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II. GENEL OLARAK MEKÂN

II.4. Edebî Metinlerde Mekân

II.4.3. Coşku ve Heyecana Dayalı Metinlerde (Şiir) Mekân

II.4.3.1. Klasik Şiirde Mekân Tasavvuru

2.1. Barınma Mekânları

2.1.8. Bina (Bünyâd, Bünye)

Do mesmo modo como compõe o nível físico da substância dos planos do conteúdo e da expressão da língua natural, a realidade física pode vir a compor a substância dos planos do conteúdo e da expressão do discurso jurídico: nessa relação, o discurso jurídico também denota a realidade física. Todavia, essa captura da realidade física pelo discurso jurídico pode se dar tanto de maneira direta como por mediação da língua natural: no primeiro caso, há relação de denotação entre realidade física e discurso jurídico; no segundo, relação de conotação entre língua natural e discurso jurídico. Isso porque, sendo a língua uma semiótica, torna-se ela uma semiótica-objeto em relação à qual o discurso do direito é uma metassemiótica. Se o processo por meio do qual o discurso jurídico denota a realidade física não difere, em princípio, da denotação que a língua natural realiza em relação à realidade física – isto é, o discurso jurídico também toma a realidade física como substância de seus planos da expressão e do conteúdo –, é imperioso especificar o modo como o discurso jurídico toma a língua natural conotativamente. A linguagem se forma no esforço de reorganizar o mundo e, nesse processo, passa a interpor-se entre o indivíduo e a percepção da realidade. Isso porque a experiência individual e direta com o real, para ser comunicada e preservada, necessita ser organizada em uma estrutura ou plano de conteúdo e veiculada por meio de uma estrutura ou plano da expressão. Nesse processo de reorganização – ou seja, de segmentação e classificação do mundo –, aquilo que é tomado como substância será segmentado por uma forma, de modo a surgirem unidades oposicional e reciprocamente limitadas e dispostas em uma estrutura, como os planos da expressão e do conteúdo.

72 Assim, a denotação é típica de figuras de linguagem como a metáfora, a exemplo do clássico verso de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver”. Há de se utilizar esse exemplo para relembrar o já exposto na parte anterior deste trabalho: a palavra “fogo” é dada por uma função semiótica que denota um fenômeno natural dado pela oxidação de material combustível e pela consequente liberação de calor e luz; é também uma unidade cultural e semântica que, no plano do conteúdo da língua portuguesa, opõe-se a outras noções referentes a fenômenos naturais como “chuva”, “vento”, “terremoto” etc. No verso camoniano, “fogo” é função semiótica que é tomada como conteúdo de outra função semiótica formada a partir dela, sofrendo a palavra “amor”, desse modo, uma expansão de sentido. Além disso, a possibilidade de se elaborar uma metáfora pressupõe as funções semióticas já estabelecidas nas palavras “fogo” e “amor”. A relação de conotação também ocorre entre planos inteiros de semióticas e daí se poder falar, com Hjelmslev, em

Assim como o discurso jurídico realiza essa operação de segmentação, classificação e reorganização em relação ao mundo físico, que somente assim passa a ter existência propriamente jurídica – daí poder falar-se de fato jurídico –, a língua natural também sofre esse mesmo processo de segmentação, classificação e reorganização ao ser captada pelo discurso jurídico como substância. Com isso se quer dizer que, embora a língua natural seja indubitavelmente uma semiótica, dotada de planos de conteúdo e de expressão – e, devido a isso, já incorpore um modo de segmentação, classificação e reorganização do mundo dado ao indivíduo na percepção fenomenológica –, ao ser tomada pelo discurso jurídico, tal forma de reorganização do mundo e da experiência que a língua natural em si encerra sofrerá novo processo de segmentação, classificação e reorganização. Por isso os planos da expressão e do conteúdo da língua natural não coincidem, no mais das vezes, com os planos da expressão e do conteúdo do discurso jurídico, pois o discurso jurídico se estrutura mediante uma forma própria de segmentar, classificar e reorganizar o mundo e a experiência. Em suma, o discurso jurídico realiza uma nova segmentação do continuum de sentido que a língua natural, a seu modo, segmentara. É bem verdade que, de um ponto de vista ontológico, o discurso jurídico depende da língua natural como sistema de significação primordial, mas isso não diferente de reconhecer-se que uma função semiótica conotante depende da existência prévia da função semiótica conotada. Do mesmo modo, a existência do complexo parece hipotecada à existência do simples, mais um motivo a corroborar a proficuidade de um método como o de Hjelmslev, alicerçado sobre a tradição do método dedutivo iniciada por Descartes.

Como exemplo desse processo de reorganização semântica que o discurso jurídico realiza sobre a estrutura semântica da língua natural, pode-se tomar uma unidade de expressão como “obrigação” que, na língua natural, é correlacionada a certa porção de sentido individualizada na estrutura semântica pela segmentação dada pela projeção de valor linguístico (forma pura): no discurso jurídico, ela será correlacionada a uma unidade de conteúdo diferente daquela existente no plano do conteúdo da língua natural, diferente tanto devido à porção de sentido que engloba ou quanto à posição que essa unidade ocupa relacional e oposicionalmente na estrutura semântica. Assim, o que se considera como “obrigação” no discurso do direito apresenta uma série de determinações que inexistem no conceito de “obrigação” existente na língua natural.

Com isso não se nega que haja, partindo desse mesmo exemplo, diferenças passíveis de serem captadas no nível sintático-narrativo, que Landowski chamou de “nível profundo”. Por exemplo, lançando mão de um modelo sintático-actancial, exsurgem algumas, mas não todas, as distinções entre os dois conceitos de “obrigação”: uma obrigação tem um elemento

subjetivo, correspondente ao credor (sujeito ativo) e ao devedor (sujeito passivo), um elemento objetivo, consiste na prestação a ser cumprida, e um vínculo, que e sujeita o devedor ao credor até ser extinto por meio da prestação e dá ao credor a possibilidade de exigir do devedor, valendo-se inclusive da jurisdição, a realização da prestação. Utilizando-se o modelo sintático-actancial proposto por Landowski, a concentração de atuantes em um único ator, como ocorre no autocompromisso, fica excluída do campo do discurso jurídico, mas isso não é suficiente para distinguir a obrigação jurídica da obrigação natural ou moral: o que possibilita tal distinção é o atuante que corresponde à função jurisdicional, que implica na possibilidade de exigibilidade característica da obrigação jurídica, atuante de que a obrigação natural ou moral não dispõe. Todavia, a esta altura da discussão já está mais do que claro que o discurso jurídico dispõe de uma estrutura sintático-narrativa própria. O que mais importa notar doravante é que essa estrutura sintática e expressiva veicula unidades do plano do conteúdo que são diversas daquelas unidades do plano do conteúdo da língua natural. Assim, embora uma obrigação jurídica, como unidade de expressão, exista em uma estrutura sintático-narrativa própria do discurso jurídico, está ela também correlacionada, na função semiótica, a uma unidade de conteúdo que existe em uma estrutura semântica que também é própria do direito. Nessa estrutura semântica, a obrigação jurídica limita outros conceitos próprios do discurso jurídico e é por eles limitada. Ademais, apresenta determinantes como seus requisitos de validade – licitude, possibilidade jurídica, determinabilidade, patrimonialidade e valor econômico –, que nela convergem como verdadeiros semas ou traços distintivos. Com isso se quer dizer que a descrição semântica do discurso do direito não nega sua descrição sintática, mas a leva, como de pretende demonstrar, a novo patamar.

Conforme dito, assim como a realidade física (nível dos entes e dos fatos) passa a ter existência linguística ao ser organizada por uma forma em um dos planos da linguagem, os fatos e entes, bem como as unidades de expressão e de conteúdo da língua natural apenas ganham existência jurídica quando organizados por uma forma propriamente jurídica, que dá origem aos dois planos correlatos que compõem o discurso do direito. Assim, um ato, como fazer semiótico e elemento sintático-narrativo caracterizado por provocar a mudança de estados, apenas é ato jurídico ao ser organizado como unidade oposicional no plano da expressão próprio do discurso jurídico; um conceito apenas é conceito juridicamente existente e relevante ao integrar a estrutura semântica própria do discurso jurídico, em que se opõe a outros conceitos. Desse modo há de se compreender a relação entre o discurso jurídico, a língua natural e a realidade física.

2.3.2 Análise da classe e coleta dos componentes: discurso jurídico, discurso do direito e