4. BÖLÜM: TÜKETİCİ İLGİLENİMİ
4.3. İlgilenimin Sınıflandırılması (Türleri)
A partir de 1953, Cinelândia organiza um concurso chamado Miss Cinelândia, destinado a encontrar uma atriz para um filme da Atlântida. Auxiliaram no certame o jornal O Globo e a Rádio Globo. A Atlântida participou diretamente do júri do concurso em 1954, representada por Carlos Manga108, Cyll Farney, e seu principal acionista, Luis Severiano Ribeiro. O jurado era composto ainda do crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva, da repórter da mesma revista Zenaide Andrea, e do cineasta Humberto Mauro.
Cinelândia não admite ganhar popularidade com a empreitada. Declara diversas vezes que criou o concurso para dar uma oportunidade às moças sem experiência de entrar para o cinema 109. A publicação se prontificava a procurar estúdios interessados em destinar uma vaga à ganhadora. Depois cita a participação da Atlântida. Para atrair as leitoras, declara que os estúdios já consultam o catálogo da revista, frisando com freqüência a contratação antecipada de algumas inscritas. Pede fotos bem tiradas das candidatas, para comprovar beleza. Não está em jogo o talento artístico, mas a fotogenia. O concurso teve duzentas inscritas, segundo o último dado publicado no seu primeiro ano 110.
107Herbert Wilcox e Anna Neagle produzirão filmes na Inglaterra para serem distribuídos pela Republic. Cena Muda, v. 33, n. 24, p. 16, 12/06/1953.
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Um dos testes era um skech com Cyll Farney, avaliado por Jorge Ileli. Carlos Manga teria oferecido oportunidade de trabalho em seu próximo filme a nove finalistas. Eleição de miss Cinelândia. Cinelândia, v. 4, n. 52, p. 20-1; 58, 1ª quinz. jan. 1955.
109Cinelândia, v. 2, n. 18, p. 3, 1º quinz. agosto 1953. 110
A competição começava em maio e terminava apenas em janeiro do ano seguinte, incluindo divulgação das novidades com destaque a cada edição. No primeiro ano, a ganhadora, Inalda de Carvalho, adquire enorme publicidade nas páginas da revista em 1954 e nos anos consecutivos. Em toda edição, se planta matéria sobre ela, nem que seja para algum ator famoso ficar encantado com sua beleza. A cobertura exagerada de Cinelândia à novata conseguiu agendar seu nome em outros veículos. O nome de Inalda chega até ao Boletim do Festival Internacional de Cinema do Brasil, anunciando com direito a fotografia, a participação diária de Miss Cinelândia em todas as seções do evento de São Paulo 111. A revista Manchete apresenta Inalda na capa112 quando ela ganhou o concurso, enquanto O Cruzeiro citou também sua presença na 2ª Semana do Cinema Brasileiro113.
Inalda fez A outra face do homem (1954), de J. B. Tanko. Além deste filme, Carlos Manga utilizou a primeira recém-eleita Miss Cinelândia, para a mocinha do filme Matar ou correr (1954) porque a estrela Eliana Macedo estava em viagem 114. Segundo matéria de Cinelândia, O Globo e a Rádio Globo divulgaram o concurso todos os dias.
Apesar de citar Inalda como grande estrela, ou futura grande estrela, uma vez Cinelândia não escondeu nas entrelinhas o baixo preparo da novata. Apontando a seriedade de intenções de seu trabalho, admite que ao lado do brilho de sua vocação, aparece também “a sua natural falta de experiência, também” 115. Já Cena Muda, como concorrente, não perde tempo. Em sua coluna de crítica, afirma que Inalda é a “criatura mais estática que se pode desejar ver no cinema” 116, sugerindo que o diretor Carlos Manga, de Matar ou correr, precisa adquirir maior autoridade sobre o elenco, porque muitas primeiras figuras agem em todos os instantes do filme da mesma forma. No final, simplifica: “(Inalda) irrita de tão indiferente!”.
111 Boletim número seis, de 17/02/1954. 112
Manchete, n. 90, p. 1, 09/01/1954.
1132ª semana do Cinema Brasileiro. O Cruzeiro, v. XXVI, n. 41, p. 100-5, 24/07/54.
114 Inalda de Carvalho afirma no documentário Assim era a Atlântida (1975), de Carlos Manga, que trabalhar na Atlântida era seu sonho, assim como o de Terezinha Morango, Adalgisa Colombo, Miriam Persa e Norma Bengell, como se todas elas tivessem começado no concurso Cinelândia. Mas Norma Bengell já tinha uma carreira como vedete. Bengell concorreu em 1954, mas perdeu para Avany Maura, sendo escalada por um integrante do júri, Carlos Manga, anos depois para participar do filme O homem do Sputnik (1961). Segundo Sérgio Augusto, Inalda de Carvalho aparece com destaque no documentário por ser esposa de Manga, apesar de ter feito apenas quatro filmes na Atlântida, em oposição a Wilson Gray que não foi convidado para participar do documentário, apesar de ter trabalhado em oito fitas da companhia carioca. (Augusto, 1989)
115Nova estrela do cinema brasileiro. Cinelândia, v. 3, n. 42, p. 34-5; 61, 1ª quinz. agosto 1954. 116
Não só a ganhadora de 1953 aparece bastante, como as semifinalistas Julie Bardot (parafraseando Brigitte Bardot) e Ana Beatriz também. As duas saíram antes do final do certame porque já tinham conseguido um contrato para estrear um filme 117. As duas também aparecem em quase todas as edições de Cinelândia durante os demais anos analisados. Porém, o quadro muda no ano seguinte. A ganhadora de 1954, Avany Maura, aparece apenas na edição de janeiro de 1955. Permanece até maio sem aparecer nas edições118. Contudo, o concurso não foi garantia de uma longa carreira no cinema para as finalistas. Avany Maura participou apenas de dois filmes, assim como Julie Bardot. Ana Beatriz teve carreira mais longa, fez cinco filmes 119.
No período analisado, Cena Muda não promoveu concurso, mas pensou em fazê-lo para dar espaço aos novatos entrarem para o cinema nacional. Porém na seção de cartas, justifica a ausência da competição a uma leitora porque as companhias não gostam de encontrar alguém com a ajuda de terceiros 120. Mesmo assim, Cena passa a publicar a seção Um lugar ao sol com duas ou três fotos de leitores interessados na carreira cinematográfica.
Tentando se conectar ao universo dos leitores, Cena Muda declara receber muitas cartas questionando como entrar para o ramo. O conselho dado é esperar uma chance. Todavia, sem dar muitas esperanças, explica: “esse esperar uma ‘oportunidade’ é muito vago, não decide nem contribui em favor do candidato. Os concursos para revelar ‘astros’ e ‘estrelas’, por sua vez, são viciados”. Como se indiretamente criticasse o concurso da Cinelândia e os estúdios, escreve: “escondem protecionismos, simpatia pessoal e apadrinhamentos.” Lança Cena uma pergunta aos produtores de cinema: “vamos abrir as portas dos estúdios a gente nova?” Questiona se nesse momento um leitor com o tipo de uma estrela (cita algumas), “um possível Oscarito não estaria lendo a revista”. Otimista, declara inocentemente: no futuro não será mais problema encontrar a estrela para um filme, será só escolher entre vários excelentes atores.
117 Ana Beatriz fez Toda uma vida em quinze minutos (1954), de Vanoly Pereira Dias. Julie Bardot foi trabalhar no estúdio dos Latini. Regina Moreira foi contratada pela Multifilmes.
118A nova Miss Cinelândia não aparecia em todas as fotos da revista tão bela quanto a primeira. Talvez este pudesse ser um critério para a primeira eleita ser mais presente na revista.
119Avany Maura participou de dois filmes, ambos de Carlos Manga: Vamos com calma (1955) e Colégio de Brotos (1956). Julie Bardot participou de Matar ou correr (1954), de Carlos Manga e Malandros em quarta dimensão (1954), de Luiz de Barros. Ana Beatriz fez Toda vida em quinze minutos (1954), de Vanoly Pereira Dias. Ela já tinha participado do filme Quando a noite acaba (1950), de Fernando de Barros, antes do concurso Miss Cinelândia. Depois fez ainda: Tira a mão daí (1955), de Ruy Costa, sobre moças que desejam se tornar Miss em algum concurso e O primo do Cangaceiro (1955), de Mário Brasini. Participou também do filme Rio quarenta graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos.
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As duas concorrentes tiveram seus donos aliados três décadas antes num concurso semelhante. Em 1923, o jornal de Irineu Marinho, A Noite, se aliou à Revista da Semana, do mesmo grupo editorial de Cena Muda, lançando um concurso popular para encontrar a mulher mais linda do Brasil. O longo processo de competição já nascia ali. Depois de 24 meses, com mais de trezentas finalistas, Zezé Leone foi eleita, tornando-se logo depois atriz de cinema. Tais certames já eram muito comuns nos Estados Unidos 121, mas a idéia do sucesso deste concurso antigo pode ter motivado Roberto Marinho a lançar Miss Cinelândia décadas depois. (Morais, 1994)
A melhor parte de Miss Cinelândia é quando o jogo por detrás dele é aberto ao leitor, trazendo as estratégias da publicidade. Numa entrevista, Inalda revela um pouco da dinâmica destas novatas122. Ela se apresentou a Leon Eliachar, antes diretor de Cena Muda, para arranjar trabalho, por suas relações com o meio cinematográfico. Eliachar a apresentou a Moacyr Fenelon e a Salomão Scliar. Ambos lhe prometeram trabalho. Scliar a levou ao coquetel de comemoração de um ano de Cinelândia. Foi ele quem sugeriu o concurso “por motivo de publicidade”. Assim que Moacyr Fenelon começasse seu filme, Inalda se retiraria da competição, como se tivesse sido descoberta via Cinelândia. Porém, Fenelon morreu neste meio tempo. Por isso, Inalda ficou até o final. A fala dela de como seu sonho de “ser Cinderela” se “cumpriu” fecha o desejo projetivo das leitoras. O desejo de parecer influir no campo cinematográfico não se manifesta somente na criação destes concursos às novatas. Ambas revistas realizam a propaganda direta da nossa cinematografia nos artigos, como se o sucesso do cinema nacional estivesse atrelado ao auxílio destas publicações.
121 Paulo Emilio Salles Gomes (1974) mostra que nos últimos anos da Republica Velha os concursos de beleza se tornaram um dos temas básicos de nossa propaganda no exterior.
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