Enquando no período anterior, o RN fazia exportação, da maior parte de seus produtos agropecuários, apenas para as demais províncias brasileiras, entre 1846 e 1889, as exportações acontecem também para fora do Brasil, sobretudo para a Inglaterra. Como vimos no capítulo 3, as guerras americanas tiveram repercussão direta no Brasil, e, sobretudo no RN, pois a Inglaterra, sem seu principal fornecedor de matéria-prima para manutenção de sua indústria têxtil, encontrou no Brasil um substituto para os Estados Unidos – mesmo de que forma temporária. Veremos neste item, de que forma estas novas relações comerciais estrangeiras impactaram e modificaram a cidade potiguar. Monteiro (2007, p. 101), destaca no RN, entre as décadas de 1850 e 1860, o surto de desenvolvimento comercial, por um lado, de exportação de matéria prima e, por outro lado, a importação de produtos industrializados europeus. Enfatiza que neste período, muitas casas comerciais com matrizes europeias fundam filiais no RN, como foi o caso da “Casa Graff” de Johan Ulrich Graff (fundada em 1865, através de capital misto de suíços e ingleses), cujas
filiais se localizavam tanto no RN como no Ceará. De acordo com Santos (1994, p. 89), esta firma adquiria algodão, açúcar, pau-brasil, tatajuba e outros produtos. De início se instalaram em Natal, depois se trnsferiram para Mossoró, mantendo uma filial ca capital, e por fim, encerrou suas atividades em 1873.
Suassuna (1999, p. 60-61) complementa explicitando o surgimento de outra firma, em 1859, a de Fabrício Gomes Pedroza e família S/A, também conhecida como “Casa de Guarapes”, responsável pela exportação direta de açúcar e algodão para a Europa – mais adiante, esta firma fechou e foi sucedida pela Waryon Pedroza S/A (SANTOS, 1994, p. 89). Conforme elucida Medeiros (1973, p. 94), Fabrício Pedroza visualizou um local onde o escoamento de seus produtos aconteceria de forma mais ágil – no início da da construção da “Estrada Velha dos Guarapes” que, partindo do Alecrim (Natal), seguia rumo à Macaíba – com a construção do porto de Guarapes, num ponto mais estreito e profundo do Rio Potengi, que possibilitava trânsito de embarcações de até 500 toneladas. Esta iniciativa de Pedroza atraiu o surgimento de vários armazéns, e para exemplificar como este porto dinamizou a economia deste local, ao passo que foi reduzindo a da capital, Medeiros explica que somente no ano de 1869-70, vinte e duas embarcações partiram daí em direção à Inglaterra, enquanto de Natal, apenas 19. (Medeiros, 1973, p. 94). Em 1877, o Presidente Antonio dos Passos Miranda registrou em seu Relatório a autorização (através das leis provinciaes ns. 732 de 9 de Agosto de 1875 e 773 de 9 de Dezembro de 1876) para o contrato de estabelecimento de uma fábrica de tecidos de algodão no município desta capital, celebrado com o sr. Amaro Barreto, inserindo o RN não só na atividade de comércio de matéria-prima para exportação, mas também de produtos manufaturados. Algumas outras consequências diretas, do ponto de vista físico-espacial, da implementação destas firmas comerciais e fábricas, foram as várias obras de infra estrutura, em diversos pontos do RN, para dar suporte tanto às formas de transporte de mercadorias (melhorias em portos, aterros e pontes), como ao incremento das próprias unidades produtivas (construção de fontes de água e açudes e melhoramentos de rios, disponibilizando áreas agricultáveis e minimizando o impacto de chuvas intensas, como acontecia nos vales de Ceará Mirim e Capió), aspectos estes que serão retomados mais adiante nesse capítulo. Uma outra repercussão do comércio, e da expansão econômica das décadas de 1850 e 1860, foi o acentuado crescimento dos povoados existentes, que acabaram modificando seu status político, como aponta Monteiro:
Foi o que ocorreu com Mossoró e Papari, atual Nísia Floresta (elevados à vila em 1852), Ceará Mirim (1855), Pau dos Ferros (1856), Campo Grande, Canguaretama e Jardim, atual Jardim do
Seridó (1858), Caraúbas e Nova Cruz (1868), Serra Negra (1874), São Miguel e Trairi, atual Santa Cruz, (1876) e Macaíba (1877). (MONTEIRO, 2007, p. 103).
Mas as mudanças identificadas no Rio Grande do Norte no tocante ao comércio, todavia, não se limitaram às questões físico-espaciais. Este novo impulso comercial acarretou mudanças no uso da cidade potiguar, para além de proteger consumidores, estabelecer diretrizes para o bom funcionamento e ordenamento destes estabelecimentos. Neste sentido, identificamos no período de 1846 a 1889, uma profusão de artigos nas Posturas Municipais, de várias localidades, trazendo novas determinações sobre funcionamento de comércio, e de outros estabelecimentos que lhes dão suporte, como é o caso de mercados, açougues, matadouros, dentre outros. Com relação aos artigos contidos nas Posturas Municipais que tratam de “Comércio” identificamos propostas muito semelhantes às mencionadas no capítulo 2, ou seja, preocupação com os espaços de mercado público, feira, açougue e matadouro; solicitação de limpeza e conservação dos espaços e seus utensílios de trabalho; a normatização de instrumentos de pesos e medidas nos locais que trabalham com comercialização de gêneros (assim como as aferições recorrentes nos instrumentos); os cuidados com a putrefação ou falsificação dos gêneros alimentícios de primeira necessidade; as multas e penalizações respectivas pelo descumprimento das legislações.
No entanto, além destas colocações mais generalizadas, pudemos detectar um maior detalhamento dos artigos, especificidades antes não identificadas em Posturas Municipais produzidas entre os anos de 1822 e 1845. São elas, com relação aos produtos comercializados ou abatidos nos mercados, feiras, açougues e matadouros: impostos específicos para aguardente, bem como necessidade de licença prévia para comercialização dos pontos em que se vendiam aguardentes132; a
obrigação em mostrar documentação133 identificando quantidade e qualidade dos
animais comercializados134; normatização de um período de descanso para o abate do
gado135, caso este estivesse em jornada; multa para quem vender em particular
132 Assim como licores e bebidas espirituosas que estejam à venda (Nas Posturas Municipais Adicionais
de Goianinha de 2 de dezembro de 1852; nas Posturas Municipais de Caicó de 15 de outubro de 1864; nas Posturas Municipais de Macau de 11 de julho de 1873; e finalmente nas Posturas Municipais de Natal de 17 de março de 1884).
133 Assinada pelos fiscais ou autoridade responsável em sua falta.
134 Além disto, acrescidas de informações específicas como o dia da morte, ferro existente e situação de
saúde do animal.
gêneros que deveriam estar no mercado; e a proibição de venda de gêneros de primeira necessidade em atacado136.
É importante pontuar o problema das bebidas alcoólicas (como aguardentes e licores) que passaram a ser mais controladas, fiscalizadas e a estas incidindo impostos diferenciados (de onde se infere a preocupação com seu consumo excessivo), tanto na sua produção como na comercialização137. Também fica evidente
a preocupação com a maior qualidade dos gêneros alimentícios, em especial das carnes verdes e secas, que precisavam ser detalhadamente inspecionadas, assim como um maior cuidado no processo de abate138. Enfim a questão da venda em
atacado, que só deveria acontecer após um determinado prazo, para evitar que a população em geral não dispusesse de um mínimo de alimentos – impedindo a concentração de produtos com uma minoria139. Também identificamos maiores
definições acerca do horário de funcionamento dos mercados, definindo inclusive seu funcionamento em feriados e nos domingos140.
A preocupação em estabelecer horários de funcionamento (os quais incluíam inclusive os dias santos) nos indica o quanto a incorporação de relações tipicamente capitalistas de produção, comércio e serviços se impõe paulatinamente à cidade potiguar. Uma das consequencias disso reside na diminuição de determinadas práticas religiosas, como a diminuição da observância de não se trabalhar em dias santos, por exemplo. Teixeira, (2009a) explora pormenorizadamente tal fenômeno. Para evitar os excessos, as Câmaras Municipais acabam por determinar tais horários e fortalecê-los através de legislação, devidamente autuando os infratores. Na contramão desta busca pelo lucro, chamam a atenção os artigos 7º e 8º das Posturas Municipais de Príncipe (Caicó), de 15 de outubro de 1864, que cria uma feira, cujos produtos estavam isentos de impostos, conforme ilustramos a seguir:
136
O que só poderia acontecer depois de três dias exposto a venda (Posturas Municipais de Macau de 11 de julho de 1873).
137
Esta preocupação com o controle do consumo de bebida alcoólica, assim como no quesito de Segurança pública a proibição de uma série de jogos, nos permite vislumbrar o quanto o poder público local temia o descontrole social, sobretudo liderado pelos “vadios”, pessoas sem empregos e posses que “perambulavam” pelas províncias, e pelos interiores, e que podiam eventualmente ser incorporadas nos grupos de banditismo que atuavam ativamente neste período, sobretudo após a década de 1870, como exploramos no capítulo três.
138 Para não lançar toxinas que pudessem inviabilizar o produto para o consumo.
139 Acreditamos ser uma medida, até certo ponto, de racionalização, já como prevenção de períodos de
seca.
140 Como exemplos, temos o caso de Canguaretama, que em 1877, determinava o funcionamento dos
estabelecimentos comerciais até as 21 horas; Caicó, neste mesmo ano, assinalava o horário do mercados públicos entre as seis horas da manhã até as 18 horas; Ceará Mirim, em 1865 determina que as vendas de produtos em atacados só poderiam ocorrer a partir das 14 horas; e em 1884, limita o horário de funcionamento nos domingos e dias santificados (que deveriam fechar a partir das 15 até às 21 horas). A única exceção no tocante às restrições de horário de funcionamento ficava por conta dos estabelecimentos que vendem remédios e drogas (estes poderão abrir em qualquer horário, conforme a necessidade da população, sem recair em multas ou penalidades quaisquer).
Art. 7 fica criada uma feira na Povoação do Jardim de Piranhas para compra e venda dos gêneros alimentícios, e outros gêneros, sem que por isso paguem taxa alguma. Art 8 Esta feira terá lugar no dia de Domingo de cada semana, e se reunirá em um lugar designado pela Camara, ou por alguem de sua Comissão, tendo-se em vista o bem dos vendedores e consumidores, e finalmente os interesses públicos em geral. (POSTURAS Municipais de Príncipe, de 15 de outubro de 1864).
Foi a única situação encontrada nas Posturas Municipais estudadas neste período em que a Câmara Municipal se isenta de receber impostos em virtude de uma ação “popular”, que beneficia pessoas de baixa renda, uma situação realmente ímpar na realidade potiguar – mesmo considerando as restrições de localização e data mencionadas na legislação acima relatada. De fato, a maior diferença detectada no quesito Comércio, foi a abrangência deste item nas Posturas Municipais, antes restritas a poucas localidades, neste recorte de 1846 a 1889, em praticamente todas as cidades estudadas foram encontradas referências, assim como um maior detalhamento de certos itens, que resultou numa maior normatização do Comércio, reforçando a paulatina mudança de percepção dos Presidentes de Província sobre a importância do comérico para a província, com evidentes consequencias na cidade potiguar. Antes rural, a atividade econômica e comercial em particular, vai reforçar cada vez mais a passagem da província do rural ao urbano, ainda o mundo urbano espere atpe a segunda metade do século XX para se tornar efetivamente predominante no Rio Grande do Norte.