no da substância, pode ela realizar uma análise e uma descrição de outras estruturas análogas à “língua natural”. Hjelmslev considera que a adoção do princípio do empirismo na análise linguística conduz à dicotomia entre forma e substância, do que resultaria logicamente a arbitrariedade do signo e a insuficiência da substância para definir uma língua (o essencial seria a forma linguística).
Assim, “[...] deve ser possível imaginar substâncias radicalmente diferentes do ponto de vista da hierarquia da substância que estejam ligadas a uma mesma forma linguística.” (HJELMSLEV, 2006, p. 110). Nesse sentido, Hjelmslev lembra estudos sobre os gestos e a mímica, que muitas vezes substituem as palavras da cadeia falada. Há também de se considerar novamente a possibilidade de a forma linguística manifestar-se em substância sonora ou gráfica, o que é evidente em línguas de escrita alfabética (representação gráfica dos fonemas da fala), mas não tão evidente assim em línguas com escritas ideográficas, tal como os hieróglifos egípcios, a escrita linear B de Creta, os “hanzi” utilizados nas línguas chinesa, japonesa e coreana etc. Segundo o próprio Hjelmslev, pode haver também “[...] outras ‘substâncias’: basta pensar nos códigos de bandeirolas das frotas de guerra que podem muito
bem ser empregados como manifestação de uma língua ‘natural’, como o inglês por exemplo, ou no alfabeto dos surdos-mudos.” (HJELMSLEV, 2006, p. 111).
Algumas objeções podem ser colocadas a essa perspectiva que adota a forma linguística como o critério de definição de uma língua, independentemente das diferentes substâncias que essa forma possa se projetar de modo a formar estruturas análogas à língua natural: (a) pode-se argumentar que todas as demais substâncias seriam derivadas, em diversos graus, da substância sonoro-gesticulatória e, portanto, os esquemas que formariam seriam “artificiais” em relação à “língua natural”; (b) pode-se argumentar também que em muitos casos uma mudança na substância seria acompanhada por uma mudança na forma linguística.
Hjelmslev afasta a pertinência da primeira objeção com argumentar que o fato de uma manifestação ser “derivada” de outra não contraria o fato de que se trataria ainda de uma manifestação da forma linguística em consideração. Lembra também que em diversos casos é difícil estabelecer o que é e o que não é derivado, pois não se pode contar com dados que garantissem, de um ponto de vista histórico-diacrônico, a certeza da primazia de uma substância sobre outra. Ademais, Hjelmslev assevera que considerações diacrônicas não são pertinentes para a descrição sincrônica de um esquema ou uso linguísticos.
A segunda objeção, embora não altere o fato de que uma forma linguística é manifestada em uma substância, evidencia que a um mesmo sistema de conteúdo podem ligar-se diferentes sistemas de expressão, cada qual com uma forma e substância próprias. Destarte, consistiria a tarefa do linguista em, além de descrever os sistemas de expressão, realizar o cálculo dos sistemas de expressão possíveis para um sistema de conteúdo e dos sistemas de conteúdo possíveis para um sistema de expressão. Isso porque em relação a um sistema de conteúdo como, por exemplo, o da língua portuguesa, podem ligar-se sistemas de expressão como a escrita, a fala, a libras, o braile, os sinais de trânsito etc.: assim, embora haja maior semelhança entre a forma da fala e da escrita, devido à escrita do português ser alfabética, as formas adotadas pela libras, pelo braile e pelos sinais de trânsito são bastante diferentes entre si, o que não impede que expressem um mesmo sistema de conteúdo. Ao se pensar em uma língua que adote sistema de escrita não alfabético, também se podem flagrar diferenças entre a forma linguística do sistema de expressão escrita e a forma linguística do sistema de expressão falada, ambos ligados, não obstante, a um mesmo sistema de conteúdo.
Do mesmo modo, a mudança da substância não implica uma mudança na forma: no caso do plano da expressão, pode-se ter em uma mesma comunidade linguística, como a do português do Brasil, diferenças na pronúncia de certos fonemas de acordo com as regiões geográficas – uma das faces do fenômeno das variantes linguísticas –, diferenças na substância
fonética, portanto, sem que, com isso, seja alterado o sistema de formas de expressão da fala, pois apesar de se ter uma substância diferente (como o “o” aberto ou fechado), é ela captada por uma forma que se mantém ao conservar sua relação de oposição e negação para com as demais. No caso do plano do conteúdo, o significado alarga-se ou contrai-se constantemente, sem que, com isso, haja necessariamente uma mudança na forma do conteúdo: assim, um semema como “carro” constantemente passa a abrigar novas substâncias, como novos tipos e modelos de carro, sem que sua relação de oposição e negação para com as demais unidades constitutivas de uma cultura – logo, sem que sua forma – seja alterada. O estudo do linguista deve, assim, não apenas descrever como uma estrutura linguística é manifestada em dada substância, mas prever se é manifestável em qualquer substância. Disso se conclui que:
A substância não condiciona necessariamente a forma linguística, enquanto que a forma linguística condiciona obrigatoriamente a substância. Em outras palavras, a manifestação é uma seleção na qual a forma linguística é a constante a substância, a variável. Do ponto de vista formal, definimos a manifestação como uma seleção entre hierarquias e derivadas de hierarquias diferentes. Concordando com Saussure, pode-se chamar de forma a constante (a manifestada) de uma manifestação. Se a forma é uma língua, nós a chamamos de esquema linguístico. Sempre concordando com Saussure, pode-se chamar de substância a variável (a manifestante) de uma manifestação; chamaremos de uso linguístico uma substância que manifesta um esquema linguístico. (HJELMSLEV, 2006, p. 113, grifo do autor).
Assim, percorrido este longo caminho, pode-se esquematizar a concepção de Hjelmslev sobre a chamada “língua natural” conforme a Figura 5. Ademais, como se nota, assim se consuma a intenção de Hjelmslev de substituir as noções saussurianas de língua e fala pelas de esquema e uso: por meio de uma generalização que busca romper as barreiras da língua natural rumo a uma teoria geral dos signos. Assim, as categorias trazidas por Hjelmslev buscam englobar todas as estruturas em que um plano da expressão liga-se a um plano do conteúdo e em que um uso linguístico ou processo manifesta um esquema linguístico ou sistema. A tais estruturas ou hierarquias Hjelmslev designa a definição semiótica: “[...] uma hierarquia da qual qualquer um dos componentes admite uma análise ulterior em classes definidas por relação mútua, de tal modo que qualquer dessas classes admite uma análise em derivados definidos por mutação mútua.” (HJELMSLEV, 2006, p. 113, grifo do autor).
Logo, pode ser objeto de uma teoria da linguagem todo objeto que possa ser caracterizado como uma semiótica, independentemente de suas características específicas, a emergirem de sua análise e descrição. Se ao linguista propriamente dito cabe a análise e
descrição de uma espécie de semiótica, a língua natural, ao semiólogo cabe voltar-se sobre todas as existentes e possíveis semióticas-objeto. Desse modo Hjelmslev dá novo fôlego à proposta saussuriana de uma Semiologia ou ciência geral dos signos – o que hoje se designa como Semiótica. Logo, em observância à nomenclatura proposta por Hjelmslev, pode-se dizer que a Semiologia, como teoria geral da linguagem, é a ciência ou saber mais geral que toma toda e qualquer semiótica, existente ou possível, como seu objeto. Ou seja, a Semiologia seria o que Hjelmslev define como metassemiótica31, uma semiótica científica32 “[...] da qual um ou vários planos é (são) uma semiótica(s).” (HJELMSLEV, 2006, p. 126).
Assim, se se conceitua uma semiótica como uma estrutura dotada de dependências internas (principalmente entre um plano da expressão e um plano do conteúdo) e, por isso, analisável, várias instituições sociais podem ser vistas como semióticas e, desse modo, serem alvo de uma análise e uma descrição a partir da teoria da linguagem. E é exatamente assim que se vai encarar o direito: como um todo, dotado de dependências internas e de planos de expressão e conteúdo correlatos, que pode ser analisado e descrito nos termos de uma teoria da linguagem. Logo, ao se tomar o direito ou as teorias a ele referidas como plano de conteúdo de uma descrição científica, tal descrição científica constitui-se como metalinguagem ou metassemiótica, porque toma o direito ou as teorias a ele referidas como semiótica-objeto. A relação entre a Teoria Geral do Direito e o direito enquanto fenômeno jurídico é caso de uma relação metassemiótica, pois a Teoria do Direito, sendo uma descrição
31 Como forma de ampliar ainda mais a perspectiva da teoria da linguagem, Hjelmslev distingue entre semióticas conotativas e semióticas denotativas. A relação de denotação é dada na função semiótica quando uma expressão correlaciona-se a um conteúdo. A conotação ocorre quando uma função semiótica toma como sua expressão ou como seu conteúdo outra função semiótica. Se Gertrudes, uma amente traída, usa irritadamente uma metáfora como “Alberto é um cachorro!” para referir-se a seu par ou, mais provavelmente, antigo par, a palavra “cachorro” por ela proferida é utilizada em sentido conotativo: “cachorro” é palavra em que uma expressão (uma grafia, um som) se associa a um conteúdo (por exemplo, “animal canídeo, quadrúpede, de criação doméstica”), e esse é seu uso denotativo; quando referida a Alberto, a palavra “cachorro”, com sua expressão e conteúdo, torna-se expressão de outra função semiótica que lhe agrega outros conteúdos, como “infiel, traidor, não confiável” etc., e assim Gertrudes institui um uso conotativo da palavra “cachorro”. Portanto, uma semiótica denotativa é uma estrutura mais simples em que se associam um plano da expressão e um plano do conteúdo; uma semiótica conotativa é uma semiótica que toma outra(s) semiótica(s) como um de seus planos ou como os dois. Mais comumente, uma semiótica denotativa toma outra semiótica como seu plano do conteúdo e aí se está, nos termos propostos por Hjelmslev, diante de uma metalinguagem ou
metassemiótica, isto é, linguagem ou semiótica que toma outra linguagem ou semiótica como seu plano do
conteúdo. Assim, grande parte das ciências pode ser definida como metassemióticas, porque a descrição que fazem de seus objetos é metalinguística.
32 Hjelmslev distingue ainda entre dois tipos de semióticas conotativas: as semióticas científicas e as semióticas
não científicas. “Chamaremos de semiótica científica uma semiótica que é uma operação, e semiótica não- científica uma semiótica que não é.” (2006, p. 126). A partir disso, Hjelmslev propõe designar uma semiótica
conotativa não científica simplesmente como semiótica conotativa e uma semiótica conotativa científica como
metassemiótica: “assim, definiremos uma semiótica conotativa como sendo uma semiótica não-científica da
qual um ou vários planos é (são) uma semiótica(s); e uma metassemiótica como uma semiótica científica da qual um ou vários planos é (são) uma semiótica(s)”. E ainda acrescenta: “[...] de fato, vimos que nos casos mais frequentes um único dos dois planos é uma semiótica.” (HJEMSLEV, 2006, p. 126).
do direito e, portanto, uma semiótica, toma o fenômeno jurídico, por si só uma semiótica, como seu plano de conteúdo. Logo, a Teoria do Direito é uma metassemiótica e o fenômeno jurídico é a sua semiótica-objeto. Assim, se por meio dos construtos da Semiótica (ciência) – e aqui há de se dizer “Semiologia”, para respeitar a nomenclatura de Hjelmslev – se analisa o direito, está-se a realizar uma descrição metassemiótica; se se toma a Teoria do Direito, uma metassemiótica, como semiótica-objeto de uma descrição a partir dos construtos da Semiótica (ciência), está-se a fazer o que Hjelmslev designa como metassemiologia33. Feitas tais considerações, esgota-se o que de útil para a pesquisa se pode extrair do pensamento hjelmsleviano, sendo, agora, premente exporem-se os demais teóricos de que se socorre aqui.