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A. A İLE H AYATININ Ö ZEL H AYAT K ARŞISINDA K ONUMU

2. Aile Hayatının Özel Görünüm Halleri

Numa sociedade na qual o poder oficial era tão distante no espaço e tempo, a figura do fazendeiro, no sertão, e do senhor de engenho, no litoral, pairam como um indiscutível poder local, a partir do qual girava a estrutura social. Estas pessoas eram as referências de ordem e poder, notadamente nas localidades mais distantes do litoral. Ao contrário do fazendeiro, o senhor de engenho é menos frequente no RN, vez que os engenhos de cana são relativamente poucos, comparados aos de outras províncias, ainda que aumentem ao longo do século XIX. É graças a estas famílias, detentoras de poder na província do RN, que surge uma classe social diferenciada, a “aristocracia da terra”, descendentes dos primeiros colonos e, embora se concentrassem no interior, tinham acesso ao que acontecia na Europa, de lá trazendo

produtos e conhecimentos (uma vez que era para lá que seus filhos iam estudar7). A

respeito desta aristocracia da terra, alguns autores, como Aécio Villar de Aquino, Luís da Câmara Cascudo e João Alves de Melo chegam a compará-la a uma “estrutura feudal”, autossuficiente. Vale ressaltar que, embora tratemos aqui das diferenças entre o meio rural e a cidade, esta diferenciação é muito mais nominal do que real: o modo de urbano pouco diferenciava do rural. Nesta realidade, os grandes proprietários eram verdadeiros nômades, possuindo propriedades rurais e urbanas, sempre viajando conforme demandado. Ao redor destes grandes proprietários e suas fazendas, se desenvolveram vários aglomerados urbanos, que aos poucos se consolidam e se desenvolvem, resultando no crescimento populacional do RN. Vejamos um gráfico que procura ilustrar como este crescimento populacional acontece na província:

FIGURA 03 – População do RN de 1805 a 1844

Fonte: autoria própria; dados populacionais de 1819 (MEDEIROS, 1973, p. 77); demais

anos (CASCUDO, 1984, p. 50).

Antes de analisá-lo, é importante levantar algumas ressalvas: dadas as dificuldades da época, o levantamento da população no RN apresenta muitas falhas. Contudo, ainda assim, os dados nos permitem tecer algumas reflexões: Destacamos que a curva de crescimento é sempre positiva, os núcleos urbanos não só se estabelecem como se multiplicam. Vez que os contingentes populacionais de

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Neste primeiro recorte este “estudo fora” fica subentendido pela péssima qualidade do ensino público oferecido nas precárias escolas potiguares (de onde se infere que o estudo de qualidade é obtido fora do Rio Grande do Norte); mas em 1867, o Presidente de Província Luiz Barboza da Silva, explicita de forma contundente: “A instrucção secudaria assim montada está bem longe de satisfazer as necessidades da província, cujos habitantes, à excepção, de um ou outro, que, dispondo de recursos, pode ir cultivar seu espírito em outra província, pela maior parte jazem em completa ignorância das humanidades”. (SILVA, 1867).

indígenas e escravos negros têm reflexos diretos na economia, consideramos válido também, analisar os percentuais destas etnias, na composição geral da população da província. A seguir, apresentamos os dois gráficos que ilustram a contribuição das

duas etnias:

Enquanto a

população geral potiguar cresce consideravelmente ao longo deste primeiro período, (aumento de 202,68%), a população indígena não acompanha este crescimento: pouco expressivo entre os anos de 1805 a 1835 (36,70%) e no censo seguinte, sofre uma redução, até “desaparecer” das fontes primárias investigadas. Esta situação de

diminuição das

populações indígenas, também foi pontuada em um dos Relatórios, de

1839, no qual

Mascarenhas retrata que:

O numero destes indolentes habitadores do Brasil vai progressivamente diminuindo nesta Provincia, e hoje apenas existe nos Municipios de Estremôs, S. José, Villa Flor, e Goianinha. Das informações dos respectivos Juizes de Orfãos [...] consta que em Estremôs o numero dos Indios chegará a 700 [...] Os de S. José não excedem de 500 [...]. Em Villa Flor existem 140 fogos de Indios [...]. O numero dos de Goianninha não excede de 400 [...]. Fôra minha opinião que se tirasse aos Juizes de Orfãos, e se transferisse para as

FIGURA 04 - Crescimento Populacional Potiguar

Total x Indígena

Fonte: autoria própria; dados populacionais extraídos de Cascudo,

1984, p. 43 e 44.

FIGURA 05 - Crescimento Populacional Potiguar

Total x Escravos

Fonte: autoria própria; dados populacionais de 1819, 1835 e 1844

Camaras Municipaes a administração dos bens dos Indios [...]. (MASCARENHAS, 1840, p. 9).

O número de pessoas morando nas vilas de índios (FIGURA 06 – Mapa com localização das vilas de índios do RN) havia-se reduzido tanto que o presidente Assis Mascarenhas, chega a propor que a administração dos bens indígenas se tornasse atribuição das Câmaras Municipais, reformulando a função os Juízes de Órfãos. Este dado, precisa ser analisado considerando um contexto mais amplo: a “redução” da população indígena implicava em redução de suas terras, que ficavam assim, à disposição dos colonos brancos. Em outras palavras, em “não existindo indígenas”, não precisariam existir terras destinadas ao uso destes, como melhor explicam Monteiro (2007, p. 109) e Teixeira (2009a, p. 472).

FIGURA 06 – Mapa com localização de vilas de índios do RN

(1822 a 1845)*

Fonte: autoria própria; baseada em TEIXEIRA, 2009a, p. 120.

* Base em cartografia atual do estado do RN LEGENDA:

Analisemos agora o gráfico do crescimento da população escrava negra. Da mesma forma que o gráfico do crescimento da população geral do RN, a população negra vem sofrendo um crescimento constante, mais lento entre 1805 a 1835, (26,86%), e em 1844, mais que duplica em relação ao censo de 1835 (acréscimo de 2.168 pessoas, ou 129,10%). Considerando que a mão de obra escrava negra ligava- se diretamente com produção agrícola, percebemos que entre 1835 e 1844, o RN teve

um aumento significativo. A população negra, como a indígena, passou por um processo de miscigenação, contribuindo para a formação geral da população potiguar. Muitos destes escravos acabavam obtendo sua liberdade, configurando os agregados das fazendas; de acordo com Cascudo (1984, p. 117) “a fazenda era um mundo que se bastava, com seus artesãos, famulagem8, teares para tecer, fabricação de pólvora,

telhas, caieiras para o cal”, e cada uma destas atividades, pressupunha trabalhadores com conhecimentos específicos. Contudo, a falta de mão de obra para o trabalho na agropecuária acompanhou a realidade do RN em todo o século XIX; como a região não se enquadrava nos grandes centros produtores, os grandes contingentes de escravos africanos não aportavam no RN. Observa-se que a contribuição negra para o aumento da população é limitada, comparada a outras províncias, como ilustra Tarcísio Medeiros:

[...] se verifica que a percentagem negra atingira ao máximo no Maranhão, com 66,6% da população, composta por escravos das fazendas de algodão; a 42,5% em Goiás, na mineração aurífera; a 38,6% em Mato Grosso; a 39,39% em Alagoas. Os mínimos achavam-se do RIO GRANDE DO NORTE, 12,8%, no Paraná, 17,2% e na Paraíba, 17,4%. (MEDEIROS, 1973, p. 77).

Uma informação acerca da população potiguar, em 1835, nos permite compreender mais acerca desta contribuição da população negra e indígena, ilustrada no gráfico a seguir:

FIGURA 07 - População do RN em 1835

Fonte: autoria própria; dados populacionais de 1835 em Cascudo, 1984, p. 46.

Embora a população escrava fosse reduzida (10.240 pessoas), seus descendentes pardos e negros libertos, em 1835, somavam 52.596 pessoas, ao passo que a população branca era somente de 35.335. Unidos, a população de negros

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descentes, constituíam 60% da população potiguar: maioria populacional constituída por negros escravos e seus descendentes, pessoas oriundas de uma situação de violência e maus tratos, sem escolaridade, sem a formação moral ou religiosa católica9 (proveniente dos homens brancos), fundamentalmente pobres, fragilizados, desprovidos de tudo o que, no entendimento das elites, seria adequado para a construção de uma sociedade “cristã”, dentro de um mundo “civilizado”. Nos Relatórios, não encontramos diretamente informações relativas à sociedade e população do RN. A pouca importância destes temas nos possibilitam tecer algumas articulações sobre como a elite percebia a população potiguar. Se a maioria da população era formada de descendentes de negros e índios (pardos), e negros libertos, tratava-se de uma população muito distante do que a elite gostaria que fosse o alicerce de sua sociedade “civilizada”. Como escravos, esta massa de pessoas permitia o incremento econômico a partir de sua força produtiva. Libertos, tornavam-se “desgarrados”, não formalizavam empregos e viviam como nômades, desconectados com os interesses da província – e para piorar a apreensão das elites, encontrava-se em processo de crescimento. Sob este viés, o relacionamento desta população com itens como “segurança pública” e “segurança individual”, como aparece nos Relatórios, que de início parece tangenciar uma análise populacional, nos parece agora absolutamente pertinente: uma população “não-adequada”, em considerável crescimento, sem controle, e sem que o poder oficial tivesse dela um mínimo de conhecimento, nem mesmo de sua quantidade e localização no território, era uma sinonímia de “medo”, de “insegurança”, daí sua aparição nos itens de segurança nos Relatórios. E mais, era esta a população, que compunha boa parte dos moradores dos núcleos urbanos potiguares: desprovidos de uma boa educação formal, pobres, sem recursos, sem técnica, sem a convicção de que uma ação pontual poderia prejudicar a toda a comunidade, eram estas as pessoas que aos poucos vinham construindo a cidade potiguar.

Neste período, é importante salientar que a segurança pública identificada nos Relatórios, é mais compreendida como a inexistência de movimentos separatistas ou revolta perante o Império. Em se tratando da “Segurança individual”, os problemas aconteciam, de acordo com a apreensão dos Presidentes, pela junção de legislação falha, corpo administrativo pouco atuante, aliados ao precário policiamento da

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É importante destacar que os escravos originários de países africanos tinham, evidentemente, a formação cultural, educacional e religiosa em conformidade com sua origem. Em contato com o Brasil, tinha início o processo de transformação cultural que os impactava, em maior ou menor grau, com as orientações da religião católica, modificando as crenças destas pessoas, tornando-as com o passar do tempo, mais “aceitáveis” do ponto de vista religioso – contudo, ainda distantes no quesito escolaridade, que será praticamente uma prerrogativa da elite. A cultura é um processo dinâmico e aberto em que hábitos e valores são sistematicamente resignificados.

província. Com a certeza da impunidade, a população contava apenas com a “boa índole” dos cidadãos, o que não era suficiente. Sobre os dados estatísticos, os documentos fazem alusão à falta de levantamento estatístico, que fornecesse à administração pública informações que auxiliassem na proposição de itens de intervenção. Um dos Relatórios traz uma informação relevante neste sentido; como, ressalta Bello:

Posto que se devesse isto atribuir á falta, aliás grave, da estatistica da Provincia, o que até hoje se não pôde ainda conseguir com a exactidão necessaria, tendo-se apenas podido obter incompletos arrolamentos; [...]. Isto posto, e attendendo mesmo ao principio consagrado na Lei Fundamental do Estado, de que o numero dos Represente antes do Paiz, de cada huma das Provincias, deve estar em perfeita harmonia não só com a importancia de sua população, [...] torna-se evidente, que dando essa Provincia apenas hum Deputado, e hum Senador, não está proporcionalmente representada. [...] mas apezar disto tem a Provincia continuado no mesmo estado. (BELLO, 1845).

Esta citação nos parece crucial porque toca num ponto recorrente, que é a falta de verba para a realização de itens de intervenção estruturantes. Fica claro na fala do Presidente que a desatualização de dados estatísticos sobre a população do RN, desprivilegia sua bancada junto ao governo central, e diretamente implicava no pouco poder de barganha desta na distribuição dos recursos imperiais. A falta de estatística é uma das falhas na atuação das Câmaras Municipais em enviar à capital, informações atualizadas sobre suas aglomerações urbanas. Embora a população estivesse em crescimento, não havia aumento na quantidade de representantes junto ao governo central, o que implicava em manutenção ou redução no repasse de verbas imperiais, o que tinha reflexos diretos na intervenção físico-espacial.