Uma vez que Jaqueline Authier-Revuz desenvolveu trabalhos no que concerne
às marcas que denotam em nosso discurso, o discurso do outro, a heterogeneidade
constitutiva da linguagem, em que a nossa fala é sempre atravessada pelo(s) discurso(s)
do(s) outro(s), trouxemos algumas considerações feitas pela citada autora.
Ao discursar sobre as fronteiras da modalização autonímica, Authier-Revuz
(1998, p. 18) declara que há fenômenos “vizinhos” que circunscrevem o campo dessa
modalidade de representação reflexiva, opacificante do dizer e nos apresenta um sub-
conjunto dessas propriedades:
- modalizações mas sem representação explícita do dizer, que se opõem à M. A. [modalização autonímica] de forma discreta, e que apresentam diversas possibilidades de combinação com ela: por exemplo, quase X, uma
espécie de X, verdadeiro X... vs. digamos X, X se pode dizer, X propriamente dito;
- o discurso relatado indireto (D.I.), que representa um dizer outro de forma não-opacificante, mas que apresenta uma relação de afinidade – no plano da co-ocorrência e da interpretação – com algumas formas de M.A., na configuração de “D.I. com ilha textual”: l disse que... “X”...;
- um conjunto de formas analisado como modalização transparente do dizer
em discurso segundo, tais como: segundo l, para l, l dixit... por oposição às
M.A.: segundo as palavras de l, para retomar os termos de l, mas que apresentam, em alguns tipos de incisas como: diz l, l diz (cujo tratamento em alguns autores é discutido), [...].
- a questão da fronteira, às vezes delimitada, às vezes apagando-se em um
continuum, entre opacificação e transparência, nas formas de auto- representação do dizer; ela é colocada sucessivamente a propósito: das
formas em que (eu devo dizer, eu ouso dizer que...), em (le)o (eu ouso dizê-
lo, pode-se dizê-lo...), sem complemento (eu devo dizer, é preciso dizer...),
[...].
A partir de mais de quatro mil exemplos atestados, escritos e orais, pertencentes
aos mais diversos “registros”, Authier-Revuz (1998, p. 19) descreve os diversos tipos
formais pelos quais a configuração que sobrepõe dois planos – X e uma representação
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O processo de enunciação ainda é aqui identificado pela atitude do sujeito falante diante do objeto do discurso. Por um lado a transparência total verá o apagamento completo do sujeito da enunciação.
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do dizer de X – que, segundo ela, realiza-se sobre o fio do discurso. Authier-Revuz os
reparte em seis tipos, alinhando-os em uma escala que vai dos mais aos menos
explícitos:
[...] 1) formas explicitamente meta-enunciativas “completas”, comportando um eu digo X’ (ex.: X, eu emprego esta palavra se bem que; ela faz eu diria X’; o que eu chamo X’); 2) formas explicitamente metaenunciativas que
implicam um eu digo X’, subordinadas e sintagmas circunstanciais, aposições
(ex.: X, se eu posso dizer, como se diz, por assim dizer, no sentido p, sem
jogo de palavra...; X, palavra, expressão que...); 3) formas explicitamente
metalinguísticas, com um autônimo X’ ou Y’ (ex.: X, a palavra X’ é
inconveniente; o Paulo diz X’...; o que Paulo chama X’; X, Paulo diz Y’...); 4)
formas sem elemento autônimo, ou sem elemento metalinguístico unívoco (ex.: X, quer dizer Y; X ou Y; X, enfim, Y; X que; X, etc...); sinais tipográficos (aspas, itálico) e de entonação, com um estudo crítico dos trabalhos consagrados às aspas, levando a caracterizá-las como “arquiformas” da M.A.; 6) formas puramente interpretativas (alusões, discurso indireto livre, jogo de palavras não marcado) que abrem para “a heterogeneidade constitutiva” [...].
Sobre as representações das não-coincidências do dizer, Authier-Revuz
classifica como: a não coincidência-interlocutiva; a não-coincidência do discurso
consigo mesmo, a não-coincidência entre as palavras e as coisas e a não-coincidência
das palavras consigo mesmas.
De acordo com Authier-Revuz (1998, p. 22), a não coincidência-interlocutiva é
colocada, com apoio em uma concepção pós-freudiana do sujeito,
não-coincidente consigo mesmo pelo fato do inconsciente, como fundamental e irredutível entre dois sujeitos “não-simetrizáveis”, remetendo a um artifício – tão sofisticados quanto sejam as suas teorizações –, a “comunicação” concebida como produção de “um” entre os enunciadores.
A não-coincidência do discurso consigo mesmo é colocada como constitutiva,
em referência ao dialogismo bakhtiniano – considerando que é toda palavra que, por se
produzir no “meio” do já-dito dos outros discursos, é habitada pelo discurso outro – e à
teorização do interdiscurso, em análise do discurso, que remete o “eu falo” aqui e agora
ao “algo fala em outro lugar, antes e independentemente”, como dizia Pêcheux.
Assinalando entre suas palavras a presença estranha de palavras marcadas como pertencendo a um outro discurso, um discurso esboça em si o traçado – assinalando uma “interdiscursividade representada” – de uma fronteira interior/exterior. Um certo número de oposições é destacado no conjunto dessas formas, permitindo especificar tipos de fronteira entre si e o outro, pelas quais um discurso produz em si mesmo, por diferença, uma imagem de si: assim, entre outros, (1) balizagem ou incerteza do traçado (desde o elemento “citado” com todas as precisões, até a retomada não marcada); (2) exterior “apropriado” ao objeto do dizer (isto é, em que uma palavra “não de si” se impõe como palavra “disto do qual se fala”; por exemplo: palavra de um outro lugar, de uma outra época, de uma outra teoria, de uma outra pessoa, da qual se fala, e que se impõe apropriada a esse objeto) [...]. (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 23).
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Esse estudo está voltado não apenas para as marcas que aparecem no texto, mas
também para a pessoa que profere o enunciado, o enunciador, no sentido em que este
comenta ao mesmo tempo em que enuncia.
Por oposição ao modo de dizer “simples” – “padrão” – de um elemento X, esta modalidade enunciativa de desdobramento do dizer de X pela representação desse dizer sinaliza – através da suspensão “da evidência” do uso de X – a descoberta em X, por parte do enunciador, de “alguma coisa” que não passa despercebida e à qual seu comentário responde. Na topografia de problemas enunciativos apresentados explicitamente por esses comentários do enunciador – a saber: distanciamento em relação ao interlocutor que não forma “um” com ele (X, se você concorda...), inapropriação em seu discurso de palavras vindas de um outro discurso (X,
como diz...), falha entre a palavra e a coisa (X, a palavra não é apropriada...)
– aparece o problema do sentido “que não é óbvio” para um elemento X do dizer, mostrado através de glosas que desdobram o dizer desse elemento pela explicitação aqui e agora do seu sentido. (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 29).
Acreditamos que esses tipos de ocorrência, aparecem com muito mais frequência
em textos orais do que escritos, pois o escritor tem tempo suficiente para repensar e
escrever o que acha mais correto, diferentemente da linguagem oral em que depois de
dito, só resta ao locutor retificar ou frisar o que disse. Assim, o escritor de textos recorre
a esse tipo de “marcas”, de desdobramentos do dizer quando tem a intenção de deixar
marcado esse desdobramento. Vejamos o que diz Authier-Revuz (1998, p. 53):
Nesse retorno do dizer sobre si próprio em um ponto X, por aí mesmo colocado em questão, inscreve-se, respondendo muito particularmente a esta distinção obrigatória entre as duas ordens heterogêneas que a nomeação superpõe – aquela, vinda do geral, do finito, do discreto dos signos, e aquela do singular, do infinito, do contínuo das coisas –, no que chamamos “a falta de captura do objeto pela letra”, um grande conjunto de figuras da falta do
dizer: falta tomada como uma imperfeição, uma anomalia que apresenta a
palavra X – imprópria, imprecisa, excessiva”... – ou o modo de dizer – “aproximativo, provisório, grosso modo, rápido, ao acaso”... –, falta tomada como uma ausência, como o que “faz falta” ao dizer, “a” palavra justa, da plena adequação, que é evocada como faltando ao dizer – [...].
Este fragmento também nos leva a concluir que são situações diferentes de
alguns gêneros, como por exemplo, o literário. Quem faz literatura, frequentemente,
sabe o que escrever. É um momento de produção que demanda do autor/escritor
dominar as palavras, procurar expressões adequadas; por essa razão, é difícil encontrar
em alguns gêneros literários esse tipo de escrita.
Uma constatação se impõe que, por mais evidente que ela seja, nunca foi formulada: os fatos da enunciação se põem em termos diferentes, de acordo com o que eles manifestam no discurso oral ou no texto escrito – e a maior razão na categoria particular do texto concebido como literário. A situação de
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as restrições da comunicação, ao mesmo tempo em que ela lhe atribui alguns traços específicos. (LECOINTRE, LE GALLIOT, 1973, p. 64).81Esta citação de Lecointre e Le Galliot confirma a nossa opinião, de que,
dependendo do gênero, se o discurso se apresenta escrito ou oralmente, a enunciação
pode se apresentar de modo diferente.
Para Authier-Revuz (1998, p. 107), a divulgação científica (doravante D.C.) é
classicamente considerada como uma atividade de disseminação, em direção ao
exterior, de conhecimentos científicos já produzidos e em circulação no interior de uma
comunidade mais restrita.
O fato de que a prática específica da atividade científica não seja posta como questão nos textos concernentes à atividade da D.C. faz com que o fosso a transpor ou a barreira a transgredir sejam sempre reduzidos a uma questão de
comunicação: a “língua” dos cientistas torna-se, fora dos muros da comunidade, uma língua estrangeira: uma ruptura se produz na intercompreensão. Nos numerosos textos da reflexão da D.C., sobre ela mesma, a missão de “fazer penetrar no grande público os novos conhecimentos” consiste em “colocar sob forma acessível ao público o resultado das pesquisas científicas”: a “demanda” social de “divisão do saber” transformada no restabelecimento da comunicação convoca, pois, uma
mediação no nível do discurso.
[...] a D.C. dá-se, então, imediatamente, como uma prática de reformulação de um discurso fonte (doravante D1) em um discurso segundo (doravante D2). (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 108).