II. GENEL OLARAK MEKÂN
II.4. Edebî Metinlerde Mekân
II.4.3. Coşku ve Heyecana Dayalı Metinlerde (Şiir) Mekân
II.4.3.1. Klasik Şiirde Mekân Tasavvuru
2.1. Barınma Mekânları
2.1.11. Barınma Mekânlarıyla İlgili Sözcüklerin Sayı, Oran ve İçerik
Esse esforço de organização das unidades de expressão e conteúdo existentes em uma cultura no âmbito do discurso jurídico, seja do ponto de vista do discurso do direito seja do ponto de vista do metadiscurso jurídico, remete a um traço do pensamento ocidental que se apresenta de modo intenso no mundo do direito: a sistematicidade. É a busca por sistematicidade, nem sempre bem sucedida, um dos traços que distinguem semióticas como a língua natural, o discurso do direito e os metadiscursos jurídicos. Grande estudo sobre o impacto do pensamento sistemático sobre a cultura jurídica ocidental foi realizado por Mario Losano (2008) na obra Sistema e Estrutura do Direito. Todavia, como o interesse maior desta pesquisa é, neste momento, pelos primórdios da cultura jurídica ocidental, que constituirão
textos tradicionais a serem transmitidos ao longo dos séculos, a incursão pela obra de Losano (2008, p. XXXV) possui aqui intenções bastante limitadas, pois, como ele próprio assevera:
Da época do direito romano à da pandectística alemã do séc. XIX, o pensamento sistemático é raramente objeto de uma exposição específica; em geral é tratado apenas como uma digressão metodológica em relação ao tema central. Os fragmentos sobre o sistema devem ser buscados em disciplinas e em diferentes obras, distribuídas em um período histórico de aproximadamente dezoito séculos. A sucessão de épocas e a fragmentariedade dos achados impõem exposições breves, para que sejam homogêneas. São, portanto, necessários dezesseis capítulos para passar em revista a história e análise do pensamento sistemático das origens gregas aos estudos jurídicos da Alemanha do século XI.
Assim, embora as noções de “sistema” e de “sistematicidade” deitem raízes na cultura grega e na romana antigas, inclusive com consequências para o direito, é no campo da Teologia primeiramente e, depois, no da Filosofia, isso na passagem do Medievo à Modernidade, que tais noções ganham verdadeiro estofo conceitual e tratamento pormenorizado, constituindo fôlego que apenas há pouco tempo, em termos de história universal e processo civilizatório, vem a ocupar devidamente a reflexão jurídica. Ademais, sendo esta uma pesquisa sobre Semiótica, o interesse reside em examinar, na medida do possível, como o conjunto do que se pode chamar, talvez não sem certo anacronismo, de discurso jurídico, conforme definição já apresentada acima. A pesquisa de Losano, além das intenções e méritos que comporta por si mesma, não há assim de ser ignorada por uma pesquisa sobre Semiótica voltada ao discurso jurídico, pois as noções de “sistematicidade” e de “sistema” comumente correspondem ao tipo de organização que as estruturas ou planos de uma semiótica apresenta. Todavia, já há de admitir, mais interessa à pesquisa o exame da recepção do direito romano pela Europa às portas de Modernidade e formação dos dois grandes sistemas de direito hoje existentes – o romano-germânico e o da Common Law –, pois daí exsurgem algumas questões de relevância para uma consideração semiótica; esse é também o motivo por que uma consideração verdadeiramente profunda e histórica sobre o desenvolvimento da noção de sistema fica afastada.
Não obstante, deve-se ocupar brevemente de reflexões sobre a noção de “sistema”, pois ela implica uma mútua dependência entre elementos relacionados e, desse modo, pertence ao mesmo campo semântico de outras noções com que se tem trabalhado nesta
pesquisa, como “totalidade”, “plano” e “estrutura”74. Apesar da variação de conteúdo, conforme a proposta teórica, não parece haver motivos suficientes para defender aqui, partindo dos referenciais teóricos adotados, uma distinção absoluta entre estrutura e sistema. Segundo Abbagnano (2007, p. 908):
Essa palavra [sistema], desconhecida neste sentido no período clássico, foi empregada por Sexto Empírico para indicar o conjunto formado por premissas e conclusão ou o conjunto de premissas (Pirr. byp., II, 173), e passou a ser usada em filosofia para indicar principalmente um discurso organizado dedutivamente, ou seja, um discurso que constitui um todo cujas partes derivam umas das outras.
É nesse sentido que se fala em “sistema filosófico”, como discurso filosófico que pretende abarcar o conjunto da realidade: daí a referência a sistema aristotélico, a sistema kantiano, a sistema hegeliano etc. Se uma estrutura, conforme definido por Hjelmslev (1991, p. 29), é uma “[...] entidade autônoma de dependências internas”, um sistema pode ser concebido como uma estrutura organizada dedutivamente dos universais aos particulares. Todavia, conforme visto anteriormente neste trabalho, o próprio Hjelmslev, em seus
74 Losano valoriza a clivagem entre sistema interno e sistema interno, colocada nestes termos: “[...] o sistema pode ser o ponto de chegada ou o ponto de partida da atividade do estudioso e, em particular, do jurista. O sistema como ponto de chegada é uma construção intelectual que coloca ordem numa realidade caótica; é uma rede cognoscitiva que se superpõe ao seu objeto: é terminus adquem, ou seja, o fim a que tende a atividade do estudioso; é um sistema externo ao objeto estudado. Ao contrário, o sistema como ponto de partida é uma estrutura ínsita no objeto estudado; a tarefa do estudioso consiste em descobri-la e em descrevê-la; o sistema é o terminus a quo, o ponto da partida de pesquisa; o sistema é um sistema interno ao objeto estudado.” (2010, p. 2). Do ponto de vista da Semiótica, essa diferença entre sistema externo e interno pode ser pensada como trabalhos semióticos diversos: o sistema externo pode corresponder à formação de uma semiótica, ao organizar em estrutura ou plano uma substância amorfa ou um contínuo por meio da projeção de uma forma pura ou valor; o sistema interno, por sua vez, pode corresponder ao exame e descrição de uma semiótica já formada. Losano valoriza essa discussão por ver nela diversas consequências para o debate sobre a existência de sistematicidade nas coisas mesmas (sistema interno) ou apenas por intermédio da atividade cognoscente, que imporia sistematicidade às coisas. Pensa-se que já se posicionou sobre questões correlatas na primeira parte deste trabalho (como sobre a natureza real ou simplesmente simbólica dos construtos culturais) com dizer que nenhuma das posições extremas pode chegar a uma posição resolutiva, pois tanto é possível uma coisa como outra: apenas um critério referencial e extensional e uma teoria dos valores de verdade seria capaz de lidar com a questão, podendo-se encontrar casos em que simplesmente há correspondência entre a descrição sistemática e a dinâmica e a estrutura de um fenômeno, estando presente, portanto, tanto um sistema interno quanto um sistema externo. Essa distinção entre sistema externo e sistema interno também pode, em muitos casos, ser compreendida pelo prisma da Semiótica como a elaboração sistemática de alguns elementos do plano da expressão do discurso (sistema externo) em oposição a uma elaboração que elabore sistematicamente o plano do conteúdo e os aspectos mais fundamentais do plano da expressão (sistema interno). Exemplo disso são as diferentes configurações que os metadiscursos jurídicos podem assumir: pode-se apenas ordenar uma matéria em relações de universalidade-particularidade sem reelaborar as suas unidades constituintes (sistema externo), como nos trabalhos romanísticos dos glosadores a partir do séc. XII (discutido à frente); pode-se organizar uma matéria em relações de universalidade-particularidade alterando suas unidades constituintes e mesmo propondo a existência de novas formas novas de relação entre elas (sistema interno e sistema externo), como parece próprio de diversos trabalhos de Teoria do Direito, entre eles, pesquisas pertencentes ao chamado “Positivismo Jurídico” e ao “Pós-positivismo Jurídico”.
Prolegômenos..., assume o texto como uma totalidade em que existem pelo menos três tipos de dependências: entre as partes coordenadas, entre a totalidade e as partes do grau seguinte, entre o conjunto dos relacionamentos e das dependências e essas partes (HJELMSLEV, 2006, p. 28). Em suma, em uma totalidade há dependência entre a classe e seus componentes, entre os componentes reciprocamente e entre o conjunto de componentes e o conjunto de dependências. Se se enveredar por outros campos de conhecimento, propostas teóricas e considerações, mais variações de uso hão de surgir.
Logo, ante essa patente falta de acordo, parece ser plausível adotar aqui uma posição (talvez não sem atraso): vai-se assumir aqui o sistema como uma estrutura que comporte relações do tipo universal-particular, e, nesse sentido, sendo o sistema um tipo especial de estrutura, pode-se encontrar porções maiores ou menores do que certas estruturas que são sistemas75. O conjunto ou totalidade a que se chamou “discurso jurídico” não é propriamente um sistema, pois a relação entre o discurso jurídico, o discurso do direito e os metadiscursos jurídicos não pode ser descrita em termos de universalidade-particularidade, mas de conotação-denotação. Essa definição de sistema não parece contrariar as ocorrências anteriores do termo “sistema” neste trabalho, por exemplo, ao se referir na primeira parte a “sistemas de significação”: sendo um sistema de significação um conjunto de regras de combinação (código) por meio do qual se combinam elementos dispostos em estruturas ou planos, é possível distinguir relações do tipo universal-particular nesses conjuntos de regras e mesmo nessas estruturas76. Relações do tipo universal-particular também podem ser encontradas nas estruturas semânticas de uma semiótica, como ocorre com a língua natural e
75 Em diversos trechos de sua obra em três volumes Sistema e Estrutura no Direito (2008; 2010; 2011), Losano (2008, p. 215, grifo do autor) sugere que a estrutura se apresenta como nexo entre as partes interna e externa de um sistema, como neste: “[...] com referência à linguagem corrente, distingue-se o sistema externo [...] do
sistema interno [...] e da estrutura, entendida como nexo que une as partes de um sistema tanto interno quanto
externo. Pode-se, portanto, entender o sistema externo no sentido de ‘estrutura como terminus ad quem’ (uma vez que a ele tende a atividade do estudioso) e o sistema interno no sentido de ‘estrutura como terminus a quo’ (uma vez que dele parte a atividade do estudioso); porém, nos dois casos usa-se estrutura nem sentido atécnico.” Deveras, se se assume a noção de estrutura conforme o sentido trabalhado por Hjelmslev, surgem daí muitas complicações para pensar-se a estrutura como nexo entre as partes de um sistema tanto interno quanto externo: uma semiótica apresenta estruturas ou planos, e a relação entre os elementos intrínsecos a eles – relação entre as partes coordenadas, apenas uma das três formas de dependência existentes em uma totalidade – não é necessariamente sistemática, isto é, não há necessidade de relações do tipo universal-particular para a constituição de uma estrutura, mas de relações de outro tipo, relações opositivo-negativas. Daí a conclusão de que o sistema é uma forma especial de estrutura, na qual, além das relações opositivo-negativas entre suas unidades constituintes, há relações de universalidade-particularidade. Assim, um sistema apresenta-se necessariamente como estrutura, mas nem toda estrutura apresenta uma organização sistemática. Pensa-se que, no geral, essa posição não colide com o trabalho de Losano de modo inconciliável.
76 Pensa-se que essa posição inclusive está de acordo com a posição de Hjelmslev (2006, p. 43) nos seus
Prolegômenos..., em que define “[...] um sistema como uma hierarquia correlacionada”, ou seja, como um
conjunto formado por relações do tipo “ou...ou” entre classes e componentes. Essas relações entre classes e componentes em um sistema de significação como a língua, além de apresentarem um caráter estrutural, comportam em grande medida e em vários casos a descrição em relações do tipo “universal-particular”.
muito comumente com o discurso do direito. Assim, mantém-se a posição: o sistema é uma estrutura Esse uso tampouco parece contrariar, salvo melhor entendimento, o uso realizado por Losano na obra que doravante se examina.
Destarte, apesar de “sistema” ser uma noção tipicamente moderna, seria possível rastrear seu desenvolvimento no berço do mundo ocidental tal como hoje conhecido, principalmente nas civilizações grega e romana. Segundo Losano, a estrutura que a língua grega apresentava em período próximo ao do surgimento da filosofia, com a presença de três tipos de substantivo (nome próprio, nome comum e nome abstrato), permitiu ao pensamento grego “[...] reconduzir cada fenômeno a um princípio geral e, de outro, a deduzir o particular do geral.” (LOSANO, 2008, p. 11-12). Se a estrutura linguística se complexifica a partir da necessidade de melhor descrever o mundo ou se, por outro motivo, a complexificação da estrutura linguística se dá e a partir daí se pode realizar uma descrição mais precisa do mundo, essa é uma questão cuja resposta depende, previamente, de uma concepção sobre o que vem a ser, de modo particular e pormenorizado, a estrutura de uma língua particular ou mesmo do fenômeno de significação em geral, e a primeira parte deste trabalho lança elementos que permitiriam arriscar uma resposta. Contudo, mais importante do que isso, tendo em vista a finalidade da pesquisa, é assinalar que a estrutura da língua, forme-se por um motivo ou por outro, permite a descrição do mundo ao segmentá-lo, classificá-lo e opor em uma estrutura as unidades daí surgidas. Em suma, a língua já representa um esforço de sistematização.
Ademais, a sistematização do pensamento no caso da Filosofia grega clássica – cujos resultados são notórios em campos como lógica, retórica, gramática, arquitetura, astronomia, matemática, geometria e mesmo direito – remete à questão sobre o modo de os gregos clássicos conceberem a relação entre “ ό ος” e “πό ς”, isto é, entre o cosmos e a polis ou entre a natureza a cultura: o “ ύ η α”, o sistema, a ordem, a harmonia estaria em um ou em outro? O debate entre os dois grandes helenistas Werner Jaeger e Rodolfo Mondolfo, referido por Losano, teve justamente o intuito de esclarecer tal questão. A posição de Jaeger, ressoante em outro de seus trabalhos, Paideia, é a de que a partir da organicidade adquirida pela vida social e política a filosofia grega, especialmente em sua fase dita cosmológica, passa a conceber a realidade como cosmos, como ordem. Grande exemplo dessa perspectiva se encontra no seguinte trecho, em que se comparam as concepções de Sólon e Anaximandro:
A ideia de Sólon é esta: a dike não depende dos decretos da justiça terrena e humana nem resulta da simples intervenção externa de um decreto da justiça divina, como sucedia na antiga religião de Hesíodo. É imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das
desigualdades. [...]. Anaximandro vai muito além. Esta compensação eterna não se realiza só na vida humana, mas também no mundo inteiro, na totalidade dos seres. A evidência deste processo e a sua imanência na esfera humana levam-no a pensar que as coisas da natureza, com todas as suas forças e oposições, também se encontram submetidas a uma ordem de justiça imanente e que a sua ascensão e sua decadência se realizam de acordo com essa ordem. Nesta forma – se a encararmos do ponto de vista moderno – parece esboçar-se a ideia prodigiosa de uma legalidade universal da natureza. Mas não se trata de uma simples uniformidade do fluxo causal, no sentido abstrato de nossa ciência atual. O que Anaximandro formula com as suas palavras é mais uma norma universal do que uma lei da natureza no sentido moderno. O conhecimento desta norma do acontecer da natureza tem um sentido religioso imediato. Não é uma simples descrição de fatos, mas uma justificação da natureza do mundo. O mundo revela-se como um cosmos, isto é, como uma comunidade jurídica das coisas. (JAEGER, 1995, p. 201-202, grifo do autor).
Comprove-se ou não a hipótese levantada por Jaeger e seja a Filosofia um fato específico da civilização grega ou resultante da reelaboração de diversas influências (sabedoria oriental, pensamento egípcio, cultura micênica etc.), fato é que a Filosofia surge já em certa quadra civilizatória (entre os sécs. VII e VI a.C.) em que se experimentava uma organização social bastante complexa, com diversas instituições já firmadas como características. A língua, por envolver um plano de conteúdo ou estrutura semântica, é instituição social capaz de testemunhar sobre o modo de uma civilização conceber sua existência no mundo. A língua dos gregos na passagem do período arcaico (c. 800 a.C. a 500 a.C.) ao clássico (500 a.C. a 338 a.C.) não era apenas era o sistema depositário das formas quotidianas de comunicação e prática social, mas passava a sofrer o processo de reelaboração racional próprio da passagem de uma concepção cosmogônica a uma concepção cosmológica. Isso porque, conforme se tem afirmado, a língua possui papel instrumental na elaboração das mais diversas semióticas ao ser tomada como substância a partir da qual se formarão discursos conotados, entre eles a própria Filosofia e do Direito. É necessário relembrar também que esse conjunto de discursos, de sistemas de representação e de expressão que compunham a cultura grega clássica normalmente apresenta relações intrínsecas e divisões estranhas ao modo hodierno de conceber-se os construtos culturais, de forma que certo campo semântico correspondente a tal ou qual instituição, como o próprio Direito, pode não ter se autonomizado em relações a outras semióticas, ou apresentar uma estrutura simplesmente muito diversa. De todo modo, não pode negar aos gregos antigos esse intento sistematizador que os marcou indelevelmente na história do mundo ocidental. Novamente com Jaeger se pode buscar arrimo para as diversas teses aqui aventadas e defendidas:
Desde então [meados do período arcaico], toda manifestação do direito ficou sem discussão na mão dos nobres que administravam a justiça segundo a tradição, sem leis escritas. Contudo, o aumento da oposição entre os nobres e os cidadãos livres, a qual deve ter surgido em consequência do enriquecimento dos cidadãos alheios à nobreza, gerou facilmente o abuso político da magistratura e levou o povo a exigir leis escritas. As censuras de Hesíodo contra os senhores venais, que na sua função judicial atropelavam o direito, eram o antecedente necessário desta reclamação universal. É por ele que a palavra direito, dike, se converte no lema da luta de classes. A história da codificação do direito nas diversas cidades processa-se por vários séculos e sabemos muito pouco sobre ela. Mas é aqui que encontramos o princípio que a inspirava. Direito escrito era direito igual para todos, grandes e pequenos. [...] Homero apresenta-nos o antigo estado de coisas. É com outro termo que designa, em geral, o direito: themis. Zeus dava aos reis homéricos “cetro e Themis”. Themis era o compêndio da grande cavalheiresca dos primitivos reis e nobres senhores. Etimologicamente significa “lei”. Os cavaleiros dos tempos patriarcais julgavam de acordo com a lei proveniente de Zeus, cujas normas criavam livremente, segundo a tradição do direitos consuetudinário e o seu próprio saber. O conceito de dike não é etimologicamente claro. Vem da linguagem processual e é tão velho quanto
themis. Dizia-se das partes contenciosas que “dão e recebem dike”. Assim se
compendiava numa palavra só a decisão e o cumprimento da pena. O culpado “dá dike”, o que equivale originariamente a uma indenização, ou compensação. O lesado, cujo direito é reconduzido pelo julgamento, “recebe
dike”. O juiz “reparte dike”. Assim, o significado fundamental de dique
equivale aproximadamente a dar a cada um o que lhe é devido. Significa ao mesmo tempo, concretamente, o processo, a decisão e a pena. Simplesmente, neste caso o significado intuitivo não é o original, como habitualmente, mas o derivado. O alto sentido que a palavra recebe na vida da polis posterior aos tempos homéricos não se desenvolve a partir deste significado exterior, e sobretudo técnico, mas sim do elemento normativo que se encontra no fundo daquelas antigas formas jurídicas, conhecidas de todo mundo. Significa que há deveres para cada um e que cada um pode exigir, e , por isso, significa o próprio princípio que garante essa exigência e no qual se poderá apoiar quem for prejudicado pela hybris – palavra cujo significado original corresponde à ação contrária ao direito. . Enquanto themis refere-se principalmente à autoridade do direito, à sua legalidade e À sua validade, dike significa o cumprimento da justiça. Assim se compreende que a palavra dike se tenha convertido em grito de combate de uma época em que se batia pela consecução do direito uma classe atém então o recebera apenas como themis, quer dizer, como lei autoritária. O apelo à dike tornou-se de dia para dia mais frequente, mais apaixonado e mais premente. (JAEGER, 1995, p. 134-135, grifo do autor).
Nesse período de transformação das sociedades de diversas polis, cujo exemplo paradigmático sempre é Atenas, a expansão e migração de campos semânticos de unidades de expressão como “themis”, “dike” e “hybris” é notório, o que mostra a dinamicidade da língua em meio à profusão da vida social, bem como o desenvolvimento de conjuntos discursivos cujos planos de expressão e conteúdo não podem simplesmente ser reconduzidos aos planos de expressão e conteúdo da língua sob pena de perder-se sua especificidade. Afinal, a